Edição 235 | 10 Setembro 2007

Lévinas: justiça à sua filosofia e a relação com Heidegger, Husserl e Derrida

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IHU Online

Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas, do professor Rafael Haddock-Lobo, lançado recentemente, foi escrito com o intuito de homenagear o filósofo lituano que, em 2006, completaria cem anos. Lobo apresenta, neste livro, um Lévinas voltado para as questões da Filosofia, algo novo no Brasil, pois grande parte das obras dele publicadas aqui estão focadas na Teologia. “Dever-se-ia, para Lévinas, pensar o direito do outro homem e não mais o direito do homem. Isso é fantástico, bem como o belíssimo papel que Lévinas concede à mulher como figura fundamental para a ética”, relata Lobo em entrevista, realizada por e-mail, à IHU On-Line. Na conversa que segue, Lobo fala da relação entre Lévinas, Heidegger e Husserl e, ainda, da influência de Lévinas sobre a obra de Derrida. Confira a entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU ( www.unisinos.br/ihu), em 31-08-2007.

Rafael Haddock-Lobo é graduado em Filosofia, pela UFRJ, e em Letras, pela Universidade Salgado de Oliveira. Seu mestrado em filosofia foi realizado na PUC-Rio e teve como tema Da existência ao infinito: a redução ética no pensamento de Emmanuel Lévinas. No doutorado, também pela PUC-Rio, elaborou a tese Por um pensamento úmido - A Filosofia a partir de Jacques Derrida. É pós-doutor em Filosofia, pela USP. Atualmente, é professor da USP, da Casa do Saber e da PUC-Rio. É também autor de Derrida e o labirinto de inscrições (Porto Alegre: EdiPUCRS, 2007). Na edição 187 da IHU On-Line, de 03-07-2006, Haddock-Lobo concedeu-nos a entrevista A desconstrução em Heidegger, Lévinas e Derrida.

IHU On-Line - Do rompimento com Heidegger ao isolamento provocado pelo campo de trabalho nazista, como podemos analisar o outro Lévinas, ou seja, a sua filosofia antes e depois desses momentos que marcaram sua vida?
Rafael Haddock-Lobo -
Lévinas  tem, ao menos, dois grandes méritos no que diz respeito ao panorama do pensamento francês contemporâneo: o primeiro é ter sido o grande responsável pela entrada dos pensamentos de Husserl  e Heidegger na França. Por isso, até hoje, Lévinas ainda é bastante respeitado como um grande comentador dos mestres alemães. O que acontece é que, após sua experiência pessoal com o absurdo do nazismo, ele começa a pôr em questão certa periculosidade do pensamento, o que ele chamaria de uma conivência da razão com o mal. A partir de então, pode-se ver o pensamento levinasiano voltado mais radicalmente às questões éticas.

Mas não uma ética baseada em códigos morais - pois isso ainda é uma ética fundamentada na mesma razão que se cega ao outro, quando é conivente com o mal -, e sim uma que pensa justamente a “relação com o outro”, ao trazer para a filosofia questões que, antes, não eram consideradas “dignas de serem pensadas”, como a fome, por exemplo. Mas isso não em nome apenas destes outros “próximos”, mas também para se fazer justiça ao princípio de alteridade, que faz com que todo outro seja totalmente outro. Um grande exemplo disso pode ser encontrado em um grande marco de seu pensamento, que é Da existência ao existente.

IHU On-Line - A obra de Lévinas, segundo Derrida, ficou restrita ao campo teológico. Por que é tão importante resgatar a filosofia de Lévinas?
Rafael Haddock-Lobo –
Derrida  aponta certa ausência de referências a Lévinas em textos filosóficos célebres que tratam da ética ou mesmo de pensamentos da diferença. Sempre me pergunto como filósofos como Deleuze  e Foucault  podem não fazer nenhuma menção a Lévinas. Nesse sentido, Derrida foi certamente o primeiro filósofo a dar o devido destaque ao pensamento levinasiano, e isso já em 1964, quando, em um texto chamado “Violência e metafísica”, Derrida coloca o filósofo lituano ao lado de Husserl e Heidegger. De minha parte, eu acredito realmente na importância de se destacar os aspectos estritamente filosóficos do pensamento de Lévinas. É isso que em meu livro Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas eu tento fazer: apresentar alguns traços importantes que Lévinas traz à filosofia, como a crítica à ontologia, a recontextualização do humanismo, o problema da morte, do amor e da justiça, entre outros. E esses aspectos certamente caracterizam Lévinas como um filósofo que traz algo novo para a experiência de pensamento e, arriscaria eu dizer, que nunca fora devidamente pensado: a alteridade mesma.

IHU On-Line - Lévinas percebeu o quanto o pensamento de Heidegger, e não apenas o ser humano Heidegger, podia ser perigoso, pois foi conivente com a expulsão dos professores judeus da Universidade de Freiburg. O pensamento de Lévinas é uma resposta à filosofia de Heidegger?
Rafael Haddock-Lobo -
Certamente que sim. Creio que, por ser a grande referência nos textos levinasianos, Heidegger é sempre uma inspiração para Lévinas, seja de modo positivo, seja de modo negativo. Lévinas sempre soube o quão devedor de Heidegger ele e toda a filosofia contemporânea são. A crítica ao sujeito, à filosofia subjetiva, que Heidegger empreende, é fundamental para o pensamento levinasiano. E, com sua decepção com o “ser humano” de Heidegger, Lévinas dedica-se a pensar a própria filosofia ocidental como um problema. É nesse sentido que podemos ver uma constante referência crítica a Heidegger, mesmo que de modo implícito: ao abraçar o existente, ao invés da existência; a ética em detrimento da ontologia; ao ver o Outro em vez de o Ser etc.

IHU On-Line - Você afirma que Lévinas ficou muito preso ao humanismo. Como vê a maneira com que Lévinas pensou sobre a relação do homem com outro homem, com a mulher e com o filho? Quais são as suas observações sobre as teorias de Lévinas?
Rafael Haddock-Lobo -
Nessa sua tentativa de insistir no perigo que a cegueira do pensamento ocidental vem cristalizando desde a Grécia até Heidegger, Lévinas - ainda que absorva as críticas que Heidegger faz ao Humanismo, que seria sempre metafísico - tenta repensar o modelo humanista, sempre voltado ao Homem, mas agora segundo o chamado do Outro Homem. Isso, certamente, é um rumo bem interessante que se dá ao humanismo, mas ainda é excessivamente humanista. Como entender isso? Lévinas critica, por exemplo, o estatuto dos direitos humanos, no sentido de que esse é sempre uma instituição feita pelo “mesmo” (isto é, o homem ocidental, do sexo masculino, branco, do hemisfério norte, heterossexual etc.) em favor do “outro”. O que significa que o modelo de pensamento ainda é o mesmo.

Dever-se-ia, para Lévinas, pensar o direito do outro homem e não mais o direito do homem. Isso é fantástico, bem como o belíssimo papel que Lévinas concede à mulher como figura fundamental para a ética, por se tratar do elemento acolhedor por excelência e, por isso, a abertura ao outro. Com isso, Lévinas traz a figura do filho como aprendizado ético por excelência. Ele traz o imperativo do desinteresse da bondade e do amor.

Todas essas imagens que Lévinas traz são importantíssimas para o pensamento, mas ainda deixam a desejar porque se prendem exclusivamente ao homem como alteridade: a figura do “rosto do outro”. Para ele, o chamado ético é sempre um rosto humano, bem como a própria ética, estampada no "face-a-face". Penso, por exemplo, no lugar dos animais, ou mesmo dos vegetais e minerais (se pensarmos aqui no meio ambiente: nas florestas, na água etc.). Esses outros “outros” também representam, a meu ver, um “rosto”, no sentido de um chamado ético à responsabilidade. Lévinas, em seu tempo, teve uma tarefa muito dura para trazer o outro homem para o pensamento, o existente à filosofia, mas creio ser nossa tarefa radicalizar essa tarefa e pensarmos em todas as possibilidades de alteridade, inclusive nas impensáveis...

IHU On-Line - O senhor pode nos explicar melhor o que chama, a partir do pensamento de Lévinas, de "redução ética"?
Rafael Haddock-Lobo -
O termo “redução”, de papel central no pensamento de Husserl, pode ser visto como a atitude típica da fenomenologia: isto é, a suspensão (épochê) ou, como ficou mais conhecida, a colocação entre parênteses. No caso de Heidegger, a “redução eidética” buscava apontar a necessidade de olharmos exclusivamente aos fenômenos, ou, como dizia Heidegger, às “coisas mesmas”. Seguindo essa linha, podemos pensar como Heidegger, como fenomenólogo, empreenderia uma “redução ontológica”, isto é, uma colocação entre parênteses de todo aspecto ôntico (o que quer dizer dos entes) para se pensar radicalmente o “Ser”. Minha tentativa em Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas foi pensar Lévinas como um terceiro momento da fenomenologia: assim, ele empreenderia uma “redução ética”, a suspensão de todo elemento ontológico do pensamento, a fim de que se olhe fundamentalmente o “outro”.

IHU On-Line - Como, no livro, o senhor relaciona as linhas de pensamento e os textos de Heidegger, Lévinas e Derrida?
Rafael Haddock-Lobo -
  Derrida acabou, ao longo da escrita, ocupando um lugar importante, ao lado dos dois nomes que deveriam ocupar os dois “pólos” da fenomenologia que eu pretendia analisar: de um lado, a ontologia de Heidegger e, de outro, a ética levinasiana. No entanto, posso dizer que fui, desde o início, motivado pela leitura de “Violência e metafísica”, de Derrida e, ao longo da escrita, de textos como “Adeus a Lévinas”, “A palavra de acolhimento” e outros como “Força de Lei” e “Da hospitalidade”. A leitura de Derrida pretende seguir o movimento que eu acreditava necessário - e mesmo justo - ao pensamento de Lévinas: ele, em seus termos, dissemina o outro levinasiano, estendendo-o a todo e qualquer outro. Acabei me identificando muito com as leituras de Derrida, e até hoje ainda arriscaria a dizer que acredito que elas sejam mais justas com o próprio Lévinas do que as empreendidas pelos especialistas em Lévinas, pois elas dedicam-se a dar continuidade ao movimento inaugurado por Lévinas. Assim, ao tentar compreender e analisar a quiasmática relação entre Heidegger e Lévinas, acabava pensando numa terceira margem, apontada pela desconstrução de Derrida.

IHU On-Line - O pensamento de Nietzsche influenciou de que maneira o pensamento de Lévinas?
Rafael Haddock-Lobo -
São dois pensamentos extremamente radicais, cada um a seu modo e com seu objetivo. Em certos aspectos, como no que diz respeito ao outro, Lévinas é certamente muito mais radical que Nietzsche. Em outro, como podemos pensar quando se trata da arte, Nietzsche dispara à frente. São tradições e experiências de pensamento bem distintas, mas que podem ser pensadas lado a lado sim: penso, para tentar algumas aproximações aqui, no modo de escrita de ambos os filósofos, enigmáticas, não lineares, imagéticas... Ou seja, há uma crítica à escrita filosófica em ambos os autores. Além disso, posso ver claramente Lévinas como um herdeiro - ainda que via Heidegger - das críticas que Nietzsche dedica ao humanismo. Outro aspecto interessante a se pensar é na figura do feminino em ambos os autores e, ainda, no encontro entre ética e estética que ambos possibilitam pensar.

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