Edição 225 | 25 Junho 2007

Corpo como mercadoria. O céu de Suely

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IHU Online

“A história de Hermila/Suely retrata a desigualdade, a falta de perspectiva, o desemprego, o desespero dos despossuídos que se valem de qualquer coisa, inclusive de si mesmos, na busca de uma saída”, afirma a professora Stela Meneghel em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, comentando o filme O céu de Suely, de Karim Aïnouz.

O filme será exibida no próximo dia 25-06-2007, no IHU, em parceria com o projeto Cinema BR em Movimento. O debate posterior será conduzido pela professora Stela, que integra o PPG em Saúde Coletiva da Unisinos. 

IHU On-Line - De que maneira O Céu de Suely ajuda a contar a saga dos retirantes que acabam tendo que voltar ao local de origem?
Stela Meneghel -
O filme, segundo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz, conta a história de Hermila, uma jovem nordestina, que após fugir de casa com o namorado, rumo ao sul maravilha, volta à cidade natal com o filho Mateus. Os planos são esperar o namorado e montar um negócio de CDs e filmes pirata. A cidade é Iguatu, a 400 quilômetros de Fortaleza, onde ela reencontra a família. Certamente, o diretor aborda o tema da volta ao local de origem e Iguatu poderia ser qualquer cidade interiorana brasileira, com uma pirâmide populacional onde predominam as mulheres, já que os homens migraram em busca de trabalho e melhores condições de vida, e restam apenas as mulheres, as crianças e os velhos. A família de Hermila é típica desta nova estrutura de famílias monoparentais, chefiadas por mulheres, mas também é assim a família do namorado, da qual só aparece a sogra, interpretada pela atriz Marcela Cartaxo, que também vive sozinha. Karim faz um filme em que os personagens principais são mulheres, e os homens são figuras secundárias, quase sombras. O único homem que faz um papel mais incisivo é João, antigo namorado de Hermila. “João, que poderia ser uma solução”, não oferece nada de novo à Hermila, apenas a repetição do velho esquema machista e tradicional.
 
IHU On-Line - Qual é a principal riqueza do filme? O que motiva Hermila a reinventar a sua vida? 
Stela Meneghel -
Acho que, ao centrar o filme nas personagens femininas, Karim busca trazer um aporte novo, ou as estratégias de resistência que as mulheres inventam para sobreviver. Mostra mulheres que dão duro em trabalhos precários, como é o caso de 50% da população brasileira. A tia é motorista de moto-táxi, a amiga é prostituta, a avó sai para trabalhar (faxina?), Hermila vende rifa. Elas ocupam os espaços dos ambulantes, dos camelôs, nas feiras onde se vende roupa, comida, cd pirata, prato feito, perfume barato. Em Iguatu, todos se viram. Nos mercados, nos botecos, nos bailões, no forró, na prostituição, na droga, o limite entre o lícito e o ilícito é muito sutil. Tudo é falso e autêntico. Tudo é comércio e pirataria e termina “assimilado sincreticamente na antropofagia nordestina”, diz o próprio Karim. Hermila vende rifa de uísque enquanto espera o namorado. Ao se dar conta de que ele não virá e no estranhamento com a Iguatu, agora sem perspectivas, Hermila decide rifar-se para poder comprar a passagem de volta. Agora é Suely, que promete uma noite no paraíso. Naturalmente. Ora, o corpo da mulher não é uma das mercadorias mais usadas nas relações de troca capitalistas? Por meio dele, não se vende margarina, felicidade, álcool, bugigangas, ilusões? Portanto, quando Hermila rifa a si mesma, atende aos ditames de sua época - de que seu corpo pode se transformar em mercadoria. A história de Hermila/Suely retrata a desigualdade, a falta de perspectiva, o desemprego, o desespero dos despossuídos que se valem de qualquer coisa, inclusive de si mesmos, na busca de uma saída. Não traz soluções nem admoestações morais, mas faz com que cada um de nós, por meio da identificação com estes personagens, consiga perceber a realidade em que vivemos, ou seja, o quanto as desigualdades de classe social e de gênero estão presentes nas Iguatus de todo o Brasil.

IHU On-Line – Qual é o motivo de escolher uma retirante mulher? A figura feminina tem mais facilidade de reconstruir a vida, sem amargura, e com mais alegria do que os homens?  
Stela Meneghel –
Como coloquei anteriormente, acredito que Karim fez um filme sobre mulheres para enfatizar as estratégias de resistência que elas inventam no cotidiano. Há um texto de uma feminista afro-americana que diz da visão dual que as mulheres têm, assim como os oprimidos, que possuem uma característica de aproveitar tudo, de não desprezar nada, nem as sobras, nem as sucatas, nem os restos. Este aspecto aparece na culinária, quando as mulheres pobres, as mulheres negras, usavam (usam) alimentos ou partes de alimentos consideradas pouco nobres, obtendo resultados fantásticos. No site oficial do filme, há uma carta do roteirista que fala dessa mistura surpreendente que é a comida nordestina, com muita coisa moída e não identificada (certamente o mais barato) e disfarçada com molhos, condimentos, cores, odores. Não sei se as mulheres enfrentam a vida com mais alegria que os homens. Há homens e mulheres alegres e tristes. Mas os homens estão na posição dominante há séculos, e pode ser mais difícil para eles dar a volta por cima. Estudos têm observado que muitos homens, frente à precariedade do trabalho e ao desemprego, abandonam mulheres e filhos, sobrecarregando-as ainda mais. Na realidade, é o que faz Mateus no filme, com a aprovação da mãe: “Meu filho só tem 20 anos”.
 
IHU On-Line - Por que ela continua com o sonho de ir embora? Como é o coração de Hermila?
Stela Meneghel -
Bem, Iguatu é a cidadezinha natal. As mulheres da família acolhem Hermila, oferecendo o que têm de melhor (a velha hospitalidade nordestina). Ela encontra um amigo e inicia uma outra relação amorosa. As pessoas dançam e se divertem em bares, forrós, na rua. Música, cores, alegria, festa. Parece que teremos um final feliz, mas... Acho que o diretor quis mostrar que este idílico lugar natal não existe. Ali não há trabalho e nem perspectivas de uma vida digna. Por trás da aparência alegre, despojada, informal, as pessoas mostram-se conservadoras e moralistas. As mulheres, a princípio, acolhedoras e afetuosas viram umas feras, ao saberem que Hermila estava “se rifando” e colocando em risco a fidelidade de “seus homens”.

Este é o dilema do retorno do migrante. Ele já não é mesmo e o local de origem já não lhe basta, deixando-o em um “não-lugar”. Transforma-se num estrangeiro em local de exílio e estrangeiro em sua própria terra. Achei muito interessante a saída que Karim encontrou para esse impasse: Hermila não fica em Iguatu, mas também não volta para São Paulo: ela vai de ônibus, sob o céu de Suely, procurar algum lugar, o seu lugar.

IHU On-Line - Qual é a importância de exibir essas obras em um ambiente acadêmico/ universitário?
Stela Meneghel -
Acredito que a linguagem cinematográfica traz uma riqueza muito grande ao debate acadêmico. Os filmes são um recurso excelente ao ensino, ajudando a problematizar os mais diversos temas e a trazer novas luzes para questões controversas e polêmicas. O projeto Cinema BR em Movimento disponibiliza para a Universidade uma seleção de filmes brasileiros focados em temas atuais, complexos e, de uma certa maneira, universais. Desta maneira, reconhece a “cultura e o audiovisual nacional, como dispositivos para a educação e a transformação social, estimulando o fortalecimento de imaginários, subjetividades e identidades brasileiras”.

 

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