Edição 242 | 05 Novembro 2007

Depoimento sobre trinta anos de estudo da história africana e afro-brasileira (1977-2007)

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IHU Online

Formação étnica do Rio Grande do Sul na História e na Literatura

Um depoimento sobre os 30 anos de estudo da história africana e afro-brasileira (199-2007) é o tema sobre o qual falará o historiador Mário Maestri, docente no PPG em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), nesta quarta-feira, 08-11-2007, dentro da programação do evento Formação étnica do Rio Grande do Sul na História e na Literatura. Maestri é graduado, mestre, doutor e pós-doutor em Ciências Históricas, pela Université Catholique de Louvain, em Louvain La Newe, na Bélgica.

Maestri apresentou o livro Sobrados e mucambos, de Gilberto Freyre, na programação do II Ciclo de Estudos sobre o Brasil, promovido no dia 15-04-2004, pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Sua palestra originou o artigo publicado no Cadernos IHU número 6, de 2004, intitulado Gilberto Freyre: da Casa-Grande ao Sobrado. Gênese e Dissolução do Patriarcalismo Escravista no Brasil. Algumas Considerações. Nessa mesma data, Maestri conduziu o tema A casa das sete mulheres: literatura, história e trivialidade, no evento IHU Idéias. Sobre ele, o professor concedeu à IHU On-Line uma entrevista publicada na edição 96, de 12-04-2004. O evento também rendeu a publicação, em 2004, do nº 17 do Cadernos IHU Idéias, intitulado As sete mulheres e as negras sem rosto. No III Ciclo de Estudos sobre o Brasil, apresentou a obra O Escravismo Colonial, de Jacob Gorender, em 28-04-2005. Sobre o tema, confira a entrevista concedida à 138ª edição da IHU On-Line, de 25-04-2005. De sua vastíssima lista de livros publicados, citamos os mais recentes: Uma história do Rio Grande do Sul: O império: da consolidação à crise do escravismo - 1822-1889 (Passo Fundo: EdiUPF, 2005); Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território (Passo Fundo: UPF Editora, 2006); O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência, sociedade (3. ed. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006); e Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário (2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007).
Entrevista com Mário Maestri


Etnia e história africana: retrospectiva

IHU On-Line - Quais são suas memórias mais significativas desses 30 anos de estudo da história africana e afro-brasileira?
Mário Maestri -
Meu primeiro contato com a história da África Negra deu-se há mais de trinta anos, como aluno do Centro de Estudos da África, da UCLU, na Bélgica, no exílio. Tratou-se do início da descoberta de um mundo sobre o qual quase não tinha informação, ainda que determinante para a história da antiga formação social brasileira e, através dela, a atual sociedade brasileira. Tratou-se de um primeiro contato que determinaria minha vida pessoal e profissional, pois nos anos seguintes prossegui neste estudo, com ênfase crescente na história do escravismo colonial.
 
IHU On-Line - Nesse período de tempo, o que mudou no estudo da história africana e afro-brasileira?
Mário Maestri -
Nesses trinta anos, a historiografia da escravidão modificou-se qualitativamente. Em fins dos anos 1970, a sociedade brasileira vivia momento muito positivo. A mobilização pela anistia e redemocratização e a rearticulação sindical, dirigida pelo operariado metalúrgico, criavam excepcionais condições para leituras estruturais do passado, parte do esforço de desalienação social. O fortalecimento do mundo do trabalho permitia desvelamento de sua história objetivado no interesse de estudiosos que encontravam espaço nas universidades, jornais, revistas, editoras etc., para desenvolver estudos sobre a história da escravidão, sobretudo desde os dois eixos que movem o mundo social: o trabalho e a luta de classes.

A vitória da contra-revolução neoliberal, em fins dos anos 1980, determinou derrota histórica ao mundo do trabalho, sob a qual ainda vivemos, com destaque para o Brasil, de frágil organização social, em boa parte devido às especificidades de nosso passado escravista. Então, dominaram as visões irracionalistas e pessimistas, meios de construção da hegemonia do capital sobre um mundo em crescente barbarização.  As interpretação racionais e estruturais do passado foram alijadas do mundo das ciências, como anacronismos. Dominaram estudos sobre o imaginário, a vida quotidiana, o exótico, a cultura etc., como resultados de devir histórico possível de ser descrito, mas jamais explicado em suas determinações, aleatórias e fantasmagóricas. Um mundo que passou a ser como era, sem qualquer possibilidade de superação.

Abandonou-se o estudo da organização econômico-social da escravidão, das suas formas de resistência, de sua determinação essencial do mundo político, cultural etc. Dominaram estudos que, sob a proposta de restituir aos cativos a capacidade de serem “construtores de seus destinos”, pretensamente negada por trabalhos materialistas que viam seu agir determinado pelas formas de exploração-submissão, promovem verdadeiras reabilitação da escravidão. Estudaram-se as alforrias, que se mostraram práticas residuais; as brechas camponesa e urbana, que se comprovaram meios não sistêmicos de potenciação da exploração; generalizaram-se e romantizaram-se casos singulares de ascensão social servil “[trajetórias de vida”]; transformaram-se os frágeis e não sistêmicos laços familiares dos cativos em relações gerais, sólidas e pouco diversas das dos homens livres. Essa recuperação da escravidão, como sociedade estruturalmente aberta, ensejou propostas de que os cativos, através de negociações e acomodações sistêmicas, teriam se interessado na manutenção da escravatura, sendo golpeados pela Abolição, ao igual do já defendido por Freyre , nos anos 1930, em sua apologia das classes proprietárias nordestinas.
 
IHU On-Line - Em termos de Rio Grande e Brasil, como o senhor descreveria o panorama historiográfico atual sobre esses temas?
 
Mário Maestri -
O Rio Grande foi sempre importante capitania e província escravista. A população sulina com alguma afrodescendência não é ainda maior apenas devido à explosão demográfica da sociedade colonial-camponesa, onde o filho era braço para trabalhar e não boca para comer.  Os mitos fundadores do passado sulino, nas leituras das classes dominantes, são “a democracia pastoril”, nascida de sociedade pastoril, onde o trabalho era jogo e todos tinham acesso à alimentação, à carne, sem esforço. Um cenário que exigiu, e continua exigindo, verdadeira limpeza étnica do passado sulino no referente à enorme contribuição do cativo.

Quando iniciei minha tese de doutoramento sobre o escravismo sulino, em 1977, aquela visão dominava totalmente no imaginário rio-grandense, quase inexistiam estudos sobre a escravidão no Rio Grande, a não ser os escritos culturalistas de Dante de Laytano , o importante trabalho de Fernando Henrique Cardoso , de corte weberiano, desinteressado no trabalhador escravizado, e a recopilação do major Bento Moreira sobre o negro no Sul.  Hoje, contamos dezenas de trabalhos de qualidade, com diversas visões, e aquela percepção continua ainda dominante, devido à reiteração permanente do mito do estado de origem branca e livre pela mídia escrita, falada e televisiva, por movimentos culturais conservadores, como os CTGs etc.

Quanto aos estudos escravistas propriamente ditos, o Rio Grande conhece movimento muito positivo. Nos anos 1980, apenas na PUCRS trabalhava-se sistematicamente a questão. Hoje, temos núcleos estáveis de investigação na Unisinos, na UFRGS e na UPF. No relativo à orientação geral desses trabalhos, eles se inspiram nas visões dominantes do Centro-Sul referidas, algumas vezes sem compreensão da diversidade entre a fazenda pastoril, do Sul, e a fazenda agro-exportadora, do resto do Brasil. As grandes estâncias funcionaram sistematicamente com o braço cativo, com destaque para as tarefas pastoris. As determinações materiais dessa produção ensejaram formas de exploração relativamente mais benignas  do que as conhecidas nas charqueadas e nas fazendas agro-exportadoras, como registrado pelos viajantes que aqui estiveram no século XIX. Fato que jamais superou a necessidade coercitiva da escravidão. Atualmente, vivemos uma certa tendência à reabilitação da escravidão no pastoreio, inspirada em estudos sobretudo do peão-gaúcho na nova historiografia argentina. Movimento que, de certo modo, resolveria a contradição entre a apologia da democracia pastoril e a escravidão, através de reabilitação do mito da escravidão pastoril feliz. 
 
IHU On-Line - Que avanços ainda são necessários dentro desse campo de estudos?
Mário Maestri -
Apenas nos últimos anos, estão sendo desvelados os mecanismos profundos da sociedade sulina pré-1888. Hoje, podemos propor sem dúvidas o caráter dominante da ordem escravista no Sul.  Fato que explica, por exemplo, o caráter escravista do Partido Liberal rio-grandense, praticamente até a Abolição, em contradição com sua orientação em geral emancipacionista no resto do País. Uma nova compreensão que exige de certo modo uma releitura da própria história política sulina, sobretudo do século XIX, ainda tão mal conhecida, devido à sua profunda determinação pelas contradições essenciais escravistas.
 
IHU On-Line - A discriminação e o racismo são realidades existentes veladamente dentro da academia?
Mário Maestri -
Arriscaria dizer que o Rio Grande encontra-se, em forma geral, entre as regiões menos racistas do Brasil. Talvez seja a menos racista. Fenômeno em contradição com a retórica do estado branco que se deve, creio, à nossa própria formação social, singularizada por uma enorme sociedade colonial-camponesa que jamais viveu da exploração do cativo. Mesmo na Região Colonial Alemã, que conheceu seus cativos, eles restringiram-se essencialmente à esfera do comércio, do transporte, do artesanato, das manufaturas etc., tendo papel menos que residual na atividade colonial propriamente dita, atividade incapaz estruturalmente de servir-se desse tipo de trabalho. A sociedade pastoril não ensejou também exploração do cativo como o escravismo agrícola ou charqueador. O Sul alcançou, quando da República Castilhista , estágio de desenvolvimento avançado, em relação a muitas regiões do Brasil.  O fato é que o racismo, sobretudo explícito, conhece rechaço geral no Rio Grande. Nossa academia é produto dessa realidade. A facilidade com que a problemática política de cotas para estudantes com alguma ascendência africana tem sido aprovada nas universidades públicas sulinas apoiadas por professores e alunos brancos, registra essa realidade, assim como a eleição, sem maiores problemas, de Alceu Collares  para governador. O que não quer dizer em nenhum caso que o racismo não seja fato social difuso e geral, também no Sul, exercido sobretudo contra as populações pobres de forte afroascendência.

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