Edição 280 | 03 Novembro 2008

A ousadia de Lutero: enfrentar a Igreja Católica

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Para o professor alemão Peter Johann Mainka, a maior importância de Martinho Lutero como figura histórica é que ele ousou enfrentar a Igreja Católica

Ver Martinho Lutero como um personagem histórico é o objetivo do professor alemão Peter Johann Mainka. “Martinho Lutero e o protestantismo alemão são ligados, indissociavelmente, com a palavra falada (sermão) e escrita (leitura), assim como com a música sacra”, afirma ele, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Para ele, a chamada “Reforma Protestante” consistia em várias reformas, “cada uma delas abrindo o seu próprio caminho para a salvação”. E, com elas, “a antiga certeza sobre questões da fé tinha acabado e cada um tinha que se certificar da sua própria salvação”. Qual o resultado disso? “Um clima de lutas e combates que abalaram toda a Europa”. E Peter Mainka completa: “Com Lutero, com seus adeptos e partidários, assim como com os seus rivais e adversários, a necessidade para todo indivíduo humano de pensar e repensar a fé e a religião se espalhou pelos territórios alemães, pelos países vizinhos e pelo mundo inteiro”.

Professor de História Moderna na Universidade de Würzburg, Alemanha, Peter Johann Mainka tem mestrado pelo Institut für Geschichte da Julius-Maximilians-Universität Würzburg e é Ph.D. pela mesma instituição.

IHU On-Line - Qual a importância de Lutero e do protestantismo para a história da relação entre a Alemanha e o mundo?

Peter Johann Mainka - Com Martinho Lutero e a “Reforma Protestante”, foi quebrada a unidade cristã da Europa Ocidental. Na verdade, a “Reforma Protestante” consistia em várias reformas, cada uma delas abrindo o seu próprio caminho para a salvação. Se Martinho Lutero estava no início de todas estas reformas ou estas se realizavam independentemente da pessoa de Lutero, é assunto discutido pela historiografia atual. Seja como for, a antiga certeza sobre questões da fé tinha acabado e cada um tinha que se certificar da sua própria salvação. Isso resultou num clima de lutas e combates que abalaram toda a Europa. Com Lutero, com seus adeptos e partidários, assim como com os seus rivais e adversários, a necessidade para todo indivíduo humano de pensar e repensar a fé e a religião se espalhou pelos territórios alemães, pelos países vizinhos e pelo mundo inteiro.

IHU On-Line - Como podemos perceber no protestantismo as marcas da cultura do povo alemão deixadas por Lutero? Como se dá a passagem e a atualização dessas marcas para culturas latinas, como no Brasil?

Peter Johann Mainka - Martinho Lutero e o protestantismo alemão são ligados, indissociavelmente, com a palavra falada (sermão) e escrita (leitura), assim como com a música sacra, isto é, tanto a canção religiosa quanto a música de órgão. O próprio Lutero era um pregador talentoso e impressionante, e um escritor alemão importantíssimo, que não somente publicou milhares de escritos, mas também traduziu a Bíblia do latim para o alemão, contribuindo, assim, para o estabelecimento dos fundamentos gerais da língua alemã moderna. Além disso, Lutero gostava da música e das canções religiosas. Não são poucos os textos dessas canções, que ainda hoje são cantadas nas igrejas, que foram escritos por Lutero. Ele conhecia muito bem o povo alemão e também tudo que o agradava. Houve uma estreita relação entre a Igreja Luterana e a língua alemã, o que permaneceu nas comunidades alemãs no Brasil até os tempos contemporâneos. 

IHU On-Line - Qual a maior importância de Lutero enquanto figura histórica, dentro e fora da Igreja?

Peter Johann Mainka - A maior importância de Martinho Lutero como figura histórica é que ele ousou enfrentar a Igreja Católica, desafiando, assim, uma instituição com uma longa tradição, relacionada, estreitamente, com os governos e os poderes dominantes e baseada em fundamentos intelectuais, por ela própria criados e parecendo inabaláveis. Nada mais, nada menos. Daí se deriva tudo o que veio depois, tanto na área eclesiástica quanto na área secular.

IHU On-Line - Quais as principais marcas que a Reforma deixou e que permanecem atuais, merecendo ainda discussão?

Peter Johann Mainka - Devido ao rompimento da unidade cristã da Europa Ocidental, a Reforma Protestante provocou uma série de mudanças que foram levadas para o mundo moderno: a gênese de confissões diferentes, com isso, a relativização das verdades religiosas, até então consideradas absolutas; a secularização, isto é, a separação entre Estado e religião, até então entrelaçados indissociavelmente; e, finalmente, a necessidade de tolerar as outras convicções – valores adquiridos a partir daí num longo caminho histórico e os quais impregnam o nosso mundo, como se fossem naturais. Mesmo assim, na atualidade, há tendências que sugerem questionar, de novo, estas aquisições. As características do mundo moderno não se tornam uma posse natural, mas têm de ser adquiridas sempre de novo.
 
IHU On-Line - Quais as características de Lutero enquanto uma figura política? Como o senhor define sua filosofia política?

Peter Johann Mainka - A filosofia política de Lutero era inovadora e conservadora ao mesmo tempo. Por meio da sua doutrina dos dois regimes (o eclesiástico e o secular), ele promoveu, por um lado, a secularização, isto é, a emancipação do mundo secular da tutela eclesiástica, processo fundamental para a gênese da modernidade. Por outro lado, com a sua defesa intransigente da obediência ilimitada dos súditos às autoridades, como, por exemplo, em 1524 e em 1525 em relação aos camponeses rebeldes, na Guerra dos Camponeses,  ele preparou o solo para regimes autoritários na posterioridade. Acima de tudo, porém, estava a obediência a Deus. Assim aconteceu que, no regime nazista, na Alemanha, uma parte dos protestantes, a saber, os “Cristãos alemães” (Deutsche Christen), se acomodava com o nazismo, até se aliou com ele. Uma outra parte, a assim chamada “Igreja professando” (Bekennende Kirche), da qual, por exemplo Dietrich Bonhoeffer fez parte, se opôs radicalmente, e nunca abriu mão das suas convicções religiosas e dos valores da humanidade. 

IHU On-Line - Como as guerras civis religiosas da época do protestantismo podem ser relacionadas com os conflitos religiosos que ainda hoje marcam o Oriente?

Peter Johann Mainka - A Reforma Protestante, ou seja, as Reformas Protestantes desencadearam uma série de lutas e conflitos que resultaram no mundo moderno. Era necessário que as confissões nascentes se diferenciassem umas das outras e conquistassem o seu próprio espaço e a sua própria forma quanto à hierarquia, estrutura e organização naquele momento histórico. Esse processo era conflituoso e violento, mas contribuiu, a longo prazo, para a convivência pacífica dos homens que aderiam a crenças diferentes. A história da humanidade é plena desses processos de transformação. Se considerarmos, no sentido de Cícero, a história como magistra vitae, isto é, como “professora da vida”, podemos ter esperança de que esses processos de transformação se realizem nos tempos atuais e futuros de maneira mais pacífica do que na época de Lutero. Receio, porém, que as faculdades dos homens de aprender a partir da história são limitadas e toda geração tenha de passar por crises políticas, econômicas e sociais para chegar a um novo nível de convivência. Porém, como o exemplo do próprio Lutero mostra, a esperança morre por último, e, assim espero, a razão humana possa limitar todos os excessos. O mundo passa, neste momento, por uma dessas crises de transformação, somos nós todos exortados a contribuir para diminuir os efeitos colaterais violentos.

IHU On-Line - Lutero foi importante para a questão do ecumenismo e do diálogo inter-religioso?

Peter Johann Mainka - É conhecido que o próprio Lutero tentou realizar uma reforma da Igreja, que ele achava necessária. O rompimento com a Igreja Católica não foi o seu objetivo inicial. Ele lutou, principalmente, pela sua convicção religiosa e não contra a Igreja Católica. Neste ponto, poderíamos identificar uma contribuição de Lutero para o diálogo inter-religioso, caminho que foi tomado já na década de 20 e 30 do século XVI, como provam as várias conversas religiosas que foram realizadas a fim de reunir as confissões nascentes. No tempo de Lutero, porém, na época da Reforma Protestante e da assim chamada “confessionalização”, isto é, a gênese das confissões católica, luterana e calvinista, a necessidade de delimitar a própria Igreja das outras era prevalente. Além disso, o próprio Lutero não era muito apto para negociações e diálogos com os representantes das outras correntes religiosas, devido ao seu gênio belicoso e polêmico, que não recuou diante de injúrias e insultos. No entanto, a necessidade de dialogar cresceu bastante e, diante de um mundo caracterizado pela perda dos valores morais, todas as Igrejas são obrigadas a enfrentarem juntas os desafios da atualidade.

Últimas edições

  • Edição 507

    Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

    Ver edição
  • Edição 506

    Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

    Ver edição
  • Edição 505

    Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação da modernidade e da política moderna

    Ver edição