Edição 224 | 20 Junho 2008

Uma reflexão sobre o pluralismo religioso a partir de Aparecida

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IHU Online

“As Igrejas deveriam se preocupar menos com a dinâmica conversionista e mais com sua mútua conversão em favor de um trabalho comum na luta contra os sofrimentos que abalam os seres humanos e a terra onde habitam”, afirma o teólogo Faustino Teixeira, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, na qual analisa o documento final da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – V Celam, que aconteceu no último mês de maio de Aparecida, São Paulo.

Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais (PPCIR-UFJF), Faustino Teixeira é doutor e pós-doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. Ele é autor de vários livros sobre a teologia do diálogo inter-religioso. Ele é um dos grandes parceiros do IHU. Entre suas obras, citamos os livros, por ele organizados, Nas teias da delicadeza (São Paulo: Paulinas, 2006) e As religiões no Brasil: continuidades e rupturas (Petrópolis: Vozes, 2006), este em parceria com Renata Menezes. Pierre Sanchis fez uma resenha deste livro que foi publicada na revista IHU On-Line, número 195, de 11-09-2006. Confira, também, uma entrevista com Faustino na edição 209 da IHU On-Line com o tema Por que ainda ser cristão?; uma resenha feita por ele sobre o filme O grande silêncio, publicada na edição de número 212 da revista IHU On-Line, de 19/03/2007; uma entrevista sobre a Teologia da Libertação, publicada edição número 214 da IHU On-Line, de 02-04-2007; e outra entrevista sobre o poeta persa Rûmî, na edição número 222, de 04-06-2007.

IHU On-Line – Quais são as principais novidades da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – V Celam, em relação a Medellín, Puebla e Santo Domingo?
Faustino Teixeira -
Não tendo participado da V Conferência, minhas respostas correspondem a uma reação feita sobre a versão não oficial publicada após o evento. O que percebo, após ler o longo documento, é que ele conseguiu corresponder positivamente a aspectos importantes da vida eclesial latino-americana, superando a tendência mais restritiva presente nos dois textos preparatórios: o documento de participação e a síntese das contribuições recebidas para a V Conferência. Percebe-se, de forma clara, o papel positivo exercido pelas diversas forças eclesiais nas mobilizações que antecederam e acompanharam a Conferência de Aparecida. Não sei se podemos falar propriamente em novidades, mas revela-se positiva a retomada do filão eclesial que marcou, por exemplo, as conferências de Medellín e Puebla: o método ver-julgar-agir (n. 19), o reforço da opção pelos pobres (ns. 405-406) e pelas comunidades eclesiais de base (ns. 193-195). Vale também registrar o firme posicionamento do documento com respeito à questão social, em favor de uma “globalização diferente”, pontuada pela solidariedade e a luta em favor da justiça (n. 64), além da defesa da biodiversidade e o cuidado com o meio ambiente (ns. 66, 84, 86, 492, 493).
 
IHU On-Line - Quais seriam, de maneira sintética, as três grandes luzes de Aparecida e quais as três grandes sombras?
Faustino Teixeira -
Com respeito às luzes, podemos mencionar a posição firme do episcopado na crítica aos efeitos perversos da globalização, a afirmação de uma globalização solidária, a firme defesa do meio ambiente, de modo particular a causa amazônica, e a reafirmação da opção pelos pobres. A propósito das sombras, podemos sublinhar a manutenção de uma perspectiva teológica cristocêntrica eclesiocentrada, a concepção restrita de evangelização e a timidez no âmbito do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. Gostaria, aqui, de me deter um pouco mais na questão das sombras, pois são aspectos que traduzem desafios importantes para o futuro da atuação eclesial no continente. Em razão da preocupação do episcopado latino-americano com a quebra da homogeneidade católica no continente, com a “debilidade” e fragilização da fé cristã e a conseqüente “sangria” para outras formas de expressão religiosa ou seculares, firma-se uma compreensão de evangelização onde Jesus Cristo e a Igreja católica ocupam um lugar central. Este projeto já estava bem delineado no discurso do papa Ratzinger, na abertura da V Conferência, que definiu os rumos da Conferência neste âmbito particular. Na perspectiva do documento conclusivo, Jesus Cristo traduz a “plenitude da revelação para todos os povos” (n. 95 e 548). E já estava presente no “desejo” dos povos originários, que por ele ansiavam silenciosamente (n. 4). O documento indica que aceitar a Cristo é garantir a paz e a felicidade, e esta aceitação se dá na Igreja católico-romana, que abriga “tudo o que é bom, tudo o que é motivo de segurança e de consolo” (n. 262). A compreensão de evangelização é bem precisa, na linha do discurso que o papa Ratzinger fez aos bispos brasileiros na Catedral da Sé, em São Paulo. A evangelização vem entendida numa linha de explicitação do anúncio bem marcada: uma evangelização “metódica e capilar”, visando à adesão a Jesus Cristo. Falta, a meu ver, uma reflexão mais aprofundada sobre o significado da evangelização no tempo do pluralismo religioso. Mais do que encerrar a revelação numa definição restrita da “proclamação cristocêntrica” (n. 29), é necessário ampliar a visão para captar o significado da evangelização como um exercício partilhado em favor da renovação da humanidade (EN 18), de testemunho dos valores essenciais do reino de Deus, que é o único absoluto (EN 8).

O pluralismo religioso

No tempo do pluralismo religioso, não há por que manter a idéia de que Jesus é o único caminho de vida que leva a Deus e de que o cristianismo é um “imperativo categórico” universalizante. Esta é uma visão devedora de uma perspectiva tradicional, que expressa uma clara teologia do acabamento ou da realização, como se a manifestação de Deus em Jesus Cristo colocasse um ponto final na história da religião e nas manifestações reveladoras de Deus.  Na visão do lúcido teólogo Claude Geffré , recentemente impedido pela Congregação para a Doutrina da Fé de receber um título de doutor honoris causa numa universidade católica do Congo, “a vocação histórica da Igreja não é o crescimento quantitativo dos cristãos, mas, em diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade, o testemunho em favor do reino de Deus que vem”.

O ecumenismo e o diálogo inter-religioso

Com respeito aos temas do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, vale também uma reflexão particular. Talvez esteja aqui um dos pontos mais frágeis do documento, mas que está em coerência com a dinâmica atual da conjuntura eclesiástica, bem mais afeita ao anúncio que ao diálogo. Os números que tratam o ecumenismo ainda estão um pouco melhores. Seguindo a pista da carta encíclica de João Paulo II, Ut unum sint  (UUS 3), o documento assinala o caráter irreversível do ecumenismo (n. 243) e sua exigência evangélica (n. 244). Mas, em seguida, reitera a necessidade da reabilitação da apologética, da afirmação “clara e convincente” das convicções de fé (n. 245). O documento patina ao trabalhar o tema, expressando uma dificuldade real de acolher a diversidade como um valor, ou a rica idéia de uma “diversidade reconciliada”. O predomínio de uma visão eclesiocentrada impede reconhecer, na linha do que foi afirmado no Diretório para a aplicação dos princípios e normas sobre o ecumenismo, que, na Providência de Deus, outros cristãos passarão toda a sua vida cristã em outras Igrejas, e isto não deve impedir aos católicos de se alegrar com a dinâmica da graça de Deus que frutifica entre eles (cf. Diretório… n. 206). Não há por que manter afirmando, com arrogância, que a Igreja católica é a única que possui a “plenitude dos meios de salvação” (DI 22) e que só nela é que se verifica a “única verdadeira religião” (DI 23). É verdade, como mostra o documento final, que o contato ecumênico favorece a “estima recíproca” e convoca à conversão (n. 248). Trata-se, porém, de uma metanóia  “mais profunda de todos para Deus” (DA 41) e não de um “empenho ecumênico” que leve à “plena comunhão na unidade da Igreja”, que subsiste na Igreja católica. Quanto ao diálogo inter-religioso, o documento é bem mais tímido. Fala-se da prioridade que deve ser dada ao diálogo com as religiões monoteístas, o que limita o seu campo de ação num continente com outras tantas diversas presenças religiosas. Fala-se do diálogo com os olhos voltados para o anúncio (n. 254), deixando-se ofuscada a idéia essencial de que o diálogo tem “seu próprio valor” (DA 41). Há um reconhecimento positivo e rico da alteridade dos povos indígenas e afro-brasileiros (n. 89), mas a real abertura ao valor irredutível de sua religiosidade fica ofuscada pela recorrente imagem das “sementes do Verbo” que presidem sua expressão vital (ns. 4,92, 548). Em sintonia com o discurso do papa Ratzinger, na abertura da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – V Celam, o documento sublinha a importância da manutenção da fé católica nas comunidades indígenas (n. 550).

IHU On-Line – Quais são as principais mudanças que estão acontecendo em nosso continente e no mundo e que interpelam a evangelização? A V Conferência consegue responder aos desafios destas mudanças?
Faustino Teixeira –
Penso, em particular, no desafio do crescente pluralismo religioso. Não há por que continuar mantendo uma reflexão teológica eclesiocentrada num tempo de complexa diversificação religiosa. A Igreja e a teologia vêm sendo desafiadas a buscar uma nova perspectiva de inserção e uma “purificação” de sua memória e afirmação de uma nova linguagem para dar conta desse desafio essencial. Como mostrou Jacques Dupuis , em sua última obra, O cristianismo e as religiões , “a terminologia teológica, usada até hoje por muitos pregadores cristãos, e até por alguns teólogos, mantém ainda vestígios de um vocabulário nocivo em relação aos ‘outros’”.

IHU On-Line - Qual é a importância de difundir na cultura de nossos povos a “fé em Deus Amor”? Como isso se aplica no dia-a-dia da Igreja e do povo de Deus?
Faustino Teixeira -
Penso que o desafio mais fundamental diz respeito ao testemunho dos valores essenciais, do trabalho conjunto em favor da recuperação da dignidade da criação e do exercício da compaixão. Temos, sim, que recuperar a dimensão de profundidade que anda meio esquecida em nosso tempo. E esses valores não são prerrogativas únicas das religiões. Seguindo uma pista favorecida pelo teólogo Paul Tillich, precisamos abrir espaços para a “profundidade” de nossa existência. E “quem conhece a profundidade, conhece a Deus”. As Igrejas deveriam se preocupar menos com a dinâmica conversionista e mais com sua mútua conversão em favor de um trabalho comum na luta contra os sofrimentos que abalam os seres humanos e a terra onde habitam. Panikkar  fala no essencial desafio da cultura da paz para as religiões: o de concentrar as energias para “curar as feridas humanas” e as “pragas históricas da humanidade”.

IHU On-Line – Qual é o lugar e a importância do tópico “Família” no documento final? Pode falar sobre a importância de se “promover uma cultura do amor no matrimônio e na família e uma cultura de respeito à vida na sociedade”, que aparece no documento?
Faustino Teixeira -
Neste campo, há ainda um longo caminho a ser percorrido pela Igreja. A compreensão de família que vigora no documento, recorrente na Igreja católico-romana, é bem tradicional. É um campo onde a teologia não consegue avançar muito, pois as resistências do magistério eclesial são contundentes. Em seu livro-entrevista de 1985, Rapporto sulla fede, o cardeal Ratzinger assinalou que é no âmbito da teologia moral que ocorrem as principais tensões entre o magistério e os teólogos. Aqueles que ousam uma reflexão mais aberta sobre o tema encontram barreiras dolorosas em seu caminho. Há, no documento, passagens bem preconceituosas contra novas possibilidades de relacionamento afetivo, que são englobadas no que vem definido como “ideologia de gênero” (n. 40). Em defesa do que consideram o “patrimônio da humanidade”, os bispos reiteram o posicionamento tradicional da Igreja católico-romana sobre a família, marcando uma posição firme e intransigente contra quaisquer novidades que possam ocorrer no campo da reflexão a respeito do tema. São duras as críticas contra o aborto, definido como “crime abominável”, contra a eutanásia e outros “delitos graves contra a vida e a família” (n. 455). A família vem definida de forma bem clara, enquanto “fundada no sacramento do matrimônio entre uma mulher e um homem” (n. 452). Mantém-se também a terminologia tradicional e pejorativa com respeito àqueles que não tiveram sucesso no primeiro casamento e buscam realizar-se numa nova união. Fala-se em “situação irregular” de tais matrimônios, ainda que se proponha um acompanhamento cuidadoso e compassivo aos que vivem numa semelhante situação (n. 456 j).

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