Edição 257 | 12 Maio 2008

Medo da inflação eleva taxa de juros

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Patricia Fachin

O Brasil entregou a política econômica ao sistema financeiro internacional constata Wilson Cano

O valor parece baixo, apenas meio ponto percentual, mas a elevação dos juros de 11,25% para 11,75% trará prejuízos para o país, alerta Wilson Cano, economista da Universidade de Campinas (Unicamp). Ao avaliar o aumento da Selic, ele diz que não existem, atualmente no Brasil, medidas que justifiquem essa decisão. E acrescenta: “A taxa vai elevar o montante de juros a ser pago pelo governo”. Se não bastasse, argumenta, estamos diante de uma crise internacional que “poderá trazer mais agravamentos para o mercado financeiro, abatendo também o nosso país”.

Ao analisar os impactos na dívida pública, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, ele é categórico: “É obvio que a dívida pública irá crescer em termos líquidos. Ela vai aumentar o estoque da dívida e o montante do pagamento de juros no orçamento da República e nos orçamentos estaduais e municipais”.

Wilson Cano é doutor em Ciências Econômicas, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, é professor da mesma universidade.

IHU On-Line - O aumento da Selic pode ser justificado pelo valor elevado da dívida pública? Alguns economistas alegam que os juros poderiam ser menores se a dívida fosse menor.
Wilson Cano
– São esses mesmos economistas que justificam os juros altos. Ora, se eles apresentam essa justificativa, sabem perfeitamente que a dívida só poderá crescer como se fosse uma bola de neve. Portanto, isso é uma coisa completamente sem sentido. A dívida pública foi inventada pelo homem em sociedade para não ser paga. Se observarmos a dívida pública do Japão e da Itália, por exemplo, veremos que ela equivale a mais de 100% do PIB desses países.

O que deve ser discutido quando se trata de dívida pública é o prazo de vencimento dos títulos, se eles ameaçam algum afogadilho no mercado financeiro nacional e qual é a dimensão da taxa de juros, se é uma taxa de juros normal e não essa coisa vergonhosa, escandalosa, como a brasileira.

IHU On-Line - De que maneira a elevação da taxa de juros pode prejudicar alguns programas sociais do governo?
Wilson Cano
– Em primeiro lugar, a taxa irá elevar o montante de juros a ser pago pelo governo. Então, ela vai gerar, evidentemente, pressões, aumentando os gastos do governo e obviamente também serão pressionados cortes de outros gastos que não os de juros.

Não adianta dizer que a Selic só irá afetar os títulos prefixados, porque na verdade ela acaba rebatendo indiretamente e alterando a dimensão da taxa de juros no mercado financeiro. Já tivemos aumentos nas taxas de juros em operações mercantis.

IHU On-Line – Algumas pesquisas têm mostrado que o consumo aumentou de maneira geral, ou seja, gasta-se mais no Brasil atual. Como o senhor percebe esse ciclo de liberação de crédito e financiamentos a longo prazo?
Wilson Cano
– Nesse segundo mandato do governo, a relação entre o crédito ao setor privado e o PIB se encontrava como o FHC tinha deixado. Ou seja, uma coisa ridícula, menos do que 30%. No governo Lula, foi inventado o crédito consignado tanto para aposentados quanto para contribuintes da previdência social e isso possibilitou uma expansão notável do crédito privado. Assim, no ano passado o crédito privado cresceu fundamentalmente com o crédito ao consumo.

IHU On-Line – O governo cogitou a possibilidade de conter os créditos. Isso tem alguma relação com o aumento da taxa de juros ou essa contenção dos créditos pode estar relacionada com o medo de uma possível inflação?
Wilson Cano
– O Banco Central está apavorado com a idéia de que a inflação possa subir além do que se prevê. Pode ser que ela suba, já que existem pressões internacionais nesse sentido. Mas, sinceramente não se nota nada de extraordinário e tampouco impacto imediata. Por exemplo, o preço da gasolina está 17% defasados no Brasil, segundo disse o presidente da Petrobras. Eles pensam em aumentar apenas 5%. Então, não há pressões concretas que justificassem essa decisão sobre a taxa de juros. O pior é que estamos diante de uma crise internacional que poderá trazer mais agravamentos para o mercado financeiro, abatendo também o nosso país.

O Banco Central deveria estar morrendo de medo do atual valor do dólar. É óbvio que os valores atuais do dólar não irão parar por aqui. Esse dinheiro, evidentemente vai subir e potencializar ainda mais o crescimento do preço das commodities, dos produtos químicos, ou seja, elementos que vão afetar diretamente a agricultura. Portanto, teremos pressões concretas no número de preços.

IHU On-Line – Os juros impactam de maneira diferente nas regiões brasileiras? Alguns estados lidam melhor essa situação ou as implicações são generalizadas?
Wilson Cano
– As implicações são generalizadas porque todos os estados padecem do problema da dívida pública e porque a política monetária é nacional e não está regionalizada.

IHU On-Line - A elevação da Selic pode significar uma mudança no Plano Anual de Financiamento (PAF) da dívida pública para 2008? De que maneira a elevação dos juros podem impactar na dívida pública interna?
Wilson Cano
– A dívida pública irá crescer mais do que o PIB. Estamos com uma inflação concreta de pouco mais de 4%, o PIB está crescendo a 4,5 ou 5%, ou seja, em torno de 9%, e a Selic vai a 12%. Então, é óbvio que a dívida pública crescerá em termos líquidos. Ela vai aumentar o estoque da dívida e o montante do pagamento de juros no orçamento da República e nos orçamentos estaduais e municipais. 

IHU On-Line – Então, o Brasil corre o risco de paralisar a continuidade do ciclo de investimentos, uma vez que é mais interessante deixar o dinheiro no sistema financeiro do que aplicar na economia nacional? O aumento dos juros atrai mais investimentos financeiros para o país. Entretanto, quais são as vantagens para a população nacional?
Wilson Cano
– Sim. A rigor, só em meados de 2007 e início de 2008 é que tivemos precipitações internas de crescimento. Mas isso se deve pela retomada de investimentos e  pela grande retomada de consumo. As taxas de juros sempre punem aqueles que se endividam, compram a crédito e acabam pagando esse custo. 

IHU On-Line - Como o senhor percebe a fusão entre empresas nacionais e internacionais como ocorreu com a Oi e a Brasil Telecom? Essa medida, reafirmada no governo Lula, trará implicações ao futuro do país?
Wilson Cano
– Essa iniciativa reforça o fortalecimento do capital nacional. Essa nova empresa, gerada pela união da Oi e da Brasil Telecom, poderá repartir esse “queijo” de uma maneira um pouco menos concentrada do que hoje. Mas não tenho notícias de que isso poderá baratear as tarifas de telecomunicações ou trazer algum benefício para o consumidor. 

IHU On-Line - Como explicar a diferença da taxa de juros entre os países da América Latina?
Wilson Cano
– A diferença se destaca porque no Brasil há uma política de medo. Isso ocorre também porque o governo entregou a política econômica ao sistema financeiro nacional e internacional.  Com exceção da Argentina, da Venezuela e do Equador, os demais aceitaram a ortodoxia fiscal e monetária do Consenso de Washington.

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