Edição 276 | 06 Outubro 2008

Exploração da camada pré-sal no Brasil: possibilidade de fomento econômico e geração de emprego diante das perspectivas de extração de petróleo

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Bruna Quadros

O coordenador do curso de Geologia da Unisinos, Gerson Fauth, discutirá o tema na próxima edição do evento IHU Idéias

“Se, de fato, for confirmada a existência de grandes reservas de óleo e gás a ponto de tornar o Brasil um grande exportador, isto representaria uma brusca mudança na ordem econômica do país.” A afirmação é do Prof. Dr. Gerson Fauth, coordenador do curso de Geologia da Unisinos, sobre as especulações acerca da extração de petróleo na camada pré-sal – área de 800 km de extensão que seguem da costa do estado do Espírito Santo até Santa Catarina, englobando as bacias do Espírito Santo, Campos e Santos. Para Fauth, que concedeu uma entrevista por e-mail à revista IHU On-Line na última semana, o êxito das recentes descobertas feitas pela Petrobras se relaciona com as pesquisas básicas, sem fins econômicos, realizadas em nível acadêmico. Ele destacou, também, que a exploração desta camada abre enormes possibilidades de trabalho e melhoria de renda para várias profissões da área técnica, hoje com escassa mão-de-obra em nosso país, bem como para biólogos, administradores e engenheiros.

Gerson Fauth, que no dia 9 de outubro participa do evento IHU Idéias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, é graduado em Geologia pela Unisinos, e mestre em Geociências, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É doutor em Geologia, pela Universität Heidelberg, na Alemanha. Atualmente, é professor e coordenador do curso de Geologia da Unisinos.

IHU On-Line - A descoberta da camada não é recente. No entanto, por que somente agora a exploração no local ganhou força e, da mesma forma, a hipótese de haver petróleo de alta qualidade?

Gerson Fauth - A camada pré-sal vem sendo estudada a mais de uma década pela Petrobras. O êxito das descobertas feitas pela empresa deve-se, muitas vezes, a pesquisas básicas e sem fins econômicos diretos realizados em nível acadêmico dentro e fora da empresa. Ao contrário dos anos anteriores, hoje existem novas e melhores tecnologias nas sondas, na geologia e engenharia, tornando viável um furo de sondagem de 7000m, que atravessa camadas com rochas completamente diferentes.
 
IHU On-Line - Qual o maior desafio ou limitação, do ponto de vista tecnológico, para a extração do petróleo na camada pré-sal?

Gerson Fauth - Existem grandes desafios a serem rompidos. Até poucos anos atrás, existiam grandes interrogações a respeito de como se comportariam as brocas furando 2000m de evaporitos (sais) na Bacia de Santos. Pesquisadores acreditavam que brocas poderiam sofrer grandes desgastes por superaquecimento. Entretanto, estes problemas foram resolvidos com brocas de última geração constituídas de ligas metálicas com maior resistência. Existem várias outras questões que ainda devem ser resolvidas e que passam pelo aluguel das caríssimas sondas (pode chegar a 600 mil dólares/dia), problemas de logística com transporte de pessoal e carga para viagens a 300 km mar adentro, falta de plataformas, possíveis problemas com a falta de aço para construção de novas plataformas no país, falta de uma indústria naval competitiva e a grande falta de profissionais especializados. 

IHU On-Line - Quais os impactos ambientais da perfuração da camada de sal para extração do petróleo?

Gerson Fauth - Todas as perfurações são constantemente monitoradas e oferecem pequenos riscos. As empresas que trabalham nesta área possuem grandes preocupações com o meio ambiente.

IHU On-Line - O que representa, para o campo da geologia, a possibilidade de haver petróleo nesta camada?

Gerson Fauth - A exploração desta camada abre enormes possibilidades de trabalho e melhoria de renda para várias profissões da área técnica, hoje com escassa mão-de-obra em nosso país, bem como para biólogos, administradores e engenheiros. No caso da geologia, as perspectivas são muito animadoras, pois o pré-sal irá requerer muito mais profissionais do que as universidades brasileiras estão formando anualmente. Além disso, hoje, o país está necessitando de muitos geólogos nas áreas da mineração (temos aqui no Brasil as maiores mineradoras do mundo), para trabalhar na questão do meio ambiente e na procura de água (o país possui excelentes reservatórios). A solução do governo para isto está na criação de sete novas escolas de geologia nos últimos dois anos, a redução para a metade dos juros do financiamento do Financiamento Estudantil (FIES) para estudantes de geologia e o aumento considerável das vagas nas antigas escolas de geologia. É bom salientar que as primeiras gotas de petróleo do pré-sal irão sair apenas há aproximadamente cinco anos, ou seja, o mercado para geólogos ainda não “explodiu”.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a possibilidade de a economia brasileira alavancar com a exportação de petróleo, seja ele bruto ou de produtos derivados?

Gerson Fauth – Se, de fato, for confirmada a existência de grandes reservas de óleo e gás a ponto de tornar o Brasil um grande exportador, isto representaria uma brusca mudança na ordem econômica do país. Entretanto, sou muito cético se algumas coisas no Brasil realmente mudariam com esta nova ordem. Hoje, os países que são os grandes produtores e exportadores de petróleo no mundo não possuem distribuição de renda e grande parte da sua população não possui saúde e educação adequadas, vivendo com dificuldades. No Brasil, sempre tivemos enormes problemas no quesito distribuição de renda. Historicamente, tivemos oportunidades de mudanças nesta área. Entretanto, o país sempre privilegiou algumas minorias. 

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