Filme A Fraude para compreender o capitalismo financeirizado

O professor Francisco Antônio Mesquita Zanini, da Unisinos, conduzirá a próxima edição do Ciclo de Cinema e Debate em Economia - O Capitalismo Visto pelo Cinema, no sábado, dia 25-08-2007, das 08h45 às 11h45, na Sala 1G119, quando será exibido o filme A fraude, que motivará um debate sobre o capitalismo financeirizado. E, para adiantar o assunto aos leitores e leitoras da IHU On-Line, o professor Zanini concedeu a entrevista que segue, por e-mail.

Por: IHU Online



Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Maria, Francisco Zanini possui especialização em Administração Financeira pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e mestrado em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É doutorando em Contabilidade pela Universidad Autónoma de Madrid. Tem experiência na área de Administração, tendo trabalhado no sistema financeiro por quinze anos. Confira a entrevista:

Ficha Técnica
Título Original: Rogue Treader
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 101 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1998
Direção: James Dearden
Roteiro: James Dearden, baseado em livro de Nicholas Leeso e Edward Whitley
Produção: Janette Day, James Dearden e Paul Raphael
Música: Richard Hartley
Fotografia: Jean-François Robin
Direção de Arte: Paul Ghirardani e Christina Moore
Edição: Catherine Creed

Sinopse
Um ambicioso escriturário que trabalha em um banco recebe a oportunidade de cuidar de negócios na Singapura. Lá ele apresenta resultados excelentes no aspecto financeiro, escondendo as perdas em uma conta aberta para este fim.

IHU On-Line - Em que sentido o filme A fraude ajuda a entender a lógica do capitalismo financeirizado?
Francisco Zanini -
Penso que o filme ajuda muito no entendimento do capitalismo. Ele mostra as diversas interconexões e a interdependência das finanças em nível global. Um funcionário de um banco inglês, opera a partir de Cingapura, com derivativos tendo como ativo-base o índice da Bolsa japonesa, o índice Nikkei .

IHU On-Line - Como podemos definir/caracterizar o capitalismo financeirizado? Onde entra, nele, marca do neoliberalismo?
Francisco Zanini -
Começando pelo fim: sim, entra, sem nenhuma dúvida, a marca do neoliberalismo. O neoliberalismo prega a maior liberdade possível aos mercados, e o estado mínimo. É um pouco difícil definir capitalismo financeirizado, mas penso que ele deva ser entendido como um sistema que permite, a partir de ativos reais, a criação e a propagação de diversos mecanismos financeiros, negociados em escala global, situação facilitada pelo extraordinário avanço das comunicações, hoje praticamente instantânea, e também gerada a partir do crescimento do intercâmbio comercial entre os países. Esse processo de comunicação quase instantânea, de avanço dos transportes e do comércio mundial, de uma certa forma ‘encolheu’ o mundo. É a tal ‘Aldeia Global’ .
 
IHU On-Line - Em que medida as atitudes do personagem Nick Leeson mostram a relação entre o ser humano e a louca corrida pelo dinheiro proposta pelo capitalismo?
Francisco Zanini -
Em toda medida. Nick Leeson foi um aluno pobre em matemática, mas era ambicioso. Além disto, era jovem, portanto, com pouca experiência, mas tinha nas mãos, por absoluta falta de controle do próprio banco onde trabalhava, e também dos órgãos reguladores do sistema financeiro, um poder muito maior do que a pouca experiência lhe autorizava. Ele, praticamente sozinho, quebrou um banco com quase 250 anos de história. Veja, ele fazia operações para o Banco, não para si próprio. Mas operações lucrativas para o banco significariam, além do salário, polpudas gratificações, além de prestígio. Em resumo: dinheiro, prestígio e poder.

IHU On-Line - O filme e o debate do evento no dia 25 podem ajudar a entender a influência do mercado de ações e da bolsa de valores para o mercado financeiro mundial? Em que sentido?
Francisco Zanini -
Sim, o filme pode ajudar bastante, pois mostra a interconexão entre os mercados. Veja que no mercado financeiro uma coisa fundamental é a fidúcia (muitos já devem ter ouvido falar que tal banco “é o agente fiduciário de tal título”). Bem, fidúcia é confiança. Com a interligação entre os mercados, a falta de confiança em um ponto desta cadeia desata um nó, que, só depois de desatado, vai mostrar a todos as interconexões deste nó com os demais. Então, o filme e o debate são muito oportunos, especialmente nestes dias em que o mercado financeiro global passa por outro período de turbulência. Note que a turbulência atual foi gerada a partir do desatamento de um destes nós, o mercado de hipotecas de alto risco nos Estados Unidos. Alguns fundos que têm estes títulos em sua composição na prática estão quebrados. E veja que o problema está não num eventual prejuízo que um ou outro investidor individual tenha, mas que muitos dos detentores destes títulos são bancos, que necessitam cobrir sua posição com a captação de recursos. No entanto, os outros agentes do mercado, que normalmente emprestariam para estes bancos, têm medo, e a corrente se quebra, necessitando do apoio das autoridades monetárias de diversos países (bancos centrais). Isto tudo mostra que o mercado, sozinho, não dá conta de resolver todos os problemas. Aliás, sim, daria conta, mas com um custo política e socialmente inaceitáveis, daí a ação dos Bancos Centrais para oferecer liquidez a estes agentes.
 
IHU On-Line – Quais são as conseqüências da adoção do capitalismo financeirizado por um governo com o Brasil? Há alguma alternativa?
Francisco Zanini -
Eu entendo que os últimos governos brasileiros têm adotado apenas algumas das posições defendidas pelo neoliberalismo. Em muitas áreas, o neoliberalismo ainda não chegou, mas é mister que chegue. Em outras áreas, entendo que não é necessário chegar. Para exemplificar: o nível de impostos no Brasil é muito elevado. Uma diminuição da carga tributária elevaria o nível de crescimento econômico, beneficiando toda a população. E isto é possível, porque o governo arrecada muito e gasta mal. Se gastar bem, muito menor volume de impostos dá conta do recado, com melhores serviços e benefícios para a população.

De outro lado, a reforma trabalhista é mesmo necessária? Em certo nível penso que sim, mas não se pode tirar muitos direitos dos trabalhadores, pois eles são a ponta mais fraca numa negociação. Muita gente defende o aumento da competitividade do país com uma diminuição dos custos trabalhistas, pois em muitos países este custo é muito menor. Mas eu perguntaria: será que o sistema mais justo para a relação capital/trabalho é aquele, por exemplo, dos tigres asiáticos, em que o trabalhador não tem nenhuma proteção? Será que nós devemos mudar para ficarmos mais parecidos com eles e mais competitivos, ou eles é que devem mudar, melhorando a proteção ao trabalhador, como a que existe na maior parte dos países europeus?

Se todos os países melhoram a condição do trabalho, tornando-o social e humanamente mais justo, este não será um ponto que diferencie a competitividade; serão outros pontos.
Você perguntava se há alternativa. Bem, eu, como visto, não defendo a adoção de um modelo neoliberal em termos absolutos, mas entendo que não há saída fora do capitalismo para o atual estágio de desenvolvimento do ser humano. Um sistema socialista não funcionou em nenhum lugar. Por que é conceitualmente condenável? Não, porque o homem não está preparado para ele. Talvez daqui a muitas e muitas gerações.

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