Edição 238 | 01 Outubro 2007

Francisco de Assis nunca quis imitar ninguém

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IHU Online

“Poderíamos dizer que Francisco de Assis é o santo da Paz, que se identificou com os excluídos/as, que vivenciou o fraternismo universal, tornando-se irmão e servo de todas as criaturas.” É dessa forma que o frei José Alamiro Andrade Silva define São Francisco de Assis. Mas ele completa afirmando que há, porém, uma qualidade que nele é excepcional: “Francisco de Assis nunca quis imitar ninguém. Foi profundamente original. Por isso foi, é e sempre será um grande e jovial ‘idiota’, que provoca a admiração em cada nova geração que surge neste fantástico processo vital do planeta Terra”. Estas e outras declarações foram feitas em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.



Frei da Província de São Paulo dos Frades Menores, Alamiro sempre esteve à frente de questões sociais importantes, como as greves do ABC, contra a ditadura, e na defesa da ecologia. É padre da Arquidiocese de São Paulo. Confira e entrevista a seguir:

IHU On-Line - São Francisco idealizava uma igreja dos pobres e para os pobres. Como o senhor avalia a opção?
José Alamiro Andrade Silva -
Parafraseando o que a exegese diz do Cristo da Fé e do Cristo Histórico, vejo que também existe o Francisco Histórico (aquele que nasceu em Assis, na região da Úmbria, Itália, em 1182 e morreu em 1226) e o Francisco Mítico, que renasce em todos os tempos e em todos os lugares, reprojetado sempre de novo. Não creio que Francisco de Assis tenha idealizado uma Igreja dos pobres e para os pobres.

Ele, “un uomo di Dio” na sua busca de felicidade, sentiu o impulso de abraçar e beijar o leproso, que era o excluído do sistema social da época. Na sociedade medieval, os senhores feudais confrontavam-se com os servos da gleba, serviçais nos feudos. Maiores e Menores se polarizavam. Em meio a tudo isso, os “novos ricos”, os “emergentes” de então, e os “burgueses” se contrapunham a um grande número de rejeitados/as e excluídos/as entre eles os/as leprosos/as. A opção de Francisco foi clara: abraço ao leproso excluído e uma Ordem dos Frades Menores.

Bento XVI, no discurso de abertura do V Celam  denuncia a frustração provocada pela utopia capitalista e comunista e fala da necessidade de termos estruturas sociais justas no enfrentamento da injusta e desigual distribuição dos bens.

Seu antecessor, na Laborem Exercens , não fala apenas da primazia do Trabalho sobre o Capital, mas afirma ser o Trabalho o fulcro central de toda a crise social. Existem aqueles/as que já se perguntam sobre o que é o Trabalho em nosso contexto de uma sociedade do Ócio. Para a esmagadora maioria dos seres humanos, no entanto, o trabalho continua sendo o que sempre foi nos últimos séculos: estar agregado a alguma empresa e colocar suas forças e capacidades no processo de produção da riqueza. Recebe por isso uma remuneração chamada salário e abre mão de qualquer possessão sobre o fruto de sua produção. O preço do salário é determinado pelo jogo de força e poder na luta dos interesses. Que gestos concretos de Bento XVI e da Igreja que ele governa nos levam a afirmar que, como Francisco de Assis, estamos abraçando o leproso dos dias de hoje? Boa pergunta!
 
IHU On-Line - Para São Francisco de Assis, o verdadeiro franciscano é chamado a ser um “mundisensor”, aquele que sente o mundo e os seres que nele estão. Partindo dessa idéia, como o senhor avalia a atuação dos franciscanos na atualidade?
José Alamiro Andrade Silva -
É muito grande a diversidade de atuações e engajamentos entre os frades. Sinto, a meu ver, que na maioria estamos em lugares sociologicamente contrários à intuição de Francisco de Assis. O grande amor pelo Criador e suas Criaturas deveria nos levar para os lugares e para a companhia das criaturas mais sofridas e excluídas. O amor leva à identificação com a pessoa ou objeto amado; isso nem sempre acontece com a maioria de nós, franciscanos ou franciscanas. Há um número maior daqueles e daquelas que, embora não avancem no processo de identificação com o objeto amado, colocam-se de corpo e alma a serviço da construção de um novo mundo onde a exclusão perca espaço e haja lugar para todas as criaturas. São inúmeros os gestos e ações de solidariedade!

IHU On-Line - Como os ensinamentos de São Francisco de Assis nos ajudam a pensar um novo Brasil?
José Alamiro Andrade Silva -
Os ensinamentos de São Francisco de Assis ajudam de inúmeras formas a pensar um novo Brasil. Quando olhamos para a Fazenda da Esperança , animada por frei Hans , que mereceu a visita do Papa. Quando vemos o compromisso de frei Sérgio Goergen  e demais franciscanos/as do Rio Grande do Sul com o MST, Via Campesina e outros movimentos sociais. Quando vemos o esforço heróico de um frei David , criador e animador da Educafro (Curso de Educação e Cidadania para Carentes e Afrodescendentes). Quando vemos frei Sinivaldo Tavares  e toda sua Equipe criando um Mestrado Latu Sensu Interdisciplinar de Ecologia e Espiritualidade no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (www.franciscanos.org.br/ecologia). Quando vemos frei José Carlos Pedroso e uma plêiade de franciscanos capuchinhos no Centro de Espiritualidade de Piracicaba. Ainda que possamos ter ressalvas, quando vemos moços e moças vivendo e atuando na Toca de Assis . Quando vemos um Dom Frei Luiz Flávio Cappio  fazendo um jejum até a morte para defender o Rio São Francisco e seu povo ribeirinho. Quando vemos a irmã Delir Brunelli e uma multidão de freiras franciscanas defendendo os valores femininos do ser humano e recuperando a figura genial de Clara de Assis, ou se se comprometendo nas trincheiras da luta por Justiça, Paz e em defesa da Vida, percebemos que Francisco e Clara de Assis continuam presentes e atuantes na construção deste novo Brasil de “Paz e Bem!” “Senhor, fazei de nós um instrumento de vossa Paz!”.

IHU On-Line - Quais os maiores ensinamentos de São Francisco no que se refere à ecologia? De que maneira seus ensinamentos podem auxiliar a humanidade num momento em que vivemos uma crise ambiental?
José Alamiro Andrade Silva -
Francisco de Assis foi um homem medieval, marcado mais pelo ser do que pelo fazer. A Ecologia nasceu entre os biólogos alemães dos anos de 1860, profundamente marcados pela ideologia do ativismo industrial. Ainda hoje, os ecólogos estão muito preocupados com o que fazer para evitar a devastação das matas, preservar as espécies em extinção, brecar o maluco modelo de desenvolvimento que nos foi imposto pela ganância de uns poucos poderosos e pela esquizofrenia do poder de dominação.

A Ecologia como ciência, contudo, parece estar mais perto do homem medieval Francisco de Assis. Para ele, o pivô da questão está na relação que o ser humano tem com as criaturas. É uma questão de convivência e não apenas de interferência. Nada de querer possuí-las, mas manter sempre a amorosa relação de irmandade e respeito à sua alteridade. Respeitar a verdade da outra criatura. Expressão máxima desta atitude encontramos no “Cântico das Criaturas”: Louvado sejas, meu Senhor, pelo Irmão Sol... pela Irmã Lua e as Estrelas... pela Irmã Água...pelo Irmão Ar e o Vento...pela Irmã e Mãe Terra...Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Morte, da qual ninguém pode escapar.
 
IHU On-Line - Passados mais de 800 anos da morte de São Francisco de Assis, suas palavras de amor e bondade ainda mobilizam muitas pessoas. Qual foi o principal ensinamento que São Francisco deixou para a humanidade?
José Alamiro Andrade Silva -
Poderíamos dizer que Francisco de Assis nos deixou um ensinamento de perfeita amizade com Clara de Assis. Poderíamos dizer que é o santo da Paz. Poderíamos dizer que se identificou com os excluídos/as. Poderíamos dizer que vivenciou o fraternismo universal tornando-se irmão e servo de todas as criaturas. Poderíamos dizer que Francisco de Assis soube contestar e confrontar as instituições civis e religiosas de seu tempo de forma profundamente não-violenta, principalmente quando em 1219 organiza uma Cruzada de diálogo com o mundo muçulmano, aprendendo com eles uma forma nova de louvar ao Senhor Deus.

Há, porém, uma qualidade que nele é excepcional e é esta que quero realçar. Francisco de Assis nunca quis imitar ninguém. Foi profundamente original. Obedecia à voz de Deus que falava no íntimo de seu ser. Viveu com radicalidade o seu “self” ou “selbst” como dizem os alemães. É muito interessante como dizem os gregos: viveu com radicalidade o seu “idios”. Por isso, Francisco de Assis foi, é e sempre será um “grande e jovial idiota” que provoca admiração em cada nova geração  que surge neste fantástico processo vital do planeta Terra.

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