Edição 265 | 21 Julho 2008

Totalitarismos: uma reflexão político-social e libidinal

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Totalitarismos: uma reflexão político-social e libidinalA resposta ao problema do totalitarismo exige uma reflexão política e social, mas também uma reflexão libidinal complementar, acredita o filósofo Vladimir Safatle. Para ele, gostamos de imaginar que quem age em nome de uma ordem totalitária age sem pensar


“O que há na estrutura psíquica de indivíduos aparentemente ‘esclarecidos’, membros de uma sociedade moderna e desenvolvida, que produz uma certa abertura em direção ao totalitarismo?”, pergunta o filósofo Vladimir Safatle, professor do Departamento de Filosofia da USP, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Que tipo de insegurança faz  indivíduos de sociedades modernas ocidentais verem como racional aceitar práticas totalitárias, xenófobas e racistas, mesmo que não acreditem totalmente nelas? É bem possível que a resposta ao problema do totalitarismo em nossas sociedades exija não apenas uma reflexão político-social, mas também uma reflexão libidinal complementar à primeira”. Segundo Safatle, “gostamos de imaginar que aqueles que agem em nome de uma ordem totalitária agem sem pensar, sem ‘senso crítico’. Mas todos conseguem justificar relativamente bem seus atos bárbaros”. E usa o exemplo dos torturadores da ditadura militar brasileira: “Eu diria que o que eles perderam não era a capacidade de ‘raciocinar’, mas a capacidade de, como dizia Adorno, identificarem-se com o corpo torturável, de sentirem esta força anônima que me leva a sentir algo da ordem da convulsão diante do sofrimento".

Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, Vladimir Safatle é mestre em Filosofia, pela Universidade de São Paulo, e doutor em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université de Paris VIII, com a tese La passion du négatif: modes de subjectivation et dialectique dans la clinique lacanienne. Professor da USP, atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, desdobramentos da tradição dialética hegeliana na Filosofia do século XX e Filosofia da Música. É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy.

IHU On-Line - Como você caracterizaria o pathos do carrasco Hitler? E o que o tornou tão sedutor às massas?

Vladimir Safatle - Não tenho certeza que a pergunta sobre a estrutura psíquica do indivíduo Hitler possa trazer alguma luz sobre o nazismo como fenômeno social. Muitas vezes esta acaba sendo uma maneira de patologizar o processo. Mais interessante seria se perguntar sobre a estrutura psíquica dos que seguiram Hitler. O que há na estrutura psíquica de indivíduos aparentemente “esclarecidos”, membros de uma sociedade moderna e desenvolvida, que produz uma certa abertura em direção ao totalitarismo? Que tipo de insegurança faz  indivíduos de sociedades modernas ocidentais verem como racional aceitar práticas totalitárias, xenófobas e racistas, mesmo que não acreditem totalmente nelas? É bem possível que a resposta ao problema do totalitarismo em nossas sociedades exija não apenas uma reflexão político-social, mas também uma reflexão libidinal complementar à primeira.

Diria que isto ficou claro para mais de uma pessoa durante o século XX e deveríamos nos perguntar por que alguns conceitos, como “identidade”, “estabilidade”, “unidade” são, ao mesmo tempo, conceitos importantes em operação no campo do político e da psicologia. Talvez seja porque a própria maneira com que pensamos e constituímos individualidades sustenta-se em uma lógica que posteriormente fará a base de discursos totalitários. Se admitirmos que uma das maiores conquistas do Iluminismo foi uma certa noção de indivíduo, então eu diria que o totalitarismo não é refratário ao indivíduo, como certos teóricos liberais conservadores gostariam de nos fazer acreditar, mas é a própria forma política do indivíduo. Neste sentido, nunca nos livraremos do risco totalitário enquanto continuarmos a deixar guiar nossa economia psíquica através da tentativa de construir individualidades através de sistemas rígidos de identidade e de auto-unidade que nos impede de nos reconhecer naquilo que não se submete a imagem narcísica de si.
 
IHU On-Line - De que forma Lacan  (em Juliette) e Adorno e Horkheimer (em Esclarecimento moral) nos dão suporte para entender os limites do projeto iluminista em moral e assim compreender que o nazismo tenha grassado na tão erudita Alemanha?

Vladimir Safatle - De fato, parece que Lacan e Adorno compreenderam muito claramente o vínculo estreito entre totalitarismo e Iluminismo. Todos os dois insistem que a maneira que pensamos os móbiles racionais do sujeito da ação depende em larga medida de uma reflexão sobre a moralidade a partir da tradição kantiana. Para os dois, isto significa, a partir da entificação de dicotomias entre liberdade e natureza, vontade livre e desejo patológico ligados a objetos sensíveis, amor à Lei e interesse. Dicotomias estas que têm em vista assegurar a ação no interior de uma estratégia transcendental de determinação de seu sentido.

Pensando nesta estratégia, podemos dizer, seguindo Lacan e Adorno, que a reflexão sobre a ação ainda hoje é assombrada por fantasmas fundacionistas. “Qual o fundamento da ação moral?” é uma pergunta que no fundo visa retirar o sentimento de insegurança que acompanha todos aqueles que agem. E, contra tal sentimento, o pensamento não teria encontrado nada melhor que a enunciação de princípios gerais formais, incondicionais, categóricos e universais. Pelo menos, tal recurso a princípios poderia nos tirar da areia movediça dos sentimentos de simpatia e compaixão, que são sempre instáveis, que mudam de direção a todo momento. Mas e se mostrarmos que princípios formais são muito menos estáveis que parecem, que eles garantem muito menos coisas que imaginávamos?

Por exemplo, a partir de um princípio formal de universalização, não posso impedir a tortura em casos onde vidas de muitos estão em jogo. Dada uma situação onde tenho uma grande probabilidade de conseguir, através de tortura, uma informação que poderá conservar a vida de muitos, é absolutamente racional praticá-la. Isto apenas demonstra como nossa aversão à tortura não vem de um princípio formal, mas de um impulso corporal que talvez seja a base do que chamamos de compaixão.

No entanto, é certo que fundar a ação no impulso está de longe de ser uma saída plausível. Talvez a melhor resposta seja: toda ação moral é um cálculo entre impulsos e princípios, reconhecimento do sofrimento e capacidade de seguir uma norma. No entanto, este cálculo é feito às escuras, sem garantias de sucesso. Por isto, toda ação moral é falível e todo verdadeiro ato é infinito, no sentido de precisar ser infinitamente recalculado e reorientado a partir de suas conseqüências. Calcular sem regras é a verdadeira situação daquele que se vê diante da iminência de produzir um ato. Isto me leva a dizer que todo verdadeiro ato moral é um cálculo às cegas entre dois fundamentos insuficientes. No final das contas, talvez seja isto que tanto Adorno quanto Lacan tentaram nos mostrar.

IHU On-Line - A hiper-racionalização e formalização do desejo através de um imperativo categórico podem ser apontadas como as pilastras de um comportamento que descambou num agir sem questionamentos? Onde estava o senso crítico daqueles que recebiam ordens do alto escalão nazista?

Vladimir Safatle - É possível que o senso crítico estava no corpo, e por isto ele era tão inaudível. Gostamos de imaginar que aqueles que agem em nome de uma ordem totalitária agem sem pensar, sem “senso crítico”. Mas todos conseguem justificar relativamente bem seus atos bárbaros. Não precisamos ir muito longe, basta lembrarmos como torturadores e militares brasileiros justificam, até hoje, seus atos durante a Ditadura Militar. Eu diria que o que eles perderam não era a capacidade de “raciocinar”, mas a capacidade de, como dizia Adorno, identificarem-se com o corpo torturável, de sentirem esta força anônima que me leva a sentir algo da ordem da convulsão diante do sofrimento. Como disse, não se trata de fazer apologia de alguma forma de moralidade do sentimento, mas simplesmente reconhecer que ele é um dos dois fundamentos insuficientes que dispomos para determinar um ato moral.

IHU On-Line - Nesse aspecto, o Iluminismo seria a exacerbação do logos e o ocaso definitivo de nossos aspectos dionisíacos, nietzschianamente falando? O homem se transformou num ressentido, num rato de subsolo (como dizia Dostoiévski ) que se compraz em arquitetar o mal, deixando de lado sua “crueldade inocente”?

Vladimir Safatle - Na verdade, tenho uma certa dificuldade em entender o que pode significar “o mal” neste contexto. Não creio que ele seja realmente um conceito ou um princípio que funda uma certa lógica própria da ação. Normalmente, dizemos que o mal está vinculado ao prazer de fazer o outro sofrer e de destruí-lo. Não seria difícil mostrar que este não é um prazer que funda um modo de conduta, mas é uma espécie de prazer derivado da hipóstase de princípios de auto-conservação. Mais aterrador não é o prazer de destruir o outro, mas a destruição do outro sem prazer, feita a partir de um formalismo levado às últimas conseqüências, um pouco como aquela máquina de “Na colônia penal”, de Kafka,  que de tanto escrever a Lei no corpo dos condenados acaba por mutilá-los “em nome da Lei”.

IHU On-Line - O homem contemporâneo é suscetível de se deixar levar por outros ditadores como Hitler? 

Vladimir Safatle - Há um aspecto do fascismo que acabamos por esquecer. No entanto, ele é para mim o mais aterrador. Tendemos a acreditar que o fascismo era uma ditadura no velho estilo Law and Order. No entanto, ele era uma situação social onde, no fundo, ninguém acreditava na ideologia bricolada e inconsistente dos líderes. Na verdade, encenava-se a crença, agia-se como se todos acreditavam. Esta era a única maneira do sistema funcionar.

Pensando nisto, peguem alguém como Silvio Berlusconi.  Trata-se de um caso extremamente interessante. Primeiro porque, do ponto de vista econômico, a Itália votou contra seus próprios interesses. Desde que Berlusconi subiu ao poder, a Itália estagnou. Meios de comunicação conservadores como The Economist e Financial Times fizeram campanha contra ele devido a sua mais completa inépcia econômica. No entanto, ele ganhou pela terceira vez, mas agora com um discurso francamente racista e xenófobo.

O que é interessante em seu caso é como sua figura de fora-da-lei notório, misto de malandro boa praça e mafioso empresarial, acaba por encarnar o desconforto e a ira da maioria contra uma Lei que, até agora, foi apenas a vontade do mais forte. Berlusconi representa a revolta contra a Lei social. No entanto, esta revolta está agora associada a demandas de “segurança”, que a suspensão pura e simples da Lei não traria. Por isto, pedimos ao fora-da-lei que, ao mesmo tempo, suspendam e cumpram a Lei com dureza. Cumpram não contra nós, mas contra os outros, contra estes invasores, parasitas, estes que não gozam como nós, sejam eles os judeus de ontem ou os árabes de hoje. Tanto faz quem ocupa o lugar dos que representam a insegurança contra o Todo social.

Berlusconi é a melhor figura do totalitarismo: alguém que mistura, de um lado, o sorriso maroto da criança que não quer se submeter à Lei e que, com isto, ganha a simpatia destes para quem a Lei tem gosto de opressão e que traz na sua mão o porrete implacável da polícia que não se deixa enganar pela ingenuidade destes que são complacentes com a insegurança e com os que burlam a lei de imigração. Um criminoso duro contra o crime. Alguém que não pede para acreditarmos nele, mas para apenas fingir que acreditemos nele.

Últimas edições

  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição
  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição