Edição 282 | 17 Novembro 2008

A tensão sonora e religiosa da poética de Hopkins

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André Dick

Na visão do poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto, Hopkins era um esteta e um asceta, capaz de alcançar uma sonoridade muito singular em seus poemas

O poeta, tradutor, ensaísta e dramaturgo Alípio Correia de Franca Neto acredita, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, que o trabalho minucioso realizado por Hopkins “no nível do significante exige” exige, na versão para o português, “uma mobilização muito grande de formas e recursos expressivos”. Segundo Alípio, “é tal a intensidade do ‘som’, na poesia dele, que pode-se esquecer a consciência etimológica em alerta constante, a fina rede semântica traçada a cada poema, e cair justamente na mera ‘manipulação das palavras’ que Hopkins reprovava em Swinburne e em outros”. Tradutor de Hopkins — suas traduções podem ser vistas numa pequena antologia nesta IHU On-Line —, Alípio também avalia a ligação do poeta com nomes, como Eliot, Joyce, Keats, John Donne e Pound, entre outros. Há, para ele, em Hopkins, uma tensão ao mesmo tempo religiosa e poética. Nesse sentido, “parece inequívoco que a grande crise da vida de Hopkins se deu em sua passagem do anglicanismo para o catolicismo, com sua decisão subseqüente de se tornar padre e jesuíta”.

Alípio recebeu dois prêmios Jabuti de melhor tradução: por Pomas, um tostão cada (São Paulo: Iluminuras, 2002), de James Joyce, e A balada do velho marinheiro (São Paulo: Ateliê Editorial, 2005), de S. T. Coleridge. Traduziu também, entre outros, Música de câmara (São Paulo: Iluminuras, 1999) e Exilados (São Paulo: Iluminuras, 2003), ambos de James Joyce, e A verdade da poesia(São Paulo: Cosac & Naify, 2007), de Michael Hamburger. Atualmente, prepara traduções para poemas de Phillip Larkin. É, além disso, doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada, na Universidade de São Paulo (USP).

IHU On-Line - Você pode fazer uma breve retomada biográfica sobre quem foi Gerard Manley Hopkins?

Alípio Correia de Franca Neto - Gerard Manley Hopkins, um dos maiores poetas vitorianos, nasceu em 1844 em Stratford, Essex. Passou pela Highgate School e entrou para o Balliol College, em Oxford, em 1863. Exerceu lá o cargo de expositor, se envolveu em controvérsias religiosas e se converteu ao catolicismo. Durante a graduação, foi professor na escola do Cardeal Newman, o Oratory, perto de Birmingham. Posteriormente, entrou para a Companhia de Jesus e queimou as cópias dos poemas que havia escrito, como um gesto simbólico de sua dedicação a sua nova vocação. Depois de dois anos aparentemente tranqüilos de noviciado em Londres, passou mais três entregue a estudos em Lancashire. Anos depois, estudando teologia no País de Gales, Hopkins voltou a escrever poesia. Em menos de dois anos, escreveu “O naufrágio do Deutschland” (“The wreck of the Deutschland”) e mais de uma dúzia de poemas breves admiráveis. Entre o término de seus estudos de teologia em 1877 e a prorrogação de seu período final de formação na Companhia de Jesus em 1881, assumiu diversos cargos pelo país, de Londres e Oxford a Liverpool e Glasgow. Passou os cinco anos finais de sua vida na Irlanda como professor de literatura grega e latina no então recentemente formado Catholic University College, em Dublin. Foi nesse período que ele se viu assoberbado por trabalhos excessivos, por um sentimento de aflição diante do ódio da Irlanda pela Inglaterra, e também por uma convicção cada vez maior de que não era capaz de realizar nenhuma obra literária de valor. Hopkins morreu de febre tifóide em junho de 1889. Vinte e nove anos depois, o poeta Robert Bridges, amigo e correspondente, publicou os poemas de Hopkins pela primeira vez. A partir disso, o tempo começaria a lhe fazer justiça, e de imediato se tornaria perceptível que Hopkins fora um poeta que transcendera o seu tempo. Data dessa época sua “canonização” por parte dos poetas e críticos acadêmicos.

IHU On-Line - Como o senhor avalia que Hopkins alia vida e obra em sua trajetória (por exemplo, a ligação entre religião e poesia)? Nesse sentido, quem foram seus principais inspiradores (na literatura e na religião)?

Alípio Correia de Franca Neto - Parece inequívoco que a grande crise da vida de Hopkins se deu em sua passagem do anglicanismo para o catolicismo, com sua decisão subseqüente de se tornar padre e jesuíta. Nesse sentido, o Cardeal Newman, com quem Hopkins se entrevistou antes de ser recebido na Igreja Católica, foi por assim dizer o sinal, se não o meio, de sua conversão. Ainda no que diz respeito a religiosos cuja imagem inspiraria Hopkins de alguma forma, pode-se destacar por exemplo a figura de Santo Alfonso Rodrigues, o santo católico que por quarenta anos serviu como porteiro no colégio jesuíta em Palma, Maiorca. Hopkins via na vida deste santo um protótipo ou um reflexo de sua própria vida, e o considerava um modelo perfeito de modéstia e obediência, chegando a dedicar a ele um soneto extraordinário. Por outro lado, desde a infância, os biógrafos identificam uma espécie de “tensão” contínua que marcará toda a vida de Hopkins, advinda do fato de ele ser um esteta e um asceta, com uma consciência cada vez maior de que o último deveria reprimir o primeiro. Essa “tensão” é perfeitamente visível em sua poesia e escritos em prosa. Por isso, o nome de Hopkins se liga à linhagem de poetas religiosos e metafísicos, da poesia inglesa, como Milton, Blake, Crashaw, George Herbert, Vaughan.

IHU On-Line - Os poemas de Hopkins, publicados apenas depois de sua morte, foram, na sua opinião, referenciais para a poesia moderna e de vanguarda?

Alípio Correia de Franca Neto - Sem dúvida que sim. Seu tratamento da linguagem, carregada de sentido em grau máximo — tem-se a impressão de uma poesia feita à base de “essências” —, seus neologismos, seu trabalho de sondagem etimológica e reverberação semântica não podiam deixar de atrair a atenção dos poetas modernistas da segunda geração, particularmente os assim chamados “três terríveis” — W. H. Auden, Stephen Spender e Cecil Day Lewis. Mas não apenas seus poemas. Seus escritos sobre a poesia de seus contemporâneos se alinham de maneira quase exata com os pontos de vista desenvolvidos, cinqüenta anos depois de sua morte, pelos melhores poetas e críticos modernos.

IHU On-Line - Hopkins também foi um dos maiores criadores poéticos no que se refere à musicalidade, como quando emprega o sprung rhythm (“ritmo saltado”). Poderia estabelecer uma relação entre ele e os românticos (como Keats e Swinburne), simbolistas e modernistas (muitos afirmam que ele antecipa experimentos de Eliot, Pound e Dylan Thomas)? Muitos ainda aproximam sua poesia da de John Donne. Como avalia essas comparações?

Alípio Correia de Franca Neto - Além de ser um inovador, no que se refere à utilização e criação de recursos de expressividade da língua, Hopkins trabalhou pelo menos dentro de quatro tradições: a aliterativa, a miltoniana, a metafísica e a romântico-keatsiana.

Swinburne não recebe a aprovação irrestrita de Hopkins em suas cartas. Nestas, Hopkins, em sua franqueza habitual, reconhece o fascínio do “gênio surpreendente” de Swinburne, mas, antes de Eliot, percebe que esse “gênio” tinha mais que ver com a simples “manipulação de palavras” do que com a evocação e orquestração de sentidos.

Já a atitude de Hopkins perante Keats parece ambivalente. A influência de Keats é visível em vários poemas — “A vision of nermaids” é o exemplo mais flagrante —, mas a vida de “sensações” em vez de pensamentos almejada por Keats parecia detestável a Hopkins, embora este lhe apreciasse a capacidade de observação e caracterização.

No que concerne a Donne, não há nenhuma referência a seu nome nas cartas de Hopkins, que devia evitar sua leitura por questões morais. Apesar disso, não há como não associar Hopkins ao nome de Donne, em virtude dos pontos de contato que há entre a poesia do jesuíta e a dos poetas metafísicos.

No caso de uma suposta influência de Hopkins sobre Eliot, diga-se que este apreciava as inovações rítmicas e técnicas de Hopkins, embora considerasse algumas dessas inovações como “puramente verbais”. Há, contudo, pelo menos um poema — “Soliloquy of one of the spies left in the wildreness” — que antecipa de modo admirável o método empregado por Eliot, por exemplo, em “Journey of the Magi”. Em ambos os poemas, um evento histórico serve de plano de fundo para o registro de uma experiência pessoal, esse evento sendo reconstruído a partir da óptica de uma personagem secundária (um princípio colhido provavelmente em Browning, seu principal cultor, e desenvolvido posteriormente pelo Pound das personae). Aliás, no caso de Pound e de outros imagistas, as liberdades métricas de Hopkins e as experiências com ritmos da fala levadas a efeito por ele só poderiam ser consideradas aspectos precursores das tendências de então, que tinham no verso livre o seu modelo de expressão. Herbert Read chegou a afirmar, a propósito dos melhores cultores do verso livre, que todos derivaram de Hopkins.

Por fim, no caso de Dylan Thomas, diga-se que este partilhou com Hopkins muitas coisas — as imagens “bizarras” e obscuras, o princípio aliterativo, o acentuado gosto pela poesia da natureza. O poema “The force that trough the green fuse drives the flower” é um bom exemplo dessas afinidades.

IHU On-Line - Hopkins seria, para a literatura inglesa, uma espécie de Joyce da poesia? Sendo um estudioso e tradutor de ambos, quais as aproximações que o senhor faria entre eles?

Alípio Correia de Franca Neto - Muitos paralelos podem ser traçados entre Hopkins e Joyce, por mais distintos que eles possam ter sido como escritores ou em termos de visão de mundo. Joyce foi um aluno jesuíta, e possível candidato ao sacerdócio, e Hopkins foi um jesuíta mestre. Os dois passaram boa parte da vida no exílio, Joyce exilado da Irlanda, Hopkins em exílio na Irlanda. Mas esses são paralelos superficiais, já que seus verdadeiros pontos de contato se acham nas técnicas e invenções que ambos imprimiram à linguagem. Anthony Burgess lembra que Hopkins ensinou grego no University College, em Dublin, alguns anos antes que Joyce estudasse lá. Não se sabe ao certo quando Joyce fez contato pela primeira vez com a obra de Hopkins, mas em Finnegans wake, que é de 1939, há uma referência explícita ao mais famoso poema de Hopkins, “O falcão”, e à técnica do ritmo saltado.

IHU On-Line - Um estudioso do poeta, Jean-George Ritz, chegou a afirmar: “Traduzir Hopkins! Desafio impossível”. Como tradutor de Hopkins, quais são os principais desafios ao se transpor para o português seus poemas? De que modo lidar, por exemplo, com a sonoridade dos poemas dele, tão complexa?

Alípio Correia de Franca Neto - Evidentemente, o trabalho minucioso que Hopkins realiza no nível do significante exige do tradutor uma mobilização muito grande de formas e recursos expressivos. E também constitui o maior perigo: é tal a intensidade do “som”, na poesia dele, que pode-se esquecer a consciência etimológica em alerta constante, a fina rede semântica traçada a cada poema, e cair justamente na mera “manipulação das palavras” que Hopkins reprovava em Swinburne e em outros. Gostaria de acrescentar apenas que, apesar de não contarmos com um número muito significativo de traduções de poemas e escritos em prosa de Hopkins, temos a sorte de contar com intérpretes do poeta que foram ou são eles mesmos poetas, tradutores e críticos de talento e experiência, como Mário Faustino, Augusto de Campos, José Lino Grünewald, José Paulo Paes, Paulo Vizioli e Aíla de Oliveira Gomes, por exemplo.

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