Conservação e exploração da biodiversidade – Limites e oportunidades

Mais do que nunca, a preservação dos ecossistemas e dos recursos naturais é um assunto que exige toda a atenção da sociedade. Isso porque um meio ambiente livre de poluentes é a garantia de um aumento na qualidade de vida da população humana, tanto no presente quanto nas gerações futuras. Diante do desafio de manter viva a conscientização dos indivíduos acerca do tema, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU irá inserir o debate no âmbito acadêmico. Conservação e exploração da biodiversidade – limites e oportunidades é o tema do evento IHU Idéias, que será realizado no dia 5 de junho.

Por: Bruna Quadros

 

Quem discutirá o tema é o Prof. Dr. Demétrio Luís Guadagnin, docente da Unisinos, no PPG em Biologia. Na oportunidade, o também presidente do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica irá contextualizar os seus principais projetos de pesquisa, cujo foco é a conservação e o manejo da vida silvestre.

Os temas conservação da biodiversidade em arrozais, e manejos de espécies arbóreas invasoras no bioma Pampa, de pínus e conservação ambiental na zona costeira do sul do Brasil, além da sustentabilidade do extrativismo Kaingang de lianas em áreas peri-urbanas da grande Porto Alegre e efeitos do manejo tradicional do estuário da Lagoa do Peixe na conservação de aves aquáticas fazem parte das recentes pesquisas de Guadagnin. A seguir, acompanhe o foco e as pretensões de cada um dos trabalhos:

 

Conservação da biodiversidade em arrozais

A perda, fragmentação e degradação dos habitats naturais estão entre os principais fatores de perda de biodiversidade. Mais de 50% das áreas úmidas do planeta foram perdidas nos últimos 100 anos, principalmente pelo avanço da agricultura. No Rio Grande do Sul, o principal fator é a expansão das lavouras de arroz. Por outro lado, as áreas agrícolas podem contribuir para a conservação de habitats e espécies. Os arrozais podem desempenhar um papel de suplementação dos recursos utilizados por muitas espécies de aves aquáticas, uma vez que são áreas úmidas temporárias. Alguns dos objetivos do projeto são descrever e comparar os padrões de composição e abundância da assembléia de aves aquáticas ao longo do ciclo anual em arrozais e em áreas naturais e analisar o efeito da presença de água nas lavouras de arroz na fase pós-colheita, sobre os padrões de composição e abundância. Foram estudados, na zona costeira do Rio Grande do Sul quatro remanescentes de áreas úmidas, seis arrozais drenados no período pós-colheita e quatro arrozais mantidos com água. Os remanescentes de áreas úmidas apresentaram maior riqueza de espécies que as lavouras de arroz e um padrão de flutuação sazonal diferente do encontrado nas lavouras ao longo do ciclo de cultivo. Entre as lavouras, aquelas mantidas com água no período pós-colheita abrigaram uma maior riqueza e abundância de aves. Os ecossistemas agrícolas são capazes de proteger uma fração expressiva da biodiversidade regional. Além disso, os arrozais não são substitutos dos remanescentes naturais na conservação da biodiversidade e as decisões de manejo das lavouras influenciam a capacidade das áreas agrícolas de conservar a biodiversidade.

Manejo de espécies arbóreas invasoras no bioma pampa (Brasil Uruguai, Argentina)

O bioma pampa da América do Sul, que inclui o extremo sul do Brasil, o Uruguai e o centro-leste da Argentina, vem sendo objeto de maciços investimentos do setor florestal para expansão da produção de madeira, em sistemas de monoculturas de espécies exóticas reconhecidamente invasoras – espécies dos gêneros pínus e eucaliptos. Por razões históricas e culturais, ao contrário dos biomas com um forte componente florestal, os ecossistemas pampeanos foram, durante muito tempo, percebidos como ambientes com escasso valor em si mesmos e como espaços disponíveis para a expansão agropecuária. No Brasil, a superfície do bioma pampa protegida na forma de unidades de conservação de proteção integral é de 0,13%. Esta condição favoreceu a oportunidade da expansão da silvicultura baseada em espécies exóticas invasoras, que se converteu na principal ameaça presente à conservação da biodiversidade do bioma. Para tanto, o projeto propõe compartilhar as experiências de três grupos de trabalho do cone Sul da América do Sul, em diferentes níveis de avanço sobre a análise dos impactos da silvicultura baseada em espécies exóticas, o manejo de espécies lenhosas exóticas e o planejamento de ações e políticas de conservação. O compartilhamento de experiências é a forma mais rápida e eficiente de planejar ações de conservação abrangentes tanto quanto em relação ao marco conceitual como em relação à coerência espacial necessária para um bioma compartilhado entre os países proponentes. Entre os resultados pretendidos com o projeto, está a elaboração de um manual de melhores práticas de manejo para promover a prevenção e o controle de espécies arbóreas invasoras no bioma Pampa, além de uma avaliação dos impactos socioambientais em nível municipal (saúde, economia e meio ambiente) da economia baseada na silvicultura.

Manejo florestal de pínus e conservação ambiental na zona costeira do sul do Brasil

A atividade silvicultural tem grande importância econômica no Sul do Brasil e impactos ambientais precisam ser mitigados. Na região de Mostardas, zona costeira do Rio Grande do Sul, persistem importantes conflitos entre a silvicultura de pínus, uma espécie invasora de ambientes naturais, e a conservação da biodiversidade regional. Lacunas de conhecimento sobre os efeitos do manejo florestal na biodiversidade e ecossistemas naturais resultam em riscos associados a todas as ações de manejo propostas, cuja solução é necessária para avançar na compatibilização entre silvicultura e conservação. O manejo florestal pode resultar em mobilização dos sistemas de dunas e estímulo à re-infestação por pínus ou na recuperação da vegetação natural e fixação das dunas. O início de um plano de exploração florestal de pínus no Parque Nacional da Lagoa do Peixe oferece a oportunidade de iniciar um programa de pesquisa voltado à redução das incertezas sobre os efeitos do manejo. O projeto se orienta pela abordagem metodológica do Manejo Ecossistêmico Adaptativo, de tal modo que as ações de manejo se tornem tratamentos no sentido experimental. Os resultados desta atividade proporcionarão subsídios importantes para a gestão do conflito entre a silvicultura e a conservação da biodiversidade no sul do Brasil, em particular, no Parque Nacional da Lagoa do Peixe e seu entorno.

Sustentabilidade do extrativismo Kaingang de lianas em áreas peri-urbanas da grande Porto Alegre

O extrativismo de lianas é uma atividade economicamente e culturalmente importante para as comunidades Kaingang. Desta atividade artesanal, dependem mais de 50 famílias destas comunidades indígenas na região de Porto Alegre. No entanto, esta prática tem gerado conflitos com a gestão de unidades de conservação, legislação ambiental no domínio da Mata Atlântica e proprietários de áreas com fragmentos florestais. O desafio é buscar soluções práticas e participativas, considerando, de um lado, a existência do extrativismo como base da produção de artesanato e sustentabilidade sociocultural e econômica das comunidades indígenas e, de outro, a preocupação com os efeitos deste extrativismo na conservação da biodiversidade. Compreender os processos de coleta e utilização de lianas pelas comunidades indígenas e os processos de regeneração dos estoques de lianas, sob diferentes condições ambientais e regimes de manejo, são passos essenciais para manejar adaptativamente este recurso renovável de forma a garantir a sustentabilidade e otimização da atividade. Neste sentido, a proposta é estudar e manejar o extrativismo de forma participativa, envolvendo as comunidades Kaingang, gestores de áreas naturais protegidas, proprietários de áreas de interesse de extrativismo e comunidade científica, em um processo de aprendizado.

Efeitos do manejo tradicional do estuário da Lagoa do Peixe na conservação de aves aquáticas

Variações imprevisíveis em diversas escalas de tempo e espaço resultam em incertezas sobre como um ecossistema responderá a diferentes pressões ou ações de manejo humano. O Parque nacional da Lagoa do Peixe é um ambiente de zonas úmidas de importância internacional para aves aquáticas migratórias e um ambiente estuarino muito particular, por apresentar uma comunicação intermitente com o oceano. Nas épocas de cheia da laguna, em períodos de maior pluviosidade, ocorre a abertura natural da barra da laguna para a conexão com o mar. Persiste no parque a pesca artesanal de camarão-rosa, o que implica na abertura artificial da barra da laguna para a entrada das larvas de camarão, quando esta não ocorre naturalmente na época desejada. Portanto, já há longa data, a abertura artificial da barra da laguna vem sendo efetuada pelas comunidades locais. O plano de manejo do parque prevê o cancelamento deste manejo artificial da barra. A disponibilidade de habitat de alimentação é determinada pelas variações de nível d’água, e as aves podem ser tanto beneficiadas quanto prejudicadas pelo manejo antrópico. Existem habitats alternativos que podem ser ocupados, quando as condições da laguna são inadequadas, mas se desconhece sua adequação para as aves. O projeto contempla o manejo da barra da Lagoa do Peixe de modo adaptativo, através do monitorando dos efeitos de inúmeros fatores naturais e antrópicos sobre a riqueza, composição, comportamento e deslocamentos das aves aquáticas, durante seu período de permanência na laguna. Esta é a ferramenta adequada para conduzir ações de gestão de forma a reduzir as incertezas inerentes e refinar as ações.

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