Edição 278 | 20 Outubro 2008

O vexame da economia da bolha financeira é também o vexame da esquerda pós-moderna

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart e Patricia Fachin

Para Robert Kurz, o Estado não pode estancar a desvalorização, mas apenas administrá-la

Quando aceitou conceder a entrevista a seguir por e-mail para a IHU On-Line, o ensaísta alemão Robert Kurz admitiu que preferia analisar a crise financeira por si só, ao invés de relacioná-la com as teorias de Marx, como foi nossa proposta. E ele acabou conseguindo nos presentear com uma rica e profunda análise do crítico período financeiro pelo qual passa nosso mundo, sem deixar de ressaltar a importância de Karl Marx para compreendermos essa fase. Nas suas respostas, Robert Kurz afirma contundentemente que “os recursos materiais e os agregados científico-tecnológicos, bem como as capacidades e necessidades humanas não podem mais ser comprimidas nas formas básicas do capital. Ou, como Marx o formulou nos 'fundamentos', ‘desaba o modo de produção baseado no valor de troca’; manifesta-se a ‘desvalorização do valor’ enquanto limite histórico da valorização do capital”.

Nascido em 1943, Kurz estudou Filosofia, História e Pedagogia. É co-fundador e redator da revista teórica EXIT! - Kritik und Krise der Warengesellschaft (EXIT! - Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria). A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica ao Iluminismo e a relação entre cultura e economia. Publica regularmente ensaios em jornais e revistas na Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil. Entre seus livros publicados em português, citamos O colapso da modernização (São Paulo: Paz e Terra, 1991), O retorno de Potemkin (São Paulo: Paz e Terra, 1994) e Os últimos combates (Petrópolis: Vozes, 1998).

IHU On-Line - Em que sentido as teorias de Marx são importantes para se compreender o atual momento de crise no sistema financeiro global?

Robert Kurz - A importância da crítica da economia política feita por Marx, para se explicar a grande crise financeira atual, evidencia-se inicialmente em dois níveis: por um lado, um aspecto fundamental é sua derivação da forma monetária no primeiro volume de O capital; por outro, em sua análise do crédito, principalmente no terceiro volume. Nessas questões, aqui, somente poderei tratar alguns pontos elementares. A economia burguesa clássica e neoclássica parte, contrafaticamente, de uma pura economia de bens e de relações naturais de troca entre os sujeitos do mercado. Ela abstrai do dinheiro e fala do “véu do dinheiro” sobre as transações econômicas “propriamente ditas”. O dinheiro, aí, aparece como mero signo, sem teor próprio, como constructo jurídico baseado numa convenção social ou num decreto governamental. Para que a economia funcione, importa apenas adequar a quantidade de dinheiro à quantidade de bens (teoria da quantidade). Para Marx, em contrapartida, o dinheiro não é o “véu” secundário, mas premissa e veículo central, fim em si mesmo, da valorização (Verwertung) capitalista. Ele é a forma de apresentação geral do valor incorporado nas mercadorias, ou seja, do valor agregado, o qual precisa voltar a se transformar na forma monetária, que, por sua vez, já representa seu ponto de partida. Por isso, o dinheiro não pode ser mero signo, mas precisa ter, ele próprio, o caráter de mercadoria, inclusive de “rei” das mercadorias. O dinheiro é “mercadoria genérica” colocada à parte, ou o “equivalente genérico”, cujo “valor utilitário” não consiste em sua utilidade concreta, mas em sua propriedade de representar o valor abstrato ou valor agregado de todo o mundo das mercadorias. Para as transações cotidianas, é verdade que signos monetários podem tomar o lugar da mercadoria-dinheiro propriamente dita, mas, em última instância e principalmente nas crises, o real conteúdo de valor do dinheiro precisa ser resgatado como “mercadoria régia”. Por isso, para Marx, o dinheiro não pode emancipar-se totalmente dos metais nobres como mercadoria monetária; isto não por causa do caráter metálico natural, mas em função do valor social ali representado de forma “concentrada”.

A questão do crédito e dos juros

O crédito emana da subdivisão do capital em capital de produção ou capital-mercadoria, por um lado, e capital monetário ou capital-que-rende-juros, por outro. A duplicação da mercadoria em “mercadoria vulgar” (gemeiner Warenpöpel) e dinheiro como “mercadoria régia” repete-se no nível do capital. Na economia burguesa, não existe conexão sistemática entre teoria monetária e teoria do crédito. A noção do dinheiro como “véu” e mero signo encontra-se em contradição com a noção do capital monetário a gerar lucros, como uma espécie de produção sui generis de mercadoria. Grosso modo, fazem de conta que a “indústria financeira” seria uma produção de mercadorias tão real quanto, por exemplo, a indústria automotiva. O juro parece uma forma independente de valor agregado. Marx, em contrapartida, mostra o caráter ilusório dessa noção. Ele comprova que o crédito, ou capital que gera lucros, é apenas uma forma derivada, sem formação própria de valor. O juro é o preço da função capitalista do crédito, preço este que precisa ser subtraído do valor social agregado da real produção de mercadorias. Na estatística burguesa, em contrapartida, os “produtos” do capital monetário são somados ao produto social, com o que se distorce o quadro real de valores.

Dinheiro x Dólar

No século XX, o dinheiro e todo o sistema monetário emanciparam-se definitivamente do ouro como mercadoria monetária real – na aparência; o último lance dessa emancipação foi o abandono da convertibilidade do dólar em ouro em 1973. Isto se correlaciona com o fato de que, no período subseqüente, o capital monetário também se desacoplou cada vez mais da real produção de mercadorias. O crédito inflado gerou não só formidáveis montanhas de dívidas, que sempre precisavam ser “roladas”, mas adquiriu uma forma de circulação independente de títulos financeiros (ações, títulos hipotecários, derivativos), onde se criaram valores fictícios de dimensões astronômicas. Na ótica positivista, tratava-se simplesmente de “fatos” que pareciam fundamentar-se a si próprios. Até mesmo teóricos da esquerda explícita ou implicitamente abandonaram a teoria marxista do dinheiro e do crédito, porque na aparência ela estava refutada empiricamente.

A contradição que explica a crise

Esse período de 35 anos desde o fim da convertibilidade do dólar em ouro, que é um período histórico breve, encerrou-se, entretanto, em 2008. Agora se mostra o verdadeiro caráter desse processo. Num processo secular, o capital, em função de crescentes custos preliminares da produção baseada em tecnologia científica, ficou cada vez mais dependente do crédito como antecipação de real valor agregado futuro. As bolhas financeiras crescentes e excessivamente infladas nas últimas décadas, arrebentaram, de uma vez por todas, a conexão entre “capital fictício” e real produção de valor agregado; a antecipação do valor agregado futuro jamais poderá ser resgatada. Essa contradição amadureceu e se descarrega como crise financeira global. Isto destrói não só a ilusão de um crescimento “tocado pelas finanças”, mas também a ilusão do dinheiro como mero signo. Até o momento, o ouro passa por dramática valorização frente a todas as moedas. Mas a remonetarização do ouro não é possível, porque as potências de produção alcançadas historicamente nem podem mais ser representadas como “riqueza abstrata” (Marx) em forma de valor agregado. A desvalorização do dinheiro corresponde à desvalorização da massa de mercadorias. Em outras palavras: os recursos materiais e os agregados científico-tecnológicos e as capacidades e necessidades humanas não podem mais ser comprimidas nas formas básicas do capital. Ou, como Marx o formulou nos “fundamentos”, “desaba o modo de produção baseado no valor de troca”; manifesta-se a “desvalorização do valor” enquanto limite histórico da valorização [Verwertung] do capital.

O Estado como último credor

Nessa situação, o Estado aparece como lender of last ressort [credor de último recurso]. Para a teoria burguesa, o Estado não é o outro lado, o lado político da relação de capital, mas uma “instância extra-econômica”. Também na esquerda, a ilusão do Estado tem uma longa tradição. Marx não chegou mais a concluir a formulação da sua teoria do Estado. Mas já nos escritos da sua fase inicial ele criticou a ilusão estatal-política como “falsa causa pública”. Em sua teoria do crédito, no terceiro volume de O capital, o crédito do Estado é definido como forma especial do capital fictício, que continua dependente da real valorização do capital. Na verdade, o vexame da ilusão estatal não é de hoje, ilusão esta que esteve em alta após a grande crise na primeira metade do século XX. No Ocidente, a regulação estatal keynesiana e o crescimento induzido pela expansão do crédito estatal no início dos anos 1980 fracassaram por causa da inflação sem limites. No Leste, o capitalismo estatal soviético do “resgate da modernização”, no final dos anos 1980, ficou inadimplente e entrou em colapso. Estas já eram formas em que se apresentava a histórica “desvalorização do valor”. Na virada neoliberal, a intervenção do Estado, supostamente “extra-econômica”, foi responsabilizada pelo dilema e substituída por um radicalismo de mercado. Essa virada, porém, não superou a barreira interior da valorização, mas, mediante uma política de desregulação e da inundação monetária pelos bancos centrais, apenas abriu as comportas para uma expansão do crédito privado e da economia baseada na bolha financeira como nunca se viu.

O Estado: novamente o salvador?

Depois que também esta ilusão estourou e o mercado falhou grandiosamente, repentinamente pretende-se que o Estado seja novamente o salvador. Só que o problema não pode mais ser resolvido com nova inundação monetária por parte dos bancos centrais estatais, mediante uma convencional redução da taxa de juros. Acontece que esse tipo de inundação monetária sempre ainda pressupõe a ficção de uma “cobertura” por processos reais de valorização, a qual já se tornou ilusória. Os bancos comerciais somente ainda conseguem depositar nos bancos centrais “garantias” que deixaram de sê-lo, porque consistem em grande parte de títulos podres. Isto impede que se inflem novas bolhas financeiras da forma convencional. O colapso dos créditos hipotecários somente foi o catalisador de um processo de desvalorização de todo o capital financeiro, que vai muito além. Por isso, agora, a crise é elevada ao nível da “última instância”, isto é, das próprias finanças públicas. Só que o Estado não é um demiurgo independente das leis da valorização do capital. Já no ano fiscal recém-passado, a dívida pública dos Estados Unidos triplicou ainda antes da recente crise dramática; e, no caso de se invocarem as garantias estatais concedidas em todo o mundo, o resultado somente pode ser uma grande crise das finanças públicas. O Estado não pode estancar a desvalorização, mas apenas administrá-la; ou em forma de deflação, caso ponha limite em seu próprio endividamento, ou em forma de inflação, caso saia imprimindo cédulas sem toda e qualquer “cobertura”. Nesta situação nova na História, talvez até ocorram processos deflacionários e inflacionários em paralelo.

IHU On-Line - O que representa, na atual crise, a teoria marxista do trabalho abstrato como substância do capital?

Robert Kurz - A economia burguesa clássica baseava-se, ainda, numa teoria do “valor do trabalho”. O valor devia, em última instância, ser determinado pelo trabalho humano. Acontece que essa teoria do “valor do trabalho” era acrítica e incoerente. A teoria marxista da determinação do valor e do valor agregado mediante trabalho abstrato é fundamentalmente diferente. O conceito de trabalho abstrato é entendido de forma crítica e estritamente negativa como “abstração real” da produção concreta de bens. No processo de produção e circulação do capital, a atividade produtiva é reduzida, em sua forma social, ao dispêndio [Vernutzung] abstrato de energia humana ou aplicação de mão-de-obra abstrata como “gasto [Verausgabung] de nervo, músculo, cérebro” (Marx), onde o teor concreto desse gasto é totalmente indiferente. A massa de trabalho abstrato, uma vez realizada, se apresenta como massa de valor social e como “valor objetificado” [Wertgegenständlichkeit] dos produtos. Na “valorização do valor”, o que interessa não é a massa de valor em si, mas apenas a massa de valor agregado, a qual é distribuída aos diferentes capitais pelo mecanismo da concorrência. A valorização como fim em si mesmo transforma em fim em si mesmo também o trabalho abstrato que lhe dá origem, trabalho esse que forma a substância do capital como gasto de energia humana abstrata.

Do valor para a relação funcional

O neoclassicismo burguês abandonou a teoria clássica do “valor de trabalho”. O valor foi reduzido ao preço, sendo entendido não mais como substância comum das mercadorias, mas como mera função na inter-relação das mercadorias. Correlato disso foi que a filosofia burguesa passou do “conceito de substância” para o “conceito de função”. Pretendia-se eliminar o problema da substância, transformando-o numa relação funcional vazia. A “matematização” dos “modelos” neoclássicos baseia-se nessa transformação do valor numa relação estritamente funcional. Com isto, a teoria do valor foi adaptada à teoria do dinheiro enquanto mero “signo”. Essa “teoria circulatória” funcional do valor, no meio de língua alemã, de certo modo, também conseguiu entrar numa assim chamada “releitura de Marx”, na qual a teoria crítica marxista do “valor de trabalho” era rejeitada, por ser “naturalista” ou “substancialista”, negando-se que o dinheiro tivesse caráter de mercadoria.

A questão da mão-de-obra

Como na economia burguesa, isto exclui, por princípio, uma barreira interior absoluta da valorização. A redução a uma relação funcional torna o valor atemporal e eternamente regenerável, na aparência. Marx, em contrapartida, mostrou que o desenvolvimento capitalista contém uma autocontradição elementar. Por um lado, a energia humana abstrata forma a substância real do capital; por outro lado, a concorrência força constante desenvolvimento da capacidade produtiva, a qual torna supérflua a mão-de-obra humana e solapa a substância do valor. Até a segunda revolução industrial do fordismo, esse processo secular de desvalorização das mercadorias podia ser compensado por meio do mecanismo do “valor agregado relativo”, analisado por Marx: pelo desenvolvimento da capacidade produtiva, o valor da mercadoria “mão-de-obra” [Arbeitskraft] cai na escala social e a participação relativa do valor agregado na massa total de valor aumenta. Essa participação relativa aumentada do valor agregado, porém, está relacionada com o número de “mãos-de-obra” [Arbeitskräfte, trabalhadores, funcionários] produtivamente utilizáveis. Marx não chegou a concluir sua teoria da crise, mas implicitamente ela faz inferir que o desenvolvimento da capacidade produtiva chega a um ponto em que o número de “mãos-de-obra” produtivamente utilizáveis se reduz a tal ponto que a massa de valor agregado absoluto cai. Então, mesmo o aumento do valor agregado relativo por mão-de-obra de nada serve. Esse ponto é atingido com a terceira revolução industrial da micro-eletrônica. O histórico mecanismo de compensação do valor agregado relativo se extingue, a massa real absoluta de valor agregado cai e a “desvalorização do valor” leva à “des-substancialização do capital”.

O capitalismo reduzido às suas reais condições de valorização

Este é o motivo pelo qual, no período anterior, se podia simular mais valorização somente por meio de bolhas financeiras desprovidas de substância. Quando estas estouram, entretanto, não se atinge novo “ponto zero”, a partir do qual a valorização real possa recomeçar. Ao invés, o capitalismo é reduzido às suas reais condições de valorização, cujo padrão de capacidade produtiva é irreversível. Essa teoria substancial da crise, que fala de uma barreira inferior absoluta do capital, muitas vezes foi criticada como “tecnológica” justamente pela esquerda. Mas não se trata, no caso, do aspecto técnico, mas do efeito da tecnologia sobre as condições da valorização. Marx não formulou uma teoria funcional do valor em termos “atemporais”, e sim a teoria de um desenvolvimento histórico e dinâmico do capital como deslocamento da substância real, veiculado pela crescente aplicação dos potenciais científicos e tecnológicos e que não pode ser infinitamente prolongado.

A tensão na administração da crise

Sobre isto ainda cabe fazer duas observações. Em primeiro lugar, as categorias de Marx são categorias reais de uma lógica da sociedade como um todo, a qual se baseia nos fenômenos empíricos, mas não pode ser descrita de forma diretamente empírica. Isto porque empiricamente o capital não se desloca apenas em veiculações complexas e contraditórias, mas a real agregação da substância de valor social sempre se apresenta apenas em retrospecto. A estatística burguesa nunca capta a real massa de valor ou valor agregado, mas apenas os fluxos superficiais de mercadoria e dinheiro, os quais produzem uma imagem distorcida. Por isso os crashes também não são previstos, mas apresentam-se de forma eruptiva, quando a lógica basal irrompe a empiria, como, ao que tudo indica, é o caso atualmente. As curvas caóticas e os saltos descontrolados, por exemplo, do câmbio ou dos índices da bolsa necessariamente precisam ser atribuídos à natureza não-empírica do capital e sua evolução substancial. Isto não está ao alcance de uma teoria categorial permanente ou afirmativa, que só consegue ficar correndo atrás dos fenômenos imprevisíveis. Além disso, a barreira da valorização é estritamente objetiva. Aquilo que “desaba” por entre as curvas é a capacidade de o capital reproduzir-se socialmente. Mas o que não desaba por si mesmo são as formas de consciência ou “formas de pensamento objetivas” constituídas pelo capital (Marx). Ao se alcançar o limite histórico do capitalismo, surge por isso uma tensão colossal entre a impossibilidade de continuar uma valorização real e uma mentalidade generalizada que interiorizou as condições capitalistas de existência e não quer nem consegue imaginar outra coisa senão viver dentro dessas formas. A difícil tarefa está em resolver essa tensão no processo de resistência contra a administração da crise, ou o capitalismo desembocará numa catástrofe mundial. Para isto não está preparada uma esquerda que se ajustou cada vez mais ao desenvolvimento capitalista.

IHU On-Line - Quais as conseqüências da crise financeira para o nível de emprego em escala mundial?

Robert Kurz - Desde o início da terceira revolução industrial nos anos 1980, os novos potenciais de racionalização eliminaram a mão-de-obra industrial do processo produtivo numa escala nunca vista antes. Em conseqüência, de ciclo em ciclo, aumentou o desemprego e o subemprego em massa na escala global. O reverso da medalha foi a simulação da valorização pelo inchaço de “capital fictício”. Diferentemente de épocas anteriores do capitalismo, entretanto, não ocorreu uma desvalorização rápida do capital monetário destituído de substância, para dar lugar à nova acumulação real. Em vez disso, por falta de novas possibilidades de valorização real, iniciou-se uma imbricação sem precedentes históricos entre economia baseada na bolha financeira e a conjuntura. Os “valores fictícios” não ficaram restritos ao Éden financeiro, mas por longo tempo e em medida crescente foram transferidos para a aparente economia real. Assim surgiu o famoso crescimento “tocado pelas finanças”, que parecia desancar as leis econômicas do capitalismo e permitiu uma onda de altas de conjuntura deficitárias, que na realidade não tinham fundamento sólido. Embora o desemprego em massa aumentasse, ele era mantido em relativos limites porque, no bojo das conjunturas deficitárias, criaram-se, por assim dizer, “postos de trabalhos fictícios” que se alimentavam das bolhas financeiras desprovidas de substância.

A distinção entre “trabalho produtivo” e “improdutivo”

Para se compreender essa evolução, é importante a distinção de Marx entre “trabalho produtivo” e “improdutivo”. Todas as atividades no contexto formal capitalista são trabalho abstrato, o qual é representado em dinheiro. Mas nem todo trabalho abstrato é produtivo em termos capitalistas, nem contribui para a massa de valor agregado social real. Certas funções da relação de capital são, em si, improdutivas e com “custos mortos”. Mas também a atividade produtiva industrial pode tornar-se improdutiva em sentido capitalista, quando ela excede a capacidade [Fassungsvermögen ] da real produção de valor agregado (“capacidades ociosas”). Todos os resultados do trabalho abstrato assumem a forma de mercadoria enquanto “objetividade de circulação”. Ao conseguirem um preço, eles assumem uma parte da massa de valor agregado social, não vindo ao caso se sua produção contribuiu ou não para essa massa. Esse caráter social global [gesamtgesellschaftlich] da produção de valor e de valor agregado não fica muito claro em Marx, razão pela qual surgiu o famoso problema da transformação valor–preço. Entretanto, esse problema se resolve quando a massa de valor agregado social não se baseia numa soma de valores “individuais” de mercadoria, mas representa uma massa substancial, social global, não quantificável em termos de administração de empresas; sua quantidade se revela somente pela concorrência no nível da circulação. Isto não torna irrelevante o problema da substância, mas nada tem a ver com uma substância de valor da mercadoria individual.

Uma ocupação improdutiva

Que significa isto para a era da economia baseada na bolha financeira? A queda da massa de valor agregado social real foi mascarada, na aparência, pelo “valor agregado fictício” do sistema de crédito inflado. Dessa forma, gerou-se uma ocupação improdutiva que ultrapassava em muito a capacidade [Fassungsvermögen] da real produção de valor agregado. Em primeiro lugar, junto com a “indústria financeira”, o emprego nesse setor inchou de forma desproporcional, emprego esse que não produz valor algum, apenas intermedia transações financeiras. Além disso, criou-se um setor igualmente desproporcional de serviços pessoais improdutivos em termos capitalistas, de indústria publicitária, indústria da informação e da mídia, indústria do esporte e da cultura. Justamente nesses setores, o desprovimento de substância se implementou, por um lado, como remuneração astronomicamente excessiva de uma pequena elite de astros e, por outro, como precarização em forma de freelancers, pseudo-autônomos e empresários da miséria. Em terceiro lugar, a conjuntura deficitária global forçou a ocupação de uma “aristocracia de trabalhadores” nas indústrias de exportação (produção automotiva, máquinas), a qual era igualmente improdutiva porque se baseava não em lucros e salários de real produção de valor agregado, mas era alimentada pelas bolhas financeiras.

O sistema do trabalho abstrato leva a si próprio ao absurdo 

Na mesma medida em que o estouro das bolhas financeiras reduz o capitalismo às suas reais condições de valorização, também boa parte do emprego improdutivo terá de cair. A real massa de valor agregado é muito pequena para que se possa descrever a “objetividade de circulação” desses setores inflacionados como “objetividade de valor”. A depressão global a ser esperada levará de roldão não só grande parte dos financistas capitalistas “donos do universo”, mas também boa parte dos que deles dependem: precárias prestadoras de serviço, freelancers, baixo-assalariados, trabalhadores temporários, assim como empregos na indústria de exportação. O sistema do trabalho abstrato leva a si próprio ao absurdo; e o capitalismo global minoritário sofre seu Waterloo, mesmo que ninguém queira tomar conhecimento, embora todos o saibam intuitivamente.

IHU On-Line - Em que consiste o peso do capitalismo na sociedade de hoje, caracterizada por relações virtuais, trabalho imaterial e autonomia?

Robert Kurz - Os conceitos citados provêm todos da ideologia pós-moderna, que desde o começo acompanhou e formulou o capitalismo financeiro neoliberal do “capital fictício” inflacionado. Já em fins dos anos 1970, em seu livro A troca simbólica e a morte (São Paulo: Loyola, 1996), Baudrillard  explicitou a relação com a economia ao estabelecer o “capital fictício” como novo princípio de realidade. Também Derrida, num texto sobre “dinheiro falso”, afirmou a virtualidade do capital. A pós-moderna rejeição radical do “essencialismo” ou “substancialismo” corresponde à tentativa do capital de contornar espertamente o seu próprio problema de substância, de certa forma “aristotélico”. O culto da “virtualidade” contagiou todas as esferas da vida, até mesmo as relações pessoais. A redução de valor a uma relação funcional levou à paradoxal “absolutização da relatividade”, que, no entendimento vulgar, se refletiu como “arbitrariedade”. O virtualismo econômico correspondia ao virtualismo tecnológico da internet, que sofreu a mutação para o “second life” de individualizadas existências abstratas de bloggers, os quais são incapazes de se organizar e de resistir em termos reais.

E a esquerda?

A esquerda pós-moderna acabou órfã desse processo, o qual reduziu a luta social ao nível virtual e simbólico. O “pós-operarismo” de Antonio Negri  exprime essa ideologia. O fetichismo objetivo do capital é negado e, juntamente com a crise, reduzido a subjetivas relações de vontade. O lugar da crítica radical do trabalho abstrato e da forma [abstrata] de valor é tomado pela ilusão de uma “autovalorização autônoma” de freelancers de um “trabalho imaterial”. Esse conceito não faz sentido [nonsense], porque todo trabalho abstrato, mesmo que não leve a produtos materiais, é “gasto de nervo, músculo, cérebro”. Só que o “trabalho cognitivo” improdutivo, em termos capitalistas, justamente nada contribui para a real massa de valor agregado social. A “autonomia” dessa forma específica de trabalho abstrato é ilusória, porque continua dependente do mercado mundial. Trata-se da ilusão de uma nova classe média, que perdeu seu fundamento. Quando o capitalismo é reconduzido para suas reais condições de valorização, extingue-se também a “autovalorização” do trabalho abstrato nos setores do “conhecimento” e da comunicação pela mídia. O vexame da economia da bolha financeira é também o vexame da esquerda pós-moderna e do seu “anti-substancialismo” ideológico, que pretende declarar toda e qualquer manifestação de vida como “valorização”. A base dessa ilusão não é econômica, e sim “existencialista”, pois recorre a Heidegger.  Ao estourar a economia da bolha financeira, a “heideggerização” pós-moderna da esquerda corre o risco de desembocar em sentimentos nacionalistas e anti-semitas.


Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Robert Kurz. Acesse nossa página eletrônica www.unisinos.br/ihu

Entrevistas

* "A globalização deve se adaptar às necessidades das pessoas, e não o contrário". Revista IHU On-Line nº 98, de 26-04-2004, intitulada A crise da sociedade do trabalho. Estamos saindo do capitalismo industrial?

* “Novas relações sociais não podem ser criadas por novas tecnologias”. Revista IHU On-Line nº 161, de 24-10-2005, intitulada As obras coletivas e seus impactos no mundo do trabalho.

Últimas edições

  • Edição 505

    Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação da modernidade e da política moderna

    Ver edição
  • Edição 504

    Pier Paolo Pasolini Um trágico moderno e sua nostalgia do sagrado

    Ver edição
  • Edição 503

    A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho

    Ver edição