Edição 280 | 03 Novembro 2008

Lutero, pai da modernidade, visto por Nietzsche

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Márcia Junges

Para Marcio Gimenes de Paula, se Lutero é um monge ressentido, como sugerido por Nietzsche, também é um tipo psicológico interessante e uma personalidade que divide a história da cristandade ocidental

Uma das críticas mais cáusticas a Lutero foi-lhe endereçada por Friedrich Nietzsche, sobretudo em O anticristo, obra de 1888 na qual o filósofo chama-o de “monge ressentido”, acusando-o de abortar a Renascença e promover a Reforma quando o cristianismo estava prestes a sucumbir. “Lutero não foi capaz de enxergar que o cristianismo eclesiástico era um sistema que precisa de acordos para manter a sanidade dos corpos e mentes, por isso Lutero representa, aos olhos de Nietzsche, um passo atrás num processo que o próprio cristianismo parecia abolir”, refletiu o filósofo Marcio Gimenes de Paula. Contudo, pondera, “se Lutero é um monge ressentido, tal como preconizou Nietzsche, ele também é um tipo psicológico profundamente interessante, alguém que divide a história da cristandade ocidental e sem o qual não haveria a filosofia alemã”. Em sua opinião, “a crítica nietzschiana ajuda a pensar melhor na herança humanística do cristianismo ocidental, mas, como o próprio Nietzsche dizia, o sangue dos teólogos e dos filósofos está misturado na Alemanha e isso parece ser muito profundo”.

Segundo Gimenes de Paula, “se Nietzsche será um crítico da modernidade, Lutero é o seu pai. Logo, a crítica nietzschiana deseja atingir o fundamento da modernidade, por isso atinge Lutero e todos os ideais do que depois se constitui na modernidade”. Entre as críticas a Lutero, o pesquisador aponta para a centralidade da Bíblia por ele conferida, o que poderia “ter ajudado na quebra de uma herança humanística importante que a Igreja cultivava” e uma espécie de bibliolatria, “que não parece menos perniciosa do que o apego ao magistério da Igreja; basta ver o que fazem os grupos fundamentalistas hoje”. Cabe se questionar, entretanto, se foi o próprio Lutero o culpado por tais equívocos, “ou se isso é obra dos seus seguidores”. A entrevista foi concedida por e-mail para a revista IHU On-Line.

Marcio Gimenes de Paula leciona na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Graduado em Teologia, pelo Seminário Teológico Presbiteriano Independente, e em Filosofia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde cursou mestrado e doutorado em Filosofia. Sua tese intitulou-se A crítica de Kierkegaard à cristandade: o indivíduo e a comunidade. No XIII Encontro Nacional de Filosofia da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), ocorrido de 6 a 10 de outubro em Canela, apresentou a pesquisa Duas interpretações da importância de Lutero para a filosofia alemã: Hegel e Heine.

IHU On-Line - Em linhas gerais, como Lutero influenciou a filosofia alemã?

Marcio Gimenes de Paula - Rigorosamente falando, não se pode falar em filosofia alemã, isto é, pelo menos da filosofia moderna que conhecemos de autores como Kant,  Hegel  e tantos outros, sem citar Lutero. A redescoberta do indivíduo e a questão da interioridade levantadas por ele são centrais para tudo o que vem depois. Por isso, não é sem propósito que Nietzsche vai dizer que Lutero é o nosso (no caso deles, os alemães) primeiro filósofo.

IHU On-Line – E, no caso de Hegel e Heine, em específico, qual foi a sua contribuição para o pensamento desses dois filósofos?

Marcio Gimenes de Paula - Para Hegel, Lutero é um dos pontos centrais da modernidade alemã. Com ele começa não apenas uma reforma da Igreja, mas uma reforma das instituições e de todo um modo de pensar que vai mudar a face do Ocidente. Tal tese pode ser claramente observada quando lemos, na Lições sobre a História da filosofia universal, o quanto Hegel prezava Lutero, dando-lhe, inclusive, o status de um dos formadores da mentalidade germânica. Já Heine,  célebre romancista e autor que tanto influencia Nietzsche, irá traçar com clareza tal panorama num livro tão importante quanto delicioso: Contribuição à história da religião e da filosofia na Alemanha. Seu estilo irônico e sua prosa leve não deixam de dar a Lutero um importante lugar no pensamento ocidental. Contudo, ele aponta também críticas ao reformador, observando que ele, por exemplo, não teria enxergado questões mais profundas ligadas ao universo eclesiástico católico e ao seu trato com o poder.

IHU On-Line - Quais eram as principais críticas que Nietzsche endereçou a Lutero?

Marcio Gimenes de Paula – Lutero, para Nietzsche, é um tipo psicológico, mas é também um monge ressentido. O que temos que, talvez, pensar é que se Nietzsche será um crítico da modernidade, Lutero é o seu pai. Logo, a crítica nietzschiana deseja atingir o fundamento da modernidade, por isso atinge Lutero e todos os ideais do que depois se constitui na modernidade. Se pensarmos que a principal crítica está na genealogia da modernidade, estamos na pista correta.

IHU On-Line - Qual é a atualidade dessas críticas?

Marcio Gimenes de Paula - Acho que elas são profundamente atuais e, inclusive, ajudaram tanto cristãos como não-cristãos a pensar melhor acerca de suas posições. Se Lutero é um monge ressentido, tal como preconizou Nietzsche, ele também é um tipo psicológico profundamente interessante, alguém que divide a história da cristandade ocidental e sem o qual não haveria a filosofia alemã. Acho que a crítica nietzschiana ajuda a pensar melhor na herança humanística do cristianismo ocidental, mas, como o próprio Nietzsche dizia, o sangue dos teólogos e dos filósofos está misturado na Alemanha, e isso parece ser muito profundo. Tal coisa merece boas investigações.

IHU On-Line - Poderia comentar, em específico, a afirmação de Nietzsche de que Lutero perdeu a grande chance de evitar a decadência alemã quando impediu a Renascença?

Marcio Gimenes de Paula - Há uma curiosa passagem do Anticristo, na qual Nietzsche afirma que o reformador alemão era um monge ressentido e que, com todos os instintos de um monge ressentido, chega em Roma e se depara com as belas construções promovidas pelos papas. O que isso significa? Para Nietzsche, significa que o Renascimento venceu e o que o cristianismo foi superado na sua própria sede. O que deveria Lutero fazer no entender nietzschiano? Agradecer a Deus por tal coisa. Contudo, o que ele faz? Volta para a Alemanha e ajuda a promover a Reforma. Note que, por detrás de toda a ironia, há uma crítica aguda: Lutero não foi capaz de enxergar que o cristianismo eclesiástico era um sistema que precisa de acordos para manter a sanidade dos corpos e mentes. Por isso, ele representa, aos olhos de Nietzsche, um passo atrás num processo que o próprio cristianismo parecia abolir.

IHU On-Line - Até que ponto a crítica nietzschiana ao luteranismo está baseada no ambiente familiar com o qual conviveu?

Marcio Gimenes de Paula - Sempre tenho um certo receio com essas questões biográficas. Acho que a biografia não pode ser riscada da vida de um pensador, mas não acredito que ela deva ser valorizada como fator único ou imprescindível. É certo que muito do que Nietzsche fez se deveu ao fato dele ser proveniente de um lar luterano. Contudo, penso que essa seja uma característica de vários dos pensadores pós-hegelianos, isto é, eles começam na teologia, transitam pela literatura e acabam na política. Nietzsche não acaba na política, muito pelo contrário, mas tem toda a característica do tipo pós-hegeliano da época, tal como gosta de enfatizar Karl Löwith. Por isso, acho que o mais prudente aqui é tentar entender o contexto integral e não apenas se deixar levar pela explicação mais simples de que tudo que Nietzsche fez se deve ao fato dele ter vindo de uma família luterana.

IHU On-Line - Em seu ponto de vista, quais seriam as suas críticas a Lutero?

Marcio Gimenes de Paula - A primeira coisa que precisamos separar seria Lutero e luteranismo. Não estou muito convencido de que hoje eles estão tão separados assim. Feito isso, penso que Lutero, enquanto indivíduo e tipo psicológico, representa o símbolo de toda uma nação. Contudo, acredito que dois pontos fracos talvez podem ser apontados. O primeiro: ao apontar para a centralidade da Bíblia, Lutero pode ter ajudado na quebra de uma herança humanística importante que a Igreja cultivava. O segundo ponto fraco seria: ao colocar a Bíblia como central, Lutero pode ter contribuído para uma espécie de bibliolatria, que não parece menos perniciosa do que o apego ao magistério da Igreja; basta ver o que fazem os grupos fundamentalistas hoje. Contudo, não sei se Lutero foi, ele próprio, o culpado de tais equívocos, ou se isso é obra dos seus seguidores.

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