Edição 261 | 09 Junho 2008

A herança de Medellín

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Bruna Quadros

Para Joseph Comblin, Medellín trouxe algo novo, que vai além dos textos conciliares e dos documentos da Igreja, embora tenha sido durante séculos a aspiração de inúmeros santos e profetas

Realizada há 40 anos, a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada em Medellín, deixou importantes marcas para a construção de uma nova identidade para a Igreja na América Latina. “Até Medellín, na América Latina a Igreja foi a cópia das Igrejas de Espanha e Portugal, na sua forma tridentina. Não tinha nenhuma originalidade e não conseguia ver o que era a humanidade na América Latina.” A afirmação é do Prof. Dr. em Teologia Joseph Comblin  em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line.

Segundo ele, foi a partir de Medellín que nasceu um comprometimento com um assunto que, até então, não era visto como prioridade: a opressão dos pobres. “Em Medellín, a hierarquia começa a descobrir a verdade do evangelho, além de todas as devoções religiosas. Rompe a aliança com a classe dominante e pagará o preço.” Para Comblin, a contribuição da Conferência vai além da América Latina. “A Conferência de Medellín tem significado para a Igreja universal”, avalia. Na sua visão, uma grande herança de Medellín para a Igreja Latino-Americana é a luta pela justiça e a legitimidade da luta pela libertação por parte dos oprimidos.

IHU On-Line - Há 40 anos da Conferência de Medellín, na Colômbia, como o senhor avalia as propostas e o reflexo desta conferência para a Igreja na América Latina?
Joseph Comblin
- Medellín foi pensada por um grupo de bispos que já estavam comprometidos com os pobres. O Concílio não entendeu o apelo do cardeal Lercaro  e as orientações de João XXIII sobre a Igreja dos pobres. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 bispos, sobretudo do Terceiro Mundo, conduzidos por dom Helder Câmara , foram para a catacumba de Domitila, e assinaram o que chamaram de Pacto das Catacumbas. Comprometiam-se a uma conversão pessoal e a uma pastoral dando prioridade aos pobres. Quando dom Manuel Larrain  foi pedir a Paulo VI  a licença para reunir uma Conferência geral do Celam, ele tinha isso em mente. Durante os anos de preparação e durante toda a Conferência, esse Pacto esteve presente intimamente, ainda que nunca ninguém fizesse alusão. Tratava-se não somente de aplicar o Concílio, mas de expressar o que o Concílio não tinha tido a capacidade de dizer. Foi uma novidade mundial significativa par a Igreja universal. Medellín trouxe algo novo que vai além dos textos conciliares e dos documentos da Igreja, embora tenha sido durante séculos a aspiração de inúmeros santos e profetas, começando com São Francisco de Assis.

IHU On-Line - De que forma esta Conferência contribuiu para a construção da identidade da Igreja? Como definiria esta identidade e o papel da Igreja nos dias de hoje?
Joseph Comblin
- Até Medellín, na América Latina a Igreja foi a cópia das Igrejas de Espanha e Portugal, na sua forma tridentina. Não tinha nenhuma originalidade e não conseguia ver o que era a humanidade na América Latina. Em Medellín, abriram os olhos e descobriram o que ninguém queria ver: a opressão dos pobres. Desde a raiz da conquista, a Igreja permanecia na superfície. Muito devota, muito religiosa, presente quase que clandestinamente na vida de tantos oprimidos, mas ignorada pelo clero. Em Medellín, a hierarquia começa a descobrir a verdade do evangelho, além de todas as devoções religiosas. Rompe a aliança com a classe dominante e pagará o preço.

IHU On-Line - Quais são as principais diferenças entre a Conferência de Medellín e as demais conferências internacionais (Puebla, Santo Domingo...)?
Joseph Comblin
- Medellín suscitou pouco a pouco muita oposição, primeiro nas elites sociais e entre os bispos e os sacerdotes ligados à aliança com essas elites. A Conferência de Puebla foi convocada para destruir Medellín, mas não conseguiu porque ainda havia um número importante de bispos que tinham estado em Medellín. No entanto, a campanha de oposição continuou. O Papa João Paulo II não concordava com a atitude pública de defesa dos direitos dos oprimidos. Queria ver a Igreja longe dos conflitos. Não podia manifestar claramente a sua oposição, mas os seus silêncios foram eloqüentes e também a perseguição contra todos os bispos da linha de Medellín.

IHU On-Line - Quais são os maiores marcos históricos de Medellín que permanecem até hoje nas raízes da Igreja Latino-Americana?
Joseph Comblin
– Primeiro, o reconhecimento do pecado que foi o extermínio dos povos indígenas e a escravidão de milhões de africanos. Esses fatos ainda estão na base da sociedade latino-americana e não são reconhecidos pelas elites que concentram todos os poderes e controlam todos os governos. Segundo, a prioridade dos pobres na Igreja; exigência sempre recordada, mas nunca estabelecido nas estruturas de cristandade que são uma traição do evangelho. Terceiro, a luta pela justiça e a legitimidade da luta pela libertação por parte dos oprimidos.

IHU On-Line - Podemos pensar a importância da Conferência de Medellín para a Igreja na América Latina do mesmo modo que o Concílio Vaticano II teve forte significado para toda a Igreja?
Joseph Comblin
- A Conferência de Medellín tem significado para a Igreja universal. Ela é mais exigente do que o Concílio. Em primeiro lugar, constitui o grande desafio para a Igreja Latino-Americana. Mas questiona, também, toda a herança da cristandade constantiniana, no mundo inteiro. Medellín parte de Vaticano II, mas acrescenta algo fundamental.

IHU On-Line - Quais são os grandes desafios da Igreja na contemporaneidade? Como transpô-los, na tentativa de continuar no caminho da afirmação, junto à sociedade?
Joseph Comblin
- Hoje em dia, a Igreja não é mais interessante porque abandonou o evangelho. O desafio é: como viver o evangelho numa sociedade tão diferente das sociedades tradicionais? Como viver o evangelho nas grandes cidades? Como e onde suscitar pequenas comunidades? A paróquia não é comunidade de valores evangélicos. Ela é o refúgio dos sobreviventes da antiga sociedade. Tudo será obra de alguns pequenos grupos que possam descobrir o que é uma vida comunitária evangélica no contexto da cidade, hoje em dia?

Últimas edições

  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição
  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição