Edição 289 | 13 Abril 2009

Midiatização: a complexidade de um novo processo social

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Graziela Wolfart

Para o professor José Luiz Braga, são as demandas da sociedade que provocam os avanços tecnológicos e não o contrário

Para pensar sobre a influência da mídia na sociedade, em nossas vidas, e no processo de midiatização, um ponto é crucial: o elemento crítico. E esse é o foco que o professor José Luiz Braga, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, privilegiou na entrevista que concedeu pessoalmente para a IHU On-Line. Ao falar sobre o debate acerca da midiatização na pesquisa acadêmica, Braga identifica que, “de uma forma ou de outra, o tema da midiatização da sociedade aparece como preocupação em todos os programas de pós-graduação em comunicação, no sentido de contemplar o estudo da mídia no seu contexto, na sociedade, como elemento de transformação, como um desafio, um processo”. Para Braga, as transformações sociais em função da mídia não acontecem em decorrência das inovações técnicas, como se os avanços tecnológicos é que levassem a essa ou àquela mudança. Mas, explica ele, “o avanço tecnológico é socialmente determinado”. E continua: “Ao invés de pensar a transformação como uma incidência passiva da tecnologia na sociedade, percebo-a como a efervescência de invenções das pessoas no uso da tecnologia”.

Jose Luiz Warren Jardim Gomes Braga é doutor em Comunicação, pela Université de Paris II, Institut Français de Presse, e mestre em Educação, pela Florida State University. Foi pesquisador em TV Educativa no Instituto de Pesquisas Espaciais (Projeto Saci) e presidente da COMPÓS (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação) de 1993 a 1995. É autor de, entre outros, A sociedade enfrenta sua mídia - dispositivos sociais de crítica midiática (São Paulo: Paulus, 2006) e um dos organizadores de Midiatização e processos sociais na América Latina (São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Como a questão da midiatização aparece nas pesquisas universitárias?

José Luiz Braga – O estudo da mídia acabou se tornando um núcleo da discussão comunicacional. Há quem defina o campo comunicacional como a disciplina que estuda a mídia. Eu não defino dessa maneira. Acho, entretanto, que o que caracteriza o comunicacional é uma preocupação com os fenômenos da interação humana. De qualquer modo, percebo que, aí, a midiatização da sociedade é um elemento central. Independente da perspectiva com que se olhe a mídia – e há vários olhares, muito diferenciados -, esse é um objeto consensual. Embora tudo o mais se discuta, ninguém vai dizer que não interessa estudar a mídia. Na pesquisa universitária brasileira, nós já avançamos no sentido de não dar foco excessivo aos meios de comunicação. Hoje falamos da mídia em termos de processos. Não se trata de negar o “meio”, mas perceber que há processos mais difusos, a partir da mídia, que precisam ser observados. Então, a questão da midiatização aparece hoje fortemente. Precisamos desentranhar o que há de comunicação nos diversos campos do conhecimento; não separar em disciplinas, segundo a visão positivista, mas desentranhar. E a midiatização parece ser o lugar em que esse desentranhamento pode ser feito. De uma forma ou de outra, o tema da midiatização da sociedade aparece como preocupação em todos os programas de pós-graduação em comunicação, no sentido de contemplar o estudo da mídia no seu contexto, na sociedade, como elemento de transformação, como um desafio – um processo, justamente.    

IHU On-Line – Qual a origem do termo “midiatização” e há quanto tempo ele vem sendo usado?

José Luiz Braga – É difícil datar o surgimento do termo. Começa-se a falar na palavra “midiatização”, às vezes, significando simplesmente a forte presença da mídia na sociedade. O que antecede essa expressão é a palavra “midiatizada”, a partir da ideia de que vivemos em uma sociedade midiatizada ou midiática. Essa ideia parte de uma ação da mídia sobre a sociedade. O foco em midiatização como objeto central de estudo é bem recente, dos últimos dez, doze anos. A midiatização, ou processos midiáticos, que é como denominamos nossa área de concentração no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, abarca processos que acontecem mesmo quando não estamos diante da mídia. A midiatização não acontece só quando se está produzindo e se está recebendo informação. Um exemplo seria o seguinte: você sai do cinema e, quando encontra seus amigos e sua família e fala sobre o filme, continua no âmbito da midiatização. Da mesma maneira aconteceu com o livro. Nós vivemos ainda no mundo da escrita, independente de estarmos diretamente trabalhando com materiais escritos.  

IHU On-Line - O senhor pode explicar em que sentido vê a midiatização como um processo interacional de referência?

José Luiz Braga – É um desafio definir e pensar o que seria midiatização ou comunicação em uma perspectiva macro. Em uma perspectiva micro é relativamente simples. Temos processos sociais que já existiam sem a mídia e, portanto, as interações ocorriam fora de qualquer interferência midiática. Aos poucos, esses processos passam a ser midiatizados, perpassados pela mídia. Por exemplo, o carnaval no Rio de Janeiro. Ele se organiza como festa de rua. Num determinado momento, começa a ser mostrado. E, num outro momento ainda, ele se organiza em função da mídia. Os eventos passam a se organizar segundo o olhar midiático. Houve, então, uma midiatização. Do ponto de vista social geral, a partir daí percebo a midiatização como processo interacional de referência. Isso permite evitar a ideia de substituição. Sob um viés apocalíptico, ouvimos que a mídia está eliminando a escrita e que esta será substituída. Já a visão integrada ou deslumbrada pode dizer que a escrita “já era”, é linear, não tem profundidade, é cartesiana, racionalista, formal, fechada e que, felizmente, temos agora os grandes meios eletrônicos. As duas visões são simplistas. Os novos processos sociais caracterizam grandes mudanças, mas isso não significa que destroem ou salvam alguma coisa. Significa que trazem outros problemas e outra sistemática social. Os outros modos continuam a existir. Por exemplo, a escrita não eliminou a oralidade. Então, a midiatização como processo interacional de referência transforma os demais processos, mas mantém espaços de oralidade e de escrita. A escola é essencialmente uma instituição do livro. E, no entanto, ela é um espaço de oralidade, caracterizado pelo processo de referência, que é o livro. Quanto à midiatização, esta vai se tornando hoje o processo de referência para as interações – mas devemos assinalar que isso ainda está em curso, com lacunas e desafios.

IHU On-Line - Considerando o poder e a força de influência da midiatização, em que sentido ela provoca mudanças no âmbito da cultura e da política? Que mudanças poderiam ser citadas aqui a partir dos últimos avanços tecnológicos?

José Luiz Braga – Em relação aos avanços tecnológicos, eu gostaria de destacar uma questão lateral. Parto da perspectiva de que o processo não é mera da tecnologia, como se o avanço tecnológico é que determinasse essa ou aquela mudança. Creio que o avanço tecnológico é algo socialmente determinado. Não aparece uma tecnologia desenvolvida por um inventor que está fora do mundo, fora da sociedade. São as demandas da sociedade que provocam o avanço. Não é a mídia, a televisão, que cria uma sociedade nova. É uma sociedade caracterizada por diversos eventos que precisa de processos interacionais novos, porque os atuais não conseguem dar conta do que está em efervescência. Isso determina a criação tecnológica. É claro que a tecnologia, uma vez criada, começa a ser usada para outras coisas. Afinal, já que temos algo novo, o que podemos fazer com isso? Então, o primeiro aspecto é que a sociedade tem necessidade de viver da tecnologia. O segundo aspecto seria que é ainda a sociedade que pega uma tecnologia inventada e diz “vamos fazer isso ou vamos fazer aquilo”. São fenômenos que não estavam implicados no próprio gesto da invenção e, portanto, não estão implicados na tecnologia. É claro que há um terceiro aspecto: a tecnologia é autopoiética; começa a se gerar a si mesma. Começa-se a inventar tecnologia por tecnologia. E aí eu venho com as perspectivas interacionais. É a interacionalidade que inventa a tecnologia. A força do interacional é usar a mídia para fazer coisas que não eram possíveis fazer antes. Estamos em uma fase em que somos “aprendizes de feiticeiro”. A “feitiçaria”, que é a tecnologia, está inventada, e a sociedade aceleradamente inventa coisas. E não falo de descobrir, mas de inventar mesmo. A internet e os blogs são o exemplo mais óbvio disso. O jornalismo colaborativo é outro exemplo de uma invenção que a sociedade criou usando a tecnologia da internet como “matéria-prima”. Ao invés de pensar a transformação como uma incidência passiva da tecnologia na sociedade, percebo-a como a efervescência de invenções das pessoas pelo uso da tecnologia.

IHU On-Line – Atualmente, nós dispomos de dispositivos sociais que nos auxiliam na realização de uma crítica midiática?

José Luiz Braga – Sim, existem dispositivos sociais para uma crítica da mídia. Mas, no que se refere à mídia, nenhum chegou ao nível imponente dos dispositivos sociais do livro. Não existe nada comparável à escola com relação à mídia. E eu vejo a escola como o dispositivo social de interação referente ao livro. No entanto, há uma porção de dispositivos em relação à mídia também. Infelizmente, alguns já estão desaparecendo, como os cineclubes, onde o público se reunia para debater sobre os filmes assistidos no cinema. Outros dispositivos são, por exemplo, o ombudsman e as cartas do leitor, para que a crítica seja feita pela própria sociedade. 

IHU On-Line - O senhor vê a sociedade brasileira e latino-americana acionando críticas da sua mídia? De que formas essa crítica se manifesta?

José Luiz Braga – De forma muito incipiente e circunscrita. É apenas um grupo de pessoas e nem sempre são letrados. São indivíduos que, por alguma razão, demonstram um interesse que ultrapassa o que a mídia mostra. Num estudo que eu fiz sobre as cartas do leitor, percebi o quanto esse dispositivo de crítica é decepcionante, apesar das altas expectativas positivas que ele gerava em termos de crítica. As pessoas geralmente não conseguem perceber a mídia. Ela é transparente, as pessoas só veem os assuntos que estão sendo tratados. Mesmo assim, dá para selecionar alguns comentários que criticam a mídia e são tipicamente concretos, que é o que importa. Não são críticas genéricas à imprensa, mas algo bem pontual, do tipo “vocês foram tendenciosos na cobertura de tal fato”, ou “vocês não estão cumprindo o papel ético que deveriam cumprir”. 

IHU On-Line - Quais seriam os processos de aprendizagem adequados em uma sociedade de interação midiatizada? 

José Luiz Braga – Com a midiatização, além dos processos da escola, da escrita e da oralidade, surgem novos processos, com os quais nós temos que aprender a lidar. Não dá para definir a priori o que é adequado e o que não é, porque, junto com os meios, surge a preocupação educacional do uso que se fará deles e como se pode aprender com eles. Os considerados “pobres de escola” aprendem a usar os novos meios para superar as lacunas de aprendizagem deixadas pela escola. Aqui na América Latina, esse processo é muito mais interessante do que na Europa, que tem uma escola muito mais rigorosa. Então, definir o adequado é complicado quando não sabemos muito bem o que temos em mãos. É por isso que eu coloco a crítica como processo de aprendizagem. Se não posso definir de antemão em que a mídia é adequada, um espaço possível de aprendizagem é o acionamento, em situações concretas de dispositivos críticos. O papel da escola é estimular esses dispositivos, praxiologicamente fazendo sua crítica, para ver como eles podem ser menos simplórios e canhestros, estimulando o seu desenvolvimento. 

IHU On-Line - Que relações podem ser estabelecidas entre comunicação e educação quando o assunto é midiatização e a influência da mídia na vida das pessoas?

José Luiz Braga – As interfaces entre a Educação e a Comunicação não implicam necessariamente “cooperação”, mas também tensionamento. Os processos também se desenvolvem pelo tensionamento. A aprendizagem ultrapassa o âmbito da escola e entra num nível não controlado, que é o campo da mídia, onde se aprende de tudo, para o bem ou para o mal. O problema aqui é a ausência de controle, que não se pode fazer por hierarquia ou autoridade. O controle, nesse caso, viria da crítica. A produção de TV Educativa mostra o quão delicada é essa relação entre comunicação e educação. Não se trata apenas de problemas práticos, mas de visões completamente diferentes e de como superar isso. O trabalho educacional é o de enfrentar diretamente a delicadeza dessas questões. Devemos trabalhar o tensionamento, ao invés de tentar “resolvê-lo”, no sentido de colocá-lo para debaixo do tapete. A dificuldade de trabalhar em harmonia acontece porque os objetivos, os processos e as lógicas da educação e da comunicação são diferentes. Trata-se de construir algo novo, para trabalhar uma aprendizagem que não será totalmente controlada pela escola. Estamos na área da invenção social, onde aprendizagem e socialização estão integradas. 

IHU On-Line – E, ainda dentro dessa discussão sobre as relações entre comunicação e educação, como o senhor vê o fenômeno da Wikipédia, considerando-a como um instrumento de aprendizagem não apenas disponível na mídia, mas construído permanentemente nela e de forma coletiva pela sociedade?

José Luiz Braga – Esse é um exemplo muito interessante. Ele mostra a transmissão de um conhecimento, que não é mais preestabelecido, dicionarizado. É uma dessas experiências de articulação entre comunicação e aprendizagem que é absolutamente fundamental, mesmo sendo uma invenção em curso. Há riscos de aprendermos algo lá que seja insustentável, porque podemos acessar a Wikipédia em um momento em que determinado conteúdo não corrigido ainda estava lá, e é possível que amanhã de manhã já tenha saído. Não podemos esperar que toda a população está checando tudo, o tempo todo. Mas, quando percebemos os riscos, podemos trabalhar melhor com eles. Todos os campos de aprendizagem são tentativos, mesmo os mais tradicionais, como a sala de aula, pois não sabemos quais serão os modos segundo os quais cada estudantes se apropriará do conhecimento recebido. Teremos uma diversidade de interpretações em todos os cenários em que vivemos. Como escapamos da idiossincrasia individual? Como não somos radicalmente diferentes um do outro? Do ponto de vista social, o que nos faz pertencer a uma mesma realidade? Em perspectiva comunicacional, creio que construímos uma realidade comum porque interagimos, testamos constantemente com os outros a nossa interpretação.

IHU On-Line - Como o senhor caracteriza a midiatização na América Latina? De quais processos sociais ela se compõe?

José Luiz Braga – Um aspecto que temos que levar sempre em conta em termos de América Latina é o fato de que nós viemos de uma situação marginal do mundo da escrita. Isso faz uma diferença porque os processos sociais não fazem tabula rasa dos processos anteriores; a midiatização contemporânea surge no mundo da escrita. E nós somos menos do mundo da escrita do que o mundo europeu. Na América Latina, somos marcados pela oralidade, inclusive no mundo da academia. Digo isso para situar qual é o cenário latino-americano que entra em processo de midiatização. Ele entra com algumas vantagens e algumas desvantagens. Uma das vantagens favorece a televisão. A imagem não pede alfabetização. É um meio capaz de falar a todos diretamente e pode até ser usado para alfabetizar. Entre as desvantagens, lembro que o livro foi responsável no mundo europeu por processos de racionalidade que estão na base do pensamento político e democrático. É a escrita que realiza a separação necessária para a crítica. Eu só posso criticar se separo, se distingo. E esse é um problema na América Latina. A mídia aqui tende a ser mais superficial, porque os dispositivos críticos são mais frágeis. No caso da Europa, eles são muito mais competentes. Estou convencido de que, na Europa, a qualidade do sistema geral é mais coerente. Não basta criticar a produção da mídia e imaginar que um dia isso pode resolver os aspectos insuficientes de escolarização do receptor e gerar uma discussão social do sistema de resposta produtiva. Temos de trabalhar em todos os níveis. Jesús Martin-Barbero, quando insiste na necessidade de observamos o receptor, traz uma proposta muito latino-americana. Ele fala da importância de entender as mediações segundo as quais o receptor interpreta os meios. A Europa não pensaria nisso. De minha parte, creio que mais um passo seria dado pelo estudo das circulações sociais que os espectadores e usuários acionam após sua recepção – justamente através de um desenvolvimento dos dispositivos críticos.

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