Mais produção, menos trabalhadores: as transformações do mundo do trabalho

Nem todas as mudanças do mundo do trabalho ocorreram de maneira radical, considera Marco Aurélio Santana

Por: Patricia Fachin

“Ainda que se possa constatar a emergência de um novo padrão de organização do trabalho alternativo ao fordismo, não seria correto dizer que já teria ocorrido uma ruptura com os princípios fordistas.” A opinião é de Marco Aurélio Santana, sociólogo. Para ele, o trabalho em países periféricos é caracterizado por métodos tayloristas que convivem com “experiências pontuais de inovação organizacional e tecnológica”.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Santana diz que as mudanças no mundo do trabalho trazem uma sociabilidade que contesta a participação coletiva. Essa mudança, reitera, é perceptível com o “quase banimento” dos termos trabalhador e operário, substituídos por parceiro, colaborador, cliente. “Neste universo de sentido, fica excluída toda idéia de ‘luta’ e ‘conflito’, em nome da ‘colaboração’. E aí os sindicatos perderam muito de seu chão anterior de atuação”, considera.
Santana é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é docente na mesma universidade.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que já estamos vivendo uma fase pós-fordista de trabalho. O senhor concorda?
Marco Aurélio Santana
- Independente dos conceitos ou da nomenclatura que se queira usar, que podem estar baseados em determinados aspectos que se queira valorizar, não há dúvidas acerca das mudanças que atravessaram o mundo do trabalho nas últimas décadas do século XX. Num cenário semovente de economia altamente globalizada e competitiva, as empresas buscaram se reestruturar para enfrentar os tempos novos e instáveis. Esta reestruturação teve lastro na chamada revolução microeletrônica, mas também, em alguns casos mais fortemente, em novas formas de organização da produção. Como diziam seus promotores, no mundo enxuto, produzir-se-ia mais, e melhor, com menos gente. Passaram a estar presentes, no dia-a-dia das pessoas, temas como flexibilização, desregulamentação, empregabilidade etc. Nesse sentido, a entrada do capitalismo em um novo momento, baseado em novas formas de acumulação, mudou a paisagem que se tinha até ali em termos da vida no trabalho e fora dele, e que havia caracterizado o que se convencionou chamar de fordismo. Mas tal processo se particulariza em termos nacionais. Assim, precisamos ter cuidado com um tipo de visão de que tudo mudou de forma tão radical, em todos os países, da mesma forma. Tomando nosso país como exemplo, ainda que se possa constatar a emergência de um novo padrão de organização do trabalho alternativo ao fordismo, não seria correto dizer que já teria ocorrido uma ruptura com os princípios fordistas, seja em termos práticos da empresa, seja em termos da teoria. Assim, em muitos casos, o que temos nos países “periféricos” seria um quadro no qual métodos e práticas tayloristas, utilizados em processos de produção estandardizada, sem muita preocupação com a qualidade, conviveriam com experiências pontuais de inovação organizacional e tecnológica.
 
IHU On-Line - Qual é o significado da reestruturação produtiva para a organização dos trabalhadores? Quais são os desafios?
Marco Aurélio Santana
- De fato, as mudanças no mundo do trabalho, a partir do que se convencionou chamar genericamente de reestruturação produtiva, impactaram sobremaneira as formas de organização e mobilização dos trabalhadores a nível mundial.

Tais mudanças tiveram repercussão tanto no processo organizativo dos trabalhadores como na relação capital/trabalho. Os organismos sindicais, incluindo aí seus aspectos de movimento e de instituição, passaram a ter muita dificuldade em dar conta do novo cenário, que lhe reduzia grandemente os espaços de manobra, colocando em risco as práticas de ação e conquistas desenvolvidas ao longo do século XX. Os novos tempos parecem trazer um tipo de sociabilidade que se contrapunha a quaisquer possibilidades de participação de corte coletivo e público. Além disso, vale lembrar a disseminação de um tipo de visão, que, mesmo no coração da produção, tem se operado através do quase banimento de termos como “trabalhador” e “operário”, substituídos por outros tantos, tais como “colaborador”, “parceiro”, “cliente/fornecedor interno”, o que termina por apagar discursivamente qualquer possibilidade mais politizada e conflitiva de identidade e classificação. Neste universo de sentido, fica excluída toda idéia de “luta” e “conflito”, em nome da “colaboração”. Então, os sindicatos perderam muito de seu chão anterior de atuação.
 
IHU On-Line - Com o novo modelo de trabalho, os trabalhadores correm o risco de perder os direitos conquistados com tantas lutas?
Marco Aurélio Santana
- Sim, há esse risco. Se olharmos a experiência recente, o que temos?  Em termos gerais o mundo do trabalho, principalmente nos países desenvolvidos, se modificou rapidamente e o consenso protetor do welfare state foi sendo substituído pela dieta neoliberal. Muitas certezas, consolidadas há pelo menos cinqüenta anos, em termos da importância do papel do Estado na economia e da necessidade de processos regulatórios para manter a proteção social, foram profundamente abaladas ou enfraquecidas no debate público. Não tardou para que a experiência dos países centrais transbordasse, alcançando também os países periféricos onde tanto a proteção social quanto a formalização das relações de trabalho já não eram das mais sólidas. Neste quadro, o trabalho assumiu novos formatos. A segurança do pleno emprego foi substituída pelo desemprego de tom perene, cuja extensão no corpo social e duração no tempo têm levado mesmo a uma ressignificação do termo. Os sistemas de contratação foram duramente atacados, em busca de uma maior flexibilização da produção e dos mercados. Formas de contratação flexíveis, temporárias, por tempo parcial etc., antes consideradas atípicas, passaram a ser a regra. As políticas de proteção ao indivíduo, dentro e fora do trabalho, foram sendo substituídas por políticas de aumento da competitividade.  Assim, sempre que se fala de mudança, reforma, modernização etc., em muitos casos, se escamoteiam as tendências de retirada ou rebaixamento de direitos. No geral, a perda de direitos já se deu na prática, devido à estratégia das empresas. Isso interpela frontalmente o movimento dos trabalhadores.
 
IHU On-Line - Os índices de desemprego na sociedade atual contribuem de alguma maneira para que os trabalhadores empregados se sujeitem as normas e regulamentações instituídas pelas empresas?
Marco Aurélio Santana
- Sim. Ao longo de toda a história do capitalismo, o desemprego tem sido, a um só tempo, um instrumento poderoso de contenção salarial e de intimidação aos trabalhadores. A ameaça do desemprego cria também uma fragmentação entre os trabalhadores. Entre aqueles que estão inseridos no mundo do trabalho e aqueles que não estão. Historicamente, o capitalismo lança mão de trabalhadores desempregados também no sentido de “esvaziar” e “furar” greves. Hoje, esse problema se agrava ainda mais pelo contexto onde opera, pelos números extremados e pela produção de enormes setores que talvez não tenham mais espaço no mundo do trabalho, tornado-os descartáveis. Dado pressuposto do aumento progressivo dos requisitos de qualificação no novo paradigma produtivo, associado ao aumento do desemprego, cunhou-se a noção de empregabilidade, que poderia ser definida como a capacidade da mão-de-obra de se manter empregada ou encontrar novo emprego quando demitida, em suma, tornar-se empregável. Isso é bastante delicado já que põe ênfase na responsabilidade individual do trabalhador por sua situação de desemprego. A partir do momento em que se coloca sobre os ombros do desempregado a responsabilidade de tornar-se empregável, acaba-se por justificar sua exclusão do mercado de trabalho pelo fato de ser inadequado quanto às demandas de qualificação exigidas.
 
IHU On-Line – Qual é o perfil dos novos sindicalizados? No auge das manifestações sindicalistas, operários e estudantes estavam unidos na luta que reivindicava melhores condições de trabalho. Por que isso não ocorre mais?  Podemos dizer que os motivos são conseqüências de uma crise do modelo fordista?
Marco Aurélio Santana
- O perfil do que seriam os novos sindicalizados vai variar de setor para setor. Um ponto importante tem sido o crescimento da sindicalização entre as mulheres. A unificação das lutas sociais não se dá de forma inexorável e natural. Ela é fruto de um projeto e de uma ação. Os sindicatos foram tornados em máquinas poderosas ao longo do século XX, assumindo, quando não o protagonismo, o suporte aos movimentos sociais. Além disso, havia uma maior confluência das lutas. Hoje a conjuntura é diferente. Muitos dos movimentos assumiram caráter defensivo frente aos ataques que sofriam, outros propugnaram mesmo um certo afastamento e luta isolada. Sente-se uma falta de articulação e fragmentação das lutas sociais. Mas isso pode ser apenas um momento, como outros em outras épocas, uma etapa de passagem para uma nova síntese a ser construída.  
 
IHU On-Line - Ao analisar a atuação da instituição sindical, o senhor comenta que ela está fragilizada enquanto representação legitima dos trabalhadores. Há que o senhor atribui essa crise nos sindicatos brasileiros?
Marco Aurélio Santana
- Na verdade, não se pode dizer que ela seja uma crise do sindicalismo brasileiro somente. Dadas as mudanças globais no mundo do trabalho, os sindicatos viveram um período muito duro no mundo desde os anos 1980 e no Brasil  a partir da década de 1990. Foi um período de redução de bases de representação, dificuldade de arregimentação e mobilização. Alguns chegaram mesmo a dizer que o sindicato estava liquidado. Seu tempo havia passado. Isso se deveu a uma conjuntura de alto desemprego, reestruturação produtiva, novas estratégias empresariais e a posturas anti-sindicais dos governos. Contudo, o que vamos vendo é que o sindicalismo tem sabido, apesar das dificuldades, buscar nova forma de organização e ação, incorporar temas até então relegados, mas importantes para a vida dos trabalhadores. É preciso lembrar também que os trabalhadores já têm um longo e vasto acervo de organizações estruturadas para a sua intervenção na realidade. Os sindicatos são uma delas. E eles mesmos já foram organizados e agiram de diferentes formas dependendo do contexto vivido pelo capitalismo. Assim, os trabalhadores vão buscando a melhor maneira de fazer valer suas demandas e seus projetos.
 
IHU On-Line - Como tornar os sindicatos mais ativos? Na conjuntura atual, torna-se necessária a construção de uma nova instituição que lute pelos direitos dos trabalhadores?   
Marco Aurélio Santana
- Os trabalhadores sempre adequaram suas formas de luta de acordo ao o capitalismo e às mazelas que tinham de enfrentar. Nesse sentido, com as mudanças recentes no mundo no trabalho, os trabalhadores e seus órgãos de representação precisaram se movimentar para não perderem seu pé de apoio na realidade.

Indícios da construção de novas formas aparecem em processos que se dá a integração de formas e práticas preexistentes com novos formatos de organização e orientação sindicais, abrangendo, inclusive, temas anteriormente pouco explorados pelos sindicatos. Desta forma, os sindicatos vêm articulando suas atividades mobilizatórias tradicionais, com a participação em outras instâncias, tais como o debate e a intervenção em projetos de políticas públicas e sociais. Da mesma forma, têm participado de fóruns de políticas locais, bem como incorporado temas importantíssimos como, entre outros, meio ambiente, questão racial, juventude e educação, que por muito tempo ficaram fora das prioridades dos sindicatos. A grande questão aí é como fazer esse movimento sem perder a característica de órgão de interesse de classe.
 
IHU On-Line - Falar em reforma sindical é conveniente?
Marco Aurélio Santana
- Num momento de mudanças do capitalismo, deveria se supor, ou desejar, que as instituições dos trabalhadores se modifiquem no sentido de melhorar sua posição na arena do conflito. Contudo, a idéia de reforma sindical já é bastante antiga no movimento dos trabalhadores. Desde os anos 1930/1940, quando a estrutura sindical que ainda vige hoje foi sendo erigida, fale-se em reformá-la. Ao longo de sua existência, a estrutura sindical esteve sempre rodeada de polêmica, seja ela entre os atores sociais e grupos políticos por ela referidos, seja pelos analistas acadêmicos. Isso obviamente foi verdadeiro também para todo o aparato de legislação trabalhista consolidado na CLT. A tentativa recente de reforma empreendida no governo Lula não foi diferente. Houve muitos debates, alguns consensos, mas muitos dissensos também. Além disso, o projeto chegou ao parlamento no momento das denúncias do chamado mensalão, o que dificultou muito seu debate e tramitação. De todo modo, resta saber agora, entre outras questões, se, acontecendo a reforma e dependendo de como o projeto sairá dos debates parlamentares e das iniciativas do governo (que, aparentemente vem buscando a estratégia do parcelamento e da Medida Provisória), os sindicatos estarão mais aptos a enfrentar, seja as demandas do novo e instável mundo do trabalho, seja os resultados da também complexa e polêmica Reforma Trabalhista, que visa à sua regulação. Além disso, devemos saber que capacidade terão os setores de esquerda que aceitarem a “nova estrutura”, atuando “por dentro”, e aqueles que optaram por dela se esquivar, ficando “por fora”, de se posicionar na disputa por corações e mentes dos trabalhadores, fazendo avançar sua luta.

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