Edição 250 | 10 Março 2008

A reinvenção do ser humano a partir da revolução das máquinas

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Bruna Quadros

Celso Candido de Azambuja analisa a sociedade contemporânea, diante da tecnologia, “uma invenção tão antiga e tão fundamental que transformou para sempre os destinos humanos”

“Na verdade, a sociedade atual nada tem a temer relativamente a um suposto domínio das máquinas; isto é uma quimera. Antes, ela deveria se preocupar com aqueles que lidam e dominam as grandes máquinas sociais: da burocracia, do capital, da alienação, da comunicação, entre outras, e que poderiam estar representadas como elementos da Matrix contemporânea de dominação de amplas parcelas da população mundial.” A afirmação é do Prof. Dr. Celso Candido de Azambuja que, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, em uma avaliação sobre a tensão entre seres humanos e suas máquinas, explorada no filme Matrix.
Segundo ele, os meios tecnológicos são extensões dos humanos, e, dificilmente, um dia serão seus inimigos. Neste sentido, Azambuja reforça a idéia de que a sociedade atual não tem nada a ganhar “condenando” a atitude dos jovens e adultos e seu sempre crescente apetite por tecnologias. “Mas tem, certamente, muito a perder se não for capaz de inventar relações sociais, políticas e ambientais, culturais e educacionais, mais ricas do que aquelas que vimos experimentando na cultura de massas”, enfatiza.

O reflexo da inserção dos meios tecnológicos na sociedade será discutido por Celso Candido de Azambuja, com a exibição do filme Matrix, de Larry Wachowski e Andy Wachowski, no dia 17 de março pela manhã, das 8h30min às 11h45min, e à tarde, das 19h30min às 22h15, na sala IG119, junto ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A programação integra o evento Uma sociedade pós-humana? Uma visão a partir do cinema, promovido pelo IHU, em preparação ao Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias, que será realizado de 26 a 29 de maio na universidade. Para saber mais sobre o evento, acesse: www.unisinos.br/ihu. Celso Candido Azambuja é mestre em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRSG), e doutor em Psicologia Clínica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é coordenador do curso de Filosofia da Unisinos.

IHU On-Line - O filme Matrix revela uma realidade na qual as máquinas possuem domínio sobre os homens. Quais são as implicações deste fenômeno para a sociedade atual?
Celso Cândido
– Matrix revela, através de um realismo tecnofuturista, uma perspectiva altamente complexa da experiência humana atual. É um filme que explora a tensão entre os seres humanos e suas máquinas. A sociedade de Matrix, no deserto de suas ruínas, está dominada por um sistema de máquinas inteligentes. Elas impõem aos homens e mulheres uma escravidão brutal: os indivíduos não são mais que “energia” para satisfação das necessidades das máquinas. E o que torna esta dominação ainda mais terrível é o fato de que, como diz Morpheus, o líder dos heróis da resistência e da insurreição, estes indivíduos são “escravos sem saber”. Mas é preciso ressaltar que não existe somente o “domínio das máquinas”. Há, também, resistência, insurreição, revolta e organização humana, com seus conflitos, paixões, desejos, traições. Existe disputa, confronto, inconformismo, além de um movimento de luta incessante ao logo do filme, culminando, por sinal, com a aparente vitória humana (e do amor) sobre as “máquinas diabólicas”. Na verdade, a sociedade atual nada tem a temer relativamente a um suposto domínio das máquinas; isto é uma quimera. Antes, ela deveria se preocupar com aqueles que lidam e dominam as grandes máquinas sociais: da burocracia, do capital, da alienação, da comunicação, entre outras, e que poderiam estar representadas como elementos da Matrix contemporânea de dominação de amplas parcelas da população mundial.

IHU On-Line - O homem já se utiliza de muitos meios "artificiais" no seu cotidiano. Estamos perdendo espaço para os meios eletrônicos?
Celso Cândido
- A tecnologia é uma invenção propriamente humana; uma invenção tão antiga e tão fundamental que transformou para sempre os destinos humanos. Para o bem e para o mal, certo ou errado, a experiência humana na sociedade contemporânea seria inconcebível sem as tecnologias: médicas, culturais, militares, científicas, estéticas. Soaria algo insensato propor um retorno à natureza, a uma natureza humana original, essencial, como se esta pudesse ser definida em alguma ideologia, ou perspectiva teórica. O humano é uma espécie mutante, evolutiva, poderosa. Seus brutais instintos de domínio e destruição não são facilmente controláveis. Além disso, todos vivemos hoje sob o fantasma de virtuais guerras nucleares, de aumento da miséria e da violência urbana, de destruição bioambiental. Absurda situação contra a qual nada nem ninguém consegue resolver em níveis minimamente satisfatórios. Este quadro não se refere só a este ou àquele país, este ou aquele continente: é o quadro da realidade global planetária, com aspectos certamente muito mais trágicos nas regiões e países mais pobres. Ao mesmo tempo, o mundo está repleto de vida, vitalidade, de força, de vigor, mesmo e às vezes, muitas vezes, naqueles segmentos desfavorecidos ou carentes. A espécie humana conquistou o planeta terra e dá os primeiros passos para a conquista espacial. Os meios de comunicação, o cinema, a literatura, a moda, as artes plásticas, a música, a filosofia e a ciência contemporânea se desenvolveram espantosamente. Existe uma abundância e uma riqueza monumental no mundo de hoje também. Sem dúvida, vivemos em um ambiente repleto de meios eletrônicos. Entretanto, não se trata simplesmente de perder espaços para os meios eletrônicos. O que  acontece é que a humanidade está reinventando o conjunto de suas relações cotidianas, afetivas, profissionais, educacionais a partir da emergência destes meios. É todo um processo emergente cujo desfecho final é impossível prever. O mais importante, em todo caso, é o modo criativo como as pessoas e as instituições, especialmente as educacionais, deveriam reinventar estas novas relações.

IHU On-Line - Muitas pessoas ainda se fecham para as novas tecnologias, embora estas surjam com o intuito de tornar tudo mais fácil. Estamos preparados para imergir neste novo conceito de sociedade moldado pela cibercultura?
Celso Cândido
- O ser humano é uma espécie adaptativa. Atualmente, estamos explorando e nos adaptando às novas tecnologias. A intelectualidade letrada ainda guarda certo preconceito, e às vezes até certo ressentimento, em relação às mídias eletrônicas da cibercultura. McLuhan  já o disse quando se tratava do “gigante tímido” que era a televisão. Infelizmente, poucos ouviram ou entenderam McLuhan e ainda hoje o enorme potencial cultural e educativo da televisão continua relativamente estagnado. De outro lado, muitos indivíduos ou não podem por razões socioeconômicas ou simplesmente se sentem incapazes de mergulhar na cibercultura. É difícil responder se as gerações que nasceram e se formaram na cultura literária ou massmidiática, típicas do século XX, as quais hegemonizaram, por meio principalmente da indústria do livro e da televisão, a produção das significações imaginárias sociais, estão preparadas para a cibercultura. No entanto, o que parece certo é que as novas gerações estão se adaptando de um modo muito simples e natural aos novos paradigmas tecnoculturais impostos pela comunicação e pela cultura digital. No fundo, a cibercultura representa um grande potencial civilizatório para a humanidade. Mas ainda precisamos aprender a cultivá-la.

IHU On-Line - Sabemos que os avanços tecnológicos podem contribuir, e muito, principalmente com a ciência e a medicina. No entanto, a idéia do filme não nos remete a uma estagnação, tendo em vista que deixamos te der utilidade, diante do “mundo das máquinas”?
Celso Cândido
- No filme, somos úteis aos propósitos das máquinas. A Matrix projeta um mundo virtual em relação ao que todos o vivem como sendo a própria realidade. É o império do simulacro. Entretanto, os humanos organizam sua resistência, lutam para transformar sua situação. Neste sentido, o filme passa uma mensagem na qual, finalmente, os humanos saem-se vitoriosos. Em certo sentido o filme é otimista, apesar de todos os aspectos críticos que ele releva.

IHU On-Line - É possível acreditar em um domínio das máquinas sobre os humanos? Que perspectivas podemos adotar, diante deste tema?
Celso Cândido
- Do ponto de vista da filosofia, e não do da ficção, a questão colocada em termos de homens versus máquinas, máquinas versus homens é inadequada. Pois é impossível apreender a realidade de nosso tempo pressupondo esta contradição pouco dialética, quando o que acontece é exatamente o inverso. As máquinas, as tecnologias, são extensões das habilidades e capacidades humanas. Os indivíduos estão cada vez mais fascinados pelas tecnologias contemporâneas; eles as desejam cada vez mais para ver, voar, andar, correr, amar, comunicar, criar. A sociedade atual não tem nada a ganhar “condenando” a atitude dos jovens e adultos e seu sempre crescente apetite por tecnologias. Mas tem certamente muito a perder, se não for capaz de inventar relações sociais, políticas e ambientais, culturais e educacionais, mais ricas do que aquelas que vimos experimentando na cultura de massas. Prefiro pensar esta tensão entre máquinas e seres humanos em um sentido mais metafórico. Assim, Matrix poderia ser considerada uma metáfora da condição humana contemporânea e, deste modo, como metáfora das grandes máquinas que hegemonizaram e dominaram e dominam mais ou menos despoticamente os indivíduos no mundo contemporâneo, escravizando-os e alienando-os de seus inerentes potenciais humanos. Vivemos ainda hoje um período de escravidão física e mental para muitos seres humanos sobre o planeta. Escravizados por forças aparentemente invisíveis, mas de efeitos poderosos. Hoje e ontem, os seres humanos dominam e dominaram as máquinas reais. Estas são instrumentos de trabalho, de pesquisa, de comunicação, de cura e cuidado, de cultura. Instrumentos nas mãos humanas. Então, gostaria de propor uma inversão paradoxal e provocativa. Ao invés de diabolizar as máquinas, mais valeria nos perguntamos: o que nós, enquanto indivíduos, estamos fazendo com estas máquinas, o que poderíamos e o que deveríamos fazer? Os meios tecnológicos são extensões dos humanos, e dificilmente um dia serão seus inimigos. O que ainda ontem ocupava um outro tempo, como os auditórios para ouvir música, os cinemas para assistir filmes, as bibliotecas para ler livros, hoje carregamos tudo no bolso em algum dispositivo nanotecnológico. O mais importante, a meu ver, são as grandes e diversas possibilidades culturais e educacionais presentes em tal universo tecnológico. Ainda estamos na pré-história de uma educação e da cultura digital on-line. Assim, é preciso insistir na pergunta: o que diante de tais potencialidades podemos e devemos fazer? Em todo caso, hoje e sempre, o futuro da humanidade pertence à própria humanidade.

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