O limite entre a razão e a loucura: uma reflexão sobre o mundo de Estamira

“Estamira nos convida a uma interlocução direta com a experiência da loucura. Denuncia e fala dos nossos limites como sociedade”, afirma Maria de Fátima Bueno Fischer

Por: Bruna Quadros

O documentário Estamira mostra a vida de uma mulher que encontrou no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, a sua fonte de subsistência. Mesmo considerada louca, seu devaneio revela as mazelas sociais do país, grandes verdades que distúrbios mentais permitem enxergar. “Vejo a loucura de Estamira como uma estratégia de sobrevivência na sociedade atual. Ela como sujeito não se deixa desaparecer, o que muitas vezes é feito com equipamentos, medicações com portadores de sofrimento psíquico, tornando-os sujeitos invisíveis e silenciosos, mudos.” A afirmação é da Profa. MS Maria de Fátima Bueno Fischer. Integrante do corpo docente da Unisinos, no curso de Psicologia, ela estará analisando e debatendo o documentário, dirigido por Marcos Prado. Em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, ela comenta a postura de Estamira que, frente as suas dificuldades sociais, não se reduz à doença mental.

Maria de Fátima Bueno Fischer é psicóloga e mestre em Educação, com atuação profissional há 26 anos em saúde mental coletiva, focada no atendimento direto com portadores de sofrimento psíquico. Esteve na direção e implementação do primeiro serviço de saúde mental no paradigma da reforma psiquiátrica: Pensão Pública Nova Vida, criada em 1990 e onde trabalhou durante nove anos. Trata-se do primeiro serviço público de moradia no ideário da luta antimanicomial, substitutivo ao sistema manicomial. Também faz parte do Fórum Gaúcho de Saúde Mental, desde 1979, movimento social em defesa da reforma psiquiátrica no Brasil, hoje organizado como núcleos estaduais no país. Atualmente, trabalha na equipe do Residencial Terapêutico Morada Viamão, é professora e supervisora de estágio na Unisinos e atua na Gestão do Conselho Regional de Psicologia.

IHU On-Line - Mesmo com distúrbios mentais, as reflexões de Estamira sobre a vida são, muitas vezes, reais, principalmente no que diz respeito à corrupção e religiosidade. Neste sentido, o que pode ser considerado como loucura, tendo em vista que é no “devaneio” que ela fala as verdades?
Maria de Fátima Bueno Fischer
- Estamira nos convida a uma interlocução direta com a experiência da loucura. Denuncia e fala dos nossos limites como sociedade. Ela demonstra uma enorme dignidade em sua loucura. O que nos falta, e ela no filme enuncia, nos convida para um encontro entre diferentes, loucos e não loucos na possibilidade de um outro discurso, num encontro possível.

IHU On-Line - Como você analisa o comportamento de Estamira, diante das suas condições de vida, e a sua percepção de mundo?
Maria de Fátima Bueno Fischer
- O que vemos em Estamira é que ela, felizmente, não ficou reduzida às instituições manicomiais onde este encontro com a cidade que ela tem seria interditado, não aconteceria. Temos várias Estamiras, homens e mulheres aprisionadas em instituições totais (Goffman  e Foucault) , aos quais a subjetivação tem sido expropriada há séculos. O experimento dela com a cidade, e nas condições em que vive, é uma denúncia escancarada de um projeto de sociedade falida, de homens e mulheres silenciosos e dóceis organizados num modo de ser e estar “normalizados”. Ela, diferentemente, não se cala, fala a partir de um discurso não “normalizado” com uma organização própria, trazendo uma fala que nos assusta, pois, na realidade, está muito próxima de nós. Ela, sim, é uma militante da luta antimanicomial (movimento social de usuários e trabalhadores de saúde mental, que há 20 anos, no Brasil, tem como objetivo conquistar uma sociedade sem manicômios) sem sabê-lo. Ela resiste e reage, em seus gestos, atitudes e falas, a tudo que possa capturá-la para adequá-la à sociedade. As falas, seus gritos, seus palavrões, suas relações não são diferentes daquelas da maioria da população brasileira submetida a quaisquer formas de exclusão e de assujeitamento. O “saudável” dela, se pode-se assim dizer, é que ela é guerreira e resiste. E nisto é que ela nos denuncia, como disse anteriormente. Ela não se deixa capturar pelo discurso psiquiátrico, que é uma forma requintada de silenciar subjetividades e amordaçá-las.

IHU On-Line - Podemos dizer que Estamira se refugia na sua loucura para superar a sua realidade? De que outras formas a mente humana pode reagir, diante de situações como as vividas pela personagem?
Maria de Fátima Bueno Fischer
- Vejo a loucura de Estamira como uma estratégia de sobrevivência na sociedade atual. Ela como sujeito não se deixa desaparecer, o que muitas vezes é feito com equipamentos, medicações com portadores de sofrimento psíquico. E eu, como militante do movimento da luta antimanicomial e técnica-militante na construção de novos modos de cuidar, sinto-me convocada pela provocação de Estamira. O que ele despertou em mim, me desafiou, é o modo como lida com a complexidade da vida, da qual o sofrimento psíquico, sua loucura, não está fora, mas não se vê reduzida à doença. É uma experiência, como diria de resistência, de enfrentamento à normalização. É claro que também mostra a insuficiência dos novos modos de atenção em saúde mental (no filme, ela é assistida num CAPS, centro de atenção psicossocial, serviço que compõe a rede de atenção no paradigma da desinstitucionalização), mas vejo aí uma voz que fala de nossos limites, insuficiências no processo de substituição do modelo manicomial. Mas quem melhor do que ela para nos falar do que nos falta? Ela que experimenta, sofre, vive esta realidade? Acredito é neste encontro de complexas realidades em que nos fortaleçamos para aprendermos juntos usuários e trabalhadores, tecnologias cada vez mais complexas, como também são as exigências do humano hoje.

Para saber mais...
Dirigido por Marcos Prado, o documentário de 2004 conta a história de Estamira, uma mulher de 63 anos de idade, que sofre de distúrbios mentais e vive e trabalha há mais de 20 anos no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, um local renegado pela sociedade, que recebe, diariamente, mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro. Com um discurso eloqüente, filosófico e poético, a personagem central do documentário levanta, de forma íntima, questões de interesse global, como o destino do lixo produzido pelos habitantes de uma metrópole e os subterfúgios que a mente humana encontra para superar uma realidade insuportável de ser vivida. O documentário já ilustrou a editoria Filme da Semana, sob o título As várias faces de Estamira, escrito pela crítica de cinema, Neusa Barbosa. O conteúdo foi publicado na edição número 194 da revista IHU On-Line, intitulada: A complexidade do cérebro. Bilhões de neurônios e células gliais.

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