“A população fragilizada está em busca de cuidado”

De acordo com Madel Luz, “a saúde tornou-se um pólo atrator dos problemas sociais gerados pela estrutura capitalista atual”.  E o campo da Saúde Coletiva, afirma a pesquisadora, “é o núcleo central de equação desses problemas”. Cuidar da saúde, explica a professora, é muito mais do que cuidar do corpo e tratar doenças. Na entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, ela enfatiza que o desafio para a saúde “é procurar vencer o isolamento social através de novas formas de sociabilidade e valores alternativos aos dominantes na sociedade da competição e do individualismo”.

Por: IHU Online

Antiga militante da causa da Saúde Coletiva e das racionalidades médicas alternativas, Madel Luz possui graduação em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado em Sociologia, pela Universite Catholique de Louvain, e doutorado em Ciência Política, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, vice-presidente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, assessora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da CAPES e da FAPERJ. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em ciências sociais e saúde, atuando, principalmente, nos seguintes temas: práticas de saúde, sistemas médicos complexos, cultura e saúde e ciência e cultura.

IHU On-Line - Como caracterizar o campo da Saúde Coletiva no processo de construção inovadora de um saber multidisciplinar, interdisciplinar e transdiciplinar?
Madel Luz –
A saúde tornou-se um pólo atrator dos problemas sociais gerados pela estrutura capitalista atual, e o campo da Saúde Coletiva é o núcleo central de equação desses problemas. Como estamos falando de um campo, e não de uma disciplina, há várias disciplinas implicadas, eu diria mesmo vários campos disciplinares implicados na dinâmica dele. Por isto, ele não pode funcionar segundo a lógica de uma disciplina única ou de um campo mono ou pluri disciplinar. Ele necessita incluir a lógica disciplinar das disciplinas do campo biomédico, das ciências humanas e da política, no seu sentido teórico e aplicado e a partir daí considerar a intervenção política, muitas vezes intersetorial. Esta interdisciplinaridade (e intersetorialidade), necessária ao funcionamento do campo, supõe um paradigma novo de produção de conhecimento, que designei em meus trabalhos de transdisciplinar, na medida em que o olhar epistemológico se desloca de um “objeto” pré-construído para um tema estratégico na área da saúde (como violência, sexualidade, Aids, por exemplo) e que a construção do(s) objeto(s) de pesquisa é induzido por vários olhares disciplinares, visando à equação e resolução do tema/problema estratégico.

IHU On-Line - É correto afirmar que nos últimos 25 anos aumentou o custo social da saúde para os indivíduos, a família, o Estado e a sociedade civil? Que razões podem ser atribuídas a isso?
Madel Luz –
É correto sim, pois todos os estudos demográficos, ou da área de saúde, ou acadêmicos, evidenciam este aumento de custo para indivíduos, famílias, Estado, sociedade civil (através dos impostos). Há várias razões sociais, ou, se preferirmos, uma linguagem do campo da Saúde Pública, “determinantes sociais” para este aumento, dos quais mencionaremos os principais: 1) envelhecimento da população, supondo novos e crescentes gastos com saúde por todos (uma vez que não se envelhece com saúde em nossa sociedade); 2) tecnificação constante da biomedicina e da atenção médica, implicando em grandes custos na atenção médica devido à alta tecnologia implicada nesta atenção; 3) a famosa “indústria da saúde”, expressa na propaganda indutiva pela mídia de gastos em saúde como consumo, o que eleva astronomicamente tais gastos; 4) uma cultura “da saúde”, que identifica bem-estar e consumo de medicina, isto é, não apenas produtos farmacotécnicos, como medicamentos, mas exames, procedimentos de todos os tipos, de diagnose e de intervenção terapêutica.

IHU On-Line - Você tem defendido em artigos que muitos dos atendimentos em ambulatórios da rede pública das metrópoles brasileiras traduzem queixas que se relacionam a uma "síndrome do isolamento e pobreza". Como você explica esse fato?
Madel Luz –
Este não é um fato a ser explicado, e sim interpretado, em termos de ciências sociais. O regime social do trabalho vigente, a meu ver, e a exclusão de parcelas crescentes de indivíduos e grupos da população do emprego (além dos desempregados, há agora os “sem- emprego”, que não conseguem entrar no sistema, ou entram muito tardiamente, caso dos jovens) geram uma situação social de sofrimento, isolamento e pobreza, que são a expressão mesma do capitalismo mundial contemporâneo.

IHU On-Line - O que significa "cuidar da saúde" neste momento particular de vulnerabilidade, insegurança e instabilidade que vive a América Latina?
Madel Luz –
Isto tem variado de acordo com o pertencimento de classe, de cultura etc., mas basicamente supõe tanto cuidar do corpo, evitar ou tratar as doenças, preventiva ou curativamente, quanto procurar vencer o isolamento social através de novas formas de sociabilidade e valores alternativos aos dominantes na sociedade da competição e do individualismo.

IHU On-Line - Como situar a sede de terapias alternativas neste momento particular de “crise sanitária” e de busca de cuidado?
Madel Luz –
As terapias alternativas, em primeiro lugar, “tratam” as pessoas. A biomedicina combate doenças. A população fragilizada está em busca de cuidado (preferencialmente individual, em que o corpo pode ser tocado), seja preventivo, seja curativo. As terapias alternativas oferecem cuidado, e prometem melhoria da situação de adoecimento, o que já não é o caso da medicina convencional, concentrada no estabelecimento da diagnose correta de patologias dos pacientes e na contenção de sintomas.

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