Edição 252 | 31 Março 2008

“O PCC surgiu da violência carcerária”

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Alessandra Barros

Raras cadeias têm programas de educação e quando têm, na maioria das vezes, são reacionários, afi rma Fernando Bonassi

Para acabar com o poder de influência do PCC, o cineasta brasileiro Fernando Bonassi destaca a necessidade da humanização das cadeias, separando-se quem comete delitos graves dos leves, adotando a remissão de pena para quem estuda e a devida preparação do preso para a volta à vida social. Também escritor, roteirista e dramaturgo, Bonassi critica o papel da mídia. “Os meios de comunicação produzem uma falsa idéia da violência, culpando os agentes últimos, os bandidos, que estão na ponta da questão e embaixo da pirâmide social”, enfatiza, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o roteirista de filmes consagrados, como Estação Carandiru, de Hector Babenco; Cabra cega, de Toni Venturi; Os matadores, de Beto Brant; Castelo Rá-Tim-Bum, de Cao Hamburguer; e Cazuza - O tempo não pára, de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Fernando Bonassi é autor de Subúrbio (São Paulo: Objetiva, 2006), Violência e paixão (São Paulo: Scipione, 2007), Diário da guerra de São Paulo (São Paulo: Publifolha, 2007) e Entre a vida e a morte – Casos de polícia (São Paulo: FTD, 2007), entre outros livros. Além de ser colunista da Folha de S. Paulo, é roteirista de programas de TV, como Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da lua, e de várias peças de teatro, destacando-se Woyzeck desmembrado, que consagra o retorno da parceria feita anteriormente com o ator Matheus Nachtergaele. Confira a entrevista:

IHU On-Line - Como o senhor explica a cultura da violência no Brasil? Qual é a sua origem e como combatê-la?
Fernando Bonassi
- A tradição histórica brasileira é autoritária. Há sempre algum “capitão do mato” no comando das coisas políticas. Ademais, sem renda distribuída, não se pode esperar paz. Combatê-la? Com programas sérios de distribuição de renda, taxação de heranças e grandes fortunas. É assim que se distribui renda, não dando-se esmolas sob a forma de programas sociais pífios.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre a banalização da criminalidade e a criação de grupos como o PCC que, além de fazerem suas próprias leis, mostram ter mais poder do que a própria polícia?
Fernando Bonassi
- O PCC surgiu da violência carcerária, dos espancamentos de presos e do aprendizado político que a luta pela democracia também ensinou aos criminosos. Como se acaba com a influência do PCC? Humanizando as cadeias, separando-se quem comete delitos graves dos leves, adotando a remissão de pena para quem estuda e a devida preparação do preso para a volta a vida social.

IHU On-Line - Qual é a sua avaliação sobre o papel dos veículos de comunicação, da produção cultural no combate ao espetáculo do terror? E a sua opinião sobre a questão da venda de estereótipos em personagens que representam o poder do mais forte e perigoso na sociedade?
Fernando Bonassi
- Os meios de comunicação produzem uma falsa idéia da violência, culpando os agentes últimos, os bandidos, que estão na ponta da questão e embaixo da pirâmide social. É raro uma análise criteriosa dos fatores que levam ao crime em programas que preferem vender o morticínio no horário do jantar. Os estereótipos, de qualquer ordem, são sempre lesivos, porque amesquinham os fatos com figuras planas. A questão é mais complexa. Os verdadeiros criminosos estão no congresso e no sistema financeiro. Vestem gravata e dão palestras em universidades e congressos de economia.

IHU On-Line – O senhor vivenciou, durante a produção dos seus trabalhos, as leis e regras desse submundo, o que mais lhe surpreendeu? Em algum momento sofreu ameaças?
Fernando Bonassi
- Durante a realização do roteiro do filme Carandiru, realizei algumas oficinas literárias na cadeia. O que mais me surpreendeu foi o abandono intelectual em que se encontram aqueles homens. Raras cadeias têm programas de educação e quando têm, na maioria das vezes, são reacionários. Nunca sofri ameaças. As visitas no Carandiru eram extremamente protegidas pelas lideranças da cadeia quando lá se encontravam, pois eram a única conexão com o mundo real, fora das muralhas.

IHU On-Line - Como recuperar a juventude brasileira das classes mais baixas que hoje servem de mão de obra para o tráfico de drogas por ser rentável?                           
Fernando Bonassi
- Enquanto as bocas de fumo forem mais divertidas que a escola, estaremos perdendo as novas gerações para os traficantes.
 
IHU On-Line – O cinema brasileiro trouxe às telas produções que denunciam a violência no país. A corrupção na polícia, o tráfico de armas e de drogas, a deficiência no sistema carcerário e da própria justiça, foram retratadas em filmes como Cidade de Deus, Carandiru e, mais recentemente, Tropa de elite causou polêmica. Qual é a importância de denunciar a criminalidade e a impunidade na produção cultural?
Fernando Bonassi
- Denunciar a prática de crimes e a condição em que vivem os presos é obrigação dos artistas democratas. A visão do mundo dos presos sempre gerou polêmica entre quem se recusa a ver a realidade abjeta das cadeias. Carandiru  e Cidade de Deus  tiveram o mérito de colocar a questão literária na ordem do dia. Tropa de elite,  apesar da boa intenção dos seus autores, é um equívoco. Certos temas merecem mais inteligência e ousadia formal do que o mero realismo. Saí do filme com vontade de chacinar criminosos e olhe que não tenho essa índole...
 
IHU On-Line - O senhor está preparando algum outro trabalho nesse sentido?
Fernando Bonassi
- Acabei de escrever um filme policial sobre as relações de poder na máfia da pirataria chinesa em São Paulo, em parceria com o cineasta Yu Likwai , de Hong Kong, que está filmando em São Paulo neste momento. Trata-se de um outro tema bem correlato...
 
IHU On-Line - Para o senhor, a sociedade brasileira precisa reagir? Políticas públicas e trabalhos sociais são necessários? A educação nas escolas públicas precisa ser revista? 
Fernando Bonassi
- Obviamente que precisamos reagir e participar de ações, em nível governamental e da sociedade civil pela humanização das cadeias, pela transformação do ensino brasileiro em algo criativo (é algo que, precisamos concordar, esta gestão federal até que tem tentado, muito lentamente, mas tem tentado) e melhorar nossos valores sociais quanto ao consumo, o valor do trabalho etc. Não posso deixar de falar de meus colegas de trabalho neste aspecto, pois penso que os autores de telenovelas deveriam ser presos pelo amesquinhamento que promovem com a consciência dos brasileiros. Quando se passa vinte anos produzindo melodramas e séries imbecis que só dizem ao cidadão comum que o melhor para ele é enriquecer e para a mulher é casar, bem, então temos essa decadência do valor do trabalho e da decência de um modo geral. Enquanto duas ou três famílias forem donas do sistema de comunicação nacional, como são agora, não espero democracia verdadeira...

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