Edição 240 | 22 Outubro 2007

Tropa de elite, de José Padilha

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André Dick

O Filme comentado nessa edição foi visto por algum/a colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre

Ficha técnica

Título Original: Tropa de elite
Gênero: Ação
Tempo de duração: 118 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2007
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Fernanda Machado, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz

Sinopse: O Capitão Nascimento é comandante do esquadrão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), a tropa de elite da polícia do Rio de Janeiro. Ele quer deixar o posto, pois está prestes a ser pai e tem ataques freqüentes de Síndrome do Pânico, mas precisa antes encontrar um substituto à altura.  Aos poucos, começa a enxergar como candidatos os aspirantes Neto e Matias, amigos de infância que dividem a mesma indignação com toda a corrupção que vêem na polícia convencional. Juntos, integrarão o Bope e cumprirão suas missões até as últimas conseqüências

Publicamos a seguir uma resenha sobre o filme Tropa de elite, de José Padilha, elaborada pelo colega André Dick, doutor em Literatura Comparada e revisor das publicações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

O Bope em ritmo de rock

Dirigido por José Padilha, Tropa de elite é certamente o filme mais comentado desde Cidade de Deus (2002), sobretudo depois de milhares de cópias piratas começarem a circular pelo País, tornando-se conhecido graças ao boca a boca do público. Depois de lançado, a crítica brasileira, em sua grande parte, o alçou ao posto de filme do ano e a trajetória de sucesso vem se repetindo nos cinemas, com 700 mil espectadores em apenas dez dias de exibição. Esse sucesso é merecido?

Por um lado, sim. Tropa de elite coloca em debate alguns temas bastante em voga na sociedade brasileira: o tráfico de drogas, a violência urbana, a corrupção policial, a hipocrisia frente aos problemas do cotidiano. Como a Fernando Meirelles  em Cidade de Deus, é preciso dar crédito a José Padilha por tocar em assuntos certamente incômodos para grande parte das pessoas. Uma característica, por exemplo, que não tem o Carandiru de Hector Babenco , no qual todos os prisioneiros parecem, na realidade, inocentes. Além disso, o filme envolve o espectador como um bom telejornal. Esteticamente, é muito bem realizado, com fotografia de alta qualidade (com uma luz sombria), montagem frenética e movimentos de câmera que fazem esquecer um pouco a falta de diálogos, concentrando as cenas em closes para dar um sentido de realismo maior. Numa comparação imediata com Cidade de Deus, no entanto, trata-se de um cinema de menor impacto e resolução, talvez porque Padilha não tenha a sensibilidade de Meirelles para apresentar e solucionar alguns conflitos de maneira menos ligeira e seja mais um documentarista (ele é diretor do polêmico Ônibus 174), sem haver aqui qualquer demérito. No entanto, por outro lado, sob a camada cinematográfica, há outra, mais polêmica e não poucas vezes contraditória. Avaliar, por exemplo, que Padilha é neutro, que ele apenas mostra uma certa visão dos acontecimentos, não parece ser o mais acertado. O cineasta, antes de mais nada, escolhe seus caminhos a partir de suas próprias suposições, e o faz através de um recorte que pode ser tanto considerado acertado quanto por vezes generalizante. Uma obra de arte, afinal, está sujeito a todos os tipos de interpretação, justos ou não.

Tropa de elite, ao contrário do que alguns falam, não é um elogio à ação dos policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope): ele flagra uma determinada situação, uma maneira de agir de uma determinada polícia. No entanto, o filme procura encontrar um lado positivo no lado negativo dessa polícia, por mais que isso pareça paradoxal. A idéia básica é: se ninguém age, sobretudo os policiais comuns, que pelo menos exista uma órgão que aja, mesmo que viole muitas vezes as leis. O Bope, até determinado ponto, é visto com a cumplicidade do espectador, que se vê cercado por notícias ruins todos os dias, mesmo porque o narrador, Cabo Nascimento (personagem de Wagner Moura, numa boa atuação) é uma figura incorruptível. E isso, pelo que se entende indiretamente na proposta do roteiro  (ou seja, aqui cabe a interpretação particular), lhe dá o direito de matar, pois o sistema está falido, afundado na burocracia e na corrupção. Ou seja, a justiça deve ser feita à bala, de preferência, não perdida, à medida que - novamente é o que se subentende - as instâncias superiores da justiça não mais funcionam. A partir disso, a bandeira de sua corporação vale mais do que a bandeira brasileira, o que se percebe no alegorismo de uma cena de funeral. Seria interessante num contexto ficcional, como o do personagem de Charles Bronson na série Desejo de matar. O problema é ver se isso se encaixa num filme que retrata muito da realidade e deseja apresentar uma série de questões inconvenientes (reitere-se que o diretor é antes de tudo um documentarista). O mais adequado não seria investigar por que essas instâncias superiores não funcionam, o que as constitui desse modo?

No entanto, Tropa de elite quer mostrar a realidade crua. Em relação especificamente à violência – bem menor, por exemplo, do que a apresentada em Cidade de Deus -, o filme não revela mais do que o espectador que acompanha telejornais já imagina acontecer: agressões a “testemunhas”, tiros a esmo, violação de direitos humanos, embora as ditas cenas de tortura devam, infelizmente, ser muito piores na realidade. Mas Padilha quer dar ao personagem principal – com uma presença excessiva da voz em off, o que já era um problema de Cidade de Deus, para tentar costurar uma trama fragmentada – o caráter de justiceiro, a começar pela epígrafe que abre o longa-metragem. Ou seja, o policial tem esse caráter que tem – agressivo, impulsivo – porque seria fruto do meio em que vive. Ele também é um homem com transtorno psiquiátrico e sua mulher espera um filho. Com isso, o filme acaba tirando a carga negativa que ele apresenta, tentando humanizá-lo no bom sentido. No entanto, o personagem não tem passado, como não tem futuro: não se sabe por que ele age dessa maneira, quais suas origens. Se Padilha quis mostrar um homem em conflito, acertou em cheio. A questão é se só pode se encontrar um homem incorruptível em quem se revolta literalmente contra o sistema.

Outro traço polêmico do filme é que Padilha considera estudantes parte do tráfico por usarem drogas, no que parece correto e até óbvio (ou seja, não se sabe por que tal argumento invocou tantas reações contrárias): quem usa drogas certamente está ajudando a colocar mais armas nas mãos de traficantes. Por outro lado, pode-se questionar se são apenas os jovens usuários que financiam o tráfico. Eis que Padilha parece nos dar a resposta mais contundente. Ele se utiliza desse argumento para mostrar que alguns dos estudantes que deveriam estudar para melhorar e fazer cumprir as leis são muitas vezes coniventes com os traficantes e acham os policiais, com os quais deveriam ter afinidade, na concretização das leis, figuras desonestas. Esta é talvez a crítica mais acertada que faz Padilha – e realmente complicadora: como podemos confiar em mudanças se muitos que futuramente lidarão com as leis aceitam ilicitudes? O problema, mais uma vez, é que Padilha generaliza: na cena emblemática em que o policial André Matias (vivido por André Ramiro, na melhor interpretação do filme) defende seus companheiros na sala de aula, se faz um silêncio, o que indica que todos são contrários a ele. A sala enfocada por Padilha representaria, em suma, a média do pensamento estudantil. E só um aluno consciente do Bope, logo, em efetivamente querer agir contra o crime, seria capaz de salvar a sociedade.

O personagem André, aliás, que ao lado de Neto (vivido por Caio Junqueira) é um dos eleitos pelo Capitão Nascimento para sucedê-lo, é ainda mais paradoxal: de interessado estudante por direito, em seguir leis, ele, quando entra para a polícia, percebe que o sistema não lhe oferece saída. É de se questionar, então, por que ele não procura outro caminho, tendo a visão (estudantil) que tinha no início do filme. No entanto, isso seria o contrário do que pretende Padilha: ao contrário do que Meirelles, por exemplo, mostra em Cidade de Deus, por meio de Buscapé, o garoto que sonha em ser fotógrafo, o estudo em Tropa de elite parece não ajudar a resolver os problemas sociais, pelo menos aqueles que se referem ao direito: o sistema é um só e deve ser enfrentado sem teorias. A incorruptibilidade passa, como conseqüência, pelo caráter agressivo. Torna-se, a partir dessa idéia, bastante representativa a cena em que o Capitão Nascimento, em aula, fala a palavra “estratégia” em diversas línguas: é como se o estudo fosse algo simplesmente teórico, distante da realidade. “Estratégia” verdadeira, simples e prática, no caso, é quando ele sobe no morro.

O que incomoda, de modo geral, no filme de Padilha não é a trilha sonora de rock – para transformar o filme numa montanha-russa, característica aprimorada pela excelente montagem de Daniel Rezende –, ou as cenas à la Nascido para matar de Kubrick , homenageado nas cenas de treinamento e na cena em que os policiais adentram uma favela em ruínas, como se estivessem no Vietnã, mas em parte certo ar de ingenuidade, mesmo com toda a violência crua que apresenta. Talvez pretendendo ser uma tese de sociologia – as discussões sobre Vigiar e punir, de Foucault , indicam uma necessidade de estabelecer uma discussão acadêmica do objeto artístico a posteriori –, o filme é maniqueísta e coloca os personagens sempre numa espécie de limite tarantiano. As favelas cariocas não abrigam as fantasias de Kill Bill, mas Padilha quer um tipo de humor realista. A violência policial, por exemplo, é quase sempre encerrada com algum chiste – como a cena em que o capitão Nascimento coloca uma granada na mão de um de seus alunos para que ele não durma durante uma aula noturna – ou alguma humanização (como a passagem em que o capitão, depois de um tiroteio sanguinário, é avisado que seu filho vai nascer). O que mais choca, no entanto, é uma cena em que estudantes são mortos com requintes de crueza. Ou seja, na polícia a violência ou a desonestidade é acompanhada pelo elemento do humor, enquanto os bandidos são apenas o que realmente são: cruéis. E a periferia, quase em sua totalidade, é o oposto do que Regina Casé ou as novelas globais querem nos provar seguidamente. Na periferia apresentada em Tropa de elite não há humor e quem parece querer ajudá-la no fundo é conivente com as práticas ilícitas que nela ocorrem ou está apenas interessado em ter acesso mais fácil às drogas. Tudo é muito esquemático, e o filme se desenvolve como se fosse o piloto de uma série de TV. As únicas figuras que se salvam em Tropa de elite são as crianças, talvez porque elas ainda inspirem o futuro, ou venham a ser, quem sabe, policiais. É um irresoluto maniqueísmo, mas Padilha o administra bem, pois não se chega a sentir revolta ou raiva em relação aos policiais, pois eles aparecem como se fossem gânsters de O poderoso chefão no Esquadrão da Swat. Parece que eles estão querendo livrar o mundo do mal e são, digamos, apenas “eshpertos” e, claro, violentos. Porque eles pretendem representar o sentimento do público, afogado pelo mar de notícias ruins do dia-a-dia. O Bope age como o público que, sob um sentimento de indignação e de impotência, gostaria de se vingar, mesmo que ficcionalmente, da pária que o incomoda. A canção do Tihuana no início do filme, em alto e bom som, e a do Rappa, ao final, mostram um sentimento de heroísmo. A do Rappa – curiosamente banda envolvida com projetos nas favelas – é ainda mais emblemática: “Pois a vitória de um homem / Às vezes se esconde / Num gesto forte que só ele pode ver / / Eu sou guerreiro, sou trabalhador / E todo dia vou encarar / Com fé em Deus e na batalha”. Quem representaria a canção “Lado B, Lado A” no filme? Não parece ser o povo recluso dentro de casa. Parece se referir mais ao narrador do filme.

Mais interessante, diante desse quadro mostrado em Tropa de elite, é pensar que os conflitos em favelas não resultam apenas de um embate entre polícia e bandidagem. Eles também resultam de décadas de incompetência de instituições, de desvio do dinheiro público, do incentivo à barbárie no lugar da moral, e de falta de atenção – sobretudo de autoridades – para com a tragédia que brota do concreto. A tropa de elite também deveria estar pronta para vigiar outros ambientes. Afinal, policial é policial e bandido é bandido. Não é essa a moral? Sob esse ponto de vista, o filme de Padilha faz pensar de maneira decisiva, e daí vem, talvez, sua maior importância.

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