Edição 265 | 21 Julho 2008

A história oral como reflexão sobre o Holocausto

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Patricia Fachin e Márcia Junges

Alexander Von Plato, historiador alemão, conduz pesquisa em que mais de três mil sobreviventes do Holocausto foram ouvidos. Relatos diferem da historiografia oficial e lançam questões sobre o que a população alemã da época realmente sabia sobre a solução final, e até que ponto estava envolvida


A forma como os alemães lidam com o fato histórico do nacional-socialismo mudou muito desde a década de 1970. Ao contrário do que acontecia nos anos 1950, há poucas pessoas que negam o que houve, ou que os alemães haviam perpetrados os crimes de guerra, explica o historiador alemão Alexander Von Plato. Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, quando este veio à Unisinos participar do IX Encontro Nacional da Associação Brasileira de História Oral (ABHO), intitulado Testemunhos e Conhecimento, realizado de 22 a 25 de abril,  ele admite que ainda pairam dúvidas sobre o que realmente a população sabia sobre o Holocausto, e quem estava envolvido e até que ponto. “Não duvido de que boa parte da população era apolítica”, disse. “Mas houve uma boa porção que não se encaixa nesse perfil, como os filiados ao NSDAP e a outras organizações nazistas”. Outro ponto que merece destaque é que o nacional-socialismo hoje é tema nas escolas, com depoimentos de pessoas que viveram experiências pessoais do período. Esses relatos muitas vezes não coincidem com a historiografia oficial, aponta Von Plato. Eis outro motivo importante para ouvir o que essas pessoas têm a dizer. O historiador, que é vice-presidente da Associação Internacional de História Oral (IOHA), coordena um trabalho em que mais de três mil entrevistas biográficas sobre o período foram coletadas. Os testemunhos figuram como uma memória importante a ser estudada e discutida, tema de reflexões e debates. Questionado sobre o recrudescimento do nazismo na Alemanha atual, Von Plato disse que este é maior em países como a França.

Von Plato é fundador e diretor do Instituto de História e Biografia da Universidade Aberta de Hagen, na Alemanha, e vice-presidente da Associação Internacional de História Oral (IOHA). Pesquisa o nacional-socialismo, em especial a divisão da Alemanha e o recente processo de unificação. É professor visitante da Universidade de Viena e foi um dos conferencistas do IX Encontro Nacional da Associação Brasileira de História Oral (ABHO), Testemunhos e Conhecimento.

IHU On-Line - Como as pessoas que sobreviveram ao nazismo conseguiram lidar com seus traumas? Como o governo administrou esse problema? Que referenciais essas pessoas tinham para sobreviver, para lidar com a situação?

Alexander Von Plato - A forma como as pessoas lidaram com o nazismo naturalmente depende de quem se pergunta: se das vítimas, sejam elas políticas ou perseguidas por racismo, seja dos apoiadores do sistema antigo, funcionários do nacional-socialismo, seja dos milhões de simpatizantes que foram “tapeando” de um jeito ou de outro. Depende também de alguns fatores: o de se a pessoa vivia no Leste, na Zona de Ocupação soviética, ou nas Zonas de Ocupação ocidentais, que depois vieram a ser, respectivamente, a República Democrática Alemã, comunista (RDA), e a República Federal da Alemanha (RFA); e de como essa pessoa lidou depois com o nazismo, com as lembranças, com a política, com as vítimas. A maioria dessas, de origem judaica, emigrou. O nacional-socialismo e a história da RDA são as áreas melhor pesquisadas da história alemã. 
Trabalhei principalmente sobre o nacional-socialismo alemão. Entrevistei diferentes grupos populacionais, bem como pessoas que se diferenciavam por sua função, ou participaram da resistência, ou foram vítimas. É um trabalho de décadas. Para se ter uma idéia, nosso Instituto dispõe de três mil entrevistas biográficas.

Prescrição de assassinatos

A primeira geração pós-guerra que vivenciou o nacional-socialismo tentou embelezá-lo, deixando de analisar seus crimes. Isto mudou com o tempo, ao final dos anos 1960, quando na Alemanha Ocidental o nacional-socialismo voltou a ter papel mais destacado na pesquisa e na política.

Fatos marcantes, nesse sentido, na Alemanha Ocidental, foram o processo de Auschwitz, entre 1963 e 1965, a instalação de uma Promotoria Geral para a investigação dos crimes do nacional-socialismo, em 1958/1959, e a discussão sobre a prescrição de assassinatos. Nesse caso, o assassinato perpetrado pelo nacional-socialismo estaria prescrito. Por isso, em meados dos anos 1960, iniciou-se um debate no Congresso Nacional alemão sobre essa prescrição, o que é de importância enorme, porque de repente se passou a discutir o tema em público. Havia, então, uma maioria no povo alemão que queria que se acabasse com a investigação desses crimes. Em 1969, essa pesquisa representativa foi repetida, e aí a relação contra/a favor havia invertido. Então, a maioria não queria que se pusesse um ponto final na investigação.

Este é um ponto importante. Foi a época do movimento estudantil, mas esse foi apenas um aspecto. Um exemplo é de que, em 1941, um judeu jovem foi levado com seu irmão, com toda a sua família, para Auschwitz. A família inteira morreu, com exceção dele e do seu irmão. Após 1945, ele voltou a seu vilarejo e ninguém acreditou no que ele disse: que esteve em Auschwitz. Muito pelo contrário: disseram que era uma falsa acusação. As pessoas não acreditaram que realmente houve esse sistemático assassinato de judeus. Ele era jovem demais para poder herdar, e seus pais haviam sido assassinados em Auschwitz. Em sua volta, não pôde herdar a propriedade da família porque a lei alemã não previa que alguém tão jovem, sem prova da morte dos pais, pudesse tomar posse da herança. Na época, ainda não existia indenização, ou seja, uma forma de compensação. O que era possível era ele receber algo por uma formação de estudo perdida. Por isso, ele recebeu 5 mil marcos e, quarenta anos depois, uma indenização por trabalhos forçados prestados em Auschwitz.

A importância da história oral

Neste caso, se vê que o lado material evoluiu lentamente na RFA. Este é o aspecto exterior, material. Mas o que ocorreu na cabeça desse jovem só descobrimos mediante consulta oral e entrevista biográfica. Aí é que a história oral mostra suas vantagens. Todas essas tentativas de fazer reconhecer Auschwitz fizeram-no sentir-se novamente traumatizado. Seria demais. Foi um enorme peso para ele recontar tudo. Mesmo assim, ele ficou na Alemanha com seu irmão, embora tentando ocultar sua etnia judaica. Acabou praticando uma espécie de mimetismo: casou-se com uma cristã, mandou batizar os filhos, sempre afirmava ser evangélico, o que não era verdade. Ou seja, durante 25 anos, calou-se sobre sua etnicidade judaica. Somente depois que o clima social na RFA mudou com o movimento estudantil e aqueles fatos marcantes que mencionei, é que ele se tornou um dos mais conhecidos protagonistas da luta por indenização para judeus e trabalhadores forçados, contra a IG-Farben e suas empresas sucessoras.

A IG-Farben era um grande complexo industrial químico na época, onde ele precisou prestar trabalhos forçados. Nos anos 1970, ele começou a lutar por indenização e pelo reconhecimento de que ali foram explorados à força. Além disso, voltou a professar sua etnia judaica. Tornou-se dirigente de uma comunidade culto judaica, e casou-se com nova esposa. A questão desse casamento é demasiado complicada, mas é importante porque, após Auschwitz, ele se considerou incapaz de relacionar-se com mulheres. Só tinha casos de pouca duração, isto é, nada duradouro.

IHU On-Line – Como os alemães lidam com essa parte de seu passado?

Alexander Von Plato - Com a geração mais recente, a forma de lidar com esse fato histórico mudou muito. Hoje, para cada campo de concentração, temos um memorial. Buchenwald é um dos mais conhecidos. Em muitas cidades na região do Ruhr, em Hamburgo, Essen, Duisburg, Hannover, no Sul da Alemanha, houve longa exposição sobre perseguição e resistência. Desde os anos 1970, a maneira de lidar com essa questão mudou totalmente: ela também é aceita, contra uma minoria que não admite que o Holocausto seja verdade. Mas, contrariamente aos anos 1950, é aceito que, sob o nacional-socialismo, esses crimes foram perpetrados na Alemanha por alemães.

Também a minha geração admite ter responsabilidade, embora sem culpa individual. A questão sobre até que ponto os alemães estavam envolvidos é muito difícil. A respeito disso há muita discussão. Sobre essa questão, estamos quebrando a cabeça há décadas. O que os alemães sabiam? Quem esteve envolvido?

Nos anos 1950, todos esses crimes foram atribuídos à SS e ao NSDAP, não às Wehrmacht (forças armadas). Desde os anos 1960, entretanto, há abrangentes investigações militares, por sinal financiadas pelo governo, que constatam que não é tão simples assim. As forças armadas também participaram de crimes. Elas se protegeram, às vezes participaram de fuzilamentos e, em parte, ao menos, cumpriram o Kommissarsbefehl (ordem de fuzilar sumariamente os funcionários soviéticos). Isto foi ocultado, enfatizando-se, em compensação, a resistência do movimento chamado 20 de julho, do qual participaram militares em 1945. A grande questão sempre é: quem esteve envolvido? Não duvido de que boa parte da população era apolítica. Mas houve uma boa porção que não se encaixa nesse perfil, como os filiados ao NSDAP e a outras organizações nazistas.

IHU On-Line - Qual é a situação atual quanto ao resgate da história da época do Holocausto?

Alexander Von Plato – Para começar, vou falar sobre meus filhos. Diferentemente de mim, meus filhos receberam na escola muitíssima informação sobre o nazismo. Nenhuma classe atinge a conclusão do 2° grau sem que tenha aprendido algo sobre o nacional-socialismo. Na minha época de escola, o que aconteceu com todos da minha geração, não o estudávamos. Hoje, não há sequer uma escola, uma classe, em que pelo menos uma vez uma vítima do nazismo não tenha apresentado experiências pessoais – o que é complicado, porque não coincide com a historiografia oficial. Mas, se isto realmente ajuda a trabalhar o nacional-socialismo nas próximas gerações, naturalmente é uma incógnita. Temos um “Dia da Libertação”, que não é o 8 de maio, mas o 27 de janeiro, justamente o dia da libertação de Auschwitz. Este, de um modo geral, é comemorado nas escolas, atualmente.

Certa vez, pediram-me que desse uma palestra sobre Auschwitz e o nacional-socialismo. Houve uma discussão, quando jovens perguntaram: “Para que precisamos saber de Auschwitz, como afirmou um professor, para hoje ser a favor de direitos democráticos?”. Quem assim se manifestou foi um representante estudantil turco. Ele disse: “Quero saber o que aconteceu no nacional-socialismo, mas não precisa terminar sempre com ‘Lembrem de Auschwitz, senão vocês nem poderão saber a importância da democracia. Para combater hoje a xenofobia na Alemanha não preciso de Auschwitz. Preciso disso para meu conhecimento da história, para questões de racismo. Mas eu posso ser contra a xenofobia e o racismo apenas pela minha própria experiência’”. Foi uma discussão bem acirrada. De certa maneira, dei razão a ele, ao passo que os professores ficaram muito irritados. Ambos os lados de alguma maneira tinham razão. Eu compreendi o rapaz muito bem. Ele disse: “Nós temos nossos próprios problemas. Nós vemos o racismo hoje”. Este não é tão forte na Alemanha hoje, como se acredita - é relativamente limitado, talvez por causa do nazismo.

Xenofobia na Europa

Em termos gerais, há xenofobia e um anti-semitismo latente na Alemanha. É preciso considerar que é muito difícil, hoje, distinguir entre crítica à política de Israel e anti-semitismo, ou se uma coisa mascara a outra. Mas, no parlamento federal, não temos um partido de direita radical. Na Alemanha Oriental, ex-comunista, temos alguns partidos de extrema direita nos parlamentos regionais, assembléias legislativas. O anti-semitismo e o neofascismo são relativamente mais fracos na Alemanha do que em outros países europeus, particularmente do leste europeu, mas também mais fracos do que na França. Espero que isto tenha a ver com todo o processo de trabalhar o nazismo.

Ainda sobre o radicalismo de direita no leste, devo dizer que na área rural, em muitas regiões da antiga República Democrática Alemã, ele ainda existe de forma acentuada, principalmente entre jovens trabalhadores. A taxa de desemprego ali é elevada. Não há mais instituições culturais antigas; elas estão quebradas ou desapareceram. É uma situação difícil justamente para os jovens. Eles ou vão embora, ou, se ficam, estão muito ameaçados. Aí ocorrem conflitos acirrados. Mesmo assim, tenho a sensação de que também na Alemanha Oriental se desenvolve outro processamento do nazismo.

IHU On-Line – Durante a guerra, apenas os aspectos positivos da administração alemã eram apresentados. Aos poucos, contudo, os assassinatos vieram à tona. Como as pessoas reagiram a isso?

Alexander Von Plato - Os aspectos positivos ainda são lembrados hoje. Em poucos anos, acabou-se com o desemprego, a vergonha do Tratado de Versailles, o fato de a Alemanha ter sido tão oprimida, o que, para muitos, era como uma humilhação pessoal. Isto foi, de certo modo, compensado por Hitler. Os jovens repentinamente podiam viajar para regiões distantes com a HJ (Juventude Hitlerista), enquanto antes eram obrigados a ficar no seu ambiente, apenas. O desempenho no trabalho era valorizado. Há toda uma série de memórias que descrevem os aspectos positivos. Então, se esquece facilmente o que isso representava. O padrão de vida melhorou incorrendo-se em altas dívidas. A guerra foi também uma guerra de pilhagem. O anti-semitismo de então era tratado como se não existisse. Esta é hoje a memória daqueles que, na época, estavam na Juventude Hitlerista ou na WDM, Aliança das Moças Alemãs, que era um organismo nazista. O que vivenciaram como jovens foi positivo. Embora hoje pensem diferente, se perguntam: “O que me fascinou tanto naquela época? O que me conquistou para o nacional-socialismo?”. A historiografia precisa estudar isto, caso contrário não entendemos o nacional-socialismo. O horror é um lado, mas a atração que o nazismo exerceu para os jovens daquela época é outro. Nesse ponto, a história oral é decisiva.

IHU On-Line - Mas esse lado atraente foi tão formidável a ponto de mobilizar as massas?

Alexander Von Plato - O Tratado de Versailles foi crucial para as pessoas. O termo humilhação ainda é usado hoje para se referir a esse documento.

IHU On-Line – E, quanto à reunificação, como ela repercutiu entre o povo alemão?

Alexander Von Plato - Escrevi um livro sobre os aspectos internacionais e nacionais da reunificação. Ela é, naturalmente, resultado de uma história complexa, com elementos e vertentes bem diversas. Uma coisa certa foi que, na Polônia, Hungria, RDA e Tcheco-Eslováquia, a população foi tomada de uma insatisfação com o regime, com a repressão, com as restrições de viagem, principalmente na RDA, além de outras restrições aos direitos democráticos. Ao mesmo tempo, no Leste se captava a TV ocidental. Nas duas Alemanhas, há uma comunicação entre os parentes, situação esta bem diferente da dos outros países. Essa insatisfação desembocou em duas grandes vertentes: os que queriam viajar para o estrangeiro (Ausreiser) e os que queriam “dar no pé” (Ausreisser). A outra vertente, formada pelos que queriam ficar, pretendia efetuar mudanças na RDA. Havia outra parte que também estava insatisfeita, mas ficava escondida: era oportunista, ia levando do jeito que dava. Os que queriam sair da RDA ocuparam a embaixada alemã ocidental em Varsóvia, Praga, Budapeste, o que se transformou num problema político. Havia milhares de pessoas nas embaixadas reivindicando sua saída.

IHU On-Line - Acompanhamos tudo isso passo a passo nos noticiários...

Alexander Von Plato - A outra vertente foi a mudança no Leste europeu, principalmente na União Soviética, pois desde 1985 Gorbatchev estava no poder como Secretário Geral e não só prometeu como também cumpriu que o Exército Vermelho não mais interviria em assuntos internos, mesmo dos países da aliança de defesa do Pacto de Varsóvia. Isto naturalmente foi um elemento importante. Quando então apareceu o movimento, sempre havia esse medo: a União Soviética vai intervir, ou não? Gorbatchev se encarregou – este ponto é importante – de que não houvesse intervenção. Nessa história também o acaso influenciou. Houve mal-entendidos diplomáticos entre a RFA e a União Soviética, ampliados pelo fato de George Bush  (pai) assumir a presidência, com uma nova estratégia da OTAN – o que inicialmente não se percebeu. Para o 40° aniversário da OTAN, ele teve precisou ir a Bruxelas e fazer um discurso, quando acabara de assumir. Antes de viajar, ele baixou instruções de que precisava de uma reelaboração da estratégia, segundo a qual se deveria acreditar em Gorbatchev, que dissera: “Queremos uma casa européia”. Os americanos ficaram com medo de que a influência dos soviéticos aumentasse demais. O que os americanos queriam era uma casa européia, mas com livre acesso entre os cômodos, “de um quarto para o outro”, como Bush disse. Os americanos ficaram com medo de que, se essa aproximação na Alemanha e na Europa acontecesse sem o envolvimento deles, também a OTAN, sua principal âncora na Europa, acabaria perdendo importância. Por isso, Bush determinou que a reunificação poderia acontecer, mas sob o teto da OTAN, reconhecendo as fronteiras na Europa (o que era um problema com a Polônia em função da linha Oder-Neisse, rios que faziam a fronteira estabelecida após a Primeira Guerra) e sob a égide da democracia. Esses quatro pontos os americanos defenderam sistematicamente, de modo que, no final, como sabemos, a reunificação se deu sob o teto da OTAN, nos mostrando um aspecto que não deixava de ser controverso.

Os soviéticos não tinham estratégia definida, constante. Os soviéticos queriam preservar a RDA, depois queriam uma unificação do Pacto de Varsóvia com a OTAN. A estratégia de Bush e Kohl  é que acabou decidindo as coisas. Os soviéticos só correram atrás e os movimentos de massa perderam importância. Com a queda do muro em 9 de novembro de 1989, os movimentos de massa perderam importância e os ministérios do exterior assumiram a liderança. Então, os americanos e os alemães ocidentais foram mais fortes que outros países da Europa Ocidental. Esse processo foi sumamente complexo: na União Soviética, se evidenciavam mudanças e os americanos reagiram, levando finalmente à reunificação sob o teto da OTAN.

IHU On-Line – Como foi possível que o nazismo se desenvolvesse numa pátria que deu ao mundo gênios da música, filosofia e sociologia?

Alexander Von Plato - Há uma série de causas para o surgimento e finalmente para a vitória do nacional-socialismo em 1933. Em primeiro lugar, é preciso dizer que a Alemanha estava dividida, não era um bloco homogêneo, nem no povo, nem nas lideranças. Havia uma divisão extrema. Nas últimas eleições livres, no verão e depois, no outono de 1932, os nazistas obtiveram 32 a 34% dos votos, “apenas”, o que era muito. Ou seja, um terço votou nos nazistas. A maioria, a rigor, era da Coalizão de Weimar, do centro, do catolicismo, dos social-democratas e do Partido Democrático Alemão. Esta era a chamada Coalizão de Weimar, que sustentava o sistema da República de Weimar. E havia o Partido Comunista, do outro lado. Os comunistas somados aos social-democratas teriam tido a maioria. Mas não conseguiram entrar em acordo, por muitas razões, que não vou mencionar aqui. Assim, precisamos dizer que a vitória do nacional-socialismo também foi uma derrota para o outro lado na Alemanha. Esses, na verdade, eram os detentores da cultura: os democratas, os social-democratas e também os comunistas, muitos intelectuais de esquerda: Tucholsky, Ossietzky,  o pessoal da esquerda. Para eles, a vitória do nacional-socialismo foi algo terrível. Ocorreu uma emigração de intelectuais judeus e também não-judeus. Enfatizo isto porque é preciso ter cuidado ao se referir à Alemanha como se fosse um bloco hegemônico. A Alemanha era muito diversificada e complexa. Outro aspecto é que o movimento operário na Alemanha era o mais forte fora da União Soviética, naquela época. Juntando os partidos SPD [social-democratas] e KPD [comunistas], ou mesmo tomando-se apenas o KPD, estes eram os mais fortes partidos de trabalhadores fora da União Soviética. Portanto, a Alemanha estava profundamente dividida.

Crise econômica e Tratado de Versailles

O segundo grande complexo a ser abordado é que a crise econômica mundial, justamente após a Primeira Guerra Mundial foi um golpe muito forte. Houve um empobrecimento generalizado e falências. Minha família toda era da aristocracia rural e um atrás do outro faliu. Justamente nessa época havia um chanceler social-democrata, Müller, que grande parte da população considerou politicamente responsável por essa situação. Todos sabem que houve fatores internacionais, mas um social-democrata estava à frente do governo em 1929-1930. Isto naturalmente levou a que justamente as leis e portarias emergenciais voltadas contra a população pudessem ser por identificadas com a social-democracia.

Quanto à terceira razão, quero ao menos mencioná-la. As reparações, os pagamentos feitos pela Alemanha após a Primeira Guerra Mundial foram considerados por muitos, justamente por nacionalistas alemães, como causa do empobrecimento na crise econômica mundial. Ou seja, todos aqueles planos de reparações entre as potências vitoriosas, primeiro Versailles, depois o plano Dawes , em 1924, depois o Plano Young, em 1930, para a direita e para grande parte da população, foram o símbolo, a marca registrada por excelência e causa da mudança, da opressão e do empobrecimento na Alemanha. O maior sucesso dos nazistas nas urnas foi em 1930, com o slogan “Abaixo o Plano Young!”. Young foi o economista e político americano que elaborou esse plano, na verdade visando à redução das reparações decididas anteriormente. Mesmo assim, esse plano simbolizava a vilania dos aliados da época.

Para os conservadores, sob ponto de vista cultural, o período da República de Weimar foi considerado demasiado libertário. Há numerosas outras vertentes que os conservadores enxergaram como decadente agressão contra o seu estilo de vida.

República de Weimar e anti-semitismo

Como sempre, nessas épocas aumenta o anti-semitismo. Weimar, no início, era relativamente contida. Naturalmente, também havia anti-semitismo como em quase todos os países naquele tempo, mas de forma relativamente limitada. Entretanto, ele aumenta no final da República de Weimar.

O que todos não entendemos é que, para muita gente, a Primeira Guerra Mundial não estava terminada. O grito de vingança estava no ar. Em entrevistas, já nas fases tardias da pesquisa que conduzi, é que fiquei sabendo que a Segunda Guerra Mundial foi percebida como continuação da Primeira. Aqui, refiro-me apenas aos radicais da direita.

Um dos legados positivos da Segunda Guerra Mundial e do nacional-socialismo é pensarmos em democracia, não em guerra. A reconciliação entre França e Alemanha, os antigos arqui-inimigos, foi um passo crucial, já iniciado na República de Weimar por meio de Stresemann  e Briand , e, após a Segunda Guerra, com Adenauer  e De Gaulle . Estas foram premissas importantes para a unificação da Europa. E não vejo, no momento, nenhum risco de guerra que parta da Europa, ou da Europa Ocidental e Central.

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