Edição 322 | 22 Março 2010

O Messias de Händel: um oratório cristológico

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Graziela Wolfart

Ao analisar o oratório The Messiah, considerado a obra mais famosa do compositor alemão Georg Friedrich Händel, Ney Brasil Pereira, padre e professor de exegese, a qualifica como uma obra que brota da fé “iluminada por textos bíblicos admiráveis e admiravelmente bem escolhidos, que certamente alimenta a fé de quem tiver a graça de não apenas escutá-lo uma vez, mas aprofundá-lo”

 

Ao citar as principais características do oratório O Messias, de Georg Friedrich Händel, o padre, professor e músico, Ney Brasil Pereira, o define como “um oratório cristológico, todo centrado na pessoa e no mistério do Cristo. Obra musicalmente perfeita, que continua a impressionar-nos ainda hoje, depois de quase três séculos de sua composição”. Para ele, as principais características musicais do Messias são “o perfeito equilíbrio entre orquestra, por sinal de modestas dimensões, os corais e os solos, naquele estilo barroco típico de Händel, que o diferencia, por exemplo, de Johann Sebastian Bach”. Pe. Ney também explica, na entrevista, por e-mail, à IHU On-Line, porque o profeta Isaías é buscado predominantemente por Händel na referida obra: “Isaías é o profeta da ‘santidade’ de Deus, isto é, da sua transcendência, que insiste no domínio divino da história humana e no fato de que Deus, através do Messias, realiza misteriosamente seus desígnios”.

Uma audição comentada do Oratório Der Messias, HWV 56, de Georg Friedrich Händel, será realizada no próximo dia 26 de março, na Unisinos, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU, das 8h30min às 12h. A atividade será conduzida pela Profa. Dra. Yara Caznok, da UNESP, e integra a programação de Páscoa do IHU 2010.

Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Ney Brasil é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, e especialista em Musicologia pela Duquesne University, Pittsburgh. É capelão das Instituições Penais de Florianópo¬lis, regente do Coral “Santa Cecília”, da Catedral Metropolitana de Florianópolis, além de membro da Pontifícia Comissão Bíblica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que se pode falar do contexto teológico das referências bíblicas usadas por Händel  na obra Messias?

Ney Brasil Pereira - O que chama a atenção é a essencialidade das referências bíblicas, nada prolixas, sem qualquer paráfrase, expressando perfeitamente os três momentos do mistério do Messias: 1) seu anúncio e sua vinda, culminando no Natal e na doçura da sua presença e ensinamento; 2) sua paixão, anunciada por João Batista e profetizada por Isaías e outras passagens do Antigo Testamento, que expressam a obstinação humana em rejeitá-lo, mas culminando no famoso Aleluia, que proclama o domínio supremo de Deus e do seu Cristo, concluindo a 2ª parte; 3) sua ressurreição e triunfo, começando com a ária do Soprano que canta a certeza da vitória sobre a morte, seguindo-se vários textos do Novo Testamento, até os coros finais do “Digno é o Cordeiro” e do magnífico “Amém” conclusivo.

IHU On-Line - Como se compõe o cenário teológico-eclesial e social em que Händel trabalhou para essa composição?

Ney Brasil Pereira - Sem ser especialista no assunto, posso dizer que Händel compôs no contexto de uma Inglaterra em ascensão política e comercial, no final da primeira metade do século XVIII (1742), uma Inglaterra anglicana, isto é, valorizadora da ênfase na Bíblia, ênfase trazida pela Reforma, e ao mesmo tempo vivendo já o clima ilustrado do iluminismo.

IHU On-Line - Quais as principais características do Messias?

Ney Brasil Pereira - É um oratório cristológico, todo centrado na pessoa e no mistério do Cristo. Obra musicalmente perfeita, que continua a impressionar-nos ainda hoje, depois de quase três séculos de sua composição. As “principais características” musicais do Messias, a meu ver, são o perfeito equilíbrio entre orquestra, por sinal de modestas dimensões, os corais e os solos, naquele estilo barroco típico de Händel, que o diferencia, por exemplo, de Johann Sebastian Bach .

IHU On-Line - Por que Händel busca predominantemente Isaías? Qual a principal riqueza teológica desse profeta?

Ney Brasil Pereira - O motivo da predominância de Isaías é o motivo que levou também o Novo Testamento a privilegiar esse profeta, cujo livro contém, de fato, os textos mais significativos sobre o mistério do Messias. Quanto à “principal riqueza teológica desse profeta”, se fôssemos dar uma resposta para especialistas, seria complicado. De fato, o livro de Isaías não é de um único autor: o texto original, do século VIII antes de Cristo, foi crescendo, seguindo-se um “Segundo” e, ainda, um “Terceiro” Isaías, até chegarmos, no século IV antes de Cristo, aos 66 capítulos que hoje o constituem. Respondendo mais simplesmente, Isaías é o profeta da “santidade” de Deus, isto é, da sua transcendência, que insiste no domínio divino da história humana e no fato de que Deus, através do Messias, realiza misteriosamente seus desígnios.

IHU On-Line - Qual a importância de retomar esta obra em preparação à Páscoa? Qual o sentido atual do apelo “Consolai, consolai o meu povo”?

Ney Brasil Pereira - O Messias fica bem como preparação para a Páscoa, mas também como preparação para o Natal. A importância de retomá-lo está em dar o devido valor à excepcional riqueza bíblico-musical dessa obra. Quanto ao “Consolai”, a tradução em português poderia ser, melhor, “Confortai”. O sentido desse apelo, no início do capítulo 40 de Isaías, é o do encorajamento e estímulo a um povo oprimido (no caso, os exilados em Babilônia no século VI antes de Cristo), encorajamento e estímulo que continua a valer plenamente para nós neste turbulento início do terceiro milênio.

IHU On-Line - Qual a principal mensagem teológica que Händel passa com o Messias?

Ney Brasil Pereira - O Messias é uma obra que brota da fé, uma fé iluminada por textos bíblicos admiráveis e admiravelmente bem escolhidos, que certamente alimenta a fé de quem tiver a graça de não apenas escutá-lo uma vez, mas aprofundá-lo. A principal mensagem teológica, creio, é a resposta que essa composição dá ao próprio apelo inicial. É que o “confortai” não fica apenas ressoando no ar. O próprio Deus vem “confortar” o seu povo, a humanidade. E o faz, exatamente, através do seu Filho, o Messias.

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