Edição 259 | 26 Maio 2008

“A qualidade de vida brasileira vai melhorar com produtos de nanotecnologia nacional, desenvolvidos dentro da nossa sociedade”

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Patricia Fachin e Moisés Sbardelotto

Adriana Pohlmann, que desenvolveu o primeiro produto nacional nanotecnológico para a saúde, em parceria com a pesquisadora Sílvia Guterres, aponta caminhos para que as pesquisas em nanotecnologia no Brasil possam avançar e critica os impedimentos jurídicos nas universidades

Para a pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Adriana Pohlmann, a pesquisa com nanopartículas irá possibilitar que novos insumos sejam utilizados na constituição de medicamentos e de formulações cosméticas. Em parceria com a pesquisadora Silvia Guterres, da mesma universidade, Adriana desenvolveu o primeiro produto nacional nanotecnológico para a saúde, um anestésico de uso tópico para pequenas cirurgias na pele. A inovação está em uma nanocápsula biodegradável que transporta o medicamento para regiões específicas. Segundo ela, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, as pesquisas na área são importantes para a sociedade, “porque todos saímos ganhando no sentido da maior qualidade de vida”. Esse desenvolvimento tecnológico nacional, afirma, precisa ser aproveitado pelas indústrias do país, para que a sociedade possa usufruir de novos produtos e medicamentos. Porém, ela acredita que as universidades e os pesquisadores ainda precisam amadurecer na integração universidade-empresa. “Às vezes, até acabamos perdendo oportunidades por não termos agilidade na negociação. Amadurecer e aprender nessa relação universidade-empresa vai melhorar e agilizar o desenvolvimento tecnológico no país”, sintetiza.
Adriana Pohlmann é graduada em Farmácia e mestre em Química, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Cursou doutorado em Chimie Thérapeutique, pela Université Paris V. Atualmente, é professora associada no Departamento de Química Orgânica da UFRGS. Ela estará na Unisinos esta semana, ministrando o minicurso “Nanofármacos, nanocosméticos, nanocápsulas” junto com Sílvia Gutteres, na quarta-feira, dia 28 de maio, a partir das 14h, na programação do Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias.

IHU On-Line - De que maneira as suspensões de nanopartículas poliméricas atuam na produção de medicamentos e cosméticos? O que os produtos à base dessas suspensões de nanoparticulas polimétricas apresentam de diferente?
Adriana Pohlmann
- As nanopartículas poliméricas são insumos de medicamentos ou de formulações cosméticas. Assim como adicionamos ativos e adjuvantes, que são insumos, temos ainda, além desses, as nanopartículas poliméricas como insumos na constituição de medicamentos e de formulações cosméticas. No caso, para que essas formulações se diferenciem das convencionais, os ativos precisam estar vinculados às nanopartículas poliméricas. E, dessa forma, no caso dos medicamentos, nós temos, dependendo da via de administração, diferenças de comportamento da forma convencional e da nanotecnológica, no sentido de menor toxicidade da formação nanotecnológica, além de maior eficácia e mais seletividade na ação. Os ativos passam a ter um destino mais específico no organismo. Portanto, os medicamentos que são encontrados com base nanotecnológica têm também maior especificidade. Existem medicamentos para via cutânea também. Neste caso, as nanopartículas poliméricas normalmente servem de reservatório e levam diretamente o ativo à pele. Então, a substância ativa pode chegar até a camada mais profunda para exercer a sua ação. Teremos, conseqüentemente, por exemplo, os ativos cosméticos encapsulados produzindo uma ação localizada na pele, a fim de prevenir a ação do tempo.
 
IHU On-Line – Quais são as implicações e vantagens da manipulação de fármacos para a sociedade? A manipulação concentrada de algumas substâncias orgânicas torna os laboratórios dependentes de grandes grupos farmacêuticos?
Adriana Pohlmann
- Os materiais que utilizamos em nossa pesquisa estão disponíveis no mercado nacional e internacional. Com essas matérias-primas, preparamos as nanopartículas poliméricas por meio de técnicas específicas, que fazem a estruturação do sistema no nível nanoscópico. E é esse dispositivo nanoscópico que terá fases diferenciadas. As novas tecnologias, como essa diafiltração  de nanopartículas poliméricas, têm vários métodos de separação. Alguns deles são patentes e inclusive já estão caindo no domínio público. Então, não existem grandes problemas em relação à propriedade ou coisas assim. Alguns métodos de preparação ainda têm patentes depositadas válidas. No caso do nosso laboratório, nos preocupamos com o desenvolvimento científico, ou seja, com o estabelecimento de um conhecimento novo. Dessa forma, fazemos publicações científicas, e o conhecimento fica em domínio público. Nós, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuamos cientificamente como todo grupo de pesquisa faz, trabalhando com novos conceitos e divulgamos publicamente os resultados. A interação universidade-empresa dentro da legislação brasileira, que foi bem amadurecida e estabelecida nos últimos dez anos, propicia vantagens à sociedade, com uma melhor qualidade e maior expectativa de vida, uma melhoria quanto à utilização de medicamentos mais seguros, mais seletivos, específicos e menos tóxicos. E, no momento em que temos a tecnologia brasileira trabalhando com as nanotecnologias, e, no caso específico, as nanopartículas poliméricas, podemos fazer com que esse conhecimento traga o desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo em que esse desenvolvimento tecnológico nacional poderá ser aproveitado pelas indústrias que estão no nosso país, a nossa sociedade possivelmente conseguirá usufruir dos produtos que entrarem no nosso mercado, trazendo um ganho social muito grande. A nossa qualidade de vida brasileira irá melhorar com produtos nossos, nacionais, desenvolvidos dentro da nossa sociedade.

IHU On-Line - Quais são as maiores contribuições dos nanocosméticos à saúde humana? Podemos dizer que eles tentam saciar o desejo de eterna juventude dos seres humanos?
Adriana Pohlmann
- No caso dos nanocosméticos, quando trabalhamos com a exposição ao sol, temos a atuação do ambiente sobre a parte externa do nosso organismo e a produção de radicais livres. Isso pode levar a algumas doenças cutâneas, inclusive ao envelhecimento. Portanto, não é só uma questão de preocupação de beleza, como às vezes parece, mas sim de prevenção, para que não tenhamos determinadas doenças e possamos retardar e prevenir alguns problemas referentes à nossa exposição ao sol, à nossa vivência no ambiente, na qual nos desgastamos. Então, podemos aumentar a expectativa de vida por meio dessa tecnologia, dando qualidade de vida para as pessoas.
 
IHU On-Line - Que progressos a utilização das nanopartículas podem trazer para a medicina? Em que áreas da saúde as nanotecnologias já são aplicadas com sucesso?
Adriana Pohlmann
– Na parte de diagnóstico, nós temos algumas situações em que a nanotecnologia está sendo investigada. Ela pode trazer benefícios para a centralização e detecção de doenças mais rapidamente do que normalmente conseguiríamos. Quando falamos em nanotecnologia, sempre precisamos situar o campo econômico enfocado. Na medicina e em toda a questão da saúde, nós temos medicamentos e os cosméticos. Mas possuímos, também, o setor automotivo, o setor de bioquímicos e o setor de energia. A nanotecnologia é bastante abrangente e vai poder contribuir num aspecto mais geral ainda do que estamos aqui focalizando na medicina e na área terapêutica.

IHU On-Line - Qual é a diferença entre os sistemas nanoparticulados e microparticulados? Como o desenvolvimento desses sistemas auxilia a vetorização e o transporte de moléculas ativas?
Adriana Pohlmann
- Os sistemas microparticulados são organizados em dispositivos micrométricos. Se formos pensar num fio de cabelo, temos a espessura desse fio numa escala micrométrica. Já a escala nanométrica é mil vezes “mais fina”. A divisão de uma partícula é mil vezes menor do que a espessura de um fio de cabelo na escala nanométrica. A organização das estruturas compostas de vários materiais, no nosso caso de nanopartículas poliméricas, tem essa dimensão. E a diferença de utilização das nanopartículas e das micropartículas é a via de administração. Não podemos, por exemplo, administrar no vaso sangüíneo, no meio intravenoso, uma micropartícula, porque, lá no pequeno capilar, pode dar embolia. Já a nanopartícula poderá ser administrada no vaso sangüíneo, porque passará livremente, sem ter um risco de embolia nos pequenos capilares. Acredito que o Brasil também ganhe com a microtecnologia na área da medicina. No entanto, a amplitude de variáveis que temos na área terapêutica usando nanotecnologia são maiores do que usando microtecnologia. Então, nesse ponto, o Brasil ganha mais desenvolvendo nanotecnologia, porque ainda estamos dentro da corrida de desenvolvimento junto com outros países ditos desenvolvidos ou de economia mais estável, apesar de os financiamentos serem menores do que em outros países, como Estados Unidos, Japão, França, Alemanha e Grã-Bretanha. Nosso investimento é muito menor no desenvolvimento tecnológico, mas vejo que a nossa atuação científica é proporcionalmente adequada. Precisamos amadurecer um pouco mais o desenvolvimento tecnológico para se alcançar, com um pouco mais de rapidez, a possibilidade de dar à sociedade produtos acabados.

IHU On-Line - Muitas pesquisam mostram que as nanocápsulas podem ser terapêuticas, mas, segundo seus estudos, elas podem apresentar instabilidade físico-química decorrente essencialmente da sedimentação das partículas. Que problemas isso pode gerar?
Adriana Pohlmann
- Nós fazemos esse tipo de investigação um pouco antes de desenvolver um produto. Um novo sistema é, justamente, investigado para não apresentar essas deficiências que se manifestam pelas características químicas de sedimentação. Se um sistema nanotecnológico de nanocápsulas está apresentando uma sedimentação rápida – isso significa uma sedimentação em vários meses de observação –, teremos uma sedimentação muito pequena. E isso significa que o sistema está bastante estável. Se o preparamos e na mesma semana ou em poucas semanas já podemos observar uma sedimentação a olho nu, significa que esse sistema não está adequado ainda para ser transposto para o desenvolvimento tecnológico e chegar a produtos depois. Isso significa que ele precisa de maior investigação antes de ser pensado como sistema tecnológico. Ainda está no campo da ciência, não se encontrando utilizável. Vem daí o fato de fazermos isso no âmbito científico, enquanto que aprendemos como temos de racionalizar e aparelhar um sistema de nanocápsulas que seja estável o suficiente, para que depois, em uma caracterização do produto, passe em todos os testes necessários e exigidos, a fim de ser considerado produto.

IHU On-Line - O investimento para a iniciação científica é bastante alto. Entretanto, muitas pesquisas esbarram em problemas burocráticos e até mesmo financeiros, envolvendo empresas públicas, privadas e universidades. Como a senhora percebe essa relação? Isso dificulta o avanço científico?
Adriana Pohlmann
- Sim, tanto que as universidades e principalmente nós ainda precisamos amadurecer muito na integração universidade-empresa. No Brasil, essa relação ainda é feita por poucos. E, às vezes, até acabamos perdendo oportunidades por não termos agilidade na negociação. Amadurecer e aprender nessa relação universidade-empresa irá melhorar e agilizar o desenvolvimento tecnológico no país.

IHU On-Line - Em comparação aos demais países que realizam pesquisas em nanotecnologia, como a senhora vê a participação do Brasil? Quais são os seus pontos de destaque e quais os limitadores para a pesquisa?
Adriana Pohlmann
- O ponto de destaque no Brasil é a questão científica. Nós estamos com desenvolvimento científico seguindo passos de países desenvolvidos. Por outro lado, nossa limitação é, justamente, a agilidade na integração universidade-empresa. Os países desenvolvidos já têm maturidade e conseguem fazer essa integração rapidamente. Os produtos nanotecnológicos desenvolvidos chegam até a sociedade e têm um apelo muito maior do que no Brasil. Para que consigamos percorrer esse caminho de forma mais facilitada, teríamos de amadurecer a relação universidade-empresa. E esse amadurecimento deverá acontecer sob o ponto de vista jurídico, porque, sob o ponto de vista técnico, o diálogo é bastante ágil.

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