De Zumbi a João Cândido: uma luta de transformação social e cultural, a favor dos povos oprimidos

Mestre em História, Jorge Euzébio Assumpção, estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU no próximo dia 13 para debater o tema

Por: Bruna Quadros

“O resgate de figuras como Zumbi e João Cândido representa um estímulo à auto-estima dos despossuídos, assim como servem de exemplo para aqueles que ainda não despertaram para a luta de uma nova sociedade.” Esta é a definição do mestre em História Jorge Euzébio Assumpção, docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com relação ao papel dos líderes negros Zumbi dos Palmares e João Cândido para a sociedade brasileira. Ao conversar, por e-mail, com a redação da revista IHU On-Line, ele afirma que, desde a morte de Zumbi dos Palmares, a situação dos negros brasileiros modificou-se bastante. “Todavia, não podemos dizer que a situação dos afrodescendentes esteja satisfatória, achamos que muito ainda há para ser feito em relação aos membros vítimas da diáspora.” Assumpção destacou, ainda, que hoje em dia, os negros ainda encontram dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e de ingressarem no ensino superior.

Jorge Euzébio Assumpção é mestre em História, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atualmente, é professor no curso de Pós-Graduação da Faculdade Porto-Alegrense (FAPA) e professor da Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Publicou, entre outros, Os negros farroupilhas e o Massacre de Porongos (Porto Alegre: Gráfica e Editora Relâmpago, 2006).

IHU On-Line - Quais as características que aproximam o pensamento do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, e do Almirante Negro, João Cândido?

Jorge Euzébio Assumpção - Em primeiro lugar, é necessário contextualizar os personagens. Zumbi viveu no século XVI, era um escravo, líder de um quilombo, onde lutou à margem da lei contra o sistema escravista. Seu principal objetivo era a liberdade, ou seja, deixar de ser escravo. Já João Candido nasceu no século XIX, como homem livre, alistou-se na Marinha onde se tornou líder da Revolta da Chibata.  O que tem de comum entre ambos, além de serem negros? Foram líderes de movimentos que lutaram contra a opressão em momentos distintos da História. Zumbi teve seu reconhecimento há mais tempo, e João Candido tardiamente começa a ser reconhecido, assim como Zumbi, não apenas como um “herói” negro, mas como uma personalidade nacional que lutou contra a opressão vivida por negros e brancos vítimas do sistema então vigente.

IHU On-Line - O que a luta destes dois homens significou para a história do Brasil e de que maneira ainda repercute nos dias atuais? 

Jorge Euzébio Assumpção - Temos uma dificuldade acadêmica em colocar tais personagens como heróis dentro da academia, que ainda sofre de um preconceito racial e social muito grande. Sendo ambos afrodescendentes e lutando contra a ordem estabelecida pelas elites, as coisas se tornam mais difíceis ainda. Foi muito mais fácil em anos anteriores colocarmos negros colaboracionistas do sistema, como Henrique Dias,  que não lutou contra o sistema, do que destacarmos a luta daqueles que são, de fato, símbolos de todos os membros da diáspora e que não se sujeitaram ao despotismo das elites e remaram contra a maré. Quer dizer, ficaram ao lado de seus pares. O resgate de tais figuras representa um estímulo à auto-estima dos despossuídos, assim como servem de exemplo para aqueles que ainda não despertaram para a luta de uma nova sociedade.

IHU On-Line - Desde a morte de Zumbi, em 1695, o que mudou na luta pela libertação dos povos escravos do Brasil, uma vez que João Cândido passa a atuar com este propósito apenas em 1910, na Revolta da Chibata?

Jorge Euzébio Assumpção - Desde a morte de Zumbi dos Palmares, a situação dos negros brasileiros modificou-se bastante. Em que pese toda a crítica elaborada por setores do movimento negro quanto à abolição, essa conferiu ao negro o status de homem livre, embora não o tenha libertado do preconceito. Não podemos dizer que ainda continuamos escravos. Se assim fossemos, João Cândido não teria as condições objetivas para liderar o movimento de 1910. O mesmo teve como objetivo o fim dos castigos físicos, o que na era escravista fazia parte do sistema. Todavia, não podemos dizer que a situação dos afrodescendentes esteja satisfatória, pois achamos que muito ainda há para ser feito em relação aos membros vítimas da diáspora.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a contribuição do legado de Zumbi dos Palmares e de João Cândido para uma transformação social e cultural na sociedade brasileira que, hoje em dia, já não é mais vítima da escravidão?

Jorge Euzébio Assumpção - Ambos (Zumbi e João Cândido) são ícones, não só dos negros, mas também das populações sem posses, pois devemos lembrar que nos quilombos não existiam apenas negros, mas também índios e brancos pobres. Assim como a Revolta da Chibata não beneficiou apenas negros, mas também brancos que eram vítimas dos mesmos castigos. Todavia, devemos lembrar que além de Zumbi e João Cândido temos vários outros vultos históricos que não são nem sequer mencionados pela história, que privilegia os vultos da elite em detrimento dos populares.

“Temos vários Zumbis, que ainda não mereceram um lugar na história tradicional”

A história que é contada nas escolas é elitista, onde os movimentos populares são esquecidos ou apenas citados. Todos conhecem a Inconfidência,  que foi um movimento idealizado pelos poderosos da época e que não continha nenhuma proposta de cunho social, assim como seu mártir Tiradentes.  Entretanto, o mesmo destaque não é dado para a Revolta dos Alfaiates,  que, diferentemente, da anterior teve como protagonistas principais negros e mulatos e apresentava um caráter popular. Tendo quatro vítimas que não são referenciados em feriados nacionais, nem seus nomes são reverenciados (soldado Lucas Dantas do Amorim Torres;  aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira;  soldado Luís Gonzaga das Virgens;  e mestre alfaiate João de Deus Nascimento),  o que os torna menos mártir do que Tiradentes? Será que é pelo fato de não serem brancos? Por esses e outros é que digo que não temos um Zumbi, temos vários Zumbis, que ainda não mereceram um lugar na história tradicional.

IHU On-Line - O que torna este Zumbi, líder da resistência negra ao regime escravo, referência para os brasileiros, principalmente os que ainda vivem em comunidades quilombolas e mantém viva a sua memória?

Jorge Euzébio Assumpção - Zumbi é uma referência nacional que, em um primeiro momento, lutou contra a escravidão, a opressão colonial, os desmandos do Império, aqueles que pretendiam estabelecer uma república com reformas populares, diferente do golpe militar desfechado pelo marechal e assim por diante. Ele representa um símbolo das comunidades remanescentes de quilombos, dos sem-terra, dos sem-tetos...

IHU On-Line - Qual é a sua visão sobre a liberdade de culto, religião e prática da cultura africana, principais objetivos de Zumbi, no Brasil de hoje, em relação ao período em que o país era colônia de Portugal? Além disso, como os grupos de diálogo inter-religioso se relacionam e recebem as religiões afro? 

Jorge Euzébio Assumpção - Apesar de vivermos em uma democracia, estamos vivendo em uma era de intolerância religiosa. Em termos internacionais, temos uma intolerância em relação aos islâmicos, vítimas de preconceitos por parte ocidente, principalmente após os atentados das Torres Gêmeas. Devemos lembrar que uma grande parcela dos africanos são adeptos do islamismo, assim como em termos nacionais temos uma investida de intolerância em relação às religiões afro. Principalmente no Rio Grande do Sul, onde tivemos recentemente tentativas através da Câmera Municipal de Vereadores de Porto Alegre de tentar, através de subterfúgios, restringir, ou melhor, impedir o culto as religiões afro-brasileiras. A medida foi barrada pela própria Câmara, após ter sido aprovado por unanimidade por todos os vereadores.

IHU On-Line - Depois das trajetórias de lutas de Zumbi e João Cândido, como ficou o papel do negro na sociedade brasileira? Qual a sua avaliação a respeito da colocação no mercado de trabalho e possibilidades de ingresso no ensino superior?

Jorge Euzébio Assumpção - Temos um longo caminho a percorrer ainda. Basta vermos quantos negros ocupam cargos de chefia, quantos freqüentam os bancos universitários, quantos professores negros, em nível universitário, temos no Rio Grande dos Sul, assim como alunos. Tais dados demonstram o difícil caminho ainda a ser trilhado pelos afro-brasileiros.

IHU On-Line - Barack Obama é negro e acaba de conquistar a presidência dos Estados Unidos. Qual é a sua opinião sobre o novo líder da Casa Branca e, mais do que isso, sobre um negro governando uma das maiores potências mundiais?

Jorge Euzébio Assumpção - Com a eleição de Obama, houve uma quebra de paradigma. É o resultado das lutas pelos direitos civis, de Malcolm,  entre outros. Mas não podemos nos esquecer de que Obama, sempre que possível, se furtou ao debate racial e ressaltou o sonho estadunidense, de que tudo lá era possível. Creio ser importante a eleição de um não-branco nos EUA, mas não devemos esquecer que, negro ou não, ele representa uma nação imperialista que jamais se deteve para realizar seus interesses.

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