Edição 240 | 22 Outubro 2007

Afirmar o princípio da solidariedade, a ética do futuro

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IHU Online

“A Ética Mundial que nós ocidentais podemos propor e tornar comunitária é a ética cristã da caridade para com o outro, o próximo”, reflete o filósofo italiano Gianni Vattimo, na sexta entrevista exclusiva que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Em sua opinião, “a ética do futuro deveria ser fundada num valor central, aquele de permitir a todos decidirem e realizarem o que para cada um é uma ‘vida boa’, sem a necessidade de confrontar-se com um modelo único. Obviamente, esta não é, para mim, uma resposta individualista absoluta”. Contudo, ele adverte: “embora aprecie e respeito o esforço de Küng, não creio que construir uma Ética Mundial, em termos filosóficos, seja hoje uma tarefa urgente; vejo antes a urgência de desconstruir os universalismos essencialmente imperialistas que nos oprimem. E, então, sou principalmente favorável a afirmar o princípio da solidariedade, que basta, como aquele da caridade, para qualquer vida comunitária”.

Internacionalmente conhecido pelo conceito de “pensamento fraco”, Vattimo concedeu entrevista à edição 88ª da IHU On-Line, de 15-12-2003, uma segunda na 128ª edição, de 20-12-2004, e uma terceira na edição 161, de 24-10-2005, quando conversou pessoalmente com a IHU On-Line, no Hotel Intercity, em Porto Alegre, no dia 18 de outubro daquele ano, às vésperas de proferir sua conferência no evento Metamorfoses da cultura contemporânea. Nessa oportunidade ele falou sobre “O pós-moderno é uma reivindicação de multiplicidade de visão de mundo”, publicado na editoria Entrevista da Semana. Na edição Ser e tempo. A desconstrução da metafísica, nº 187, de 03-07-2006, falou sobre “O nazismo e o ‘erro’ filosófico de Heidegger”. Sua contribuição mais recente à IHU On-Line aconteceu na edição 225 da IHU On-Line, de 25 de junho de 2007, quando concedeu a Entrevista da Semana sobre Richard Rorty, avaliando seu legado filosófico. Dele também publicamos uma entrevista na 121ª edição, de 1º-11-2004, um artigo na edição 53, de 31-03-2003, e outro no número 80, de 20-10-2003. A editoria Livro da Semana, na edição 149, de 1º-08-2005, abordou a obra The future of religion, escrita por Vattimo, Richard Rorty e Santiago Zabala. De sua produção intelectual, destacamos Más allá de la interpretación (Barcelona: Paidós, 1995); O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (São Paulo: Martins Fontes, 1996); Introdução a Heidegger (Lisboa: Instituto Piaget, 1998); e Diálogo con Nietzsche: Ensayos 1961-2000 (Barcelona: Paidós, 2002).

IHU On-Line - Que tipo de ética é possível e desejável num mundo tecnicizado, globalizado, sem um fundamento único que o coordene?
Gianni Vattimo -
A ética do futuro deveria ser fundada num valor central, aquele de permitir a todos decidirem e realizarem o que para cada um é uma “vida boa”, sem a necessidade de confrontar-se com um modelo único. Obviamente, esta não é, para mim, uma resposta individualista absoluta. Creio que as escolhas de cada um, se guiadas por suas necessidades e sua felicidade, também são sempre escolhas que implicam estar com os outros, com a própria família, os próprios concidadãos, os lugares aos quais estão afeiçoados. Portanto, não vejo neste princípio nenhum perigo de uma grande fragmentação. Antes, na imagem de vida boa que cada um tem em si, entram muito as necessidades da comunidade.

IHU On-Line - Quanto ao Projeto de Ética Mundial de Hans Küng, quais são os limites e as oportunidades que oferece à sociedade ocidental? A solidariedade é o segundo princípio fundamental da ética künguiana. Como percebe este valor nos nossos dias e qual é o papel do cristianismo neste contexto?
Gianni Vattimo -
Na perspectiva da primeira resposta, estou convencido que hoje o problema não é tanto aquele de construir uma Ética Mundial, mas aquele de reconhecer a cada um, à comunidade, aos grupos, etnias, o direito-dever de serem aquilo que são, de seguirem os próprios costumes etc. Não o direi como princípio universal. Mas HOJE me parece que a mundialização é tão avançada que a ética é o reencontro do ethos, do costume compartilhado como aquele da própria língua. Que isto tenha, com freqüência, produzido guerras e conflitos no passado, segundo meu ponto de vista, depende antes das pretensões universalistas que algumas culturas têm querido impor, e que hoje são as leis do mercado. A ética universal que nós ocidentais podemos propor e tornar comunitária, é a ética cristã da caridade para com o outro, o próximo. Não basta? Creio que muitos pensem no problema de quem não é próximo no sentido estrito: os distantes, o embrião etc. Mas Jesus nos ensina sobretudo a amar aqueles que se “encontram”. E, respeitando-os em sua vida privada e no debate democrático, é que também podemos resolver, aos poucos, os problemas complexos da bioética. Também esta deve desenvolver-se com base no respeito interpessoal e na negociação concreta.

IHU On-Line - Como pode este Projeto contribuir para uma ética na política e na democracia?
Gianni Vattimo -
Como eu disse, embora aprecie e respeito o esforço de Küng, não creio que construir uma Ética Mundial, em termos filosóficos, seja hoje uma tarefa urgente; vejo antes a urgência de desconstruir os universalismos essencialmente imperialistas que nos oprimem. E então sou principalmente favorável a afirmar o princípio da solidariedade, que basta, como aquele da caridade, para qualquer vida comunitária.

IHU On-Line - Procurar uma ética nos moldes de Apel e Habermas, baseada numa perspectiva puramente formal, sem conteúdos que venham de situações históricas concretas, não seria recair no formalismo kantiano? Com resolver este obstáculo? Se uma ética mínima não fosse possível, como dar conta do relativismo e do niilismo que tomaria o seu lugar?
Gianni Vattimo -
A ética comunicativa de Apel e Habermas me parece fundamentalmente, como aquela de Kant, uma reformulação da ética kantiana. Ela insiste no respeito da lei somente porque, como explicita a segunda formulação do imperativo categórico, devo respeitar a humanidade em mim mesmo e nos outros em igual medida, somente por isso o universal é melhor, moralmente, do que as preferências e inclinações individuais.

Habermas, além disso, está preocupado pela fundação de uma prática política mundial, ou seja, de instituições como a ONU etc. Compartilho de sua posição sobre isto. Apenas sou cético quanto ao fato de que convenha uma filosofia para explicar aos políticos que coisa devam fazer. Enquanto não for tirado o poder de quem detém o dinheiro e as bases do domínio, de nada servirá inventar éticas. Este era também o parecer de Heidegger , que jamais se empenhou tanto na ética, mas procurou pensar o ser fora da metafísica (isto é, fora do objetivismo, dos princípios universais, ou seja, fora do autoritarismo). Entendo o desejo de verdades universais a serem compartilhadas. Mas a elas se chega sobretudo deixando falar as pessoas. Disto ainda estamos muito distantes.

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