Edição 280 | 03 Novembro 2008

Lutero e Agostinho

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Graziela Wolfart

Ao defender a liberdade de consciência, Lutero contribuiria para o surgimento do ethos democrático, frente a quaisquer totalitarismos, afirma o teólogo Wilhelm Wachholz

Para o professor Wilhelm Wachholz, “o conceito da justificação por graça e fé é certamente o mais conhecido e também caracteriza o pensamento teológico de Lutero”. E ele explica sua posição: “Lutero entendia que o princípio da justificação por graça e fé se opõe às tentativas humanas de, por mérito próprio, tornar-se justo aos olhos de Deus e das pessoas em geral. Em oposição a isso, Lutero defendeu que uma pessoa não se torna justa porque ela faz obras de justiça. Ela somente faz obras de justiça porque ela foi feita justa antes para fazer estas obras de justiça”. Ele acrescenta que a justificação por graça e fé evocada por Lutero representa uma profunda libertação do “eu”, “pois a preocupação pela salvação individual, que gera a exacerbada cultura individualista, cede lugar para a preocupação em favor do coletivo, da solidariedade, justiça social, ecologia etc.”. Ao falar sobre a concepção de Igreja em Lutero, Wachholz lembra que, para o alemão, “Igreja é corpo místico de Cristo. Esta Igreja não coincide necessariamente com uma Igreja (visível) institucional. A verdadeira Igreja é invisível aos olhos humanos; somente Deus a conhece. Somente através da Igreja invisível nos é assegurada a salvação e somente o pecado nos pode excluir dela. De outro lado, a excomunhão da Igreja visível (institucional) em nada afeta nossa participação na Igreja invisível (verdadeira). Por isso, devemos nos submeter à autoridade eclesiástica, mas, antes disso, ser fiéis à verdade”.

Wilhelm Wachholz é graduado e doutor em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST). Coordenador-geral dos Programas de Pós-Graduação em Teologia da EST, é docente na mesma instituição e secretário-geral da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE).

IHU On-Line - Qual a contribuição da figura histórica de Lutero para os rumos do catolicismo e do protestantismo depois da Reforma?

Wilhelm Wachholz - A figura de Lutero evocou, desde o século XVI, estudos intensos. Costuma-se afirmar que se escreveu mais sobre Lutero do que de qualquer outra figura da história da Igreja. Obviamente, as percepções sobre Lutero são as mais opostas possíveis. Elas vão desde aquelas que caracterizam o reformador de Wittenberg como “cria do demônio” até o extremo oposto, a saber, o de “quinto evangelista”, ao lado de Mateus, Marcos, Lucas e João. No âmbito luterano, particularmente da Ortodoxia luterana do final do século XVI e início do século seguinte, preocupada com a busca pela doutrina pura, Lutero foi considerado uma espécie de compêndio da verdade e doutrina corretas. Num momento seguinte, no âmbito do pietismo,  Lutero foi saudado como grande modelo de conversão; toda pessoa precisa passar por uma experiência impactante da conversão. Por outro lado, os pietistas também se incomodavam com Lutero, especialmente por considerá-lo demasiado “frouxo” moralmente ao, por exemplo, tolerar a dança e o consumo moderado de cerveja. O Iluminismo, por sua vez, saudou Lutero como o grande libertador alemão frente ao autoritarismo. Pensadores iluministas o concebiam como herói da liberdade, não somente no âmbito da Igreja, mas também da sociedade em geral. Por isso, a imagem preferida no Iluminismo era aquela em que Lutero é apresentado desafiando o papa e o imperador na Assembléia Imperial em Worms (abril de 1521). Mais recentemente, através da psicoistória de Erik H. Erikson,  Lutero é analisado como “fenômeno da psique” humana. Neste caso, as crises de Lutero com seu pai teriam sido projetadas pelo Lutero adulto sobre Deus no que diz respeito à justiça e ao amor paternos. Não por fim, estudos católico-romanos, não raramente têm apresentado Lutero como um rebelde com (ou sem) causa.

O “não” de Lutero

É, contudo, por parte de um pensador católico-romano, uma afirmação que merece destaque, pela sua sobriedade na análise de Lutero. Segundo Joseph Lortz, “tanto em termos de conteúdo quanto de intensidade, o ‘não’ de Lutero à Igreja papal é de tal tipo que dificilmente se poderia imaginá-lo mais radical. Mas esse ‘não’ carece de um reexame sóbrio, pois foi dirigido contra uma Igreja cuja realidade subcristã mereceria a mais forte das condenações, sempre que se tivesse os elementos subcristãos como a essência da Igreja. Isto é precisamente o que fez Lutero. Seu zelo religioso e pastoral parecia não lhe deixar outra saída”, conclui Lortz. Posturas como estas favorecem o diálogo ecumênico, pois nem uma demonologia por parte católica nem um hagiografia luterana permitem este diálogo. A Declaração Conjunta sobre Doutrina da Justificação (1999) é um claro exemplo do respeito e diálogo bilateral católico-luterano. Este documento é resultado da percepção coerente da Reforma, ao levar a sério a reciprocidade e mutualidade entre religião e cultura. Lutero não pode ser lido fora de seu contexto nem objetivos demonológicos nem hagiográficos.

IHU On-Line - Podemos afirmar que Lutero foi um marco para a história do cristianismo? Em que sentido?

Wilhelm Wachholz - Lutero marcou profundamente a história e a teologia cristã. Permito-me destacar dois pontos a este respeito. Primeiro: Lutero contribuiu para o rompimento do corpus Christianum (corpo político-social) medieval. A sociedade medieval era ambos ao mesmo tempo: “religiosa” e “civil”. Não havia alternativa por um ou outro modo de vida. Teoricamente, Lutero apresentou o caminho para a libertação da Igreja perante o Estado e do Estado perante a Igreja, ainda que isso ocorresse, concretamente, somente com a Revolução Francesa (1789). Lutero o fez ao evocar a liberdade de consciência, inaugurando um princípio fundamental não só para a fé cristã, mas para o pensamento em geral. Contudo, não se tratava de uma consciência sem parâmetros, mas com base na autoridade da Sagrada Escritura. Neste sentido, é exemplar sua afirmação perante o imperador na Assembléia de Worms, em 1521: “[...] Minha consciência está presa nas palavras de Deus – não posso nem quero retratar-me de nada, porque agir contra a consciência não é prudente nem íntegro. [Não posso de outro modo, cá estou] Que Deus me ajude, amém”. Desta forma, Lutero evocou a defesa pela liberdade de fé. Religião e fé jamais podem ser obrigação. Las Casas  defenderia princípio semelhante no contexto da evangelização na América do século XVI, ao passo que a empresa colonial ibérica, sob o princípio da Inquisição, buscava a homogeneização da religião pela força. Ao defender a liberdade de consciência, Lutero contribuiria para o surgimento do ethos democrático, frente a quaisquer totalitarismos.

Uma reforma teológica

Segundo: a partir da evocação da liberdade de consciência, Lutero pleiteia pela Reforma da Teologia de tal forma que a própria liberdade de consciência seja possível. Neste sentido, enquanto opositores de Lutero concebiam que todo o problema da Igreja residia na falta de uma piedade profunda e séria, Lutero percebia que o problema não estava na falta de piedade, mas na Teologia que nutria a piedade de seu tempo. Logo, para Lutero era necessário reformar a Teologia. Portanto, a Reforma tinha que ser, para Lutero, uma reforma teológica. Isso explica por que Lutero não concentrou toda sua atenção na Reforma do culto nos primeiros anos de sua obra. É somente a partir de 1523 que ele se ocuparia com a Reforma do culto.

IHU On-Line - Como entender o impacto da teologia de Lutero em relação ao período histórico da Reforma? Quais das suas teses impactam até hoje?

Wilhelm Wachholz - O conceito da justificação por graça e fé é certamente o mais conhecido e também caracteriza o pensamento teológico de Lutero. Lutero entendia que o princípio da justificação por graça e fé se opõe às tentativas humanas de, por mérito próprio, tornar-se justo aos olhos de Deus e das pessoas em geral. Em oposição a isso, Lutero defendeu que uma pessoa não se torna justa porque ela faz obras de justiça. Ela somente faz obras de justiça porque ela foi antes feita justa para fazer estas obras de justiça. Como a pessoa é totalmente “pecado” (não somente pecadora!), uma força externa a ela precisa transformá-la para que possa realizar obras de caridade e justiça. Esta força externa é Cristo. Então, a identidade da pessoa cristã é excêntrica, conferida por Cristo, e não antropocêntrica, construída pela própria pessoa. Neste sentido, a identidade da pessoa cristã é “conformitas ” (termo utilizado por Lutero) com Cristo. Através da fé, a pessoa é tornada “con-forme”, ou seja, assume a forma de Cristo.

Paralelos entre a Idade Média e os dias atuais 

A justificação por graça e fé me parece trazer uma contribuição fundamental para a atualidade. De um lado, ela liberta da moderna preocupação gerada pelo sistema econômico. Este, diga-se de passagem, em profunda crise na atualidade, se fundamenta no princípio da auto-justificação. É preciso acumular sempre mais, explorar sempre mais. O lema é o desenvolvimento, o progresso, a inovação. Tudo isso, no entanto, tem um alto custo social, ecológico, militar etc. Em nível coletivo, verifica-se que os países aspiram integrar o “G 7”, o “G 20”, o “Primeiro Mundo”. Em nível individual, cada pessoa quer tornar-se “rica”. Em resumo: todos querem auto-salvar-se e, para isso, constantemente se auto-justificam. Esta é a lei do mercado. Na Idade Média, a preocupação era semelhante. A diferença era que a salvação não tinha como alvo a terra, como se pode verificar na atualidade, mas o céu. A piedade medieval estava fundamentada na “matemática da salvação” segundo a qual se obedeciam a prescrições que garantissem a salvação depois da morte. Como na realidade do mercado atual, a morte – inevitável! – é o antônimo de salvação, a “salvação” já precisa ser alcançada aqui na terra, através do conforto das riquezas materiais. Então, enquanto na Idade Média se acumulavam bens celestiais, na atualidade se tem a tendência de acumular bens terrestres. Em ambos os casos, assistimos à exacerbação do individual sobre o coletivo. A salvação é privatizada em detrimento do comunitário.

A auto-justificação anda de mãos dadas com o individualismo

O exacerbado apelo aos direitos individuais segue o mesmo paradigma, ainda que disfarçado, pois, em nome do “direito individual”, facilmente se provoca o perigo do colapso das relações sociais provocadas pela anomia. Também neste caso, a auto-justificação é fortemente evocada. Por isso, me parece que a auto-justificação anda de mãos dadas com o individualismo. Contrariamente, a justificação por graça e fé evocada por Lutero representa uma profunda libertação do “eu”, pois a preocupação pela salvação individual, que gera a exacerbada cultura individualista, cede lugar para a preocupação em favor do coletivo, da solidariedade, justiça social, ecologia etc. A doutrina da justificação pela fé minou o dualismo medieval de trabalho “secular” e “sagrado”. No mundo medieval, o trabalho no âmbito “secular” era considerado inferior. Era como que falta de vocação. A vocação ficava reservada para os “vocacionados” por Deus como “religiosos” (sacerdotes, monges). Diante desta compreensão, a doutrina da justificação libertou o conceito de vocação de forma que também as tarefas “mundanas”, ou seja, na esfera “secular”, passam a ser compreendidas como serviço cristão.

IHU On-Line - Qual a herança de Lutero para a questão do ecumenismo, que parece evoluir em nossos dias?

Wilhelm Wachholz - Para compreender a contribuição de Lutero ao ecumenismo, é preciso considerar sua eclesiologia. Igreja e Estado eram, por assim dizer, uma única grandeza. Ambos formavam o corpus Christianum (corpo político-eclesiástico). Ser excluído de um significava também a exclusão de outro. Isso pode ser percebido concretamente em Lutero. Ao ser excomungado da Igreja (1520), foi confrontado com o Estado (Império) na Assembléia Imperial de Worms (abril de 1521), quando foi proscrito, perdendo garantias como cidadão do Império. A rigor, Lutero não mais era nem cristão, nem cidadão. Exatamente neste contexto, surgiria sua nova concepção sobre Igreja. Como somente havia possibilidade de existir no âmbito da Igreja e do Estado, ele fora empurrado a uma condição de não-existência. Por isso, a excomunhão da Igreja representava a maior desgraça para uma pessoa. A condição de não-existência de Lutero decorre do fato de, na Idade Média, dominar a idéia de que somente haveria salvação na e pela Igreja.

A concepção de Igreja em Lutero

Neste contexto, Lutero amadureceria sua concepção eclesiológica, que se caracteriza como profundamente ecumênica. Para Lutero, Igreja é corpo místico de Cristo. O corpo místico é a verdadeira Igreja. Esta Igreja não coincide necessariamente com uma Igreja (visível) institucional (por exemplo, a Católico-Romana, ou a própria Igreja Luterana, ou ainda qualquer outra Igreja institucional). A verdadeira Igreja é invisível aos olhos humanos; somente Deus a conhece. As pessoas não podem classificar quem pertence à verdadeira Igreja. Para Lutero, esta descoberta foi extremamente importante. Segundo ele, somente através da Igreja invisível nos é assegurada a salvação e somente o pecado nos pode excluir dela. De outro lado, a excomunhão da Igreja visível (institucional) em nada afeta nossa participação na Igreja invisível (verdadeira). Por isso, devemos nos submeter à autoridade eclesiástica, mas, antes disso, ser fiéis à verdade. Esta concepção de Igreja em Lutero traz pelo menos duas contribuições fundamentais: 1) impede a leviana identificação de uma Igreja institucional, por exemplo, Católico-Romana, Luterana, Presbiteriana, Batista, Metodista etc. como sendo a única e verdadeira Igreja; 2) preserva a noção de corpo, portanto, da ecumenicidade de forma que se possa crer que a verdade cristã não fica “algemada” a uma instituição eclesiástica em detrimento de outra. Portanto, a grande contribuição de Lutero é fomentar uma compreensão inclusiva e não exclusiva de Igreja.

IHU On-Line - Qual é a marca da espiritualidade deixada por Lutero e cultivada pelas comunidades de confissão luterana?

Wilhelm Wachholz - Os protestantes que imigraram no Brasil a partir das primeiras décadas do século XIX trouxeram consigo três livros básicos: Bíblia, hinário e catecismo. Os dois primeiros merecem destaque. Simbolicamente, pode-se dizer que Lutero, traduzindo a Bíblia para o alemão, desacorrentou-a, popularizando-a. Desta forma, a Bíblia tornou-se posse do povo. Lutero, contudo, aliou a tradução da Bíblia à ênfase na educação universal, visando à facilitação da leitura da Bíblia. Desta forma, ele atacou a posse da Bíblia como uma exclusividade do clero. Eis o que explica por que os imigrantes trouxeram consigo exemplares de Bíblias que, inclusive, eram repassados de geração em geração. Outra marca da espiritualidade deixada por Lutero e cultivada no luteranismo é a música. Para Lutero, a música deve ser usada a serviço do Evangelho. Segundo ele, “depois da palavra de Deus, a música merece o mais alto elogio”. O próprio Lutero compôs grande número de hinos, que continuam a ser cantados até hoje – o mais conhecido dentre eles é “Castelo forte é nosso Deus”. A importância da música no âmbito luterano pode ser percebida no fato de terem surgido cerca de quatro mil hinos protestantes até o final do século XVI. A tradição musical no âmbito luterano tem estreita relação com a compreensão de culto. Culto é, em primeiro lugar, serviço de Deus à comunidade congregada. Lutero empregou o termo “Gottesdienst” (serviço de Deus) para expressar isso. No culto, Deus serve através de Palavra e Sacramento (Santa Ceia e Batismo). Por isso, somente em resposta ao serviço de Deus, a congregação reunida agradece e louva, cantando. Assim como o culto tem caráter comunitário, a música é expressão comunitária como resposta ao serviço de Deus. Eis porque a ênfase na hinódia durante o culto.

IHU On-Line - Em que medida o pensamento de Lutero é inspiração para o diálogo com grandes nomes da Filosofia, como Hegel e Santo Agostinho?

Wilhelm Wachholz - Certamente poderíamos apontar para diferentes pontos. Permito-me, contudo, evocar um ponto que, pessoalmente, tem me ocupado ultimamente, a saber, a relação de Lutero com o pensamento de Agostinho. Característico da Teologia de Lutero são os assim denominados quatro pilares: solus Christus (somente Cristo), sola scriptura (somente a Escritura = Bíblia), sola gratia (somente a graça) e sola fides (somente a fé). Os quatro “solas” são, paradoxalmente, exclusivos e interdependentes. Ao mesmo tempo em que somente podem ser entendidos na unidade, cada qual têm sua diversidade. Para Lutero, Deus tornou-se logos (Palavra) ao se revelar em Cristo. Daí, a conclusão da centralidade da revelação de Deus em Cristo (sola scriptura). Poderíamos dizer assim: Cristo é o jeito que Deus encontrou para se auto-comunicar com a humanidade. Cristo é a forma de Deus entrar na história humana, fazendo-se tempo e espaço. O conhecimento desta revelação nos é dado pela Bíblia. A Escritura é o meio por excelência para o conhecimento de Deus. Daí a evocação de Lutero ao sola scriptura. A auto-comunicação de Deus, ou seja, sua revelação é iniciativa de Deus mesmo. Não existe mérito humano algum. O custo da revelação é pago por Deus mesmo, enquanto representa gratuidade à humanidade (sola gratia). Agraciado, o ser humano é libertado para a vida ética cristã. A auto-comunicação de Deus somente pode ser apreendida pela fé (sola fides). Pela fé, o ser humano passa a “ver com os olhos de Deus”. A fé permite ver a verdade de Deus e agir em conformitas (em conformidade) com Cristo.
Neste ponto, me parece que existe uma correlação especial com a teologia de Agostinho. Para Agostinho, a Palavra (logos) é sempre Palavra interna e externa. Poderíamos dizer isso assim: todo ser humano, ao enunciar uma palavra, nada mais faz do que externar uma palavra interior (preexistente). Ou seja, a palavra não passa a existir somente quando ela é enunciada. Ela já existe antes.

Lutero e Santo Agostinho

Isso é importante, particularmente para a cultura ocidental, que reduziu a compreensão de palavra à palavra enunciada, falada. Como desdobramento disso, caiu-se no realismo e tecnicismo literário, expresso em especial pela obstinação do gramaticalismo, objetivismo, cientificismo.
Lutero, semelhantemente a Agostinho, entendeu Deus como logos revelatus (revelado) e absconditus (oculto). Enquanto revelatus, Deus se auto-comunica através de Cristo. Cristo é a Palavra externa de Deus. Ainda assim, Ele continua paradoxalmente absconditus, de forma que o logos é sempre mais do que o revelado, o enunciado. Para uma hermenêutica que pergunta pela verdade, e isso vale para o âmbito de todas as disciplinas, este aspecto me parece fundamental, pois coloca o desafio da tolerância e humildade em oposição a fundamentalismos e legalismos intolerantes. Ou seja, por ser a verdade última somente “conhecida” no âmbito do infinito (Deus), ela jamais pode ser reduzida e absolutizada no âmbito do finito, pois, quando reduzida ao âmbito do finito, redunda em intolerância e exclusivismos.

IHU On-Line - Em que sentido o pastor Lutero é visto como um “pai” por seus fiéis, o que permite compreender por que se celebra até hoje a Reforma?

Wilhelm Wachholz - Lutero afirmou certa vez sobre si mesmo: “Eu peço que a gente se cale sobre o meu nome e não se denomine de ‘luterano’, mas de cristão. O que é Lutero? A doutrina não é minha. Assim eu também não fui crucificado por ninguém”. É importante observar que o dia 31 de outubro não é dia de nascimento nem de falecimento de Lutero. Neste dia, lembra-se o Dia da Reforma. Portanto, a rigor, não se trata de lembrar Lutero, mas para aquilo que ele aponta. Neste sentido, é significativa a gravura de Cranach, pintor da Reforma, em que Lutero é retratado sobre um púlpito, pregando diante da comunidade, apontando para a cruz, onde se encontra o Cristo crucificado. A importância de Lutero, portanto, não está nele, mas naquele ao qual ele apontou: Cristo. Toda a teologia de Lutero não foi luterana, mas cristocêntrica. O luteranismo, portanto, se tornaria incoerente se tirasse Cristo do centro e colocasse lá Lutero ou quem quer que fosse.

IHU On-Line - Na última entrevista que o senhor nos concedeu, falou algo sobre o batismo em Lutero. Pode aprofundar essa questão a partir da visão teológica luterana?

Wilhelm Wachholz - Lutero combateu qualquer tipo de efeito mágico do batismo. O proveito ou a eficácia do batismo não está no rito em si – por este motivo, Lutero combateu o princípio do ex opere operato (pela obra realizada) -, mas no fato de ser dom da graça ofertado e recebido pela fé. Ou seja, o batismo não serve para nada se não for acolhido pela fé e vivido pelo amor. Assim, toda a vida de uma pessoa cristã é um batismo e o cumprimento do que o batismo significa: morrer para o pecado e renascer em Deus. Ele próprio dizia sobre seu batismo: “Eu não fui batizado, mas sou batizado”. Portanto, o verbo batizar precisa ser assim conjugado: 1) de forma passiva, como obra sofrida, realizada por Deus, e 2) não ficar restrito à conjugação do passado, mas ser também sempre conjugação no presente. Lutero defendeu o batismo de crianças, a exemplo do que já vinha sendo praticado na Igreja desde a Antigüidade. De um lado, defendia esta compreensão, afirmando a fé substitutiva dos pais, padrinhos e da Igreja, que assumem a responsabilidade de cultivar a fé na criança batizada. Esta compreensão é importante, pois resgata a compreensão comunitária do batismo; toda comunidade é responsável pelos seus batizados, a começar pelos pais.

O batismo é dádiva, graça de Deus

Por outro lado, e muito mais importante para a defesa do batismo de crianças, é o fato de ser o batismo dádiva, graça de Deus. Segundo Lutero, o batismo de crianças é a expressão absoluta da graça de Deus. Através do batismo de crianças, fica radicalmente expresso que nenhuma pessoa pode fazer algo para se tornar filha de Deus. É Deus que torna a pessoa filha através do batismo. Não depende da pessoa querer ou não ser filha de Deus. Por isso, segundo Lutero, a fé não faz o batismo, mas somente o recebe. Assim, ao se batizar crianças, deve-se fazê-lo na esperança de que cheguem à fé a ser concedida pelo próprio Deus. Por isso, o batismo somente terá eficácia, não pelo rito realizado, mas se assumido e vivido diariamente. Neste sentido, batismo é presente duplamente: presente como dádiva e caminhada de fé no presente, diária.

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>> Confira outra entrevista concedida por Wilhelm Wachholz à IHU On-Line. Acesse nossa página eletrônica www.unisinos.br/ihu

Entrevista:

* Triglaw: a proteção pomerana, publicada na IHU On-Line nº 271, de 01-09-2008, cujo tema de capa é Pomeranos: 150 anos de histórias e contradições

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