Edição 266 | 28 Julho 2008

Stálin: intelectual e assassino

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Márcia Junges

Em O jovem Stálin, o historiador e jornalista britânico Simon Montefiore analisa a compatibilidade entre o intelectual e o assassino e aborda a personalidade complexa e multifacetada do ditador

Leitor voraz, que “freqüentou” Emile Zola e Honoré Balzac, entre outros escritores, cantor, poeta e jornalista. Difícil se acreditar que falamos de Josef Stálin, o ditador soviético que por quase três décadas conduziu sob regime pétreo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Muito antes de se tornar o “pai dos povos”, o georgiano escolhido por Lênin gastava seu tempo cultivando sua intelectualidade, mas sem deixar de lado as inclinações nada louváveis que o tornariam “a pessoa certa” a conduzir o gigante asiático. Explorar essas veredas é o que faz o historiador e jornalista britânico Simon Montefiore em sua mais recente obra, que acaba de ser traduzida para o português por Pedro Maia Soares como O jovem Stálin (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Montefiore mostra como conviviam na mesma pessoa o intelectual e o assassino, e responde à pergunta da IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail, com outra pergunta, em tom provocativo: “O que é incompatível entre um intelectual e um assassino?”. Ele próprio responde: “Em Stálin isso era inteiramente compatível”. De acordo com o autor, ele era capaz tanto de escrever um artigo, quando arranjar um assassinato. Obcecado por História e Literatura, Stálin é apresentado em sua complexidade, para além dos estereótipos que o qualificam como um monstro acéfalo. Essa figura paradoxal aponta, com agudeza, os antípodas pelos quais o homem pode transitar. A obra despertou tanto interesse que a Miramax e a Ruby Filmes, numa co-produção com a Film Four estão gravando um longa, intitulado Young Stalin. Ela foi premiada com o LA Times Book Prize in Biography, o Prêmio Costa Biography e o Prêmio Bruno Kreisky sobre Literatura Política.
Especializado na história da Rússia, Montefiore é autor de inúmeros livros, traduzidos para 34 idiomas. Entre eles, destacamos A corte do czar vermelho (São Paulo: Companhia das Letras, 2006). É membro da Royal Society of Literature, da Inglaterra, formado na Gonville & Caius College, da Universidade de Cambridge. Confira, a seguir, a breve e incisiva entrevista exclusiva que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Para maiores informações sobre o autor, visite o site www.simonsebagmontefiore.com. Sobre Stálin, confira, ainda, a entrevista concedida pelo historiador brasileiro Ângelo Segrillo à edição 265 da IHU On-Line, intitulada “Stálin e Roosevelt: uma troca de cartas reveladora”, analisando a obra Prezado Sr. Stálin (Rio de Janeiro: Zahar, 2008), de autoria de Susan Butler.

IHU On-Line - O que sua obra traz de novidades à “stalinologia” e à “sovietologia” em geral?

Simon Montefiore - Espero que meu livro revele não apenas uma crônica legível de Stálin  e do seu tempo, mas também que ele revele como o sistema bolchevique de poder realmente funcionava, sua intimidade e o quão importante foi a personalidade do ditador. Aquele sistema envolveu ideologia, é claro, mas realmente foi fundado no clientelismo e na personalidade. Stálin foi o patrono condutor e, como mostra o livro, foi de muitas maneiras um monstro, mas em muitas maneiras também uma pessoa complexa e espantosa. Este foi meu primeiro livro sobre Stálin, A corte do czar vermelho (São Paulo: Companhia das Letras, 2006). Agora, em O jovem Stálin, mostro o quão incomumente dotado e um jovem excepcional Stálin foi. O livro está tão cheio de material novo que é impossível listá-lo. Mas está transbordando com novas fontes e com novos materiais e penso que qualquer leitor irá apreciá-lo.

IHU On-Line - Quais qualidades intelectuais e artísticas de Stálin foram descobertas através de sua pesquisa?

Simon Montefiore - Ele era um rato de biblioteca, cantor, poeta publicado, jornalista e um aficionado por História.

IHU On-Line - Que autores Stálin leu em sua formação intelectual? Você vê influências desses pensadores na forma como conduziu os rumos da URSS?

Simon Montefiore – Stálin leu muitos autores, mas eu destacaria Émile Zola, Honoré de Balzac  e Vitor Hugo.

IHU On-Line - Como podemos entender esse perfil intelectualizado com seu comportamento à frente do governo russo?

Simon Montefiore - Ambos são totalmente compatíveis. Ele era obcecado pela História e pela Literatura e ele controlava ambas as personalidades.

IHU On-Line - Como conviviam o intelectual e o assassino em Stálin? Que fatos destacaria nesse sentido?

Simon Montefiore - O que é incompatível entre um intelectual e um assassino? Em Stálin ambos eram completamente compatíveis.

IHU On-Line - Seria essa combinação entre inteligência e maldade o motivo de ter sido o escolhido de Lênin?

Simon Montefiore - Essa é exatamente a questão. Isso o tornou único. Ele podia tanto escrever um artigo quanto organizar um assassinato. Não são muitas as pessoas que podem fazer ambos. Eles não viam isso como maldade e inteligência. Lênin via a violência como inteiramente necessária: “Stálin era exatamente o tipo de homem que precisamos”, ele disse.

IHU On-Line - Você percebe o stalinismo como uma continuação do leninismo? Quais seriam as principais rupturas?

Simon Montefiore - Com as novas evidências que temos, não há dúvida de que eles eram inteiramente compatíveis e uma continuação. O jovem Stálin mostra isso claramente. A única disputa deles em 1922-24 foi mais sobre incômodos e poder do que uma real diferença ideológica e metodológica.

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