Edição 404 | 05 Outubro 2012

“A Igreja sente a urgência da ‘nova evangelização’”

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | Tradução de Anete Amorim Pezzini

Na perspectiva de Olga Consuelo Velez, fazer teologia hoje significa responder aos desafios presentes; portanto, trata-se de um compromisso e de uma responsabilidade

Para Olga Consuelo Velez, professora da Pontificia Universidad Javeriana – PUJ, da Colômbia, a Teologia da Libertação nasceu para ficar “e incorporou-se, queiramos ou não, no caminhar teológico universal”. Na verdade, continua ela, “foi muito bom escutar dos lábios de Bento XVI, no discurso inaugural da V Conferência de Aparecida, a relação intrínseca entre Cristo e a opção preferencial pelos pobres”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ela destaca que “todos nós sabemos que a experiência de Deus nos pobres é o ponto de partida da Teologia da Libertação e, portanto, seria muita cegueira negar a importância que essa realidade tem para o fazer teológico universal. Essa teologia segue sendo significativa, porque a realidade de pobreza e exclusão do continente não mudou. Portanto, mantém-se sua vigência”. 

Professora na Faculdade de Teologia da Pontificia Universidad Javeriana – PUJ, da Colômbia, Consuelo Velez é doutora em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É autora de, entre outros, Reflexiones en torno al feminismo y al género (Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana, 2004); El método teológico. Fundamentos /especializaciones /enfoques (Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana, 2008). Na Unisinos ela irá participar como painelista do Congresso Continental de Teologia, abordando o tema “Teologia e novos paradigmas”. Saiba mais em http://bit.ly/q7kwpT.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para a senhora, o que significa fazer teologia no atual contexto de mundo e de Igreja? Quais os novos paradigmas que se apresentam e implicam o fazer teológico?

Olga Consuelo Velez – Significa responder aos desafios presentes, portanto, é um compromisso e uma responsabilidade. Por um lado, o mundo, utilizando o termo empregado na pergunta, necessita de uma palavra de fé que ilumine suas buscas, que responda a seus propósitos, que acompanhe este devir mundial acelerado pelos desenvolvimentos tecnológicos, cheio de possibilidades, mas urgido de critérios éticos que orientem e acompanhem este momento. E, de outro lado, a Igreja atravessa um momento histórico em que aposta seu futuro com mais ou menos êxito. A Igreja sente a urgência da “nova evangelização”, porque seus fiéis desertam ou não têm o ímpeto e ânimo do passado. Portanto, ou sabe enfrentar essa situação ou ver-se-á submersa em problemas maiores. A teologia pode impulsionar para uma resposta mais positiva, de maior significado da Igreja para os homens e mulheres de hoje. Uma reflexão teológica que enfrente os desafios atuais pode ajudar a dar uma resposta adequada a este momento eclesial “difícil”. Nesse sentido, amarro aqui a pergunta a seguir: a teologia, hoje, passa pelos diferentes paradigmas ou horizontes, porque necessita dizer uma palavra sobre a realidade social, as questões de gênero, a realidade cultural e religiosa, a questão ecológica etc. Isto é, todas essas “novas maneiras de fazer teologia” que respondem a experiências sentidas que pedem uma resposta, vemos hoje que se vão entrelaçando, e exigem um trabalho mais transversal do que focal. Hoje, não se pode falar dos pobres, sem incluir a questão racial, genérica, cósmica, etc. E assim com os demais paradigmas. Isto é, hoje a teologia são “teologias”, e teologias contextuais que se entrecruzam, iluminam-se e complementam-se, todas buscando responder a este presente. Resta dizer que a palavra “paradigma” tem vários significados, e alguns diriam que não há tantos “novos” paradigmas, mas aqui a uso no sentido amplo de uma visão que conduz e foca a reflexão teológica.

IHU On-Line – A partir do Concílio Vaticano II, que análise a senhora faz da caminhada teológica na América Latina nesses últimos cinquenta anos?

Olga Consuelo Velez – Acredito que, se em algum continente pôs-se em marcha o Vaticano II, foi na América Latina. A Teologia da Libertação foi esse esforço concreto de olhar para o mundo e responder às suas emergências. Na América Latina, esse mundo está marcado pela exclusão social, e a Teologia da Libertação responde, a partir das limitações desse momento, a essa realidade. Acredito que essa teologia continua viva, apesar das incompreensões, das rejeições, mas também com as novas orientações, esclarecimentos, complementações que o passar dos anos vai dando. Hoje, há um patrimônio teológico latino-americano que podemos reconhecer, mas que tem de continuar se fortalecendo. Em outras palavras, podemos alegrar-nos com nosso caminhar teológico, mas não podemos descuidá-lo, porque necessita manter-se atual e seguir se fortalecendo cada vez mais.

IHU On-Line – Analisando de forma específica a Teologia da Libertação, que balanço a senhora faz? Qual a o significado e a importância desse modelo teológico para o atual contexto da América Latina?

Olga Consuelo Velez – A Teologia da Libertação nasceu para ficar e incorporou-se, queiramos ou não, no caminhar teológico universal. Na verdade, foi muito bom escutar dos lábios de Bento XVI, no discurso inaugural da V Conferência de Aparecida , a relação intrínseca entre Cristo e a opção preferencial pelos pobres. Todos nós sabemos que a experiência de Deus nos pobres é o ponto de partida da Teologia da Libertação e, portanto, seria muita cegueira negar a importância que essa realidade tem para o fazer teológico universal. Essa teologia continua sendo significativa, porque a realidade de pobreza e exclusão do continente não mudou. Portanto, mantém-se sua vigência. Claro que, sendo capaz de renovar-se, e usando os instrumentos adequados para ler a realidade de hoje, porque as leituras mudaram, as compreensões se enriquecem e as novas perspectivas, a partir de onde a situação social da América Latina é abordada, mostram a complexidade da situação. Para mim, continua sendo uma responsabilidade manter essa orientação teológica, aberta a todos esses novos entendimentos.

IHU On-Line – Além do contexto latino-americano, como a Teologia da Libertação constitui-se numa perspectiva teológica para outras realidades, como a africana, a asiática e também para os imigrantes que vivem na Europa e Estados Unidos? Em que medida se pode falar em teologias da libertação?

Olga Consuelo Velez – Acredito que, na verdade, fala-se de Teologia da Libertação asiática, africana, etc., ou como se dizia “teologias do terceiro mundo”, porque, na realidade, a situação não é exclusiva deste continente. Com a globalização e as novas políticas econômicas, já se fala menos de lugares geográficos, e mais de realidades transversais que se encontram em todos os lugares. E o econômico, que foi o ponto de partida desta reflexão, viu-se enriquecido pelas outras exclusões, pobrezas, discriminações, que exigem uma liberação, e não podem estar alheias à experiência da fé. Creio que toda a teologia que leve a sério uma mudança de realidade para promover maior dignidade humana, sua igualdade fundamental, seu direito de participar e de ser protagonista da história, tem um núcleo liberador que pode ser reconhecido como teologia nessa perspectiva libertadora.

IHU On-Line – E a teologia feminista, em que medida pode ser compreendida como uma teologia de libertação? Como a senhora analisa a teologia feminista, sobretudo pensando a realidade latino-americana?

Olga Consuelo Velez – Bem sabemos que, nos inícios, a Teologia da Libertação não levou em consideração a realidade da mulher, porque seu objetivo era a situação de pobreza. Mas, pouco a pouco, foi tomando consciência da dupla opressão sofrida pela mulher em razão do poder socioeconômico e também de seu gênero, e começou a falar-se de Teologia da Libertação feminista. Parece-me que essa dimensão não pode perder-se, porque as mulheres continuam sendo duplamente vitimadas. Em situações como a colombiana, onde vivo e onde a violência condicionou a nossa história, cada dia torna-se mais evidente que as mulheres podem não morrer tanto nos confrontos armados. Contudo, são as que mais sofrem suas consequências. Seja por tornarem-se chefes de família por causa da morte dos companheiros, seja por serem “despojos de guerra”, porque já está claramente explicitado que a violação das mulheres é uma das táticas mais empregadas para quebrar a “honra” do inimigo, e pela mentalidade que se tem sobre a mulher como instrumento de prazer a que todo o homem tem direito. Na verdade, na Colômbia, a situação de deslocamento por causa da violência armada em que vivemos aponta as mulheres como as que mais têm de sofrer esse fenômeno e, portanto, enfrentar a realidade de reconstruir sua vida. No entanto, o problema da discriminação da mulher é tão complexo que, às vezes, esquece-se da realidade socioeconômica, e se trabalha mais pelas realidades culturais. Aqui há algumas divergências entre correntes de teologia feminista, porque, para umas, o termo “gênero” como categoria de análise pode levar ao esquecimento da condição socioeconômica, e dirigir-se mais a mulheres de outras realidades em que o problema é cultural.

IHU On-Line – Além de um modelo androcêntrico e patriarcal, como pensar uma teologia e uma eclesiologia além do Deus “Pai”? Como explicitar ou narrar Deus a partir do rosto feminino, ou de “Pacha Mama” dos indígenas latino-americanos? 

Olga Consuelo Velez – Esse é um imenso desafio que precisamos enfrentar. Acho que a questão vai por tomarmos a sério a pluralidade cultural e religiosa em que vivemos. Quando assumimos verdadeiramente essas situações, é imperativo buscar novas maneiras de falar com Deus, novas compreensões que nos permitam incluir todos, novas sistematizações teológicas que abram caminhos de diálogo e entendimento. Aqui, não podemos esquecer a limitação da linguagem que, por mais que busquemos expressões adequadas, sempre haverá alguém que não as ache apropriadas. Conto um fato que constatei: pouco a pouco se vai introduzindo falar de Deus Pai e Mãe. No entanto, a resistência a essas expressões é muito grande, em âmbitos oficiais ou populares. Bem sabemos que Deus não é pai nem mãe em sentido físico, transcende essas realidades, mas, se durante 21 séculos o vocábulo pai serviu para dar encarnação a Deus, por que o vocábulo mãe não o pode dar agora? Claro que há vozes que se recusam a buscar novos caminhos, argumentando que Jesus dirigiu-Se a Deus como Abba… Isso é verdade, mas bem sabemos que a Bíblia está cheia de outras imagens em que o feminino é evidente. Já estive também em celebrações nas quais se pretendia introduzir o indígena, o afro, e cujas realizações tevem resistências. Acho que a tarefa é inevitável, mas há que se nadar “contra a corrente”, para não desistir, e seguir abrindo caminhos de inclusão para um contexto atual plural em todos os sentidos.

IHU On-Line – Para a senhora, qual é a missão da Igreja hoje?

Olga Consuelo Velez – Acredito que a Igreja tem que “voltar às origens”, como o Vaticano II já o intuiu há cinquenta anos, para recuperar a simplicidade das origens, a novidade do reino anunciado por Jesus, a ousadia dos primeiros cristãos para viver sua fé nas novas situações que se lhes apresentavam. A Igreja há de ser “sal e luz” e renunciar à sua pretensão de “dona e senhora” da humanidade. Oferecer um testemunho de vida, inclusão e alegria, e, sobretudo, não renunciar a seu lugar mais apropriado: os últimos de cada momento, os mais pobres, os que não contam com nada, além do próprio Deus.

Leia mais...

>> Olga Consuelo Velez já concedeu uma entrevista para a IHU On-Line

Um acontecimento de graça e de novidade. Entrevista publicada na edição número 401, de 03-09-2012, disponível em http://bit.ly/SSOwY7 

 >> Olga Consuelo Velez também publicou um artigo nas Notícias do Dia do sítio do IHU. Confira:

Acompanhando nosso caminhar teológico latino-americano. Artigo publicado em 21-08-2012, disponível em http://bit.ly/SOA3gq 

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