Edição 224 | 20 Junho 2008

“Surge da V Conferência um rosto indígena e afro-americano da Igreja latino-americana e caribenha”

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“Creio que a Teologia da Libertação é ainda o melhor instrumental que temos para uma exata compreensão da evangelização: ela mostra um método de análise da realidade, uma reflexão a partir da palavra de Deus, seguindo as indicações da exegese moderna, e um cabedal prático-pastoral devido ao seu compromisso com a luta política de libertação dos pobres e excluídos.” A opinião é de Benedito Ferraro, professor na PUC-Campinas e assessor da Pastoral Operária de Campinas, ao analisar o documento final da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – V Celam, na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Ferraro possui graduação em Filosofia pelo Seminário Central do Ipiranga e pela Universidade de Mogi das Cruzes, graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e doutorado em Teologia pela Universidade de Friburgo. É autor de, entre outros, Cristologia em tempos de ídolos e sacrifícios (São Paulo: Paulinas, 1992) e co-autor de Espiritualidade Libertadora (2. ed. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2004) e de O código genético das CEBs (São Leopoldo: Oikos, 2005).

IHU On-Line – Quais são as principais novidades da  V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe em relação a Medellín, Puebla e Santo Domingo?
Benedito Ferraro -
Primeiramente, houve a novidade da V Conferência de Aparecida acontecer num grande centro de romaria. A presença contínua de milhares de romeiros, vindos de muitos estados do Brasil, não permitiu que os bispos delegados e os convidados/as se esquecessem da Igreja Povo de Deus. Igualmente, o fato de acontecer num santuário, com uma história ligada ao povo pobre, escravizado, povo negro, não deixou de ser referência. A segunda novidade esteve no fato de haver um Fórum de Participação, que possibilitou uma referência aos mártires da América Latina e do Caribe, através da presença da Tenda dos Mártires. Este fato foi reforçado com a Romaria realizada entre a cidade de Roseira (São Paulo) e Aparecida, com a participação de 10.000 pessoas, na sua grande maioria jovens, caminhando uma noite toda, tendo como referência a memória das Conferências do Rio de Janeiro (1955), Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e, no horizonte, a Conferência de Aparecida. Estas atividades também ajudam a compreender melhor o alcance da V Conferência. Pode-se, também, destacar a presença de um grupo de teólogos/as, exegetas, pastoralistas e cientistas sociais, e do grupo Ameríndia, que pode colaborar com os bispos na linha da reflexão teológica, bíblica e pastoral. Finalmente, é possível falar que a V Conferência possibilitou a retomada da colegialidade na Igreja latino-americana e caribenha. Mesmo com a forte presença dos representantes da Santa Sé, nota-se um clima de maior liberdade. Isto é importante, pois as Conferências dos bispos da América Latina e Caribe são um exemplar único no mundo. Esta experiência pode se tornar um modelo de colegialidade para todas as outras partes do mundo.

IHU On-Line - Quais seriam, de maneira sintética, as três grandes luzes de Aparecida e quais as três grandes sombras?
Benedito Ferraro -
As três grandes luzes, no meu modo de ver, são a consagração da opção pelos pobres, que, nesta V Conferência, foi retomada e inserida na fé cristológica; a reafirmação das Comunidades Eclesiais de Base, retomando Medellín e considerando-as célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização; e a firmação do diálogo ecumênico e inter-religioso, base fundamental para se construir um mundo de justiça e de paz.

As três sombras: a primeira é a não afirmação explícita da negritude, sobretudo em se tratando de uma conferência realizada num santuário que tem como Patrona uma Senhora Negra. Os negros cantam Senhora Negra Aparecida. A segunda foi o fato de não se denunciar com a maior nitidez possível o sistema neoliberal, causador do desemprego, da violência e da exclusão. A terceira se refere ao fato de não se tratar a questão da mulher com a devida seriedade: pouco se falou de seu papel na Igreja, visto que sua presença é majoritária, e nada sobre a questão da ordenação de mulheres.

IHU On-Line - Quais são as principais mudanças que estão acontecendo em nosso continente e no mundo e que interpelam a evangelização? A V Conferência consegue responder aos desafios destas mudanças?
Benedito Ferraro -
Quero indicar duas grandes mudanças. A primeira está enraizada na reestruturação do mundo do trabalho como fruto da globalização hegemonizada pelo sistema financeiro internacional. O sinal visível desta mudança se traduz no desemprego estrutural, na terceirização e na precarização do trabalho, deteriorando a qualidade de vida das pessoas e da própria natureza pelo processo de devastação dos recursos naturais. Neste sentido, embora a V Conferência aponte algumas críticas ao sistema neoliberal presente na América Latina e Caribe, não me parece que tenha tocado na raiz do problema. Creio que se deveria insistir muito mais no processo de integração latino-americana e caribenha como uma possível saída para os povos deste continente.

A segunda está relacionada com o pluralismo religioso. Hoje, a imensa maioria das famílias tem pessoas de parentesco muito próximo em outras Igrejas cristãs ou religiões. Também aqui houve um pequeno avanço no sentido de se afirmar o diálogo ecumênico e inter-religioso, mas não se percebe com nitidez uma compreensão da alteridade. Os outros, sobretudo, negros/as e indígenas, ainda são vistos com muito medo e desconfiança. Certamente, a V Conferência teria de afirmar a necessidade de um novo paradigma na compreensão das alteridades.
 
IHU On-Line - O texto do documento final aponta uma retomada do método ver–julgar–agir. Como isso aparece no documento? O que faz parte do ver, do julgar e do agir a partir de Aparecida?
Benedito Ferraro -
Já foi um ganho o fato de se afirmar a necessidade da retomada do método ver-julgar e agir. Mas, como as tensões sobre esta questão estavam muito presentes nos diferentes modelos de Igreja representados na V Conferência, o seu tratamento, de forma lógica e processual acabou, sendo ocultado. De qualquer forma, o método aparece na perspectiva da divisão em três partes do documento e que acabam indicando os três momentos do método proveniente da ação católica: VER - A vida de nossos povos hoje; JULGAR – A vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários; e AGIR – A vida de Jesus Cristo para nossos povos.

IHU On-Line – Qual é a pertinência deste método hoje?
Benedito Ferraro -
Creio que este método ainda tem pertinência, na medida em que busca descobrir as grandes questões advindas da realidade socioeconômica-política e cultural, buscando dar autonomia às realidades terrestres e às ciências; ilumina estas questões fundamentais com a Palavra de Deus e a tradição das Igrejas, buscando critérios éticos e evangélicos para um discernimento apropriado; e, finalmente, procura indicar caminhos de solução para os problemas. É claro que tal método não pode ser compreendido de forma compartimentalizada. É preciso respeitar as interações entre os diferentes momentos, dado que nem sempre é fácil de ser respeitado em um texto longo como o Documento Conclusivo e feito a muitas mãos e sem muito tempo para uma depuração. Com o decorrer do tempo, o que não for pertinente acabará virando pó!

IHU On-Line - Considerando a situação da Igreja na sociedade hoje, o documento fez um balanço de pontos positivos e negativos. Como se dá esse balanço?
Benedito Ferraro -
Creio que o balanço foi feito. Certamente, muitos aspectos foram deixados de lado ou mesmo ocultados. Mas creio que a realidade de exclusão, fome e violência, presente na América Latina e Caribe, está bem delimitada. Mesmo ainda tendo uma visão eclesiocêntrica, a exigência do diálogo ecumênico e inter-religioso acaba perpassando o texto. Certamente, esta questão irá se desdobrar na exigência de um novo tecido eclesial para poder compreender e assimilar as mudanças ocorridas. O pluralismo se impôs de tal modo que a questão da crítica às outras Igrejas, devido à presença de seus representantes no interior da V Conferência, acabou tomando uma nova direção, a qual, no futuro, poderá ser muito mais flexível. A exigência de mudanças estruturais está colocada no interior do texto, mudanças estruturais na sociedade e na Igreja. Como elas se farão ainda não está indicado!
 
IHU On-Line - Aparecida confirma a opção preferencial pelos pobres e excluídos. De que forma essa opção será posta em prática?
Benedito Ferraro -
A opção pelos pobres continua sendo a pedra de toque no interior da Igreja. É a partir dela que se definem os modelos de Igreja. Sinto duas direções no texto conclusivo. De um lado, aqueles e aquelas que vêem os pobres e excluídos como objetos de comiseração, de atenção e de cuidado. Certamente, a partir desta concepção, surgirá uma dinâmica de assistência, que no texto está sinalizada com a necessidade de se dar mais tempo aos pobres, de atendê-los em suas necessidades imediatas, de se modificar minimamente o estilo de vida burguês de padres e bispos. De outro lado, aqueles e aquelas que vêem os pobres como novos sujeitos emergentes e que apontam para um novo modelo eclesial e um novo modelo de sociedade. São novos sujeitos, que estavam invisibilizados e que hoje se tornam presentes e começam a exigir mudanças. Na verdade, elas já começam a ocorrer e apontam para um outro mundo possível. Estamos apenas no início de um processo de mudança!
 
IHU On-Line - Antes da realização da V Conferência, houve a admoestação a Jon Sobrino. Como pode ser descrita a recepção da Teologia da Libertação em Aparecida?
Benedito Ferraro -
A admoestação a Jon Sobrino  foi um aviso alertando para o perigo da Teologia da Libertação. O desenrolar da V Conferência acabou por sinalizar uma outra direção. Nota-se que a Teologia da Libertação ainda tem muito a dar. A própria teologia explícita (cristologia, trindade, eclesiologia) do documento conclusivo continua sendo de cima para baixo. Mas nota-se, nas entrelinhas, que a Teologia da Libertação tem muito a contribuir, tanto em relação à crítica da situação de dependência e exclusão, presente no continente latino-americano e caribenho, quanto em relação ao fenômeno do pluralismo religioso. É essa teologia que tem enfrentado com muita perspicácia a questão da teologia índia, da teologia afro e da teologia feminista, sem deixar de lado a questão ecológica. Neste sentido, creio que ela é ainda o melhor instrumental que temos para uma exata compreensão da evangelização: mostra um método de análise da realidade, uma reflexão a partir da palavra de Deus, seguindo as indicações da exegese moderna, e um cabedal prático-pastoral, devido ao seu compromisso com a luta política de libertação dos pobres e excluídos.
 
IHU On-Line - Qual é a importância do jovem para a Igreja hoje, considerando o documento recentemente aprovado pela CNBB e o encontro do Papa com os jovens? Como entender a pouca participação do jovem na Igreja e o que fazer para resgatar esse “rebanho”?
Benedito Ferraro -
O Documento da CNBB  traz uma boa análise da situação dos jovens no Brasil, mostrando quais são seus medos básicos: ficar desempregado, ser morto e ficar desconectado. Ficar desempregado significa ser descartável, perder a auto-estima e não ser considerado. Ter medo de ser morto é a condição da imensa maioria de jovens pobres, vítimas da violência na flor da idade (14 a 25 anos). Ficar desconectado é, no mundo atual, perder a identidade de jovem num mundo globalizado. A análise parece correta, mas as soluções dadas no documento da CNBB continuam ainda no terreno das intenções. O mesmo se poderia dizer do discurso do Papa no Pacaembu, no encontro com os jovens. Houve uma fala para os jovens que já estão na Igreja. Não se respondeu às questões levantadas pelos jovens que falaram em nome de seus pares. O discurso já estava preparado e não conseguiu atingir o coração dos jovens. Ficou a sensação do encontro bonito, emocional, mas pouco operacional. Creio que aqui se encontra a razão da pouca presença dos jovens na Igreja: a não apresentação de propostas viáveis do ponto de vista econômico, político, social e cultural. Os jovens só se engajarão na Igreja se encontrarem projetos que os atraiam e que os considerem sujeitos capazes de encaminhá-los.

IHU On-Line - Que rosto de Igreja emerge da V Conferência? Quais são as suas principais características?
Benedito Ferraro -
Creio que ainda é cedo para se definir este rosto. Parece-me, no entanto, que vai surgindo desta V Conferência um rosto indígena e afro-americano da Igreja latino-americana e caribenha que começa a assumir as alteridades. Outra marca fundamental é a da defesa da vida, como fruto do próprio tema da V Conferência: vida para todos os homens e mulheres, vida para todas as criaturas, vida para a natureza. Enfim, para que tudo tenha vida!

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