Informação não é sinônimo de jornalismo

Para o jornalista Pedro Osório, o diploma contribuiu para que os donos dos veículos não sejam também os “donos dos critérios para dizer quem poderia ou não ser jornalista”

Por: Patricia Fachin

“Não me parece que os jornalistas da imprensa alternativa sejam mais éticos do que os empregados na grande imprensa, ou vice-versa. Há deslizes éticos e posturas exemplarmente éticas em ambas”, considera Pedro Osório, jornalista e professor da Unisinos. Adepto à obrigatoriedade do diploma na formação dos jornalistas, ele afirma que “só pode bem defender o trato ético da notícia, preservar a sua veracidade, quem estiver habilitado para tanto, treinado e vocacionado para o exercício do jornalismo”. Para ele, muitos integrantes da mídia livre ainda não aprenderam a utilizar a internet e tampouco a fazer jornalismo, divulgando, em muitos casos “palavras de ordem, e não fatos”.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele reitera que a “presunção da inexistência de interesses divergentes significativos” foi uma das principais “causas do desaparecimento da imprensa alternativa e da extinção da imprensa comunitária.” Em muitos casos, explica, o despreparo e o amadorismo jornalístico somaram-se “à incapacidade de equacionar, jornalisticamente, a expressão de interesses legítimos, ainda que diversos, na mesma publicação”.
Pedro Luiz da Silveira Osório é jornalista, graduado, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e mestre em Comunicação e Informação, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou em vários veículos de comunicação, entre eles a revista IHU On-Line. Foi Coordenador de Comunicação Social do Governo Municipal de Porto Alegre na gestão 1993-1996. Integra o Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (EPCOM), de Porto Alegre. É também secretário-executivo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), editor-executivo da revista MídiaComDemocracia, publicada pelo FNDC (www.fndc.org.br) e membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas no Rio Grande do Sul e do Conselho Deliberativo da Fundação Cultural Piratini – Rádio e Televisão, representando os jornalistas profissionais. Atualmente, é professor do curso de Jornalismo da Unisinos.

IHU On-Line - Que veículos, hoje, compõem a mídia livre? Qual é a importância da pequena imprensa na divulgação da informação, na atual conjuntura do jornalismo brasileiro?
Pedro Osório
– A indagação, obviamente feita à luz do movimento “por uma mídia livre”, já noticiado por esta revista, embaralha involuntariamente alguns conceitos. Como ocorre com o dito movimento – embora, naquele caso, a ação não seja involuntária. Penso que devemos distinguir tais conceitos, antes de atender ao espírito da pergunta. Como sabemos, a expressão “mídia” designa “meios”; especialmente os meios de comunicação de massa, e, desde relativamente há pouco tempo, os meios de comunicação interpessoais. Integram a mídia os chamados “veículos”. Assim, cada jornal impresso, por exemplo, é um veículo. Mas cada emissora de televisão também. Ou um determinado sítio internético. Nem este nem as tevês praticam, necessariamente, jornalismo. Todos os veículos, por certo, dão trânsito à informação – que não é sinônimo, necessariamente, de jornalismo. Feita esta distinção, para efeito de clareza, passo a me referir ao jornalismo, nesta e nas demais respostas. Me parece que este é o objeto principal dos questionamentos apresentados. Vamos lá: aceitando o termo “pequena” como referente à imprensa alternativa aos grandes veículos jornalísticos impressos e com propósitos sociais críticos, julgo que a importância da pequena imprensa no jornalismo brasileiro é, em termos absolutos, pequena. Em termos relativos, idem. O que é que temos? Pequenas publicações (os números das tiragens são aproximados) atuando no campo da contracultura ou da esquerda: a revista Caros Amigos, sobrevivendo, com uma tiragem de 40 mil exemplares mensais; a revista Retrato do Brasil, mensal, com seis mil exemplares; a revista Fórum, mensal, com tiragem inferior a 30 mil; o sítio Carta Maior, vivendo uma fase dificílima, tornada pública pelo próprio, sem patrocinadores, assim como as revistas. São publicações jornalísticas que adquiriram importância conceitual, por assim dizer, especialmente a Caros Amigos, existente há dez anos. Pode-se acrescentar o jornal Brasil de Fato, do MST, e talvez mais alguns poucos títulos, cuja inclusão não alteraria o cenário. Penso que, potencialmente, há um lugar destinado à pequena imprensa no imenso território brasileiro. Espero que as publicações atuais se consolidem e outras brotem e cresçam. A pequena imprensa pode evitar limitações editoriais típicas da grande imprensa, obrigatoriamente massiva, e desempenhar um papel importante na formação da consciência crítica nacional e no reforço da pluralidade.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a ética jornalística na grande imprensa e na mídia alternativa? Há diferença entre ambas, nesse quesito? Que critérios são fundamentais para que a notícia seja tratada dentro dos princípios da conduta ética e profissional, levando em consideração a qualidade e a veracidade da informação?
Pedro Osório
– Não me parece que os jornalistas da imprensa alternativa sejam mais éticos do que os empregados na grande imprensa, ou vice-versa. Não considero a pequena imprensa “pura”, ou a grande “impura”, ou vice-versa. Há deslizes éticos e posturas exemplarmente éticas em ambas. Obviamente, aquilo que se faz na grande imprensa repercute mais, positiva ou negativamente. Quanto à qualidade e à veracidade da informação, derivam, em boa medida, da qualificação e da consciência profissional dos jornalistas. Só pode bem defender o trato ético da notícia, preservar a sua veracidade, quem estiver habilitado para tanto, treinado e vocacionado para o exercício do jornalismo. De todo modo, só poderá fazê-lo de modo eficaz quem dedicar-se ao estudo do jornalismo, das suas implicações sociais, das suas especificidades técnicas e da sua epistemologia. Não quero com isso dizer que a presença de um qualificado jornalista, ética e profissionalmente, em qualquer redação, garantirá que dela nasça um bom jornal. Mas uma redação composta de bons jornalistas, atentos à ética e à veracidade pode, sim, dar combate a determinadas linhas editoriais e qualificar o jornalismo praticado naquele veículo. Assim é em todas as atividades, me parece. Pois não foi, por exemplo, a postura ética e a ação coletiva de muitos padres que conduziram a Igreja Católica brasileira à destacada posição de combate contra a ditadura militar, denunciando a opressão e desenhando novos tempos, disseminando milhares de Comunidades Eclesiais de Base, mudando a história dessa instituição no país? Se isso ocorreu foi devido, de maneira determinante, ao preparo intelectual e político desses religiosos, às suas ações precedidas de profundas reflexões sobre a realidade nacional, sobre o povo brasileiro. Não foi obra de amadores bem intencionados, mas de pessoas preparadas para tanto. O mesmo se dá com o jornalismo, que só pode melhorar se praticado por profissionais preparados de modo semelhante. Guardadas, claro, as evidentes diferenças entre um padre e um jornalista, já que o jornalismo não deve nem pode ser definido como um sacerdócio, embora tenha uma notável relevância social.

IHU On-Line - A imprensa alternativa, com sua influência, sobretudo, por meio da internet, consegue ter um ponto de vista verdadeiramente social? Ela complementa ou fiscaliza a grande imprensa?
Pedro Osório
– Penso que a imprensa alternativa ainda não aprendeu a usar a internet. Por outro lado, embora a internet venha crescendo, apenas 17% dos domicílios brasileiros têm acesso à mesma, conforme os últimos dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (www.cetic.br). E tenho dúvidas quanto à adoção, pela imprensa alternativa, de um “ponto de vista verdadeiramente social”. Tomemos como exemplo o jornal Brasil de Fato, vinculado ao MST: ele representa “um ponto de vista verdadeiramente social”? Creio que não. Trata-se de uma publicação produzida por extraordinário e importante movimento social que ainda está aprendendo a fazer jornalismo. Divulga palavras de ordem, predominantemente. Se procurasse expor os fatos analiticamente, ainda que prioritariamente voltados à luta do MST, seriam de grande utilidade para o crescimento da consciência social dos brasileiros. Entretanto, deve-se reconhecer que a imprensa alternativa busca adotar pontos de vista “verdadeiramente sociais”, comparativamente aos da grande imprensa, à qual complementa, de maneira restrita. Mas não creio que tenha poderes para fiscalizá-la. Por isso, se é importante para a sociedade brasileira incentivarmos a pequena imprensa, é fundamental democratizarmos a grande imprensa. Essa tarefa só pode ser realizada mediante a adoção de políticas públicas de comunicação que regulem adequadamente a prática da comunicação social e qualifiquem o exercício do jornalismo. Só assim poderemos alterar o cenário antidemocrático da grande imprensa brasileira.

IHU On-Line - Com a atuação da mídia livre através de blogs e de sites da internet, torna-se necessário rediscutir as leis trabalhistas dos jornalistas, como carga horária, por exemplo? É possível tornar a prática condizente com a legislação?
Pedro Osório
– Não consigo discernir o que vem a ser a dita “mídia livre”. Em todo o caso, se a expressão deseja abrigar idéias como “livre da opressão”, “livre de interesses antipopulares”, nela só encontro razões para que a sua prática não dê guarida à exploração trabalhista. O exercício do jornalismo não é compatível com atitudes burocráticas, sabidamente. Mas isso ocorre em outras profissões. Médicos de um hospital, por exemplo, também não podem ser burocratas. Poder-se-ia dizer, até, que não deveriam parar nunca de atender os doentes, amenizar suas dores. Os jornalistas, de modo semelhante, poderiam trabalhar sem descanso, pois o mundo não pára e sempre haverá fatos relevantes para reportar e noticiar. Por isso mesmo, suas atividades devem ser claramente reguladas, protegendo-os da exploração e assegurando-lhes o direito ao convívio familiar, ao lazer, ao estudo, à saúde física e mental, assegurando-lhes o direito à humanidade, enfim. O bom desempenho de uma empresa jornalística, seja ela “livre” ou não, está a exigir mais horas de trabalho? Ora, que mais profissionais sejam contratados. A legislação pode mudar, para adequar-se às novas exigências da atividade jornalística? Talvez. Desde que os direitos fundamentais dos trabalhadores sejam respeitados: eles foram conquistados com sangue, suor e lágrimas. Ademais, a legislação trabalhista não impediu que, antes e agora, incontáveis jornalistas dedicassem (dediquem) suas melhores energias primordialmente à profissão e ao seu exercício digno e apaixonado.

IHU On-Line - O movimento que luta por uma mídia livre, independente, sugere que a profissão de jornalista deve ser exercida por qualquer pessoa. O senhor concorda com a idéia de que a obrigatoriedade do diploma limita a formação de jornalistas?
Pedro Osório
– Sou radicalmente a favor do diploma. Antes de abordar os desdobramentos dessa posição, porém, devo dizer que o referido movimento, ao embaralhar conceitos historicamente firmados, tal como mencionei na primeira resposta, dá trânsito a três equívocos. Primeiro: alimenta a idéia de que há/pode haver mídias “livres”, mas não as define. Tomando a expressão “mídia” como sinônimo dos meios de comunicação massivos ou interpessoais, pergunta-se: o que é uma mídia “livre”? Será “livre” a mídia que defende e transposição do rio São Francisco e, digamos “não-livre” a que apresenta idéias favoráveis à transposição? Será “livre” um jornal que condena a política econômica vigente e “não-livre” um jornal que apresenta idéias contrárias? Como se vê, a expressão “mídia livre”, ao deixar implícito que pode haver uma mídia independente de interesses, termina por mascará-los. E isso é muito ruim para a democracia. E ruim para a imprensa alternativa (eis o segundo equívoco). Reconhecidamente, foi a presunção da inexistência de interesses divergentes significativos uma das principais causas do desaparecimento da imprensa alternativa e da extinção da imprensa comunitária. O despreparo para lidar com as dissensões que caracterizam a democracia matou-as. Em muitos casos, esse despreparo somou-se ao amadorismo jornalístico, à incapacidade de equacionar, jornalisticamente, a expressão de interesses legítimos, ainda que diversos, na mesma publicação. Por fim (eis o terceiro equívoco), o movimento retoma uma idéia superada: a idéia de que a boa democracia nasce, basicamente, da proliferação dos meios de comunicação, livremente acessados e operados. Trata-se de uma abordagem que, não fosse já vencida, estaria sendo agora sepultada. É evidente, julgo, que a extraordinária potencialização dos meios de comunicação e do acesso aos mesmos, decorrente das novas tecnologias, pouco ou quase nada contribuiu para o aperfeiçoamento democrático. Poucos, muito poucos blogs, por exemplo, adquirem dimensão pública. E, nesses casos, invariavelmente estão ancorados em grandes portais. Ou seja: na grande mídia, da qual a pequena imprensa deseja livrar-se, tornando-se “livre”. Naturalmente, o livre acesso aos meios de comunicação integra os preceitos democráticos. Mas a democracia não pode prescindir dos meios de comunicação generalistas, daqueles que falam para todos. Alguém imagina que a nação brasileira se consolidará sem a presença dos grandes meios de comunicação de massa? Que sem eles será possível erguer e consolidar uma identidade brasileira marcada pela pluralidade, assegurando o trânsito indispensável ao conhecimento e à cultura universais? Por isso, prefiro o movimento pela democratização da mídia, defendendo a implantação de políticas públicas que estabeleçam formas de controle público sobre a mídia, minando-lhe a capacidade de impor interesses particulares sobre o interesse geral, de impor-se de maneira determinante sobre a política, a cultura, a economia. Naturalmente, a existência de meios de comunicação (generalistas ou não) inclui a idéia de mediação e, portanto, de mediadores. Neste caso, em se tratando de jornalismo, sustento que a referida mediação, nos veículos grandes ou pequenos, “livres” ou não, deve ser feita por jornalistas profissionais, devidamente diplomados, pelas razões já expostas.

IHU On-Line - Alguns jornalistas deixam de trabalhar com a imprensa alternativa por questões financeiras, já que muitas delas não conseguem manter o honorário dos funcionários. Como dar conta da ampliação dos fatos noticiosos, principalmente sob outra ótica jornalística, tendo em vista que poucos profissionais atuam no segmento alternativo e outras pessoas não podem atuar, uma vez que não são jornalistas?
Pedro Osório
– A idéia de que o diploma é elitista, pois restringe a profissão aos que não têm acesso à faculdade, é uma das muitas falácias que vêm sendo impingidas à opinião pública. Esse e outros argumentos que simulam veracidade já foram cabalmente desconstituídos pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), cujas posições estão expressas na publicação “Formação Superior em Jornalismo – Uma exigência que interessa à sociedade”, organizada pela referida entidade, com o apoio da Cátedra FENAJ-UFSC de Jornalismo para a Cidadania. O livro está em sua segunda edição e pode ser acessado em (http://www.fenaj.org.br/livro.pdf). Nele, a FENAJ observa que o argumento do “diploma elitista” abarca todas as profissões que têm em sua regulamentação a exigência de curso superior. E o considera falacioso, pois omite que a nossa sociedade é excludente e injusta ao não assegurar educação de qualidade para todos, como prevê a Constituição. Culpar a regulamentação profissional dos jornalistas pelas enormes desigualdades sociais beira a má-fé. A barreira econômica existente é a mesma para outras profissões tão importantes quanto a dos jornalistas. Na verdade (aqui faço minhas as palavras do jornalista Fred Ghedini, um dos articulistas do referido livro), a exigência do diploma é hoje uma garantia de acesso universal à profissão. Do contrário, os donos dos veículos seriam também os donos dos critérios para dizer quem poderia ou não ser jornalista. Nesse caso, eu prefiro a lei aos critérios patronais, sejam eles da mídia “livre” ou não. Quanto às dificuldades financeiras da imprensa alternativa, creio que não serão superadas mediante a contratação de pessoas mal remuneradas, diplomadas ou não. Não quero crer que a imprensa alternativa pretende obter dinheiro reduzindo o salário dos seus trabalhadores.

IHU On-Line - Uma das críticas à universidade é a de que ela faz convênios de estágios com a grande imprensa. Essa posição contribui para que os futuros jornalistas não procurem outros veículos, como os da mídia alternativa? Qual deveria ser a função da academia no processo de formação dos jornalistas?
Pedro Osório
– Desconheço essa crítica e não considero os referidos estágios prejudiciais. Pelo contrário, acho que deveriam ser ampliados, que a grande imprensa deveria aproximar-se da universidade. Ela (e o país) só teriam ganhos. Mas os donos das empresas jornalísticas temem a contribuição crítica da universidade. Preferem desqualificá-la, enquanto preservam seus feudos intocados. Quanto aos estágios na imprensa alternativa, podem ser também realizados. Talvez o interesse pelos mesmos aumentasse se os cursos de comunicação estivessem mais próximos das Ciências Humanas e Sociais. Não considero – e digo isso sempre que posso – que os universitários de hoje tenham menos interesse pelas questões sociais e políticas do que os estudantes da minha geração. Falta-lhes, reconheço, espírito crítico. O papel da academia é fazê-lo florescer.

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