Edição 223 | 11 Junho 2007

Andarilhos com Paulo Freire

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IHU Online

“A variedade das práticas e das pesquisas demonstram que Paulo Freire não está sendo repetido ou copiado, mas sim recriado, com inteligência e imaginação”, disse o Prof. Dr. Balduíno Andreola à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida com exclusividade, na última semana, por e-mail.

Andreola leciona no Centro Universitário La Salle, em Canoas, e na Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo. Graduado em Filosofia e em Teologia, é mestre em Educação, pela UFRGS, e pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, onde se doutorou em Educação com a tese Emmanuel Mounier et Paulo Freire: une pédagogie de la personne et de la communauté. De sua produção acadêmica, destacamos os artigos Uma pedagogia política de libertação nas obras de Emmanuel Mounier e Paulo Freire (Perspectiva, Erechim/RS, v. 39, n. 11, p. 39-70, 1986) e Influence de la Pensée et du Temoignage de Mounier au Brasil (Bulletin Des Amis D'e Mounier, Châtenay-Malabry, v. 73/74, p. 41-45, 1990). Escreveu as obras Freire e Fiori no exílio: um projeto pedagógico-político no Chile (Canoas: Editora Ritter dos Reis, 2001) e Andarilho da esperança: Paulo Freire no CMI (São Paulo: ASTE, 2005). Na edição 155, de 12-09-2005, intitulada Emmanuel Mounier: por uma revolução personalista e comunitária, concedeu a entrevista Os projetos pedagógicos-políticos de Mounier e Paulo Freire.

IHU On-Line – O senhor é co-autor de livros sobre Paulo Freire no Chile e no Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Qual é o sentido do exílio para esse “andarilho”?
Balduíno Andreola –
Os dois livros são em co-autoria: Freire e Fiori no exílio, com o Prof. Triviños, e Andarilho da esperança: Paulo Freire no CMI, com meu orientando de doutorado, Mário Bueno Ribeiro. Após o golpe militar de 64, Freire recusou, até quando pôde, a idéia de se asilar e, depois, de exilar-se. Ele optou pelo exílio quando se convenceu de que não tinha mais condição de ficar. Numa entrevista publicada no Pasquim, afirma: “E então eu preferi continuar vivo a entregar-me a uma espécie assim de morte lenta, ou de cinismo. Eu não via no momento uma possibilidade de ficar sem morrer de um ponto de vista ou de outro”. Na entrevista com Claudius Ceccon e Miguel Paiva (Pasquim, 1978), o próprio Freire discorre longamente sobre o sentido do exílio para ele. Uma das lições do exílio, segundo ele, é a “compreensão da diversidade cultural. A compreensão das diferenças. (...) A tua experiência com outros espaços históricos e culturais termina te ensinando até universalizar, rompendo a tua paroquialidade. Tu deixas de ser uma mente paroquial. Isso, então, significa uma abertura maior a outras formas de estar sendo. De outro lado, o exílio possibilita também a tomada de distância, não só geográfica, mas no tempo, do teu contexto original. (...) Muitos brasileiros passaram a ser mais brasileiros a partir do exílio”.

Mas não se trata apenas de mudanças sob os pontos de vista intelectual, cultural e político.
Creio que Freire resume a aprendizagem mais extraordinária do exílio nesta frase: “Eu sou capaz de querer bem, enormemente, a qualquer povo”.

Não obstante a saudade profunda, os sofrimentos do exílio e a vontade permanente de voltar, Freire soube construir continuamente um novo sentido para o seu exílio. E soube tomar decisões radicais, de acordo com tal sentido. Foi assim que decidiu, em 1969, que era chegada a hora de sair do Chile. E as escolhas eram duas: um convite aliciador para qualquer intelectual, de ir para a famosa Universidade de Harvard, e outro convite para o Conselho Mundial de Igrejas. Harvard lhe oferecia, com certeza, uma carreira universitária extraordinária, e financeiramente muito rendosa. Mas ele decidiu que para os Estados Unidos iria por apenas um ano, porque, como diria mais tarde, “queria conhecer o bicho na toca”. Mas trancar-se na toca, não. Sua escolha definitiva foi pelo Conselho Mundial de Igrejas. A razão da escolha era clara para Freire: “Eu preferi vir para o Conselho, porque o problema de ser professor para mim não se coloca. Eu me acho professor numa esquina de rua. Eu não preciso do contexto de uma universidade para ser um educador. Não é o título que a universidade vai me dar o que me interessa, mas a possibilidade de trabalho. E, naquela época, eu sabia que o Conselho ia me dar a margem que a universidade não me daria”.

E, realmente, o C.M.I. lhe abriu as portas para muitos países, de todos os continentes. Todavia, para Freire, a opção radical foi sempre pelos oprimidos, pelos mais necessitados. Assim, juntamente com a equipe do IDAC , que ele fundou em Genebra, com um grupo de exilados, decidiu colaborar prioritariamente com os povos da África que estavam construindo penosamente sua emancipação. No livro em co-autoria com o Mário, eu afirmo que Freire “amou a África com um amor de predileção”. Ele soube dar ao seu exílio um sentido de plenitude. Segundo o título do Pasquim, “Paulo Freire, no exílio, ficou mais brasileiro ainda”, ao mesmo tempo em que se tornou, “existencialmente, um bicho universal”, segundo ele próprio, sendo considerado por Roger Garaudy, “o maior pedagogo do século”.
 
IHU On-Line – Em suas andanças por palestras e bancas, qual é o Paulo Freire que está presente? Ou quais Paulos Freires estão presentes?
Balduíno Andreola –
Nos últimos dez anos, participei de muitas bancas, numa média aproximada de uma a cada 20 dias. A maioria delas tem a ver com Freire, como referência principal ou importante. Podemos falar em Freire no plural, ou em leituras plurais de Paulo Freire. Lembro experiências, discussões e pesquisas muito criativas, relacionadas com o ensino da Física, da Geografia, da Matemática, de Ciências e de Filosofia. Numerosas dissertações ou teses versavam sobre a educação no Movimento dos Sem Terra (MST) . A variedade das práticas e das pesquisas demonstram que Paulo Freire não está sendo repetido ou copiado, mas sim recriado, com inteligência e imaginação, de acordo com um desafio lançado por ele, numa de suas últimas entrevistas: “Cabe a vocês inventar novas pedagogias”.
  
IHU On-Line – Como o senhor avalia a recepção de Freire na Academia?
Balduíno Andreola –
Não me consta que exista algum levantamento a respeito deste assunto. Não sou muito otimista. Sei que Freire é muito mais estudado na Espanha e nos Estados Unidos do que no Brasil. Existem, porém, universidades que mantém uma “cátedra Paulo Freire”, como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e a Universidade Federal da Paraíba. A Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, presta todo o apoio ao Centro Paulo Freire de Estudos e Pesquisas. Numerosas IES do Rio Grande do Sul sediaram oficialmente as sessões anuais do Fórum Paulo Freire, como referido acima. Estes são alguns dos muitos exemplos positivos de receptividade para a obra de Freire. Cabe registrar, porém, que em certas universidades o acolhimento não é muito favorável, em nome de opções pós-modernas, pós-estruturalistas, pós-críticas ou de modismos que configuram formas remanescentes de Colonialismo Cultural, ou então um fenômeno necrófilo, denunciado por Afrânio Coutinho.  Prefaciando um dos volumes das obras de Anísio Teixeira, ele escreve que nós, brasileiros, somos tristemente famosos por condenar ao esquecimento grandes personalidades da nossa história. A revista Veja também refletiu esta mentalidade, pois, logo após a morte de Paulo Freire, candidatou-se rapidamente a “coveira” de sua obra, prevendo que ela teria duração efêmera, o que é amplamente desmentido pelos fatos.

Certos professores proíbem a seus orientandos de mestrado ou doutorado que leiam Paulo Freire. Há fundamentalistmos inconcebíveis, como o denunciado por Carlos Rodrigues Brandão e Rubem Alves. No livro deles Encantar o mundo pela palavra (São Paulo: Papirus, 2006), leio:

“Carlos - Veja como a ortodoxia é fundamentalista até nas supostas mentes abertas. Vou dar um exemplo dramático. A Editora Vozes publicou recentemente uma História da pedagogia brasileira em três volumes. O terceiro volume é Educação no século XX. São 27 artigos de vários educadores brasileiros conhecidos. Não tem nenhum sobre Paulo Freire e a educação popular. Nenhum. Num artigo sobre alfabetização, vi um parágrafo em que se mencionam de passagem o nome dele e um livro de sua autoria. Nem reparei se tem alguma coisa sobre Rubem Alves”. E o Rubem observa: “Isso tem a ver com a questão da linguagem. Conheço pessoas que foram penalizadas em bancas por me citar”. E o Brandão confirma: “Também conheço”. Eu orientei, na UFRGS, uma tese de doutorado sobre Paulo Freire e outra sobre Ernani M. Fiori, que foram recusadas, como costumo dizer, metaforicamente, numa universidade de outro planeta. Realmente, a “Academia” tem dogmas e rituais penalizadores nada científicos, nada acadêmicos, nada democráticos, muito mais severos do que os da Inquisição. Onde está a liberdade de pensamento, de palavra? Não podemos gastar tempo e energias nestas polêmicas. Mas não podemos também silenciar tamanhas arbitrariedades de nosso mundo acadêmico.

IHU On-Line – Que interlocuções entre Freire e outros pensadores são mais freqüentes? Como se dão essas aproximações?
Balduíno Andreola –
As mais freqüentes creio que sejam entre Freire e Habermas. Sobre estas falarei em seguida. Acho interessante, porém, citar outras, por sua originalidade ou até ineditismo. O Dr. Fernando Becker, da UFRGS, por exemplo, fez em sua tese de doutorado uma interessante aproximação critica entre Freire e Piaget, salientando afinidades e complementaridades. Recentemente, foi defendida, na UFRGS, por Vicente Zatti, uma dissertação de mestrado orientada pelo Dr. Laetus M. Veit, cujo título é “A educação para a autonomia em Immanuel Kant e Paulo Freire”. Em Blumenau, há uns três anos, foi defendida uma dissertação de mestrado na qual o autor fez uma surpreendente aproximação entre Foucault  e Freire. Quando citei tal aproximação, numa reunião de professores, uma colega sacudiu a cabeça e disse que tal aproximação é impossível. Da minha parte, achei que as afirmações de Foucault, feitas a partir de suas pesquisas com encarcerados, de que precisamos dar a eles a palavra, têm tudo a ver com Freire, por incrível que possa parecer aos foucaultianos. A aproximação mais original que conheço até hoje foi a que elaborou, na UFPel, em 2006, sob a orientação do Dr. Gomercindo Ghiggi , o sacerdote angolano Martinho Kavaya. A dissertação intitula-se: “Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda-Benguela/ANGOLA”. Enquanto estou escrevendo, o Prof. Alceu me comunica uma nova aproximação Trata-se de um artigo de Maurício Rodrigues de Souza, intitulado “Por uma educação antropológica: Comparando idéias de Bronisalaw Malinowski  e Paulo Freire” (Revista Brasileira de Educação, vol. 11, n° 33, p. 487-496, set./dez. 2006). Quanto às aproximações entre Freire e Habermas, conheço várias. Há uns dois anos, foi defendida, na USP, uma tese de doutorado na qual o autor fazia uma aproximação entre Freire e Habermas no campo da ética. Na minha argüição, fugindo ao estilo acadêmico, arrisquei uma classificação das várias aproximações que conheço, em quatro categorias, que denominei jocosamente: 1. Aproximações antibióticas; 2. Aproximações biotônicas; 3. Aproximações simbiótico-idealistas; 4. Aproximações simbiótico-dialéticas.Traduzindo em linguagem mais acadêmica, a primeira categoria, é a dos que usam Habermas para contrapô-lo a Paulo Freire, considerado por eles desatualizado. Quem afirmou várias vezes que Habermas é usado, no Brasil, para contrapô-lo a Freire, foi o filósofo Hans G.Flickinger . Por aproximações biotônicas, entendo as daqueles intelectuais que consideram a ora de Freire filosófica ou cientificamente pouco consistente. Deste modo, com algumas injeções filosóficas ou científicas de Marx, Morin , Hegel  ou, melhor ainda, de Habermas em Freire, ele pode tornar-se mais consistente, e ser aceito, assim, pela “Academia”. As aproximações simbiótico-idealistas são as que vêem entre os dois apenas afinidades, convergências e complementariedades. Finalmente, as aproximações simbiótico-dialéticas, como a que opera Jaime Zitkoski, em sua tese de doutorado, são as que consideram que existem, sim, afinidades, convergências e complementariedades, entre Freire e Harbemas, mas analisam também as diferenças, algumas pequenas, outras maiores, e, finalmente, as profundas e inconciliáveis, entre uma obra individual de  um autor, Habermas, construída a partir de uma visão eurocêntrica, e a de Freire, que elabora a Pedagogia do oprimido, no diálogo com os sujeitos históricos, os oprimidos ou “condenados da Terra”, segundo Fanon, da América Latina e do mundo, no contexto de um processo continental de libertação, violentamente reprimido e sufocado pelos regimes militares, e que tem suas expressões teóricas numa Filosofia da Libertação, na Teologia da Libertação, numa Pedagogia da Libertação, na Psicoterapia do Oprimido de Alfredo Moffat, no Teatro do Oprimido de Augusto Boal, e numa gama imensa de obras que teorizam a práxis histórica da Educação Popular e dos movimentos populares, entre os quais se distingue o MST.
 
IHU On-Line – Quais são as aproximações que o senhor faz em sua tese sobre Emmanuel Mounier e Paulo Freire? Poderia explicar a idéia de uma pedagogia da pessoa e da comunidade?
Balduíno Andreola –
Mounier  exerceu uma influência muito grande nos cristãos de esquerda, ou cristãos socialistas, na América Latina, antes dos golpes militares. Insatisfeitos com os limites do “Humanismo Integral”, de Maritain, que se fechava ainda numa concepção de Cristandade e dos partidos democra-cistãos, descobriram a abertura da concepção política de Mounier, na perspectiva da Laicidade, como presença e engajamento dos cristãos nas estruturas profanas da sociedade. Também Freire leu Mounier, naquela época. Em minha tese, eu não me preocupei, porém, de estudar possíveis influências de Mounier na obra de Freire. Meu objetivo foi o de buscar convergências e complementaridades, na perspectiva de uma educação fundamentada na filosofia da pessoa, da comunidade e da solidariedade humana. As categorias “pessoa” e “comunidade” são fundantes, na obra de Mounier. O “Personalismo”, como filosofia da pessoa e como processo histórico, liderado por Mounier, tendo na revista Esprit , desde 1932, seu veículo principal, significou um movimento amplo, de sentido intelectual e revolucionário. Além destas convergências, eu busquei também, em Freire e Mounier, as contribuições para o diálogo intercultural. Para o diálogo de Freire com a África, eu me baseei, em minha tese, principalmente no livro Cartas à Guiné-Bissau; para o de Mounier, em seu livro L’eveil de l’Afrique Noire. Após a defesa de minha tese, em l985, retomei os quatro volumes das obras de Mounier, e fiz uma seleção dos textos que tratam do binômio “opressão/libertação”. Através de minha releitura, embora apressada, reuni mais de trezentos textos. De qualquer modo, acho que faz falta, na Academia, promovermos a discussão da filosofia ou das filosofias da pessoa, pois vivemos imersos, como o peixe na água, numa cultura do liberalismo e do capitalismo, que absolutizam o indivíduo. Fala-se muito em pessoa, mas inconscientemente se pensa no indivíduo e em relações individualistas. A Academia cochila muito, nas suas sonolências e ambigüidades teóricas e políticas.
 
IHU On-Line – Que contribuições de Ernani M. Fiori o senhor destacaria para a pedagogia da libertação? Como Paulo Freire entra nessa questão?
Balduíno Andreola –
Fiori contribuiu muito, segundo depoimentos verbais ou escritos do próprio Freire. Eles conviveram e dialogaram muito durante o exílio chileno. Freire pediu a Fiori que escrevesse o prefácio para o seu livro mais importante, Pedagogia do oprimido. O título daquele prefácio, “Aprender a dizer a sua palavra”, sintetiza não apenas o prefácio, mas todo o sentido da pedagogia de Freire. O próprio Freire considerava aquele escrito tão rico e profundo que disse, jocosamente: “Em próximas edições pensei até em colocar o livro como prefácio, e o prefácio como livro”. Documentando com eloqüência a contribuição de Fiori para a teoria e a práxis da libertação, temos ainda, em suas obras, as conferências “Conscientização e educação”, proferida em Washington, em 1970, e “Educação Libertadora”, no Panamá, em 1971. Em 1985 eu ouvi pessoalmente, na Bélgica, do filósofo nicaragüense  Alejandro Serrano Caldera que os líderes da Revolução Nicaragüense se sentiam muito agradecidos pelas contribuições recebidas do Ernani, através de seminários de que eles participavam no Panamá. Um registro histórico importante foi a fundação, em Porto Alegre, em 1963, do Instituto de Cultura Popular, idealizado pelo Ernani para garantir a continuidade dos projetos de cultura e educação popular. O Instituto foi fundado no dia 14 de dezembro, e ele foi eleito presidente. Paulo Freire, algum tempo antes, estivera em Porto Alegre, acompanhando o ministro da Educação, Júlio Sambaqui , para tratarem com o Ernani as condições e o apoio para a criação daquele Instituto. Um último registro. Eu ouvi de dois pedagogos do MST, Frei Sérgio Görgen  e Pe. Paulo Cerioli, e, a meu pedido, eles colocaram por escrito, seus depoimentos, de que devem principalmente às lições de Ernani M. Fiori estarem hoje na linha de frente, com os trabalhadores pobres, com os oprimidos, na luta em defesa da dignidade humana e da libertação. São testemunhos eloqüentes de que a repressão, os exílios e as ditaduras não conseguiram matar os sonhos, sufocar a esperança e deletar a História.  

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