Edição 253 | 07 Abril 2008

Subjetividade, trabalho e Economia Solidária

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Bruna Quadros

Para Marília Veronese, a Economia Solidária, uma alternativa de trabalho e, muitas vezes, fonte de subsistência, “pode ter um papel importante, na medida em que seus agentes procuram agir dentro dos princípios de solidarismo, igualdade e autogestão”

Unir esforços para enfrentar a falta de oportunidade de emprego e a desigualdade, produzida pela competição e relações de subordinação, características do capitalismo. Esta é a principal bandeira da Economia de Trabalho, prática que surgiu como alternativa de renda e ganha cada vez mais força. De acordo com a Profa. Dra. Marília Veronese, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a cooperativa é um dos formatos organizacionais da Economia Solidária. “Há, também, empresas recuperadas, grupos informais e associações de variados portes e segmentos de atuação”, destaca ela. Embora a Economia Solidária tenha surgido como “a luz no fim do túnel” para quem já não via mais possibilidades de mudança, o futuro desta prática ainda é incerto. Isso, porque “existem potencialidades de desenvolvimento e existem dificuldades, fatores restritivos”, reforça Marília.

“Subjetividade, Trabalho e Economia Solidária” é o assunto que a Profa. Dra. Marília Veronese irá discutir, no dia 10 de abril, das 17h30 às 19h, na sala IG119 do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A atividade integra o evento IHU Idéias, promovido pelo IHU. Marília Veronese é doutora em Psicologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Atualmente, integra o corpo docente da Unisinos, no PPG em Ciências Sociais.

IHU On-Line - Qual é o papel da Economia Solidária em meio a uma sociedade embasada na lógica de mercado capitalista?
Marília Veronese
- A Economia Solidária pode ter um papel importante, na medida em que seus agentes procuram agir dentro dos princípios de solidarismo, igualdade e autogestão. Isso, por si só, já gera uma pluralidade de lógicas que escapam, em alguma medida, à lógica capitalista estrita, ao chamado “pensamento único” do neoliberalismo e sua visão utilitarista de mundo e de ser humano.

IHU On-Line - Até que ponto cooperativas que nascem com o objetivo de propagar a Economia Solidária atuam nesse sentido? Quando as corporações crescem e ganham dimensão no mercado, a ideologia permanece?
Marília Veronese
- A cooperativa é um dos formatos organizacionais da Economia Solidária. Há, também, empresas recuperadas, grupos informais e associações de variados portes e segmentos de atuação. As organizações formalizadas que crescem e se inserem no mercado enfrentam, em alguma medida, dilemas para manter uma identidade cooperativa que envolva a continuidade das práticas autogestionárias. Algumas conseguem, outras não. Mas mesmo grandes empreendimentos, como, por exemplo, a Usina de Açúcar em Catende, Pernambuco (Companhia Agrícola Harmonia, gerida pelos trabalhadores associados em conjunto com administração judicial, já que se trata de massa falida), conseguem levar adiante ações de formação de seus membros – eles diminuíram o analfabetismo de 80 para 20% entre os trabalhadores urbanos e rurais -, práticas autogestionárias, participação ativa etc. O conceito de Economia Solidária abrange, portanto, variadas formas de organização associativa e um sem-número de grupos comunitários informais, além de programas direcionados ao setor, como o crédito rotativo, os bancos populares e as tecnologias sociais de incubação de empreendimentos.

IHU On-Line - Em que medida esta alternativa de renda constrói uma nova realidade social?
Marília Veronese
- Na medida em que trabalhadores e trabalhadoras ampliam sua cidadania e sua vivência em comunidade, já que o trabalho solidário tem o potencial de desenvolver uma racionalidade comunitária no âmbito laboral e o envolvimento com questões da comunidade. As iniciativas assumem, em dose variável, um caráter coletivo na gestão, na posse dos meios de produção e no processo de trabalho, minimizando a presença de relações assalariadas e provocando envolvimento com problemas sociais e com questões da cidadania. As experiências variam, porque variam seus protagonistas, suas atividades e seus resultados. Mas representam a possibilidade de uma “outra economia” e um outro mundo possível.

IHU On-Line - Quais são as mudanças mais visíveis na sociedade, a partir do trabalho desenvolvido através da Economia Solidária?
Marília Veronese
- A expansão da Economia Solidária, sua articulação com movimentos sociais, com redes de gestores públicos, com a SENAES,  já consiste um interessante movimento no sentido de pluralizar o debate sobre direito ao trabalho, sobre problemas sociais variados, especialmente a pobreza, e alternativas para minimizá-los. Tem, além disso, um potencial para minorar as desigualdades sociais (econômicas, étnicas, de gênero etc.), já que a autogestão é empoderadora, transforma a relação do sujeito com seus pares e consigo próprio. Aumenta a pluralidade social, ao articular os atores em Fóruns locais, regionais e no Fórum Brasileiro e ao motivar a constituição de diversas entidades associativas, todas procurando desenvolver e defender o ato associativo, o direito a buscar uma vida melhor para todos.

IHU On-Line - Além de auxiliar na situação financeira, na tentativa de minimizar os problemas sociais, quais os outros benefícios da Economia Solidária para quem aposta na sua prática?
Marília Veronese
- Justamente a experiência da gestão coletiva, do empoderamento que ela pode gerar, da vivência comunitária e eventualmente de cursos de formação pelas entidades de apoio e fomento (a exemplo das incubadoras, na Unisinos o projeto Tecnologias Sociais).

IHU On-Line - Embora a Economia Solidária seja uma fonte de subsídios, em meio aos altos índices de desemprego que assolam o país, ainda há quem viva em condições vulneráveis. O que falta para que as pessoas percebam que é possível mudar o seu contexto social, a partir do seu próprio trabalho?
Marília Veronese
- Faltam oportunidades de formação integral, fontes de financiamento, apoio do Estado, reais possibilidades de adquirir matéria–prima e de comercializar os produtos. Além disso, falta a sociedade praticar o consumo consciente, optando por produtos oriundos de empreendimentos solidários, de produtores locais, se possível (e agora já é possível, olhe-se o exemplo da cadeia Justa Trama, do algodão orgânico) de cadeias produtivas solidárias.

IHU On-Line - Esta cooperação popular tende a continuar crescendo ou pode perder espaço para outros grupos de cooperativismo, como os de grandes empresas? Quais são os rumos da Economia Solidária no Brasil?
Marília Veronese
- Não podemos prever com exatidão os rumos dos complexos processos sociais. Existem potencialidades de desenvolvimento e existem dificuldades, fatores restritivos. O movimento vem crescendo, e a última plenária nacional, realizada recentemente em Brasília mostra que são muitos trabalhadores lutando por uma vida digna e uma sociedade mais justa, plural e equânime.

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