Edição 245 | 26 Novembro 2007

A religião como fato cultural passa a ser apenas objeto da filosofia

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“É importante entender o ateísmo contemporâneo seguindo os caminhos tomados pela idéia de Deus a partir do pensamento tardo-medieval, nela situando a ruptura entre filosofia e religião e, conseqüentemente, a exclusão da teologia dos sistemas dos saberes objetivos, aos quais a modernidade pós-cristã reconhecerá uma legitimidade racional universalmente aceita”, disse o Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos. Em entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, o especialista em Hegel assinala que “a religião deixa de ser um sujeito inspirador de um saber situado e reconhecido no espaço filosófico – a teologia – para tornar-se objeto de um saber que pretende compreendê-la segundo as regras da racionalidade calculadora e operacional, a filosofia da religião”.

Aquino é graduado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia Aloisianum, em Milão, e em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (PUG), ambas na Itália. É especialista em Filosofia, pela Hochschule Für Philosophie, em Munique, mestre e doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), de Roma, e mestre em Teologia, pela mesma instituição. Cursou pós-doutorado no Boston College, nos EUA. É autor de O conceito de religião em Hegel (São Paulo: Loyola, 1989). Professor do PPG em Filosofia, Aquino também é o reitor, desde 02-01-2006, da Unisinos. O reitor concedeu diversas entrevistas à IHU On-Line: nas edições 19º, de 27-05-2002, sobre a morte de Henrique Cláudio de Lima Vaz, e na edição 75, de 15-09-2003, a respeito do lançamento, pela Editora Unisinos, do Dicionário de Ética e Filosofia Moral, organizado por Monique Canto-Sperber. Na edição 170, de 6-03-2006, que teve como tema de capa 2006: na corrida de um novo ano, Aquino falou sobre sua nova função como reitor da Universidade. Na edição 185, de 26-06-2006, abordou o tema Vaz: intérprete de uma civilização arreligiosa. Sua contribuição mais recente aconteceu na edição 217, de 30-04-2007, com a entrevista “Liberdade, necessitarismo e ética em Hegel”.

IHU On-Line - Como entender o ateísmo contemporâneo?
Marcelo Fernandes de Aquino -
Como qualquer fenômeno cultural, o ateísmo contemporâneo tem suas raízes teóricas. Atenho-me à sua raiz filosófica, área de minha formação pessoal. Mesmo vivendo num clima cultural pós-metafísico e pós-cristão, reconheço a presença grega e judaico-cristã como raízes de um conjunto de convicções culturais e valores que caracterizam a modernidade pós-renascimental. Para muitos estudiosos, entre os quais me incluo, o ateísmo contemporâneo é resultado de longo processo de gestação histórico-conceitual que remonta ao ocaso da alta idade média e ao início do ciclo das várias modernidades pós-renascimentais.

IHU On-Line - Quais seriam nossas raízes gregas e judaico-cristãs?
Marcelo Fernandes de Aquino -
A filosofia grega e a fé bíblica se depararam com a questão da participação no ser que existe necessária e absolutamente. Em outras palavras, puseram em evidência a questão do Primeiro Princípio e sua exigência de racionalidade radical, ou ainda do Absoluto fundante de natureza racional. O discurso grego sobre o Princípio estruturou-se como uma lógica do ser. Basta conferir o Poema de Parmênides , o Sofista de Platão , a Metafísica de Aristóteles . Estas três obras traçam a rota da ascensão da mente (anábasis) em direção à intuição plenificante que consumirá a união da inteligência (nous) com o inteligível supremo (noetón). Com Plotino , o itinerário ontológico sofre uma inflexão histórica e transmuta-se em henologia, contemplação do uno. Porfírio , discípulo e biógrafo de Plotino, provavelmente foi o primeiro a propor uma distinção entre o ser e o ente, que supõe a inteligibilidade do existir. O infinitivo einai (esse), como atributo do Primeiro Princípio no neoplatonismo que procede de Porfírio, expressa a presença germinal da concepção do ato puro de existir na tradição grega tardia. Ora, é preciso reconhecer uma dimensão teológica constitutiva da filosofia primeira ou metafísica desde as origens desse saber. No Banquete e na República, Platão nos legou o modelo teórico de ascensão intelectual ao Absoluto como Beleza e Bem transcendentes. Na Metafísica, Aristóteles edifica a ciência do ser como ontologia, filosofia primeira e teologia. A teologia estóica, suplantando a crítica epicurista ou cética, impõe-se na modernidade dos séculos III e II a.C., e guiará a introdução das idéias modernas gregas no mundo romano a partir do século II e I, com a influência do chamado estoicismo médio de Panécio de Rodes  e Apolônio de Apaméia . Do século II d.C. em diante, o médio-platonismo e o neoplatonismo tornam-se a teologia da modernidade da Antigüidade tardia. Ou seja, em suas formulações mais rigorosas, o pensamento metafísico grego tem uma espessura religiosa.

Por sua vez, o discurso bíblico estruturou-se em torno da Palavra que desce do alto (katábasis) como dom dirigido ao povo da aliança. A narrativa dos Começos, a revelação do nome de Deus a Moisés, no testamento judaico, o lógos sarx egéneto, do testamento cristão, expressam a soberania absoluta da palavra de Deus mediante a categoria de criação. Filo de Alexandria  é muito importante nesta questão, porque dá início à tradição da incognoscibilidade do Princípio. Ora, a assimilação do médio e neoplatonismo pelos autores cristãos dos séculos II e III foi possível porque o pensamento filosófico grego tinha sua espessura religiosa que se traduzia numa teologia. A teologia cristã dialogava com a teologia platônica e neoplatônica. Porque a filosofia antiga era teológica, a teologia cristã pode tornar-se filosófica. Neste diálogo, a ontologia trinitária cristã redimensiona a ontologia grega da substância com a inclusão da relação na ordem da essência. Ou, ainda, a ontologia do Verbo prolonga a ordem ontológica em ordem histórica. Em resumo! A ciência grega do ser, na sua matriz conceptual fundamental, é uma ciência da essência (ousia). A revelação bíblica da criação e do nome divino resgata a existência da pura faticidade de um acontecer aleatório.

IHU On-Line - Como acontece a transmissão da doutrina do ato de existir na Idade Média?
Marcelo Fernandes de Aquino -
A tradição porfiriana da inteligibilidade do existir deve ter sido transmitida à Idade Média por Boécio  no tratado De Ebdomadibus, em que ocorre a distinção entre esse e quod est, que pode ser considerada uma das fontes da distinção real de existência e essência no ser finito. Na esteira da obra boeciana, Tomás de Aquino  faz uma leitura especificamente cristã do topos da inteligibilidade do existir e o assume com forte dose de novidade na sua reflexão sobre o Primeiro Princípio. No seu Comentário à Metafísica, ele não vai além da ontologia aristotélica da substância. Nas questões V e VI do seu Comentário ao De Trinitate de Boécio, Tomás move-se em terreno cristão e faz avançar as fronteiras da metafísica até a afirmação da inteligibilidade intrínseca do ato de existir, que se manifesta no conceito de criação e da revelação do Absoluto como puro existir.

IHU On-Line - Em que momento tem início a desconstrução dessa tradição?
Marcelo Fernandes de Aquino -
No primeiro ciclo das modernidades, que se desenvolveram sob a influência do encontro-confronto entre razão grega e fé bíblica, a religião, na medida em que soube fazer a passagem do mito à teologia racional, encontrou um lugar no sistema das razões que tinha seu centro na filosofia. O itinerário greco-cristão da metafísica caminhou da representação ao ser. Sua desconstrução tardo-medieval e moderna, ao contrário, procede do ser à representação. Nos tempos pós-hegelianos, sofre uma inflexão niilista.

É importante entender o ateísmo contemporâneo seguindo os caminhos tomados pela idéia de Deus a partir do pensamento tardo-medieval, nela situando a ruptura entre filosofia e religião e, conseqüentemente, a exclusão da teologia dos sistemas dos saberes objetivos, aos quais a modernidade pós-cristã reconhecerá uma legitimidade racional universalmente aceita. A religião deixa de ser um sujeito inspirador de um saber situado e reconhecido no espaço filosófico – a teologia – para tornar-se objeto de um saber que pretende compreendê-la segundo as regras da racionalidade calculadora e operacional, a filosofia da religião.

Duns Scotus  e Suárez  são os precursores do caminho filosófico que, ao chegar a Descartes , reestruturou totalmente o espaço metafísico do qual é excluída a validez do conhecimento analógico na elaboração da idéia do ser e dos seus atributos. Descartes dá o passo decisivo no caminho da dissolução da analogia da idéia do ser, ao estabelecer o ordo cognoscendi das ciências, tendo seu princípio e fundamento na certeza do cogito e nas regras do método.O espaço metafísico no qual Descartes vai tentar desenvolver suas provas da existência de Deus, passa a ser, segundo a II e a V das Meditationes de prima philosohia, o espaço do ens ut cogitatum submetido à univocidade das regras do método e fundado na certeza primeira do cogito.

As provas das Meditationes e, nelas, a temática da idéia do Infinito imanente ao sujeito pensante constituem a transposição da antiga theologia. Penso que nessa transposição decide-se o destino da modernidade filosófica pós-cristã. Nela, estão postas as premisssas para a desconstrução antropológica da idéia de Deus. De Spinoza  e Feuerbach , este é um lugar obrigatório de passagem da filosofia pós-cartesiana.

A primazia do ordo cognoscendi na univocidade das suas regras prevalece na organização do espaço conceptual cartesiano, que imporá seu modelo a toda a cultura moderna e verá confirmado seu domínio com a extensão universal da tecnociência. Descartes integra a idéia de Deus na ordem das razões na medida em que dela o eu pensante deve “dar razão”. Os sucessores de Descartes encaminham o processo de desconstrução da idéia de Deus e dão lugar à plena e incontestada primazia do sujeito que acaba por avocar a si o predicado divino de causa sui et rerum.

IHU On-Line - Qual é o enjeu metafísico em torno da idéia de Deus?
Marcelo Fernandes de Aquino -
Penso que nele se situa o lugar conceitual e ideológico do choque da modernidade pós-cristã sobre a religião. Qual é o fundamento dos atos de conhecimento que se exercem na órbita do pensamento filosófico constituído em centro do espaço da razão? Ou esse fundamento é assegurado por um Princípio ao mesmo tempo imanente e transcendente ao tempo, quod omnes dicunt Deum, ou esse fundamento é suposto residir no próprio sujeito do ato de filosofar, em cuja imanência se dará a suprassunção do tempo empírico na atualidade de um saber que se proclama absoluto. No primeiro caso, a religião exercerá legitimamente no âmbito das idéias da modernidade sua compreensão do tempo. No segundo caso, do fundamento metafísico da modernidade pós-cristã colocado sob a égide as razão cartesiana, o exercício do conhecimento fundado na pressuposição do Absoluto transcendente e, como tal, compatível com a crença religiosa, não terá lugar reconhecido no universo da razão. A religião como fato cultural passa a ser apenas objeto da filosofia. A theologia cede lugar à filosofia da religião.

Penso ser este um início de interpretação do processo mais amplo de remodelação da cultura humana não mais sob a égide da crença religiosa, e sim da descrença religiosa. Este é o fato cultural realmente novo para quem se reconhece na herança do encontro do logos grego com a palavra da revelação judaico-cristã.

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