A fragmentação do discurso como estética literária do Pós-Guerra

Para o historiador e crítico literário Márcio Seligmann-Silva, na literatura do pós-holocausto há uma estética da fragmentação do discurso. Além disso, esclarece, radicaliza-se a crise de paradigmas para explicar o mundo, bem como na arte e literatura

Por: Márcia Junges

“A Segunda Guerra Mundial radicalizou aquilo que já havia sido iniciado com a Primeira Guerra Mundial, ou seja, a crise dos grandes paradigmas, tanto de explicação do mundo como nas artes e na literatura”, assinala o historiador e crítico literário Márcio Seligmann-Silva. Segundo ele, “o hitlerismo e, sobretudo, a maquinaria dos campos de extermínio, gerados por uma nação que tinha desempenhado um papel chave no Iluminismo, significou uma novidade devido à radicalidade da violência e à sua origem. A idéia de exterminar onze milhões de indivíduos (o plano de Hitler), ou seja, todos os judeus europeus, era inédita nesta radicalidade. Isto gerou uma onda de memória também inédita na sua força. Esta onda mantém-se até hoje e está na origem de milhares de testemunhos”. Ele afirma que na literatura “vemos uma estética pós-holocausto marcada por uma fragmentação do discurso”.

Seligmann-Silva é graduado em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), mestre em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, pela Freie Universität Berlin. É pós-doutor pelas seguintes instituições: PUCSP, Zentrum Für Literaturforschung Berlin e Yale University. Também é professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas e coordena o projeto temático FAPESP Escritas da Violência. Entre as obras que publicou, estão Ler o livro do mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (São Paulo: Iluminuras/ FAPESP, 1999), Adorno (São Paulo: PubliFolha, 2003) e O local da diferença. Ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução (São Paulo: 34, 2005). Organizou também os livros História, Memória, Literatura. O testemunho na era das catástrofes (Campinas: Editora da Unicamp, 2003) e Palavra e imagem, memória e escritura (Chapecó: Argos, 2006).

 

IHU On-Line - Em que sentido é possível se falar em uma mudança de paradigma na literatura pós Segunda Guerra Mundial?

Márcio Seligmann-Silva - A Segunda Guerra Mundial radicalizou aquilo que já havia sido iniciado com a Primeira Guerra Mundial, ou seja, a crise dos grandes paradigmas, tanto de explicação do mundo como nas artes e na literatura. O que se pode dizer que acontece agora também, ou seja, desde a Segunda Guerra Mundial, é um “secamento” do veio nacionalista nascido com o romantismo. Mais e mais as encenações autobiográficas ou as tendências mais formalistas e conceituais vão predominar tanto nas artes quanto na literatura. Se existe muita continuidade com relação às vanguardas históricas – sobretudo figuras como Duchamp  e os surrealistas, tem sido insistentemente apontados como “precursores” desta arte –, não deixa de ser verdade que existem aprofundamentos tão radicais de certas tendências estéticas, que seria mais correto se acentuar mais a ruptura do que a mera continuidade. Não por acaso, o conceito de abjeto, que Kristeva  formula no início dos anos 1980, vai fazer tanto sucesso no meio da crítica: ele concentra em si diversas tendências, já anunciadas antes, que se cristalizam de modo mais claro naquele período. Também o movimento de muitos artistas em direção à performance não pode ser confundido com uma simples reencenação de rituais dionisíacos. Justamente a consciência histórica contemporânea é marcada por uma hiper-consciência dos contextos históricos que impede a simples “imitação” ligada à episteme pré-romântica. Por outro lado, a arte e a literatura vão tentar encenar as novas subjetividades (esvaziadas) contemporâneas. Os jogos autobiográficos desta nova produção têm muito de encenação de forte teor testemunhal. Testemunha-se as catástrofes tanto históricas (as inúmeras guerras e genocídios), como os traumas individuais.

IHU On-Line - Como você definiria as escritas da violência? O que o período hitlerista legou nesse sentido?

Márcio Seligmann-Silva - Não existe uma definição unívoca das escritas da violência. O que se pode tentar fazer é acompanhar certas linhas de força que se modificam no tempo e de local para local, além dos diversos gêneros do discurso. Se é verdade que este elemento autobiográfico a que me referia aparece nas produções das artes plásticas e da literatura contemporâneas, elas possuem muitas idiossincrasias vinculadas aos seus mídia. Aristóteles , na sua Poética, pode ser considerado o primeiro grande teórico das escritas da violência, já que uma das marcas da tragédia é a presença de eventos destrutivos, normalmente violentos, que nos abalam. O hitlerismo e, sobretudo, a maquinaria dos campos de extermínio, gerados por uma nação que tinha desempenhado um papel-chave no Iluminismo, significou uma novidade devido à radicalidade da violência e à sua origem. A idéia de exterminar onze milhões de indivíduos (o plano de Hitler), ou seja, todos os judeus europeus, era inédita nesta radicalidade. Isto gerou uma onda de memória também inédita na sua força. Esta onda mantém-se até hoje e está na origem de milhares de testemunhos. Levaremos décadas, ou séculos, para entender este material. Novas modalidades de escrita da violência surgiram nas artes plásticas, e aqui refiro-me sobretudo à estética dos anti-monumentos, de artistas como Jochen Gertz, Horst Hoheisel, Naomi Tereza Salomon, Shirin Neshat,  Thomas Hirschhorn,  Candida Höfer,  Doris Salcedo,  Louise Bourgeois,  Cindy Sherman,  Rosangela Rennó, Dani Karavan, , Micha Ullman. Na literatura vemos uma estética pós-holocausto marcada por uma fragmentação do discurso, mas que se manifesta de formas extremamente diversas, de Paul Celan  a Beckett,  mas marcando a escritura também de uma C. Lispector,  de António Lobo Antunes,  J. Coetzee,  W.G. Sebald,  entre tantos outros.

IHU On-Line - Como explicaria a literatura testemunhal a partir do Holocausto? Quais são suas principais expressões e peculiaridades? A partir disso, há uma relação estreita entre literatura e trauma?

Márcio Seligmann-Silva - A questão do testemunho tem sido cada vez mais estudada desde os anos 1970. Para evitar confusões, devemos deixar claro dois pontos centrais: (a) Ao invés de se falar em “literatura de testemunho”, que não é um gênero, percebemos agora uma face da literatura que vem à tona na nossa época de catástrofes e que faz com que toda a história da literatura – após duzentos anos de auto-referência – seja revista a partir do questionamento da sua relação e do seu compromisso com o “real”. Nos estudos de testemunho, deve-se buscar caracterizar o “teor testemunhal” que marca toda obra literária (mas, repito, que aprendemos a detectar a partir da concentração deste teor na literatura e escritura do século XX). Este teor indica diversas modalidades de relação metonímica entre o “real” e a escritura. (b) Em segundo lugar, esse “real” não deve ser confundido com a “realidade” tal como ela era pensada e pressuposta pelo romance realista e naturalista: o “real” que nos interessa aqui deve ser compreendido na chave freudiana do trauma, de um evento que justamente resiste à representação. Não se trata mais de pensar na “representação” de fatos, como na chave da teoria literária tradicional – Pré-Segunda Guerra –, mas sim de se pensar no ato de escritura como inscrição do eu, o que inclui sua memória traumática, que possui várias características, entre as quais eu destaco aqui justamente a sua resistência à inscrição simbólica.

IHU On-Line - O nazismo foi um Estado de Exceção nos moldes propostos por Agamben? Esse totalitarismo é a essência de nossa época ou apenas uma excrescência dela?

Márcio Seligmann-Silva - É importante lembrar que a Alemanha nazista existiu por seus doze anos sob o signo de um Estado de Exceção declarado. Agamben  parte deste fato e de uma longa tradição da teoria política que reflete sobre a relação entre nossa vida política “normal” e o Estado de Exceção. Sua teoria, de que o Estado de Exceção habita todo estado de direito, ele leu no ensaio de Walter Benjamin  “Zur Kritik der Gewalt”, de 1921, como ele mesmo o reconhece em inúmeros ensaios. Neste texto, Benjamin mostra que todo poder, em alemão Gewalt, é violência, que em alemão também é significado pelo termo Gewalt. De certo modo, Benjamin pensou o estado de direito como um Estado de Exceção, assim como ele pensou no homem moderno como um traumatizado, radicalizando certas teses freudianas. Mas, por outro lado, acho equivocado e até perigoso, comparar, como o faz Agamben, nossa vida nas democracias ocidentais (com todos seus evidentes limites) com a vida em um campo de concentração. Isto é perigoso porque banaliza a realidade do campo de concentração, relativiza a história e, portanto, a falsifica.

IHU On-Line - De que forma a obra de Benjamin influencia Agamben no conceito de Estado de Exceção?

Márcio Seligmann-Silva - Benjamin influenciou diretamente a teoria do Estado de Exceção de Carl Schmitt, um dos maiores teóricos da soberania, pese seu evidente compromisso com o nazismo. Além disto, questões centrais do ensaio de 1921 sobre a violência foram retomadas no livro sobre o Trauerspiel (drama barroco alemão) de 1925 –, em que Benjamin pensa a crise da soberania no século XVII – e nos textos escritos no contexto do Passagen-werk (Trabalho das passagens), com destaque para o “Sobre o conceito da história”, de 1940, no qual Benjamin tem uma afirmação contundente que ficou famosa: “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘Estado de Exceção’, no qual nós vivemos, é a regra. Precisamos atingir um conceito de história que corresponda a isto. Então teremos diante de nós como nossa tarefa provocar o efetivo Estado de Exceção; e deste modo melhorará a nossa posição na luta contra o fascismo”. Toda a teoria benjaminiana do Estado de Exceção influenciou Agamben. Agora veja só, esta passagem que cito, Benjamin escreveu no exílio, em 1940. Agamben reproduz esta idéia sem levar em conta que hoje as coisas não idênticas à Alemanha hitlerista.

IHU On-Line - A história pessoal de Benjamin é semelhante à de muitos outros perseguidos pelo regime nazista. Quais são as principais marcas que restaram nos sobreviventes do Holocausto?

Márcio Seligmann-Silva - Não se pode generalizar algum tipo de herança comum a todos. O que podemos observar são as mudanças no modo de se pensar o homem, a sociedade, as artes. É claro que as pessoas que estavam, por assim dizer, no olho do furacão, sofreram diretamente com aqueles fatos terríveis. Eles tiveram suas vidas esmagadas por aquela experiência. Mas, mesmo assim, muitos sobreviventes escreveram de modo muito forte e marcante sobre estas experiências, como Paul Celan, Primo Levi , Jorge Semprun, Inre Kertesz, entre muitos outros. Devemos manter nossos ouvidos abertos para o que eles disseram sobre aquela experiência.

Micropolítica

Na literatura, vemos uma estética pós-holocausto marcada por uma fragmentação do discurso. Devemos levar em conta que hoje em dia existe uma convivência de inúmeros modos de se pensar e produzir obras de arte e literárias. Por outro lado, é verdade também que aconteceu um movimento que podemos interpretar como uma politização destas produções. Mas não se trata de uma politização instrumentalizadora – como a realizada pelos regimes totalitários –, mas sim de uma politização no sentido de uma micro-política (do corpo, da memória dos traumas), que se dá tanto em termos individuai como grupais e nacionais. Vários artistas e escritores desenvolveram esta capacidade de inscrição da violência, que de certo modo está na base de toda cultura e da nossa individuação. São estas novas cartografias da memória da dor que temos que aprender a ler. Nelas, podemos ler também, aqui e ali, indicações de modos de se viver melhor, menos violentos talvez.

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