Edição 242 | 05 Novembro 2007

O atraso do RS em termos de saneamento. “Ainda há esperanças para o Rio dos Sinos”

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IHU Online

O biólogo e professor da Unisinos Uwe Schulz concedeu a entrevista que segue à IHU On-Line, pessoalmente, em seu gabinete, quando afirmou que “ainda existe muito peixe no Rio dos Sinos”. Para ele, o Rio “está longe de estar morto”, já que os primeiros resultados das pesquisas realizadas indicam uma “recuperação muito rápida”. Schulz é vinculado ao Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos). Ele possui graduação e doutorado em Biologia, pela Universität Bielefeld, e pós-doutorado, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas. Recentemente, apresentou o tema “O desastre dos Sinos: um ano depois”, no evento IHU Idéias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU em 18 de outubro de 2007. Confira também uma entrevista com ele sobre o desastre no Rio dos Sinos, concedida ao site do IHU (www.unisinos.br/ihu), em 16/10/2006, intitulada “A bacia do Rio dos Sinos opera há muito tempo no limite do que é possível”. 

IHU On-Line - Por que a degradação do Rio dos Sinos alcançou tamanhas proporções?
Uwe Schulz –
Houve um acúmulo de negligências durantes anos e anos. Primeiro, o Estado do Rio Grande do Sul é completamente atrasado, nacionalmente, em termos de saneamento básico. Somos praticamente o último estado em termos de investimento de saneamento e porcentagem do esgoto tratado. Estamos muito abaixo da média nacional. Isso tem a ver com a situação hidráulica, porque sempre teve muita água para levar o esgoto embora. Então, a necessidade de tratá-lo parecia pequena. Nos estados do Nordeste, por exemplo, onde existe escassez de água, a porcentagem do esgoto tratado é bem maior, porque ele fica lá. Não tem um corpo grande de água que o leva embora. Por esse fato, houve durante anos uma negligência na parte dos investimentos nessa área. Os prefeitos sempre me dizem nas reuniões que “não se ganha voto por saneamento”. Uma estação de tratamento de esgoto ou uma rede de esgoto não dá voto para nenhum político. E eles têm razão. O cidadão não compensa esse investimento com seu voto. Até hoje, quando ele abre sua torneira sempre sai água. Enquanto isso funcionar, ele não vê a necessidade de investimentos. 

IHU On-Line - O esgoto doméstico, responsável pelo maior grau de poluição do rio, ainda continua sem tratamento. Os municípios estão encaminhando e apresentando projetos para reverter a situação. Um ano após a mortandade, esses projetos já não deveriam ter sido encaminhados e atuar concretamente, devido à gravidade do fato? Qual é a sua avaliação dessa demora?
Uwe Schulz –
Essa demora muitas vezes é de natureza técnica. O planejamento de uma rede de esgotos, solicitação de verbas, demora um tempo. Mas eu vejo projetos já encaminhados que terão de reverter a situação. Existem projetos concretos em Canoas , Sapucaia  e Esteio , por exemplo. E agora, com a formação do Consórcio de Saneamento Ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, será mais fácil captar recursos. Eu acredito que essa situação realmente vai mudar. A mortandade que houve no ano passado movimentou as coisas, com um certo atraso, porque a massa para ser movimentada é muito grande. Mas eu vejo que há movimentação na direção certa. 

IHU On-Line - Depois do incidente do Rio, o senhor disse que era necessário um diálogo entre as partes envolvidas e que essa conversa deveria se dar através do Comitesinos. Esse diálogo foi estabelecido no decorrer do ano? A que conclusões vocês, integrantes, chegaram?
Uwe Schulz –
O diálogo ocorreu parcialmente. O Comitê vai receber verba para a instituição do Plano de Bacia, que prevê as metas do gerenciamento hídrico dos próximos 10 ou 20 anos: instalação de redes de esgoto, definição de responsabilidades, onde, com quem, quem financia. Então, esse tipo de diálogo ocorreu. Outros tipos de diálogo não ocorreram, por exemplo, o que poderia esclarecer o próprio papel da Fepam no desastre, o que até hoje não ficou muito claro para mim. Eu não sei se hoje existe um plano de emergência para a própria Fepam, como ela agiria no caso de um novo desastre. Não sei para quem eu devo ligar caso aconteça algo novamente. Eu sei que não há um plano de emergência para a Corsan, o Semae ou a Comusa. Nem sei quais são os critérios para as companhias de abastecimento de água para desligar as bombas. Imagine, flutuavam cem toneladas de peixes na frente da bomba de captação de água potável e ninguém a desligava. As substâncias tóxicas que causaram essa mortandade vão chegar ao consumidor. Porque o sistema de tratamento não remove isso. 

IHU On-Line - Qual foi a participação da Unisinos no processo de recuperação do Rio? E quais são os novos projetos da Universidade nessa área?
Uwe Schulz –
Nós temos um projeto encaminhado sobre o papel dos banhados. Ele seria financiado pelo Corede , mas está congelado, porque a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) ainda não transferiu a verba concedida. A questão dos banhados é de extrema importância, pelo potencial de autopurificação que tem, pela contribuição que oferece para purificar a água e pelo potencial de retenção de água em períodos de seca. Dentre as atividades já em andamento, o meu laboratório tem um projeto que compara os estoques de peixes do Rio dos Sinos na situação atual com a situação de mais ou menos 10 anos atrás, em 1998, pois temos dados dessa época. A idéia é ver se a mortandade teve uma causa de longo prazo ou não. Ampliamos a região de amostragem, a partir do trecho do Rio que fica abaixo do Arroio Portão, onde entrou a substância tóxica. Então, haverá uma comparação, primeiro, pelo tempo, da situação de dez anos atrás com a atual, e uma comparação espacial: se a composição dos peixes é diferente acima do Arroio Portão, ou embaixo, que é o trecho afetado, para ver se existe recuperação.

IHU On-Line – É feita alguma análise da saúde dos peixes?
Uwe Schulz –
A saúde dos peixes também é analisada, principalmente nos parâmetros de reprodução. Existe um projeto que está investigando a qualidade da carne de peixe, para quem a consome. O nosso enfoque é a saúde do peixe em termos do funcionamento biológico. Um peixe que está numa situação de estresse crônico, em função da poluição, não reproduz, ou reproduz em menores taxas. O que investigamos são os órgãos reprodutivos, principalmente das fêmeas, se os ovos são menores, e se produzem menos ovos. O projeto começou em setembro, e ainda não temos resultados concretos. O que já constatamos é que ainda existe muito peixe no Rio dos Sinos. Em Sapucaia, embaixo do Arroio Portão, houve uma captura muito grande de peixes de piracema, o que é muito positivo.

IHU On-Line – O Rio dos Sinos não está morto, então?
Uwe Schulz –
Não, está longe de estar morto. Os primeiros resultados das pesquisas indicam uma recuperação muito rápida. Há esperança para o Rio dos Sinos. Espero que os outros resultados das pesquisas venham a confirmar essa tendência.

IHU On-Line - Como a poluição do Rio afeta a biodiversidade da região? Alguma espécie corre risco de extinção?
Uwe Schulz –
Não é só a poluição que afeta o corpo de águas. Muitas vezes são outras medidas também, como, por exemplo, a drenagem de banhados. Existe uma fauna associada aos banhados, que desaparece junto com eles. Não temos informações sobre o desaparecimento de espécies, porque não temos dados históricos. Ninguém tem idéia de quantas espécies existiram há cem ou 50 anos. O primeiro levantamento completo que temos conhecimento foi o nosso próprio, feito há dez anos. É a única base de comparação.

IHU On-Line - Com o avanço das mudanças climáticas, os impactos para o Rio poderão se agravar? Em que medida?
Uwe Schulz –
Isso é óbvio. Aquecimento global significa uma tendência de secas prolongadas. E a fase de maior impacto é sempre quando ocorre a falta de água no Rio. A baixa quantidade sempre causa uma baixa qualidade também. Nessas épocas de seca, a capacidade diluidora do corpo de água diminui. Faz muita diferença se eu despejo 200 litros de esgoto numa vazão de 100 metros cúbicos ou três metros cúbicos de água.

IHU On-Line – O senhor acha que a água que sai das torneiras na região do Vale do Sinos pode ser considerada uma água própria para o consumo humano?
Uwe Schulz –
Ela pode ser consumida, mas eu tenho dúvida se a qualidade sempre é constante. Isso eu duvido. Ferver não faz diferença nenhuma se o problema são metais pesados, que não saem com o calor. O que é removido com o processo de fervura da água são as bactérias. Nesse aspecto, a água está limpa. O problema é que todo mundo sabe que existem esses lançamentos esporádicos de substâncias químicas no Rio dos Sinos por empresas mal-controladas em alguns instantes. Essas substâncias podem entrar nas captações. O tratamento convencional da água não retira essas substâncias porque não é a intenção. O sulfato de alumínio tem a função somente de deixar a água mais clara, transparente e límpida, mas não remove as substâncias nocivas.

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