Edição 266 | 28 Julho 2008

Invenção - Annita Costa Malufe

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André Dick

Editoria de Poesia

A poeta Annita Costa Malufe nasceu em São Paulo (SP), em 1975. Fez mestrado em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP, pela, e doutorado em Teoria e História Literária, pela Unicamp. Sua poesia traz cenários do dia-a-dia, mas sob uma perspectiva fragmentada, rompendo com a sintaxe comum, o que já é percebido claramente em seu livro de estréia, Fundos para dias de chuva (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004) Nesse livro, Annita lida com imagens ligadas ao espaço familiar, trabalhando sobretudo com a memória poética da subjetividade, registrando lembranças e sensações por meio de objetos, ambientes, livros, insetos, estrelas, quartos, ruas, sons, plantas, cores, imagens de praias etc. O próprio título do livro se encontra num fragmento com reminiscências de uma figura familiar: “Fundos para dias de chuvas” lembraria a “a etiqueta na caixa de papelão de meu pai”. Não só neste poema há um clima de nostalgia e tentativa de reencontrar uma infância escondida em cômodos pela casa. Versos como “Escrever sobre este vácuo / mácula / da minha sagrada família / me contém / estreita / no corredor da casa / antiga / que abriga / ainda / o manacá / e o sino / de quando nasci”, de “O manacá e o sino”, indicam a tentativa de permanência de algo que pode se perder se não vertido para a escrita.

Não raramente, em meio a esse ambiente familiar, Annita desenha uma ligação com alguém que pode completá-la, mesmo havendo uma aparente impossibilidade de isso acontecer. Em “Poema português”, por exemplo, as flores sugerem a dificuldade de um encontro: “Hesito um instante / enquanto queima / o sândalo / no incensário de cerâmica / / Hesito / (nossos anos / e nada / além das pétalas secas / do crisântemo / e o vaso)”. Desse modo, por vezes a natureza representa uma espécie de perda, sob um ângulo soturno: “Colho folhas mortas / e conto os dias / até que anoiteça / [...] / Sei que é preciso seguir / antes que a mata me cubra / de negro / e as águas afoguem / de vez / a sede”.

Pode-se apontar, sem dúvida, com referências à convivência com avós, traços autobiográficos na poesia de Annita, o que ela subverte por meio de uma metalinguagem: “Tumultuo a página branca com meus traços aflitos, sem direção”, página que pode estar contida no que ela chama de “diário negro”, querendo sempre recuperar o que considera o ponto de partida: “Preciso acreditar na existência do mundo, nas ondas que circulam minha casa. / Preciso acreditar na minha casa, / ou o risco se torna maior”. A ausência de entendimento pode abalar esse espaço que representa a segurança: “Penso na tua partida / e o apartamento fica grande / (longos corredores / varandas / paisagens a perder de vista)”. Sob o aspecto lingüístico, ela apresenta leituras de poetas como Ana Cristina Cesar – a qual estudou num livro intitulado Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (São Paulo: Annablume, 2006) – e de franceses contemporâneos, com uma poesia baseada, por vezes, na Language Poetry norte-americana.

Annita mantém a mesma estranheza, no que se refere à linguagem, em seu trabalho seguinte, Nesta cidade e abaixo de teus olhos (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2007), com um discurso que parece, como em seu primeiro livro, autobiográfico, mas encoberto por várias releituras e uma noção indeterminada de tempo e espaço. Ela, com isso, por vezes, apresenta um traço metalingüístico, como em seus trabalhos anteriores. Existe, por exemplo, um diálogo com um dos alicerces dos estudos poéticos que realiza: Maurice Blanchot, que lidava com uma crítica literária baseada em idéias filosóficas. Annita, por meio dos versos, vai compondo uma espécie de tentativa de ser escutada por um interlocutor e desenha uma tentativa de poema longo vista poucas vezes na poesia brasileira contemporânea. Por meio de fragmentos que lembram muitas vezes um diário, mas destacados por uma sintaxe e uma estrutura turvas, em que cabem muitas observações, simultaneamente, a poeta realiza um choque entre literatura e realidade com competência e propriedade. Há, como no livro de estréia, uma tentativa de recuperar o espaço familiar: “o lento retorno à casa / os gestos reiterados na medida de um tempo que se esgota / uma espera trazida nas malas / o esforço por se desfazer dos gestos colados ao corpo”. Por meio dessa melancolia, a poeta regressa sempre à escrita: “prefiro não voltar / prefiro / a lentidão das palavras” – mostrando um desamparo que só pode ser eliminado pela aparição de alguém que possa ser um pedaço de sua história. Na mesma linha desse livro, Annita enviou especialmente à IHU On-Line alguns fragmentos de seu novo trabalho.


DOIS FRAGMENTOS (INÉDITOS)

[ELA PERDEU OS SAPATOS]

ela perdeu os sapatos em frente ao ônibus
ela perdeu os sapatos as meias a direção
era uma volta e meia antes de descer no ponto abarrotado
ela perdeu perdia algo além do destino
uma vaga lembrança um papel amarrotado no bolso
rua Amaral Vieira a numeração quase ilegível seria preciso
procurar a casa a casa, sim,
me lembrei agora sim por um segundo me lembro
o sentido desta viagem o sentido era para que
houvesse algum mínimo interesse – o sentido é
o interesse de uma proposição – um mínimo sentido
estar ali de pé descalça diante do corredor de ônibus
o bilhete zerado o pouco dinheiro a vista perdendo o foco
era uma volta e meia apenas quatro ou cinco quadras
quatro ou cinco casas porque não era possível identificar
o número exato no amarrotado do papel
o que estará escrito aqui?
deus, uma casa ou um armazém preciso continuar
antes que me esqueça exatamente a que vim

[...]
antes que me esqueça exatamente a que vim
vasculho a bolsa dependurada no ombro
enxugo algumas lágrimas ou gotas de suor (ou de chuva?)
não sei exatamente a que vim e o homem me olha
com a testa franzida diante do armazém
a escuridão me assusta
moço, posso acender a luz?
espreitar alguns movimentos antes
que me esqueça vim por que não me restava outra alternativa
era embarcar não pensar muito tempo
a rua estreita e o guarda-chuva pendurado no braço
vasculho a bolsa retiro o envelope
leia, foi ela quem mandou
eu não costumo fazer este papel eu não costumo
tomar partido o que será que me faz estar aqui
nesta história? esta história não é minha?
o homem de barba me olhava sério
eu não sou daqui quis dizer a ele quis e não disse
eu apenas vim entregar eu não tinha alternativa
ao mesmo tempo guardo no bolso esta viagem
disfarçada alguns arranhões marcas das dobras do papel
ao mesmo tempo eu não tinha escolha definida
por pouco não me esqueci
vim sem sapatos sem direção quase não achei novamente o foco
era preciso acender as luzes por uns instantes fixar a lembrança
moço, por favor, acenda a luz?

 

[DIZER E NÃO DIZER]

fico um tempo concentrada no título do livro
dire et ne pas dire
dizer e não dizer
faz sentido
uma frase escrita há um tempo atrás
quando ainda não se notava a precisão exata
de resto eram apenas sinais eram apenas
leves sinais tantas vezes revertidos em signos
mas tantas vezes apenas dispersados na atmosfera
dire et et pas dire
não se trata de ser ou não ser não se trata simplesmente
de estar ou não estar ali com as mãos nos bolsos
olhando a chuva como se ela caísse devagar
não se trata de desacelerar as gotas da chuva como se
captadas em câmera lenta
é antes o dizer e o não dizer que se atrelam
como gatos sobre o sofá misturando suas patas
dizer e não dizer pode fazer sentido ou pode então
largar sentidos sobre o colo como gatos sobre o sofá sentidos
e gatos sobre o sofá onde abandono o livro
não sem olhar pela última vez o título em cor-de-laranja
dire et ne pas dire
em que talvez alguma simultaneidade esteja sugerida ou pressuposta

[...]
ela poderia entrar sem tocar a campainha
a porta estaria aberta apenas encostada
e foi devagar que os passos iam sendo ouvidos
sem eco sem reverberação o som era pouco
havia um sentido de reencontro e um sentido de
mostrar uma fotografia ou uma lembrança de viagem
o livro que ele tinha nas mãos era o mesmo
dire et ne pas dire
e tudo parecia tão natural que era esta mesma a palavra que vinha
mesmo sem ser dita tudo era naturalmente
a mesma coisa o mesmo lugar comum
como se aquele fosse o livro de cabeceira o livro que os acompanhava
dire et ne pas dire
uma e outra coisa como partes de uma mesma tendência comum
entre eles tudo ficava dito e não dito
dizer e não dizer era o que dava o sentido
o que renovava o sentido de um reencontro sempre
incompleto reiterando-se
no mesmo lugar
comum
era esta a palavra que vinha mesmo sem ser dita

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