Edição 268 | 11 Agosto 2008

“Cão-de-guarda moral”. A nova Igreja brasileira

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Patricia Fachin

Kenneth Serbin, Prof. Dr. da Universidade de San Diego, EUA, em entrevista exclusiva à IHU On-Line, avalia as mudanças ocorridas no clero brasileiro, e discute questões polêmicas, como a obrigatoriedade do celibato e os crescentes abusos sexuais dentro da Igreja.

Sem ter a pretensão de julgar as atitudes da Igreja Católica ao longo dos anos, Kenneth Serbin, Prof. Dr. da Universidade de San Diego, EUA, atua como um observador da história. Em entrevista exclusiva, concedida por telefone à IHU On-Line, semana passada, ele avalia as mudanças ocorridas no clero brasileiro, e discute questões polêmicas, como a obrigatoriedade do celibato e os crescentes abusos sexuais dentro da Igreja.

Entre tantas observações, Serbin ressalta uma mudança no perfil dos padres. Segundo ele, isso está diretamente relacionado às transformações mundiais ocorridas nos anos 90, e ao modelo neoliberal que pouco a pouco também vem se proliferando pela Igreja. Padres idealistas estão sendo substituídos por jovens seminaristas, que “percebem o fiel como um consumidor de religião”, alerta. E afirma ainda que, diferentemente dos veteranos fundadores da Teologia da Libertação, o novo clero “acredita que o trabalho do padre não é ficar todo o tempo ao lado do povo, mas ser um exemplo para ele”.

A opção pelos pobres, assumida com tanta efervescência pelos seguidores libertários, está perdendo a intensidade, alerta o pesquisador. “Não sei se essa opção ainda vai avançar. Pelo menos não nessa linha que existiu nos anos 60. Haverá, cada vez mais, essa visão da religião como bem de consumo. A linha da libertação vai ter de lutar para sobreviver”. A Igreja vive hoje o que Kenneth Serbin chama de “cão-de-guarda moral”, ou seja, ela “não tem mais aquele sentimento informal da época pré-conciliar, nem aquele embate frontal do período de D. Ivo Lorscheiter”. Segundo ele, a Igreja está atuando como uma conselheira, “sem se envolver em questões sociais como antes”.

Ph.D. em História pela Universidade da Califórnia, Serbin está no Brasil, lançando seu novo livro Padres, celibato e conflito social. Uma história da Igreja Católica no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Ele também é autor de Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura (São Paulo: Companhia das Letras: 2001). Entre um compromisso e outro, o brasilianista nos concedeu a entrevista a seguir.

 

IHU On-Line – Quais são as maiores preocupações dos que optaram por ser padres na Igreja do Brasil? O que eles se propõem fazer como padres?

Kenneth Serbin – O último capítulo do meu livro Padres, celibato e conflito social. Uma história da Igreja Católica no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2008) tem como preocupação discutir os desafios que os padres enfrentam no novo milênio. Além disso, apresenta os dois modelos de padres que estão sendo cogitados no Brasil. Por um lado, temos um arquétipo que pertence à Teologia da Libertação,  traçado nos anos 60, momento histórico de muita turbulência, marcado por protestos estudantis, pela guerrilha no Brasil e pelo surgimento de novas culturas. Nesse contexto de mudanças, surgiu um movimento de seminaristas no país, no qual padres e teólogos desenvolveram um papel muito importante.

O Rio Grande do Sul foi o centro desse movimento que se chamava União dos Seminaristas Maiores do Sul (Usmas).  O grupo preconizou esse modelo de padre mais voltado ao povo, e que, ao invés de morar em grandes seminários como o ex-Seminário Central de São Leopoldo, formado por grandes prédios, optava por ficar em pequenas comunidades. Ele almejava um modelo moderno de formação sacerdotal, ou seja, desejava acompanhar o movimento estudantil, a política, querendo a profissionalização do clero. Os padres, dentro desse modelo, ainda pretendiam ser profissionais: jornalistas, professores, psicólogos, advogados etc. Buscavam, assim, uma maneira de sobreviver independente da Igreja. Como reflexo do movimento dos padres operários na Europa, em 1960, no Brasil muitos sacerdotes foram trabalhar em fábricas. Antes dessa época, eles viviam dos dízimos dos leigos e de benesses das pessoas ricas ou dos ingressos das próprias paróquias ou das dioceses.

Os jovens seminaristas queriam também uma formação integral, ou seja, holística. Em vez de concentrar o seminário na disciplina, propunham uma formação psicológica mais sadia.
Outra grande questão que eles colocaram em pauta nos anos 60 foi a da obrigatoriedade do celibato.  Acreditavam que poderiam ter dois tipos de cleros: um celibatário, que não iria casar nem ter filhos; e um outro clero de casados, mas que poderiam exercer todas as funções dos padres. Claro que a Igreja não aceitou essa proposta, e até hoje esse é um ponto controvertido na Igreja do Brasil. De qualquer modo, o movimento dos seminaristas criou um modelo libertário de padre que atuou com destaque até os anos 80.

Segundo modelo

Na década de 90, por outro lado, surgiu um modelo de padre mais conservador, como Marcelo Rossi.  Esse não enfatiza a relação com o povo, as questões políticas ou sociais. Numa outra perspectiva, estabelece uma ênfase na espiritualidade tradicional, ou seja, fala mais dos santos, das curas que as pessoas obtêm ao rezar e ir à missa, das questões pessoais de família, do comportamento, do casamento. Esse clero acredita que o trabalho do padre não é ficar todo o tempo ao lado do povo, mas ser um exemplo para ele. Embora seja um modelo mais elitista, não quer dizer, de qualquer modo, que esses padres não tenham interesse de manter contato com o povo. Entretanto, eles disseminam suas atividades, sobretudo através da mídia.

IHU On-Line – Que fatores levaram a essa mudança de postura dos padres dos anos 60 para os 90?

Kenneth Serbin – São muitos fatores, mas a grande questão está relacionada à geração. Os jovens seminaristas dos anos 60 – isso se percebia muito no seminário de Viamão - eram idealistas, ou seja, queriam mudar o mundo. Essa geração nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, e viu o Brasil progredir nos anos 50 com a construção de Brasília, a introdução das indústrias automobilística e de bens de consumo. Entretanto, enquanto o Brasil começava a se afirmar como um país capitalista, esses jovens percebiam a pobreza, o crescimento das favelas, a superlotação de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Eles sentiam essas contradições, e queriam que o mundo fosse mais igualitário. Nesse cenário, foram influenciados pela Revolução Cubana, que questionava o capitalismo e o predomínio dos EUA sobre a América Latina.

Mudança de rumo

Acontecimentos como o fim da Guerra Fria, a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética tiraram fôlego do movimento libertário e criou-se assim o modelo neoliberal, que visa à eficiência capitalista. Isso influenciou também a atuação na Igreja. Os jovens que observei em meus estudos percebem o fiel como um consumidor de religião. Diferente de hoje, nos anos 60, ninguém pensava a religião como bem de consumo. Acredito que o seminarista jovem, hoje, reconhece que o Brasil virou um grande mercado de religiões. Isso ocorreu porque, entre os anos 70 e 90, houve um crescimento das igrejas neopentecostais, que passaram a competir com as igrejas católicas.

Além disso, o mundo mudou, e nos anos 90 surgiu uma nova geração de jovens que não estava mais ligada no idealismo. Essa é uma geração mais realista, sem grandes ideais, desejos e modelos para mudar o mundo. Hoje, a religião se tornou mais individualista, isto é, perdeu o sentido de coletivo dos anos 60. 

IHU On-Line – O que motiva um jovem, hoje, a ser padre católico no Brasil e o que motivava no período pesquisado pelo senhor?

Kenneth Serbin – O que motiva os jovens é a salvação da alma das pessoas. Nesse sentido, os seminaristas voltaram para um modelo pré-anos 60, ou seja, o que chamamos de pré-conciliar. 
A Igreja do Concílio Vaticano II  era mais solidária com as questões sociais e deixava de lado a espiritualidade tradicional, focando a salvação das pessoas na terra. Mas os jovens dos anos 1990 e 2000 não visam mais essa posição. Percebo, assim, uma nova preocupação com o “além desta vida”. Essa geração mais recente está recuperando aspectos do catolicismo que foram deixados de lado e ignorados pelos seminaristas dos anos 60.

IHU On-Line – A Igreja latino-americana e brasileira optou pelos pobres. Esta opção é assumida pelos padres formados nos seminários pesquisados pelo senhor?

Kenneth Serbin – Entre as décadas de 1960 e 1980, a opção pelos pobres era abertamente aceita em muitos seminários do Brasil. Era, inclusive, a mais popular, mas hoje em dia ela está desaparecendo. Ainda existem padres, seminaristas e bispos na Igreja do Brasil que estão a favor dessa opção, mas ela não é mais hegemônica como nas décadas anteriores. No passado, todos os bispos achavam importante reconhecer tal opção, e permitiam que os padres agissem nessa linha.

Entretanto, a corrente libertária da Igreja utilizava os conceitos marxistas para interpretar a realidade brasileira. Mas isso não quer dizer que eles fossem comunistas. De qualquer modo, João Paulo II não gostava do envolvimento dos padres brasileiros com a política e tampouco dos questionamentos realizados por Leonardo Boff,  por exemplo, no que se refere às estruturas de poder na Igreja. Começou, então, na década de 80, uma grande pressão do Vaticano para diminuir ou eliminar, no Brasil, essa opção pelos pobres.

No meu livro, relato um embate que ocorreu no Recife, quando fecharam o seminário Serene II (Seminário Regional do Nordeste II), em 1989, por ordem expressa do Vaticano, pois esse seguia a opção pelos pobres e a Teologia da Libertação. Também ordenaram o fechamento do Instituto de Teologia do Recife (ITER). Essas foram grandes perdas para a Igreja do Brasil, na medida em que eram instituições com idéias muito interessantes, contando, inclusive, com teólogas como Ivone Gebara.  Com essas mudanças, a partir dos anos 90 se construiu um perfil diferente de padres. Quando o jovem seminarista procurou o seminário, ele não encontrou mais modelos como Serene II ou ITER.

IHU On-Line – Por que essa pressão do Vaticano para acabar com essa opção pelos pobres?

Kenneth Serbin – Porque João Paulo II, junto com outros elementos conservadores na Igreja do Brasil, tinham medo do comunismo. Devemos lembrar que, nos anos 1960 e 1980, ainda estávamos em plena Guerra Fria. Nesse período, quando o papa veio à América Latina e percebeu que os padres eram engajados, políticos e que tinham simpatia pelo marxismo, ele ficou horrorizado, pois foi justamente contra esse tipo de pensamento que ele lutava, no Leste Europeu. A Polônia foi dominada pelos soviéticos por décadas. Para ele, esse sistema era totalitário, ateu e anti-católico.

IHU On-Line - Para avançar nessas questões (opção pelos pobres), seria necessária uma reforma na formação dos padres, tornando-os mais atuantes nas comunidades? Como o senhor avalia a formação deles nos seminários?

Kenneth Serbin – Não sei se essa opção pelos pobres ainda vai avançar. Pelo menos não nessa linha que existiu nos anos 60. Haverá, cada vez mais, essa visão da religião como bem de consumo. A linha da libertação terá de lutar para sobreviver. Com esse papado, não ocorrerão reformas, questões sociais e políticas não terão grande abertura, pois ele dá continuidade ao mandato de João Paulo II. Bento XVI  tem olhos alemães e observa o mundo dessa forma. Quando ele esteve no Brasil, se sentiu como um peixe fora d’água. O papa João Paulo II era um pastor, enquanto Ratzinger é um intelectual. Por isso, é difícil para o povo brasileiro se sentir empolgado com esse tipo de papa. Penso que a população brasileira não vai à Igreja para ouvir grandes discursos, e sim para sentir Deus no coração. 

Esse impulso de reforma na formação dos padres deve vir dos dois lados. A Igreja do Brasil terá de se auto-afirmar, como continua fazendo. Mesmo apresentando uma posição mais tradicional, enfatizando menos a opção pelos pobres, a Igreja brasileira ainda sente o desejo de independência. Esse sentimento persiste desde a época do padre Feijó,  que propunha uma Igreja na qual os sacerdotes poderiam casar, não precisassem usar batina e pudessem ajudar o povo a melhorar com a agricultura. A Igreja da Libertação pretendia a mesma coisa: autonomia e um modelo brasileiro de formação. Por isso, no Brasil, os padres vivem uma grande tensão com o Vaticano. Eles nascem em terras brasileiras, mas devem obediência ao bispo e ao papa. Nesse sentido, vivem divididos entre a fidelidade à Igreja e ao povo brasileiro, e se questionam: “Como padre, vou acatar o que meu coração brasileiro diz, ou o que ordena o papa, no Vaticano?”. Independente dessas dificuldades, penso que a Igreja brasileira ainda terá vertentes nacionalistas. Surgiram novos movimentos e desejos de expressar um modelo brasileiro de ser Igreja.

IHU On-Line – A religião como bens de consumo é uma tendência mundial?

Kenneth Serbin – Sim. Tudo na vida está virando bem de consumo. Infelizmente, a religião também está seguindo esse caminho. O desafio das religiões é recuperar os valores tradicionais e, nesse sentido, eu concordo com qualquer católico ou mesmo com o papa, que quer recuperar os valores tradicionais. Quando digo isso, me refiro aos valores da religião: como tratamos o nosso próximo, nossos vizinhos na América Latina, por exemplo. Precisamos prestar mais atenção nas questões éticas e morais, e a religião precisa recuperar esses traços.

IHU On-Line - O senhor disse recentemente, numa entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, que a tendência geral da Igreja no Brasil é de agir com muita cautela nas questões sociais. A que se deve essa postura?

Kenneth Serbin – Isso acontece porque o mundo, o perfil da sociedade e a política brasileira mudaram. No Brasil, atualmente, existe o que chamamos de convergência política. Vinte anos atrás, quando Lula era candidato à presidência, líderes da Igreja progressista, como Leonardo Boff e Frei Betto, pediam votos para ele, e o apoiavam publicamente. Havia uma sintonia entre a Igreja libertária e o PT. Hoje, ela não existe mais. Lula tem como grande aliado o Partido Liberal (PL), que é um reduto da Igreja Universal do Reino de Deus . Isso demonstra que o terreno político no Brasil mudou. As diferenças ideológicas dentro do Congresso Nacional, hoje, são muito menores do que no passado. Ou seja, a polarização política, que existia no Brasil nos anos 1960 e levou ao golpe militar de 1964, acabou. Hoje, Lula se entende com Collor,  com a Direita e a com a Igreja Universal. Agora, a Igreja está num contexto onde não há mais polarização, não há mais Guerra Fria. Nesse sentido, observo que ela age com mais cautela, justamente devido a essas mudanças na política.

IHU On-Line – O fato de Lula ter participado de movimentos sociais católicos na juventude deveria influenciar na sua posição frente as questões sociais, atualmente?

Kenneth Serbin – Muitos achavam que, a partir de 2003, seria o momento de o movimento popular no Brasil se afirmar na política. Mas aconteceu o contrário. As relações entre Lula e a Igreja progressista são menos calorosas. O grande eleitorado do presidente são os despossuídos, aqueles que vivem do Bolsa Família, e que por teoria não tinham muita participação na Igreja progressista da época. Aliás, essa foi uma das falhas da Igreja: ela deveria ter atraído mais militantes pobres. Esses, ao contrário, foram para a Igreja Universal do Reino de Deus, para as neopentencostais. Por isso, percebemos hoje não só Lula mas muitos políticos brasileiros participando de comícios com as igrejas evangélicas. Eles sabem que o voto do povo não está só na Igreja Católica. 

IHU On-Line – O senhor pesquisou a gestão da presidência de D. Aloísio Lorscheider e de D. Ivo Lorscheiter na CNBB, durante a Ditadura Militar. Como analisa a longa direção de D. Luciano Mendes de Almeida na CNBB? Quais são as continuidades e as descontinuidades destas gestões com as posteriores?

Kenneth Serbin – D. Aloísio Lorscheider esteve na direção da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) entre os anos 1970 e 1978. Em seguida, assumiu D. Ivo Lorscheiter, que permaneceu até 1986. Ambos estiveram à frente da instituição no período em que a Igreja enfrentou as maiores dificuldades de relacionamento com o governo. Além disso, precisavam lidar com problemas ligados a violação dos direitos humanos e à falta de democracia no país. Entretanto, nas reuniões secretas entre o Regime Militar e os bispos, os irmãos Lorscheiter agiam de maneira diferente. Enquanto D. Aloísio Lorscheider estava disposto a estabelecer um diálogo, D. Ivo Lorscheiter apresentava um posicionamento mais rígido, criticava a falta de liberdade e a política socioeconômica da época.

Nesse período, a Igreja foi uma das poucas instituições que conseguiu se manifestar livremente. Ela representava – como dizia D. Hélder Câmara  – “a voz dos que não tinham voz”. 
Com a volta da democracia em 1985, e depois com as eleições de 1986, a Igreja não precisou mais “falar em nome dos oprimidos”, pois se instituiu a liberdade de expressão no país, abrindo espaço para o surgimento de novos movimentos sociais e sindicatos, que passaram a desempenhar um papel significativo na área dos direitos humanos, por exemplo.  

Com a democracia instituída, o sucessor da CNBB, D. Luciano Mendes de Almeida , que permaneceu na presidência por oito anos, atuou num contexto totalmente diferente. Na gestão dele, ocorreu o impeachment do presidente Collor, eleito em 1989. Nesse momento, as preocupações da Igreja estavam centradas no debate da ética na política e na vida pública. Com a posse dele, ficou clara a volta de uma Igreja mais conservadora, sob o papado de João Paulo II.

Continuidades

Depois da gestão de D. Luciano Mendes de Almeida, a Igreja passou a apresentar uma atitude, a qual chamo de “cão-de-guarda moral”, ou seja, ela não tem mais aquele sentimento informal da época pré-conciliar (antes do Concílio do Vaticano II), que mantinha com Getúlio Vargas  e Juscelino Kubitschek,  nem aquele embate frontal do período de D. Ivo Lorscheiter. Agora, ela continua com suas posições morais, mas denuncia o que considera imoral na sociedade brasileira, como a falta de políticas sociais adequadas. Ela atua mais no sentido de aconselhar, advertir, ou seja, simplesmente chama a atenção para os fatos. Desse modo, ela não se envolve mais nas questões sociais como antes.

IHU On-Line – O último Encontro Nacional de Presbíteros solicitou que a Igreja revisse a lei do celibato, tornando-o opcional. A CNBB não encaminhou o pedido ao Vaticano. Como explicar tanta resistência da Igreja a mudanças no que diz respeito ao celibato? O que uma mudança de posicionamento por parte da Igreja poderia representar para a comunidade católica?

Kenneth Serbin – A discussão do celibato sempre esteve presente na história do Brasil. Essa é uma questão política de interesse nacional. Na época do padre Feijó, o tema foi debatido na Assembléia Nacional. Nos anos 1960, o assunto foi tratado entre seminaristas e bispos, os quais reconheciam a necessidade de mudança. Mas a contestação foi barrada e proibida pelo papa Paulo VI . Ou seja, o Concílio Vaticano II foi a maior reforma nos dois milênios da história da Igreja, e ainda assim, não tocou nessa questão. Pelo contrário, Paulo VI reafirmou o celibato como obrigação dos padres. Isso foi uma tragédia para a Igreja do Brasil, porque ela perdeu, entre os anos 1965 e 1980, mais ou menos três mil padres.  

Uma vida paralela

No Brasil, muitos padres, embora continuassem exercendo o sacerdócio, constituíram família; e acredito que essa continua sendo uma prática nos dias atuais. Esses homens sofrem muito, e por isso mantêm relacionamentos paralelos. Em Um espinho na carne. Má conduta e abuso sexual por parte de clérigos da Igreja Católica do Brasil (Santuário, 2002), o padre norte-americano Gino Nasini, que atua no Brasil há anos, mostra que muitos sacerdotes ainda mantêm relações com mulheres. Isso acontece porque eles nunca aceitaram o celibato. Do mesmo modo, os leigos nunca se importaram com essas questões. Essa era uma preocupação dos bispos, e foi uma das causas que motivaram a instalação de seminários no Brasil. Até a época do padre Feijó, existiam poucos seminários no país e a formação seminarística era fraquíssima. A Igreja investiu nesses colégios justamente para implantar o celibato. Lá, isolavam meninos de oito e nove anos, os quais não podiam ter contato com as mães e outras mulheres. Só visitavam a família em ocasiões especiais. Por que tudo isso? Para formar padres celibatários.

Divisão na Igreja

Em 2003, um estudo realizado pelo Ceris (Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais), órgão da CNBB, mostrou que 42% dos padres querem que o celibato seja opcional, ou seja, quase metade dos sacerdotes. Só que o papa e a Igreja não aceitam esse debate.

Os bispos reivindicavam essa mudança, porque percebiam que estavam perdendo sacerdotes. Além disso, os católicos são somente 73% da população, e a cada ano está diminuindo a proporção católica na sociedade brasileira. Não bastasse isso, as igrejas neopetencostais estão construindo mais templos, formando pastores em menos tempo e liberando-os para casar. Em contrapartida, na Igreja Católica a proporção de padres disponíveis para atender a população é muito desigual. São mais de 10 mil fiéis para cada padre. Como a Igreja vai dar atenção a essas pessoas se não existem mais padres?  Se permitissem o casamento dos sacerdotes, acredito que surgiriam mais vocações na Igreja brasileira. A comunidade católica iria se beneficiar dessa questão, pois, além de permitir a volta dos padres casados, iria regularizar a situação dos que vivem, segundo a Igreja, em pecado. 

IHU On-Line - No livro Padres, celibato e conflito social. Uma história da Igreja Católica no Brasil, o senhor afirma que desde os anos 30 padres cometiam abuso sexual e não eram punidos. O senhor acredita que os bispos continuam ignorando essa realidade? Por que é tão difícil para a Igreja se posicionar rigidamente diante desses acontecimentos?

Kenneth Serbin – Sim. Eles continuam ignorando a realidade e colocando o lixo embaixo do tapete. Nasini constatou que 10% dos padres brasileiros cometem abusos sexuais. Ele inclui, nesse estudo, padres que mantêm relacionamentos com mulheres. Discordo dele nesse sentido, porque penso que esses sacerdotes não praticam abuso sexual. Nesse caso específico, ambos (o padre e sua companheira) vivem um relacionamento difícil, proibido, pois a Igreja não permite a união.

De qualquer modo, sabemos que é relevante o número de sacerdotes abusando de crianças, mulheres e homens. Entretanto, quantos bispos questionam isso? Quantas pesquisas existem sobre esse fato? E as punições? As penalidades que conheço são realizadas pela justiça. Raramente sai uma notícia no jornal mostrando, por exemplo, que um padre foi processado por abusar uma crianças.

Exemplo americano

Quando foram noticiados casos de abuso sexual nos EUA, o Vaticano disse que eles eram um problema local. A mídia americana, como sempre, não pesquisou a situação em outros países. Mas, ao tomar conhecimento dessas práticas, a Igreja norte-americana criou uma comissão especial, instituiu regras novas, fez uma devassa em toda a Igreja para acabar com aquele tipo de comportamento. A Igreja do Brasil ainda não enfrentou essa questão. A imprensa brasileira não está interessada em pesquisar o assunto, e a sociedade é tolerante com esse tipo de problema.

Claro que isso não acontece apenas no Brasil. Desde os anos 1930, nos EUA, por exemplo, quando um padre abusava sexualmente de alguém, e era descoberto pelo bispo, simplesmente era transferido, sem receber qualquer punição. Tampouco era excomungado.

No meu livro, relato o caso de um padre que abusava de seminaristas, e, ao ser descoberto, foi transferido para trabalhar com crianças. Isso é uma hipocrisia muito grande. Então, como se pode perceber, a Igreja do Brasil passa pela mesma crise moral que passou a Igreja dos EUA. A responsabilidade de mudar essa realidade cabe não só aos padres brasileiros, mas também ao papa.

IHU On-Line - Há semelhanças entre a Igreja Católica do Brasil e dos EUA? Em quê? Quais são as principais diferenças entre elas?

Kenneth Serbin – A Igreja nos EUA sempre foi minoritária, e nunca teve uma concordata moral como ocorreu no Brasil. A Igreja brasileira era quase um outro Estado, pois ela sempre teve o poder político, econômico e moral, ou seja, representava um poder paralelo, enquanto a Igreja norte-americana sempre viveu uma situação de pluralismo. Só agora a Igreja brasileira começa a enfrentar a realidade do mundo moderno, ou seja, a perceber que na sociedade existem outras fés, Igrejas, crenças e maneiras de ver o mundo. Muitos integrantes da Igreja brasileira, inclusive os progressistas, não queriam diálogo, e tampouco pretendiam reconhecer o crescimento de outras religiões. Somente agora estão refletindo sobre isso. Ou seja, demorou muito para se chegar a esse ponto.

IHU On-Line - Quais as principais deficiências da Igreja brasileira, hoje?

Kenneth Serbin – A falta de compromisso com o espírito do Concílio do Vaticano II. O Brasil foi um dos países que mais aderiu a esse espírito inovador. Hoje, a posição assumida naquela época está muita fraca. A Igreja recua de muitos desafios. Já avançamos no que diz respeito à participação das mulheres na Igreja, mas poderíamos prosperar mais nesse sentido.

No atual estado do mundo, o debate sobre o aborto também deve ganhar mais destaque. Não digo que a Igreja deva abrir mão de seu ensinamento moral sobre o tema, mas essa é uma questão de saúde pública. Existem tantas mulheres se automedicando, realizando abortos em clínicas clandestinas, isto é, há muito sofrimento nesse sentido. Essas ações mostram como a Igreja, a imprensa e a sociedade brasileira não valorizam a posição da mulher. Tenho certeza que, se os homens pudessem ficar “grávidos”, o aborto seria legalizado. A sociedade precisa valorizar mais a experiência da mulher. A Igreja brasileira poderia desenvolver um papel profético nesse sentido, poderia acolher essas pessoas e ajudá-las, ao invés de simplesmente impor uma norma dizendo que aborto é pecado. A vida é mais complexa do que isso.

IHU On-Line - O senhor diz que "somente olhando para o passado é que a Igreja vai se preparar para o futuro". Nesse sentido, que aspectos devem ser resgatados para projetar um futuro melhor para a Igreja? Que futuro podemos esperar para a Igreja nos próximos anos, especialmente na América Latina e no Brasil?

Kenneth Serbin – A Igreja precisa recuperar esse espírito do Concílio, valorizar o diálogo com outras crenças, filosofias, e aprender que o mundo é plural. O problema da Igreja na América Latina é que ela sempre foi um monopólio. Hoje isso está mudando, pois o continente está mais democrático e pluralista. A Igreja tem de se adaptar a essa situação. Temo que, se ela não recuperar esses aspectos, poderá cair na irrelevância. Além disso, a Igreja deve valorizar mais a cultura brasileira e seu povo. A própria América Latina vive uma sensação de inferioridade. A Usmas, nesse sentido, queria valorizar o país e o que é brasileiro na tradição católica, construindo uma formação genuinamente nacional. Esse é o desafio.

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