Edição 282 | 17 Novembro 2008

Uma invenção moderna: entre a vida comum e a religiosa

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

André Dick

Para o professor e tradutor de língua inglesa John Milton, Hopkins é uma invenção moderna, e ela está concentrada nos elementos formais de sua poesia, muitas vezes se esquecendo a sua profunda religiosidade

Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor e tradutor de língua inglesa John Milton entende que em Hopkins há uma divisão entre a vida comum e a vida religiosa. Desse modo, entende que Hopkins, num poema como “The soldier Hopkins”, “não parece muito interessado no soldado terrestre; o verdadeiro soldado é Cristo; a vida mundana não lhe atrai; a verdadeira vida é a religiosa”. Já em “Ribblesdale”, “o homem comum não consegue enxergar a obra de Deus”.

Milton chama a atenção, no entanto, para o fato de que Hopkins não é tão lido. Explica: “Hopkins não prega o patriotismo vitoriano que se associa com Tennyson, mas seus poemas são altamente religiosos, como os de poetas vitorianos como Clough, por exemplo, e poemas religiosos não são populares hoje em dia”.

John Milton é graduado em Letras — Literatura Inglesa & Espanhol, pela Universidade de Wales (Swansea), mestre em Lingüística Aplicada, pela PUC-SP, e doutor em Literatura Inglesa, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor na áreas de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP, atuando sobretudo com tradução literária, tradução no Brasil e Shakespeare. Além disso, é editor-chefe da Cadernos de Literatura em Tradução, da USP.

Traduziu, com Alberto Marsicano, Nas asas invisíveis da poesia (São Paulo: Illuminuras, 1998), de John Keats, e O olho pela força da harmonia (São Paulo: Ateliê, 2007), de William Wordsworth, e, com M. R. Bertin, verteu para o português Hamlet (São Paulo: Disal, 2005), numa adaptação bilíngüe. Também escreveu O poder da tradução (São Paulo: Ars Poética, 1993), Tradução: teoria e prática (São Paulo: Martins Fontes, 1998) e O clube do livro e a tradução (Florianópolis: Edusc, 2002).

IHU On-Line - Como o senhor avalia que Gerard Manley Hopkins alia vida e obra em sua trajetória (por exemplo, a ligação entre religião e poesia)?

John Milton - Hoje em dia, Hopkins é visto como um dos grandes inovadores na poesia vitoriana, mas na época era totalmente desconhecido. Não publicou sua poesia; foi somente publicada nos anos de 1920. Então, o Hopkins que conhecemos é uma invenção moderna. E essa invenção concentra-se nos elementos formais de sua poesia, muitas vezes se esquecendo a sua profunda religiosidade.

IHU On-Line - Os poemas de Hopkins, publicados apenas depois de sua morte, foram, na sua opinião, referenciais para a poesia moderna e de vanguarda?

John Milton - Ezra Pound tentou “quebrar” o pentâmetro iâmbico, que, para ele, restringia demais as possibilidades do poeta contemporâneo. Os poetas ingleses haviam passado quase 400 anos presos a essa forma métrica. Hopkins mostrava uma maneira de quebrá-lo. 

IHU On-Line - Hopkins também foi um dos maiores criadores poéticos no que se à musicalidade, como quando emprega o sprung rhythm (ritmo saltado). Poderia estabelecer uma relação entre ele e os românticos (como Keats e Swinburne), simbolistas e modernistas (muitos afirmam que ele antecipa experimentos de Eliot e Pound)? Ele poderia, com tudo isso, ser considerado um poeta atemporal?

John Milton - Hoje em dia os principais poetas vitorianos — Tennyson, Browning, Arnold — caíram de moda, e são relativamente pouco lidos na Inglaterra, muito menos no Brasil, onde nenhum deles foi traduzido em forma de antologia. Sim, Hopkins não prega o patriotismo vitoriano que se associa com Tennyson, mas seus poemas são altamente religiosos, como os de poetas vitorianos como Clough, por exemplo, e poemas religiosos não são populares hoje em dia. E certos poemas tomam uma posição claramente católica. “The wreck of the Deutschland”, por exemplo, é bastante antiprotestante.

O seu uso de outras formas métricas; da rima aliterativa anglo-saxã e suas paronomásias deram a Hopkins certa contemporaneidade, e críticos contemporâneos fazem paralelos entre Hopkins e Joyce. E, claro, no Brasil, Hopkins foi descoberto pelos irmãos Campos, especialmente Augusto.   

IHU On-Line - Alguns delimitam os seus “sonetos obscuros”, por exemplo, como retrato de  sua fase mais desalentadora, de mais desespero existencial. O senhor identificaria fases na obra de Hopkins?

John Milton - O poema mais famoso deste período, “I wake and feel the fell of dark, not day”, tem imagens que podem ser interpretadas como referências à possível homossexualidade de Hopkins. Será que esses poemas foram escritos numa época de auto-análise e questionamento? O segundo sexteto do poema

I’m gall, I am heartburn. God’s most deep decree / Bitter would have me taste: my taste was me; / Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse. / / Selfyest of spirit a dull dough sours. I see / The lost are like this, and their scorge to be /As I am mine, their sweating selves; but worse.
 
pode ser analisado como uma descrição de ereção, masturbação, ejaculação e arrependimento; e o desejo de auto-punição. Claro, usa imagens não óbvias, mas palavras e expressões como “brimmed”, “taste”, “sours”, “bones built in me”, “flesh filled” fazem referências bastante claras à ereção e ejaculação; e as referências anteriores a “”Bitter would have me taste”  ao possível engolir do seu próprio sêmen.

A metafísica e o domínio verbal de Hopkins

Acho que a poesia de Hopkins é metafísica nos dois sentidos. Primeiro, o sentido dos poetas metafísicos, com sua preocupação com a linguagem, os trocadilhos, e as metáforas exageradas, os conceits. Mas também podemos pensar em Hopkins como poeta que enxerga um alvo mais alto, aquele de Deus. Aqui tem muitas semelhanças com os contemporâneos de Donne, George Herbert e Henry Vaughan. E podemos fazer uma ligação com a poesia espiritual de San Juan de La Cruz e Frei Luis de León. Em “The soldier Hopkins”, não parece muito interessado no soldado terrestre; o verdadeiro soldado é Cristo; a vida mundana não lhe atrai; a verdadeira vida é a religiosa. Em “Ribblesdale”, o homem comum não consegue enxergar a obra de Deus.

IHU On-Line - A poesia de Hopkins é vista, muitas vezes, como intraduzível. Como tradutor, a que, na sua opinião, se deve esta característica?

John Milton - Todos os poetas que enfatizam elementos fônicos e paranomásias são considerados difíceis ou impossíveis de serem traduzidos. Podemos nos dirigir aos irmãos Campos e seu conceito de “recriar” em português um poema isomórfico, usando elementos da língua portuguesa. O poeta romântico inglês Shelley disse que traduzir um poema é igual a “jogar uma violeta num caldeirão”, e “a planta deve crescer da sua própria semente”. Haroldo diria que se deveria cultivar outra planta em português.

IHU On-Line - Há poemas específicos de Hopkins que mais atraem sua atenção?

John Milton - Adoro seus poemas que têm um verdadeiro corrente de imagens e aliterações, um tipo de cascata de imagens e sons. Um exemplo menos conhecido é “The leaden echo and the golden echo”. Exemplos mais conhecidos são “As kingfishers catch fire”, “Binsley populars” e “The windhover”.

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição