Edição 415 | 22 Abril 2013

Montaigne e a passagem da definição da natureza humana à consideração da condição humana

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Márcia Junges e Graziela Wolfart

Segundo Celso Martins Azar Filho, a partir do olhar de Montaigne se define o ensaio como um olhar livre sobre a condição humana em sua cotidianidade constitutiva, que considera a filosofia algo a ser constantemente alcançado

Michel Eyquem de Montaigne, escritor e ensaísta francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal, tem como uma de suas obras principais justamente a intitulada Ensaios, em que analisa as instituições, opiniões e os costumes. Para o professor Celso Martins Azar Filho, a atualidade da obra deve ser buscada precisamente em sua singularidade histórica. “É por esta que se chega a compreender o valor perene da crítica ensaística da mistificação filosófica – e principalmente daquela espécie mais perigosa a qual, hoje como então, se pretenderia justamente desmistificadora. E para entender como o ensaio pode ser um caminho filosófico para o enfrentamento deste e outros de nossos males existenciais em sua face contemporânea, é preciso perceber como Montaigne realça o caráter tanto atemporal como o absolutamente particular e ocasional dos acidentes que abraça o destino humano, a qual só se deixa tocar no presente puro”, afirmou, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. A seu ver, os Ensaios “constituem um microcosmo surpreendentemente rico e sugestivo, cobrindo em suas páginas um largo campo da cultura renascentista: eles falam por si”. 

Celso Martins Azar Filho é professor no Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense – UFF. Graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é professor colaborador na instituição, sendo autor de A filosofia de Montaigne – Introdução ao pensamento renascentista (Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2009).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Em que consistia a posição singular de Montaigne com relação às diversas faces da tradição neoplatônica?

Celso Martins Azar Filho – Montaigne  não é um pensador neoplatônico, ou seja, os Ensaios não podem ser filiados à tradição neoplatônica. Isso posto, é preciso, porém, reconhecer a sobrevivência de traços daquela tradição em seu pensamento. Como se sabe, o retorno ao saber antigo no Renascimento tem por centro, sobretudo, obras da antiguidade tardia: as ideias e autores helenísticos – seja em função de seu cosmopolitismo, de sua absorção pelo cristianismo ou de seu bilinguismo – têm um peso determinante na época renascentista; através deles, boa parte das vezes são lidos os textos clássicos. E é a partir do ressurgimento de suas novas fontes, como Diógenes de Laércio e Lucrécio, que a compreensão da tradição será muito frequentemente reordenada pelos humanistas. Ora, por diversas razões, entre as quais deve ser destacado o aspecto de novidade, o momento é em larga medida um momento de confusão dos pontos de vista de cada escola e de seu sincretismo em torno de noções comuns, como o viver segundo a natureza ou o conceito de sabedoria. O ensaísta vai aproveitar as dissensões e composições de ideias daí resultantes a seu favor, recombinando elementos de tradições diversas, e jogando com suas oposições, para apresentar novas soluções a partir de uma reconstrução dos problemas filosóficos antigos e medievais. É levando em conta a posição singular de Montaigne com relação às diversas faces da tradição neoplatônica e, por extensão, helenística, examinando a recombinação de seus vários e heterogêneos elementos no ensaio, que se pode abrir um novo caminho para a sua interpretação: este trabalho ainda está por ser realizado. Para tanto seria interessante partir de duas características especialmente relevantes nesta tradição de pensamento: primeiro, o neoplatonismo constitui-se em grande parte como fenômeno linguístico, isto é, uma forma filosófica que possui uma relação especial com a linguagem; e os problemas de expressão e comunicação, que sempre estiveram no centro dos seus interesses, vão adquirir uma relevância ainda maior a partir da recepção humanista. Segundo, falar do neoplatonismo renascentista significa falar da retomada do hermetismo no novo enquadramento do naturalismo prático pré-moderno – magia –, e é claro que estamos aqui diante de uma das faces do ideal de transformação do mundo e do homem, característica da filosofia renascentista, tanto motor quanto sintoma das transformações desta época, em sua visão mais prática e experimental do conhecimento – que a irmana à filosofia helenística, e será decisiva no advento da nova ciência moderna. Em seu livro La Philosophie comme manière de vivre Pierre Hadot  conta como o ensaio Que filosofar é aprender a morrer foi um dos textos que o conduziram a representar a filosofia como algo diferente de um discurso meramente teórico. Nota ainda que nos Ensaios a natureza humana aparece de tal forma complexa que autoriza todas as atitudes – ceticismo e fé, rigor estoico e distensão epicurista, por exemplo. Mas o mais importante na leitura de Hadot é a afirmação da disposição prática da filosofia moral ensaística. E seria possível recolher diversos testemunhos concordantes sobre este ponto. Note-se como Daniel Martin, em seu famoso estudo sobre a noção de fortuna em Montaigne define os Ensaios como exercícios espirituais “destinados a nos conduzir ao alto, em direção à Forma, partindo da linguagem, ou seja, da Fortuna”. Para este intérprete o pensamento montaigniano pode ser definido como neoplatônico, posição minoritária certamente no conjunto da fortuna crítica da filosofia ensaística, mas não isolada: Michaël Baraz, por exemplo, em seu L’être et la connaissance selon Montaigne, defende uma interpretação semelhante da obra montaigniana (ressaltando a influência de Platão ele mesmo) – a concentração no instante presente, que cruza sincronia e diacronia, embebendo narração e reflexão, fazendo a escrita se desdobrar e adensar em ritmos e sentidos para revelar, na obra, o cosmos. Muitas outras noções constitutivas da obra poderiam ser referidas a uma matriz neoplatônica ou platonizante: a busca de transcendência na imanência, por exemplo, ou a forma como o atomismo lucreciano e o “tudo está em tudo” alquímico e hermético são conectados, etc. É evidente, contudo, que uma diferença básica deve ser discernida: não são de exercícios espirituais apenas de que tratam os Ensaios, mas também são físicos aqueles que o ensaísta recomenda. Muitos tomaram o “filosofar é aprender a morrer” montaigniano como neoplatônico apenas. Entretanto, não está em questão aqui se preparar para o outro mundo, mas para este. O ensaio é tanto uma janela como um espelho; é tanto uma representação do mundo como sua reconstrução em nós mesmos. Sua função é servir como ferramenta linguística do harmonizar dos mundos externos e internos no agir – hoje, agora.

IHU On-Line – Que novos caminhos se abrem para a sua leitura a partir de uma análise acurada de “Os ensaios”?

Celso Martins Azar Filho – Os novos caminhos são semelhantes aos que se abrem para a filosofia renascentista como um todo, cujos horizontes tem se alargado de maneira paulatina, mas constante, principalmente por conta de uma historiografia mais competente, progressivamente se purificando dos preconceitos românticos ou positivistas desde o final do próprio século XIX, e de maneira acelerada a partir mais ou menos do segundo quartel do século XX. O acesso aos textos tem sido desde então facilitado e crescente bibliografia passa a tomar o tema como objeto de pesquisa. Mas ainda há muito caminho por trilhar. A começar pela questão sempre atual da definição mesma não só do que seja a filosofia renascentista, mas a Renascença ela mesma. E principalmente porque o momento de transição, como é comum qualificá-lo, entre a Idade Média e a Modernidade, época histórica ou movimento cultural denominado “Renascimento” – o qual se estenderia, para marcar limites, certamente bastante imprecisos (e não apenas no sentido cronológico), entre Ockham  e Descartes  – sofreu, como momento filosófico, um eclipse que somente começará a ser superado pela historiografia posterior a 1850. E até cerca de 1930, um julgamento em geral superficial e negativo será determinante nas orientações de sua progressiva recuperação. Existem diversas razões para tanto – resultantes de preconceitos intelectuais, políticos, religiosos, etc., vindos do início do Classicismo, fortalecidos por volta do fim do Iluminismo, e sobrevivendo ainda hoje, mesmo se apenas isoladamente. Assim, estamos ainda nos tempos heroicos do estabelecimento de interpretações canônicas e, portanto, de um lugar na história da filosofia para o pensamento ensaístico; estamos mesmo ainda nas primeiras leituras que esta registrará um dia como formadoras. Pois esta é nossa relação hodierna para com o pensamento renascentista em geral, o qual apenas começa a receber atenção historiográfica digna da importância de suas manifestações – o que tem mudado completamente o quadro de sua avaliação. Por exemplo, a influência do nominalismo ou do epicurismo na filosofia montaigniana como no Renascimento em geral é hoje muito melhor conhecida do que há poucas décadas por ter sido melhor traçada e comprovada documentalmente. Assim, os novos caminhos sobre os quais é questão são caminhos que têm sido abertos como renovação da investigação dos propósitos de constituição mesmos de todo historiar da filosofia, dos seus eixos diretores de sentido, para elaboração de novos paradigmas que dependem de uma meditação dos antigos – e esta é uma ideia renascentista, tal como a metáfora do ressurgimento, da ressurreição ou reencarnação para definir o movimento da história (sendo Antiguidade, Idade Média e Renascimento termos que definem para nós as grandes fases deste movimento, termos renascentistas). Em suma, trata-se hoje ainda de se criarem os caminhos de interpretação da filosofia dos Ensaios – algo que eu diria contar menos de um século como tradição acadêmica – e isso só se fará, como se tem feito, no abrir de novos caminhos para a história da filosofia ela mesma.

IHU On-Line – Qual é a atualidade dos Ensaios?

Celso Martins Azar Filho – Sua atualidade deve ser buscada precisamente em sua singularidade histórica. É por esta que se chega a compreender o valor perene da crítica ensaística da mistificação filosófica – e principalmente daquela espécie mais perigosa a qual, hoje como então, se pretenderia justamente desmistificadora. E para entender como o ensaio pode ser um caminho filosófico para o enfrentamento deste e outros de nossos males existenciais em sua face contemporânea, é preciso perceber como Montaigne realça o caráter tanto atemporal como o absolutamente particular e ocasional dos acidentes que abraça o destino humano, a qual só se deixa tocar no presente puro. Define o ensaio um olhar livre sobre a condição humana em sua cotidianidade constitutiva, olhar que considera a filosofia algo a ser constantemente alcançado in media res. Para criar um discurso capaz de exprimir todas as tensões do momento presente em ato, compreendendo que nossas decisões e atitudes já são parte da conjuntura, e daí pensar o aprimoramento da própria personalidade em seu desenvolvimento mesmo, uma nova forma do discurso filosófico deve ser criada. Uma forma que já entenda a própria teoria como prática, a escrita como gesto, e que exprima o vínculo entre a busca da verdade e sua comunicação, por compreendê-la como construção. E é preciso que se veja bem que nada disso é pós-moderno, mas pré-moderno. Todo cuidado com o historicismo: muito frequentemente se busca na escrita dos Ensaios sinais do advento da modernidade e daí para uma visão anacrônica, que lê o pensamento montaigniano a partir de uma ótica filosófica posterior, não se dá mais que um passo. Destarte, aquilo que, por um lado, poderia ser tachado de primitivo – o fato de não se ter ainda aí uma teoria do conhecimento nos moldes modernos –, faz com que, por outro lado, a razão para tanto – que a busca de conhecimento seja compreendida no interior da ação – pareça-nos algo de revolucionário.

IHU On-Line – Como essa obra foi recebida quando de sua publicação? 

Celso Martins Azar Filho – A obra foi o que se poderia chamar de sucesso editorial (guardadas, evidentemente, as devidas distâncias com relação às proporções de nosso atual mercado editorial). E muito já foi escrito sobre o papel dos Ensaios na formação da consciência moderna, este que foi segundo Erich Auerbach o primeiro livro da autoconsciência leiga. Mas o dado, sobretudo, digno de nota com relação à recepção da obra montaigniana consiste na dificuldade de assimilação e mesmo recusa de seu espírito e disposição geral, seja por sua forma singular ou por seu conteúdo extremamente pessoal, pela tradição filosófica a partir do século XVII. O que vai ocasionar sua aparentemente pequena repercussão filosófica, cuja causa está principalmente na ingratidão de seus principais herdeiros com relação à sua dívida frente à obra montaigniana. É interessante marcar que tal se dá principalmente por conta de uma dificuldade de compreensão dos problemas formais que a realização do projeto filosófico montaigniano ocasiona: é uma ironia que a nota mais original da filosofia ensaística – a relação inovadora entre forma e conteúdo – tenha sido principalmente o que dificultou sua aceitação – e isso poderia ser estendido em parte para a recepção geral da filosofia renascentista.

IHU On-Line – Qual é a peculiaridade das descrições de Montaigne sobre a natureza humana?

Celso Martins Azar Filho – Montaigne passa das tentativas de definir a natureza humana à consideração da condição humana. E, quando se busca na escrita montaigniana sinais do advento da modernidade, é precisamente esta passagem que normalmente se destaca. Por exemplo, como mostrou Tzvetan Todorov , a amizade nos Ensaios, elemento fundamental na filosofia da felicidade aí presente, se destaca como nota peculiar da visão montaigniana sobre a condição humana por seu caráter autorreferente (algo de essencial à consciência ou ao espírito modernos – se pudermos utilizar estes conceitos evitando sua hipostasia em categorias históricas): as razões da amizade entre Montaigne e La Boètie não são éticas, políticas, etc., como eram aquelas das amizades modelares retratadas pela filosofia moral pregressa, mas tocam à singularidade e particularidade das relações e sujeitos envolvidos, resumindo-se à “porque era ele, porque era eu” – e tal definição constitui um dos atos de nascimento do indivíduo moderno.

IHU On-Line – Como pode ser compreendido o ceticismo de Montaigne? 

Celso Martins Azar Filho – Em primeiro lugar, realçando o impulso para o conhecimento que o próprio sentido do termo “cético” significava na origem. Mas é preciso notar que, além de cético, o ensaísta foi denominado cínico, socrático, estoico, epicurista, etc., pela tradição, assim como pelos especialistas hoje. Claro que se somos forçados a escolher entre simplificações, a menos simplista no caso seria ter o ensaísta por cético. Todavia, Montaigne, se é cético, é de um ceticismo sui generis (e seguindo assim poderíamos, aliás, colar nele seja lá que rótulo escolhêssemos). Logo, se hoje parece haver certa concordância entre os comentadores dos Ensaios em considerar seu autor como um “cético” – e existem razões de nenhuma forma descabidas para que o façam –, devemos, porém, reconhecer que, com relação à sua filosofia, como é comum acontecer com as obras dos grandes pensadores, as comparações – venham de onde vierem – não serão nunca completamente válidas. Os Ensaios constituem um microcosmo surpreendentemente rico e sugestivo, cobrindo em suas páginas um largo campo da cultura renascentista: eles falam por si.

IHU On-Line – Quais são os pensadores que influenciaram sua obra? 

Celso Martins Azar Filho – Inúmeros, e tantos quantos ele próprio influenciou na filosofia ou na literatura em geral. Montaigne mantinha em sua torre biblioteca invejável para a época e daí dominava um vasto campo da literatura filosófica. 

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