Edição 380 | 14 Novembro 2011

O samba como símbolo de brasilidade

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Graziela Wolfart

Cantar pode ser uma forma de ler, de comunicar, de contar uma história, de expressar opiniões e sentimentos, defende Pedro Bustamante Teixeira

Na tentativa de definir o que seria a canção, o músico Pedro Bustamante Teixeira afirma que “a adequação de um discurso oral a uma determinada sequência melódica é o primeiro passo para a confecção de uma obra musical breve que chamamos de canção”. Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line ele declara que “analisar a literatura brasileira produzida no século XX sem contemplar, em um momento ou outro o cancioneiro popular, é impensável”. Para Pedro, “a ascensão do samba no Rio de Janeiro via fonógrafo e o seu seguinte sucesso no Carnaval de 1917 revelaram toda uma cultura afro-brasileira que se preservava às escondidas”. E continua: “o samba percorre um caminho que vai da sua marginalidade à sua consagração como símbolo de brasilidade. Nesse percurso, o samba força a inscrição de toda uma cultura afro-brasileira na identidade nacional”.

Pedro Bustamante Teixeira possui graduação em Língua Portuguesa e em Língua Italiana (e em suas respectivas literaturas), e mestrado em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. Atualmente é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários e Representações Culturais na mesma instituição.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Didaticamente, como podemos definir canção?

Pedro Bustamante Teixeira – O canto sempre foi uma possibilidade do discurso. Cantar pode ser uma forma de ler, de comunicar, de contar uma história, de expressar opiniões e sentimentos. Assim como a poesia, a canção apreende e reúne palavras em um determinado suporte. No caso da canção, o suporte é musical. A adequação de um discurso oral a uma determinada sequência melódica é o primeiro passo para a confecção de uma obra musical breve que chamamos de canção. A canção como linguagem, “canto do povo de um lugar”, é de tempos imemoriais. Já a canção moderna, tal qual a reconhecemos hoje, é fruto da união da música popular com o fonógrafo, que permitiu, no início do século XX, que as expressões musicais populares pudessem ser, enfim, gravadas. Até a invenção do fonógrafo, o registro musical só era possível mediante tradução da escrita musical – muitas vezes insuficiente diante das expressões musicais não ocidentais. Em contrapartida, coube aos compositores populares a adaptação do canto folclórico às exigências da indústria fonográfica. Fundava-se uma nova tradição. Na origem da canção moderna brasileira, por exemplo, encontraremos um samba, Pelo telefone , gravado em 1917. De samba em samba se desenvolve a canção brasileira moderna.

IHU On-Line – Que relações podem ser estabelecidas entre a canção e a literatura?

Pedro Bustamante Teixeira – A cultura letrada no Brasil por muito tempo foi um privilégio da elite. Tanto a literatura como a canção foram, ao longo da história brasileira, suportes para determinados discursos. Enquanto a literatura no Brasil, em razão do elevado índice de analfabetismo entre os brasileiros, foi por muito tempo um privilégio de uma elite bem informada, a canção, tanto em sua forma originária – como manifestação folclórica – quanto em sua forma moderna – como canção comercial –, por ser uma expressão da oralidade, pôde sempre contar com um público muito mais numeroso. Diante da realidade do analfabetismo no Brasil, muitos poetas brasileiros recorreram ao canto para propagarem seus poemas. Gregório de Matos, por exemplo, entoava seus versos sob o acompanhamento de um violão que ele mesmo tocava. Muitos dos seus poemas eram a princípio canções. Como hoje restaram apenas as palavras desse discurso “litero-musical”, tendemos a não pensar que esses poemas eram originalmente canções.
Enquanto o modernismo paulista pregava a afirmação da língua coloquial na literatura brasileira, os sambistas já recorriam ao português falado na confecção de suas primeiras canções. Muitos desses sambistas flertaram com a poesia romântica ou parnasiana. No entanto, estava na oralidade, na língua falada por seus iguais, a variante linguística que cristalizariam em canções. Daí o nascimento de um modernismo popular, que, certamente, tem em Noel Rosa o seu maior expoente.

Canção popular

Nos anos 1950, diante de uma realidade não tão diversa em relação ao índice de analfabetismo no Brasil, o poeta Vinicius de Morais , adere à canção popular no intuito de atingir com a sua poesia não somente uma minoria letrada, mas também, à parte, grande maioria da população brasileira excluída da prática literária pelo seu baixo índice de letramento. Exitoso em seu projeto, Vinicius torna-se um dos poetas mais populares da história do Brasil. Poeta da palavra escrita e da palavra cantada, Vinicius de Morais foi um dos que mais contribuíram para reaproximar a poesia brasileira de sua origem cantada, para dissolver os preconceitos que cercavam o exercício do compositor popular, o primeiro a transcender a divisão basilar entre a cultura brasileira letrada e não letrada no Brasil contemporâneo. Um expoente, tanto do alto modernismo brasileiro como da música popular. Recuperava-se o sentido da palavra trovador.

A partir do gesto de Vinicius foi possível também ao brasileiro letrado perceber a poesia de compositores populares anteriores a ele. Cartola , Noel Rosa  e Ismael Silva , que em suas respectivas comunidades já eram reconhecidos como poetas, passaram a ser reconhecidos como tais também em outros circuitos. Foi possível a jovens artistas deslumbrarem o exercício poético através da composição de canções. Vinicius coloca em xeque toda uma concepção modernista para a música e para a literatura e promove uma celeuma na literatura brasileira, que é obrigada, por ele, a aceitar a canção popular em seu campo de estudo. Hoje, analisar a literatura brasileira produzida no século XX sem contemplar, em um momento ou outro o cancioneiro popular, é impensável.

IHU On-Line – Há canções de samba e de bossa nova, estilos tipicamente brasileiros? O que as caracterizam?

Pedro Bustamante Teixeira – Dada a origem da canção moderna brasileira, no Brasil samba e canção por muito tempo foram sinônimos. O samba está na gênese da canção moderna brasileira. A ascensão do samba no Rio de Janeiro via fonógrafo e o seu seguinte sucesso no Carnaval de 1917 revelaram toda uma cultura afro-brasileira que se preservava às escondidas. No entanto, os primeiros sambas gravados ainda pareciam estar em busca de uma identidade própria, muitas vezes eram reuniões arbitrárias de refrões, sem uma segunda parte, antecedidos por uma introdução e finalizados por improvisos instrumentais. Com um ritmo ainda muito semelhante ao maxixe, esses sambas frequentemente foram taxados de sambas-amaxixados. No final da década de 1920, quando os sambas de um novo grupo de compositores radicados no bairro do Estácio começam a ser gravados, o ritmo enfim se desvincula de seus ritmos ancestrais. A partir de então, o samba ganha características próprias. Torna-se mais ligeiro, mais contramétrico e sincopado. As segundas partes se incorporam ao gênero fazendo par com o refrão. Consagrado nas ondas do rádio e nas escolas de samba recém-fundadas, o estilo novo, por fim, torna-se o mais característico: samba-samba.

A bossa nova e o cancioneiro brasileiro

A bossa nova, por sua vez, é fruto de uma releitura crítica da tradição do cancioneiro brasileiro. Seus artífices buscaram refazer o caminho da música popular brasileira que a levou do samba ao bolero, ao tango, à canção norte-americana e à canção francesa com a hegemonia do estilo samba-canção. Diante de um amadurecimento da canção popular brasileira e o esgotamento do estilo dominante nos anos 1940 e 1950, o samba-canção, a bossa nova propõe a retomada do samba-samba, do compasso binário, da alegria. A bossa nova rompe com a interpretação operística do samba-canção, evita os seus arranjos suntuosos e o tom melancólico e desesperado de suas canções. Por um lado, a bossa nova promove a redescoberta do samba com o enxugamento dos excessos do samba-canção. Por outro, projeta a sua modernização através da incorporação de uma série de elementos técnicos, estéticos e musicais do jazz.

IHU On-Line – Quais os principais aspectos literários e musicais do samba como canção, e o que dizem sobre o Brasil e seu povo, no sentido de contribuir para o processo de “invenção” ou construção identitária do brasileiro?

Pedro Bustamante Teixeira – O samba percorre um caminho que vai da sua marginalidade à sua consagração como símbolo de brasilidade. Nesse percurso, o samba força a inscrição de toda uma cultura afro-brasileira na identidade nacional. Enquanto uma significativa parte da elite branca flertava com as ideias eugenistas, caminhando para o fascismo e a segregação das raças, o samba, essencialmente híbrido, celebrava a mistura: o nascimento de um povo pela mistura. Assim como Gilberto Freyre , no final da década de 1930, os sambistas irão refutar um pensamento muito em voga na época que creditava à mestiçagem as razões do nosso atraso. Como Freyre, os sambistas viam na afirmação da mestiçagem a promessa de uma nova civilização. O populista Getúlio Vargas  encontra no ritmo um espaço capaz de reunir os brasileiros tão heterogêneos. Daí a sacada de Oswald de Andrade, explicitada no Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) de que “o carnaval do Rio de Janeiro é o acontecimento religioso da raça”. Getúlio faria de tudo para coordenar tanto o carnaval como o samba. O povo brasileiro, segundo Oswald, acontecia como raça no carnaval. Poderíamos acrescentar ainda: mediante o batuque dos sambistas. O carnaval e o samba, portanto, contribuíram de maneira decisiva para a invenção de um povo orgulhoso de seu caráter híbrido.

O samba e o projeto nacionalista

Como a construção de uma identidade brasileira se dava, basicamente, a partir da exaltação do carnaval e do samba, coube ao governo Vargas tentar organizar este ideário para irem ao encontro do projeto nacionalista do Estadista. Desde então, o samba e o carnaval carioca são legitimados como símbolos identitários da nação. Em contrapartida, o governo passa a organizar o carnaval do Rio de Janeiro e a interferir na temática das canções, incentivando os sambas de exaltação à pátria, aos bons costumes e ao trabalho, em detrimento aos numerosos sambas de incentivo à vadiagem, à orgia e à insubmissão. Quanto mais o samba se consagrava como o ritmo nacional, mais se tornava um instrumento da ideologia varguista. Consequentemente se dá a monumentalização do samba, evidente no samba-exaltação de Aquarela do Brasil . Por fim, o samba é limitado pelo seu próprio estereótipo. Assim, passará a se afirmar mais pelo seu exotismo sensualista do que pelas suas virtudes “litero-musicais”.
A bossa nova, ao buscar o samba anterior a essa estandardização, procurou também desvencilhar o samba e, consequentemente, a música brasileira de um exotismo artificial. Daí a ausência das penas, do pandeiro e das dançarinas. Com a decantação estética da bossa nova, a música brasileira é reconhecida internacionalmente não mais apenas pelo seu exotismo, mas também pelo valor intrínseco de suas canções. Com a bossa nova, o movimento concretista, a construção de Brasília e o triunfo do futebol brasileiro na Copa do Mundo de 1958, o Brasil parecia superar um complexo de inferioridade histórico. No entanto, a crise política dos anos 1960, seguida pela implantação de uma ditadura militar no Brasil, comprometeria essas promessas de felicidade, de modernidade e harmonia e configuraria um caos, magistralmente captado por Glauber Rocha  em Terra em transe  e pela tropicália.

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