Edição 225 | 25 Junho 2007

“Numa sociedade capitalista, sempre haverá competição”

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IHU Online

“Não há alternativas fáceis e capazes de serem instaladas no curto prazo de tempo”, afirma o professor e cientista social Sérgio Schneider, referindo-se à atual crise do setor calçadista, que se acentua, nos últimos dois anos, na região do Vale do Sinos. Schneider explica que a região levou 30 anos para se industrializar e que, agora, não há como “mudar o rumo, a estrutura social e produtiva e, sobretudo, as mentalidades e perspectivas das pessoas em pouco tempo”, porque, a geração do Vale é formada por “pais e filhos de uma mesma família, que só aprenderam a fazer sapato”. 



Mesmo com o agravamento da crise, ele acredita que não “haverá tão cedo outro setor que possa substituir o calçado na região”. E dispara: “a questão é produzir um processo de mudança geral de dentro para fora, que começa no chão de fábrica e se estende até o poder público local”. No entanto, numa era globalizada e interdependente, acrescenta Schneider, “não dá para descontextualizar a crise e considerar que a resolução do problema é de foro doméstico, ou seja, em nível nacional”. As declarações foram dadas em entrevista exclusiva, por e-mail, à IHU On-Line.

Sérgio Schneider é professor do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, ele está na Inglaterra participando de um programa de pós-doutorado. Sobre os produtos nacionais no País, ele comenta que em Londres não se encontram sapatos brasileiros nas lojas. “Tudo é ‘made in China’. E não é apenas calçado, mas roupas em geral: tudo é fabricado na China”. Graduado em Ciências Sociais pela UFRGS, Schneider cursou mestrado e doutorado em Sociologia. O mestrado foi feito na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a dissertação Os colonos da indústria calçadista: expansão industrial e as transformações da agricultura familiar no Rio Grande do Sul, e o doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a tese Agricultura familiar e pluriatividade. Schneider é pós-doutor pela Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha. É autor de Agricultura familiar e industrialização. Pluriatividade e descentralização industrial no Rio Grande do Sul (Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1999); A pluriatividade na agricultura familiar (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003); e A diversidade da agricultura familiar (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006). Eis a entrevista.

IHU On-Line - Por que, na região do Vale do Sinos, o setor calçadista cresce e decresce com tanta instabilidade, nos últimos anos? Esse não é mais considerado um setor dinâmico na região? 
Sérgio Schneider -
Na verdade, a instabilidade do setor calçadista e da região do Vale do Sinos começou por volta de 1994-95, quando teve início a política cambial macroeconômica de equiparação do real ao dólar, o que produziu uma apreciação do valor da nossa moeda frente ao dólar e, como conseqüência, perda da capacidade de competição nos mercados internacionais. Antes deste período, tomando como marco o ano de 1970, não havia instabilidade, mas crescimento. Aliás, o Vale do Sinos foi uma das únicas regiões que registrou crescimento econômico dinâmico durante os anos da década de 1980, chamada pelos analistas de “década perdida”, devido à estagnação e à instabilidade daquele período. Desta época para cá, as subidas e descidas sucederam-se, sempre ao sabor das mudanças macroeconômicas. Os especialistas em comércio mundial estão alertando a tempo para o fato de que o calçado é uma mercadoria que depende muito do fator mão-de-obra intensiva. Infelizmente, nestes últimos dez anos, a indústria de calçados mundial foi para regiões onde o preço da mão-de-obra era menor do que na região do Vale do Sinos. Esta é uma tendência inexorável. E não dá para entrar nesta de que o operariado do calçado da região do Vale do Sinos é que está ganhando bem e que, por isso, as empresas estão indo embora. O que ocorre é uma concorrência predatória em termos globais, que em alguns casos, como no do Brasil, é acirrada pela guerra fiscal entre Estados, o que ocasionou o deslocamento de muitas empresas para a região Nordeste do País. Este é um jogo de "soma-zero", em que ninguém sai ganhando: nem trabalhadores, nem empresários locais, nem os governos e, tampouco, a sociedade. Este é um dos aspectos negativos que a globalização pode acarretar, embora haja outros positivos.
   
IHU On-Line - Os moradores do Vale do Sinos estão aterrorizados com a crise e as demissões em massa no setor calçadista. Essa reação ocorre, entre outros motivos, por que não há outro setor industrial competitivo o suficiente para dar suporte a este que está em crise, na região? 
Sérgio Schneider -
De fato, a situação é crítica e, em alguns casos, desesperadora. Ocorre que não há alternativas fáceis e capazes de serem instaladas no curto prazo de tempo. Trata-se de um processo social, como foi o processo de industrialização e desenvolvimento da região como um todo, que levou 30 anos. Não dá para mudar o rumo, a estrutura social e produtiva e, sobretudo, as mentalidades e perspectivas das pessoas em pouco tempo. Há uma geração inteira no Vale do Sinos, pais e filhos de uma mesma família, que só aprenderam a fazer sapato. Mas eles estão preparados e habilitados para produzir sapato no esquema taylorista-fordista, que consiste na desagregação do calçado em diversas partes, as mais simples e rotineiras possíveis, e sua produção em série, no sistema de cadeia montagem. Este sistema de produção não traz, como resultado, a formação de uma mão-de-obra com capacidade de inovação e resposta rápida às demandas cada vez mais flexíveis. Para agravar ainda mais, há que se considerar as mudanças pelo lado da demanda, pois o consumidor é cada vez mais volátil e, por conseqüência, as encomendas e pedidos de novos produtos são muito flexíveis. 

Mas eu creio que não há agora, e nem haverá tão cedo, outro setor que possa substituir o calçado na região. Se esta hipótese for verdadeira, no prazo imediato, o que há para ser feito consiste em apostar num processo de reconversão, mas uma reconversão multidimensional, que deve envolver desde o retreinamento da força de trabalho, do setor de inovação e desenvolvimento, da gestão e administração, do marketing e do comércio, assim como, de uma maneira geral, da cultura e da psicologia social.

Aí está um grande desafio. A questão é, me parece, produzir um processo de mudança geral de dentro para fora, que começa no chão de fábrica e se estende até o poder público local. Aliás, o Estado, em seus diferentes níveis e instâncias, parece não saber o que fazer para ajudar os trabalhadores e empresários do setor calçadista. Raras são as propostas concretas que vão além das manifestações de solidariedade com a crise, ou da pura e simples pressão política nas esferas estadual e federal. Eu acho que existem coisas simples que poderiam ser feitas tal como na educação, apostando no treinamento da força de trabalho. É o caso, por exemplo, da chamada educação para jovens e adultos, que poderia agregar processos de aprendizagem e novas práticas à educação formal. A quem caberá treinar a força de trabalho se estamos de acordo sobre o fato de que um novo tipo de trabalhador será requerido pelo setor produtivo no futuro próximo? 

Outra ação que poderia ser implementada no âmbito da educação é o ensino de língua estrangeira, especialmente o idioma inglês. Quantos de nossos melhores profissionais (modelistas, designers etc.) são realmente fluentes em inglês? Ensinar inglês nas escolas públicas, para que os estudantes realmente possam aprender, não é apenas uma demanda para formação ou reconversão da força de trabalho do setor calçadista, pois o conhecimento de língua pode ser útil em outros setores, notadamente a informática, por exemplo.
   
IHU On-Line – Alguns especialistas dizem que solução para o setor é a inovação e criação sapatos com designs sofisticados e de qualidade. Segundo eles, só assim os calçados brasileiros poderão concorrer com os chineses, e com um preço elevado. O senhor também aposta nessa idéia? Empresas que estão fechando as portas ainda terão condições de se reerguer e investir nesse novo modelo de trabalho? 
Sérgio Schneider -
Numa sociedade capitalista, sempre haverá competição e numa economia globalizada isto tende a se acirrar ainda mais. Não tenho elementos para afirmar e nem ouso prever nada em relação às condições de competitividade. Para se falar nestes termos, seria preciso conhecer, e em profundidade, quais são as condições de produção e as estratégias comerciais de cada país. Mas, nos dias atuais, os termos da competição estão amplamente distorcidos pelas injunções políticas, tal como é o caso da relação entre China e Estados Unidos. Enquanto a China parece ser a “grande fábrica do mundo”, os Estados Unidos parece que são, cada vez mais, o grande banco deste processo esquizofrênico de financeirização globalizado (além do papel de "xerife do mundo", do qual eles não abrem mão!). Basta observar o que ambos países fazem em relação às questões ambientais e do aquecimento global: fingem que não tem nada com isto e "bola pra frente"!

Portanto, acho que a produção de calçados para nichos de mercado, menos escala e mais artesanalidade representam uma saída possível. Contudo, não dá para imaginar que todas as empresas do Vale do Sinos encontrem espaço nestes nichos de mercado, que, afinal, não são tantos e já têm seus concorrentes tradicionais, como a Itália e a Espanha.

Mas o principal limitante nesse caso, de novo, é o fato de que a região do Vale do Sinos tem uma trajetória técnico-produtiva e sociocultural, que não dá para mudar da noite para o dia (é o que os estudiosos chamam de “path dependence”). Precisaria muito investimento humano e financeiro para que este processo ganhasse espaço e pudesse absorver parcela importante da produção e da força de trabalho da região. Ademais, os especialistas em comércio não se cansam de dizer: um dos maiores problemas da produção de calçados no Vale é que as empresas foram ficando reféns das companhias de exportação, que detêm a carteira de clientes e o "know-how", que são elementos fundamentais neste processo. 
   
IHU On-Line - Na visão dos britânicos, a eficiência econômica brasileira é prejudicada pelo sistema tributário complexo, pela burocracia e pelas leis trabalhistas rígidas. Eles afirmam que esses problemas restringem o crescimento do País, e que o presidente Lula mostra relutância em embarcar em reformas politicamente custosas. O senhor concorda com essa opinião? 
Sérgio Schneider -
Todos os países, inclusive a Inglaterra, e ainda mais a França, têm problemas sérios relacionados ao sistema tributário e trabalhista, que, afinal, é o que mantém a máquina do estado funcionando. A última eleição francesa concentrou-se inteiramente na discussão sobre o modelo de proteção social e organização do trabalho, e venceu o candidato que prometeu rigor contra os imigrantes e reforma na legislação trabalhista. 

É preciso considerar que mesmo nos países altamente desenvolvidos, que fizeram mudanças estruturais no perfil de suas economias bem antes de nós no Brasil, como foi o processo de “desmonte” do Estado-bem-estar social, as reformas preconizadas não geraram os efeitos esperados. Mesmo eles que são ricos e que um dia já foram “impérios coloniais” (é bom que não esqueçamos disso) ainda não conseguiram resolver os problemas de desemprego e outros.

Isto não significa que não estou parcialmente de acordo com a assertiva de que o sistema tributário gera dificuldades ao setor produtivo. No caso brasileiro, apenas para dar uma opinião de “outsider temporário”, não creio que haja relutância em fazer as reformas no sistema tributário e trabalhista; o que falta é força política para fazê-lo. Como será que reagiria o movimento sindical se fossem alteradas algumas cláusulas que mexem nas relações de trabalho? 

Por outro lado, conforme já mencionei, não dá para descontextualizar a crise e considerar que a resolução do problema é de foro doméstico, ou seja, em nível nacional. Numa era globalizada e interdependente, não sei até que ponto desproteger os trabalhadores e reduzir os direitos traria os resultados esperados. Isto poderia até gerar o efeito inverso, fazendo com que alguns mais apressados viessem a propor a total desregulamentação e até propor a jornada de trabalho de 14 horas por dia, como era no início da Revolução Industrial. Afinal, em países pobres, para onde as indústrias de calçados estão se deslocando, é comum encontrar trabalhadores sem direitos sociais e trabalhistas. Não dá para aceitar isto e considerar que as condições gerais assim exigem.  Apenas para dar um exemplo ilustrativo, ainda na semana passada, a BBC de Londres apresentou um programa na televisão, mostrando como na Malásia eram empregadas crianças na fabricação de calçados, destacando o contato com a cola de sapateiro e instrumentos de trabalho cortantes.

É preciso que, no plano internacional, por meio da OIT  ou da OMC , se estabeleçam formas de regulação e fiscalização destas condições de trabalho para que a competitividade que daí deriva não seja prejudicial àquelas que observam a legislação e as adequadas condições de produção.
   
IHU On-Line – A crise no estado está repercutindo no exterior? O senhor tem visto algum comentário ou noticias na Inglaterra a esse respeito? Como o sapato brasileiro é visto fora do País? 
Sérgio Schneider -
Infelizmente, não há repercussão alguma aqui na Inglaterra sobre a crise do setor e da região como um todo. Tenho andado por algumas cidades do País, mas mesmo em Londres não se encontram sapatos brasileiros nas lojas. Tudo é “made in China”. E não é apenas calçado, mas roupas em geral: tudo é fabricado na China. Enganam-se aqueles que pensam que é produto de baixa qualidade, pois o produto chinês chega às grandes redes de loja e ao público em geral. 

Mas, talvez para nosso consolo, até onde posso perceber, não é apenas o calçado brasileiro que está pouco presente no mercado britânico. Aqui, na região do País de Gales, são raros os produtos brasileiros que encontro, para nosso desespero!

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