Edição 213 | 26 Março 2007

Francisco Adolfo de Varnhagen e Capistrano de Abreu, intérpretes do Brasil

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IHU Online

Interpretações do Brasil: dos clássicos às novas abordagens

Para o historiador Temístocles Cezar, “a obra de Capistrano de Abreu é um marco da historiografia brasileira”. Sobre a obra de Francisco Adolfo de Varnhagen, afirma que ela marca “não apenas o início da história "científica" entre nós, como também estabelece temas que nortearão a pesquisa futura e princípios históricos de nossa suposta nacionalidade”. As declarações foram dadas à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Temístocles Cezar estará na Unisinos em 27-03-2007, terça-feira, apresentando o evento Discussão do pensamento do século XIX-XX: Francisco Adolfo de Varnhagen e Capistrano de Abreu, dentro da programação do Interpretações do Brasil: dos clássicos às novas abordagens. Anote e participe: Sala 1G119, a partir das 19h3min.

Temístocles é graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestre em Ciência Política pela mesma instituição. Doutorou-se na França, na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, EHESS com a tese L’écriture de l histoire au Brésil au XIX e siècle. Essai sur une rhétorique de la nationalité. Le cas Varnhagen. Também na EHESS cursou seu pós-doutorado. Atualmente leciona na UFRGS, departamento de História. Sua produção intelectual inclui inúmeros artigos e capítulos de livros, entre outros

IHU On-Line – Qual é a importância que o senhor atribui à obra de Francisco Adolfo de Varnhagen?
Temístocles Cezar -
Varnhagen  é o primeiro historiador brasileiro que podemos chamar de "colega". Não que não houvesse pesquisa antes de seu trabalho (Rocha Pita, o padre Cazal e Southey são alguns de seus antecessores), mas é com ele que começa a pesquisa sobre o Brasil, realizada sobretudo em arquivos europeus (Portugal, Espanha, Holanda etc.), financiada pelo Estado. Sua obra marca não apenas o início da história "científica" entre nós, como também estabelece temas que nortearão a pesquisa futura e princípios históricos de nossa suposta nacionalidade.

IHU On-Line - Fala-se de um suposto patriotismo 'branco" defendido por Varnhagen, um olhar estrangeiro sobre o país. O que o senhor pensa disso?
Temístocles Cezar -
Embora tenha nascido em Sorocaba, filho de pai de origem germânica e de mãe de nacionalidade ainda não confirmada (provavelmente brasileira ou portuguesa), Varnhagen passou a maior parte da vida no exterior. Diplomata, casa-se com uma chilena, e seus filhos nascem no Chile. Ou seja, Varnhagen está constantemente cercado por "estrangeiros", o que auxiliou a desenvolver este olhar distanciado em relação ao Brasil. Quanto ao patriotismo "branco", parece-me uma afirmação exagerada. 

Varnhagen, de fato, era um defensor da suposta "superioridade" branca em relação aos outros grupos raciais (o que estava longe de ser algo incomum no século XIX, ou mesmo no XX). No entanto, para ele, era mais importante que o "brasileiro" se constituísse por oposição ao estrangeiro. Nesse sentido, em sua História da luta contra os holandeses (1871), ele incorpora indistintamente negros e índios como componentes da pátria desde que estivessem do "nosso" lado.

IHU On-Line - Qual a contribuição da visão crítica do Brasil difundida por Capistrano de Abreu?
Temístocles Cezar -
A obra de Capistrano de Abreu  é um marco da historiografia brasileira. A obra de Varnhagen sobrevive, em parte, graças à releitura e reedição que Capistrano faz da História geral do Brasil. Nesse trabalho, aparece com clareza a maximização do método crítico (em um conjunto de notas à edição), que são a origem dos "Capítulos de história colonial". Além disso, com Capistrano inaugura-se uma nova forma de se escrever a história do Brasil, através de um estilo mais conciso, contundente e com alto poder de argumentação.

IHU On-Line - Como Capistrano de Abreu tratou o tema da realidade cotidiana brasileira em sua obra?
Temístocles Cezar -
Esta é uma questão difícil, pois antes é preciso definir-se o que se entende por "cotidiano". Caso se pense o cotidiano como um conceito que abrange sobretudo as atividades desvinculadas do Estado e que se situam em um domínio estritamente privado (teríamos que pensar ainda no conceito de patrimonialismo), Capistrano não se deteve muito nele. Porém, caso se pense a realidade cotidiana como "algo que aconteceu",  independentemente de sua relação arbitrária com as esferas do público e do privado, e como um trabalho de crítica que procura manter a  complexidade social desta realidade cotidiana, a obra de Capistrano tem muito a nos ensinar, uma vez que ela produziu um conjunto de interpretações sobre o Brasil que nos auxiliam a olhar para dentro do país. Aliás, é curioso que nem Varnhagen nem Capistrano apareçam também como "interpretadores do Brasil" (salvo a obra de José Carlos Reis  De Varnhagen a FHC), como se a historiografia e o pensar o Brasil começasse apenas após a Revolução de 30. Penso que é necessário que se avalie tal pressuposto.

IHU On-Line - Parece haver uma divisão entre autores que enaltecem a colonização portuguesa e consideram que o país deve manter suas características de colônia para progredir, e outros que vêem a possibilidade de avanços no país apenas na emancipação. Como o senhor vê isso?
Temístocles Cezar -
De modo geral, a historiografia do século XIX, aquela feita no IHGB e por Varnhagen (em Capistrano a questão não se coloca desta maneira), enaltece a colonização portuguesa como obra "civilizatória", mas do mesmo modo é favorável à emancipação política. Varnhagen, por exemplo, escreveu uma História da independência do Brasil, na qual crítica fortemente a manutenção ce certas instituições portuguesas "copiadas" da ex-metrópole.  Assim, não há incompatibilidade em valorizar a ocupação portuguesa do território brasileiro e o desejo de independência. Emancipação não era necessariamente romper com o passado colonial, mas projetar um futuro como nação independente.

 

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