Edição 248 | 17 Dezembro 2007

Feminismo e retorno ao Jesus histórico

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As contribuições da teologia feminista e as particularidades da teologia protestante na visão de Jesus são alguns dos temas abordados pela teóloga protestante francesa Elisabeth Parmentier. Segundo ela, as teólogas feministas quiseram, acima de tudo, libertar a imagem de Jesus da insistência na metáfora do Filho – salvador masculino –, valorizando os aspectos de Jesus Cristo que dele fazem um ser humano aberto e acessível às mulheres, apresentando mesmo características femininas. “Não se pode limitar Jesus Cristo a uma causa ou a uma orientação específica”, defende.



Elisabeth Parmentier é professora de Teologia Prática, na Faculté de Théologie Protestante Strasbourg. Defendeu sua tese de doutorado, intitulada  Les filles prodigues. Éléments pour un dialogue entre les théologies féministe et la théologie classique, em 1996, na Faculdade de Teologia Protestante de Strasbourg. É autora de Les filles prodigues. Défis des théologies féministes (Genève: Labor et Fides, 1999).

IHU On-Line - Quem é Jesus? O que diria dele com base em sua reflexão teológica?
Elisabeth Parmentier -
A tradição protestante vê em Jesus Cristo a salvação de Deus, aquele que os profetas esperavam e que vem mostrar à humanidade a proximidade de Deus, mesmo com todas as dificuldades do ser humano: a finitude, a morte, a solidão, a busca do sentido da vida. Jesus Cristo é o dom que torna o humano mais humano, o dom absoluto de Deus, sua afirmação, comprovando, uma vez por todas, que ele quer a vida em plenitude para cada um(a). As Igrejas protestantes insistiram em Jesus Cristo não como modelo do humano a ser seguido, mas como salvador que é oferecido à humanidade e que cumpre o que o humano não pode cumprir por si mesmo: conduzi-lo através da morte para a vida eterna. Se a Reforma insistiu principalmente na morte e ressurreição de Jesus Cristo, porque sua preocupação era anunciar aos humanos o dom da vida nova em Jesus Cristo, a teologia atual revalorizou a vida e a mensagem de Jesus, respondendo também a uma busca mais atual, que é aquela do sentido da vida.

IHU On-Line - Qual é a particularidade da reflexão feminista sobre Jesus o Cristo?
Elisabeth Parmentier -
As teólogas feministas quiseram, acima de tudo, libertar a imagem de Jesus da insistência na metáfora do Filho – salvador masculino –, valorizando os aspectos de Jesus Cristo que dele fazem um ser humano aberto e acessível às mulheres, apresentando mesmo características femininas. Elas puseram realmente em evidência a maneira pela qual Jesus, nos Evangelhos, se dirige às mulheres, discute questões teológicas com elas (por exemplo, com a Samaritana, ou com Marta junto à tumba de Lázaro). Embora ele não tenha escolhido nenhuma mulher para fazer parte dos 12 discípulos, muitas mulheres o seguiram, como o precisa o evangelista Lucas. As teólogas feministas insistiram também na importância das mulheres na manhã de Páscoa e das mulheres fundadoras das primeiras comunidades cristãs. A Boa Nova da salvação em Jesus Cristo deu ao cristianismo um novo sopro, portador das emancipações do ser humano. Jesus Cristo restitui às mulheres a esperança da liberdade e do respeito à sua integridade, embora ele não tenha sido um feminista. Estas teólogas também utilizaram Jesus Cristo para fundamentar sua dignidade feminina de seres humanos criados à imagem de Deus de maneira igual aos homens. Algumas teólogas feministas tentaram orientar o retrato de Jesus numa direção específica, por exemplo, a de Jesus amigo das mulheres, ou de Jesus Homem holístico, Jesus Sabedoria de Deus (imagem feminina), mas todas essas construções são demasiado restritivas ou demasiado poéticas ou idealizadas. O ponto comum feminista foi a rejeição do dogma de Calcedônia, por causa da recusa da natureza divina de Jesus Cristo, o que também privava a esperança cristã de uma dimensão do além da vida eterna. A tentativa feminista foi o retorno ao Jesus histórico e a construção de um Jesus liberal, feminista, ideal, ou a construção, mais marginal, de um Jesus esposo ou amante, que permitia confortar as posições feministas. Não se pode limitar Jesus Cristo a uma causa ou a uma orientação específica.

IHU On-Line - Em que medida a teologia feminista contribui para ampliar os modos de falar sobre Deus?
Elisabeth Parmentier -
As teólogas feministas, efetivamente, favoreceram outras possibilidades de falar a propósito de Deus, insistindo numa Trindade próxima dos humanos e afastando-se da Trindade inteiramente fundada sobre a imagem masculina do Pai, do Filho e do Espírito. Elas quiseram, acima de tudo, aproximar Deus da humanidade e mostrar que Deus não é intocável e imutável, mas que ele participa do sofrimento do mundo e da humanidade. Elizabeth Johnson , em She ho is: The mystery of God in feminist theological Discourse (New York: Crossroad, 1992) define um conceito trinitário baseado no Deus-Sabedoria, Cristo-sabedoria de Deus, Espírito-sabedoria, que comporta elementos femininos. Carter Heyward  insiste na idéia que Deus é tocado pelo sofrimento e que Deus necessita dos humanos para salvá-los! Ela fundamenta mesmo o verbo “to god”, tornar-se divino, pois os humanos devem, pelo amor, ajudar Deus no mundo. As teólogas feministas, contrariamente à teologia clássica, consideram os humanos como co-criadores e colaboradores de Deus, e mesmo como devendo agir em lugar de um Deus considerado muitas vezes como pouco presente. Na teologia “womanista”, que valorizou fortemente a imagem da maternidade, a mesma está ligada ao engajamento de Deus na defesa da vida e da justiça (é o paralelo feminista à teologia masculina, centrada no Êxodo como libertação das alienações). O engajamento de Deus pela justiça e o direito tem sido valorizado em todas as reflexões feministas sobre o divino.

IHU On-Line - Como a senhora aborda o diálogo de uma teóloga feminista e a teologia tradicional na imagem do filho pródigo?
Elisabeth Parmentier -
A parábola do filho pródigo  é surpreendente, porque ela fala de uma casa com um pai e dois filhos, mas não há nenhum personagem feminino. No entanto, numa casa se esperaria uma mãe, ou pelo menos uma servente. Por que elas não estão lá? Mais estranha ainda é a atitude do pai, que nada tem daquela de um macho ou de um tirano doméstico. É, de fato, um pai-mãe, que tem todas as características dos dois progenitores ao mesmo tempo. Mas, infelizmente, ele não é nem compreendido verdadeiramente pelo filho mais novo, que o deixa, nem depois pelo filho mais velho, quando ele acolhe seu irmão. O fim da história fica em aberto, porque não se sabe se o filho mais velho entrará para participar da festa com seu irmão. Algumas teólogas feministas retomaram a imagem da casa para falar da Igreja cristã, dizendo que elas são o filho mais novo que deixa a casa da Igreja, porque elas são aí invisíveis, não consideradas, que sua palavra não é aí levada a sério. O filho mais velho, nesta idéia, são os teólogos masculinos, os homens de Igreja e à sua frente os patriarcas, o Papa, os chefes da Igreja, que não chegam a compreender o que querem as mulheres. Foi a época em que numerosas mulheres manifestaram sua revolta, notadamente na Igreja católica. O ideal, nesta imagem, seria que as mulheres pudessem reencontrar a casa da Igreja como fazendo parte de sua herança. O trabalho feminista consistiu numa retomada crítica da herança cristã, e é regozijante constatar que as teólogas não rejeitam tudo do cristianismo, mas retomaram o que era fundamental para revalorizar o sentido do Evangelho num mundo que tem sede de justiça e de paz. Como a parábola tem por objetivo o projeto de reconciliação, penso que é importante recordar sempre que a teologia feminista, mesmo que ela seja agressiva ou que tenha demolido muitas certezas, tem em vista a reconciliação dos homens e das mulheres, do humano e do cosmo, do humano e de Deus.  

IHU On-Line - O que considera serem os avanços mais significativos para abordar Jesus na pesquisa científica?
Elisabeth Parmentier -
A pesquisa do Jesus da história foi retomada diversas vezes em períodos diferentes da história. A primeira pesquisa histórico-crítica, do século XVIII ao século XX, concluiu, na tomada de consciência, de que não é possível reconstituir o que foi o “Jesus da História”, o homem de Nazaré, salvo por aquilo que os textos nos dizem. O interesse deste procedimento foi de mostrar que é preciso superar uma imagem fundamentalista de Jesus e de suas palavras, pois o que está escrito nos evangelhos já é a palavra das primeiras comunidades cristãs, e então já é uma interpretação. Mas isto não significa que se perca a fé ou que não se tenha mais acesso à verdade sobre Deus. Ao contrário, sabe-se que se tem este acesso através dos testemunhos dos fiéis, das experiências de fé já muito antigas e que requerem sempre sua reatualização. Outra investigação científica importante sobre Jesus foi, no século XX, a reflexão sobre Jesus, o judeu. O retorno às raízes do judaísmo é essencial no cristianismo para o diálogo judaico-cristão contemporâneo, que deve evitar que continue a se desenvolver um anti-judaísmo latente. A pesquisa feminina sobre Jesus insistiu em sua profunda humanidade e ultrapassou, portanto, a idéia de uma espécie de herói intemporal.

IHU On-Line - Quais são os principais desafios que o diálogo com a modernidade apresenta ao fazer teológico protestante?
Elisabeth Parmentier -
As igrejas protestantes não são tão atemorizadas pela modernidade quanto outras igrejas, porque a própria Reforma teve o cuidado de entrar em diálogo com o humano em sua vida cotidiana. A grande dificuldade atual vem, portanto, do fato de que as igrejas protestantes são mais vítimas do que outras da modernidade e, portanto, da secularização e da descristianização. Elas não desenvolveram os ritos e a insistência na Igreja, mas uma teologia mais intelectual, mais orientada à complexidade do pensamento. O protestantismo sempre rejeitou a piedade popular e suas práticas, por causa do temor de que a superstição viesse obscurecer a verdadeira fé em Cristo. As igrejas protestantes também não obrigavam os paroquianos a irem ao culto, porque o culto não devia ser uma “obra”, mas a graça e o dom de Deus. Mas, com isso, muitos paroquianos não se sentem verdadeiramente engajados nas Igrejas e são mais felizes em casa, lendo a Bíblia em seu recanto. A noção comunitária precisa ser redescoberta. Mas a modernidade é um desafio para todas as Igrejas: podem elas ainda fazer escutar o apelo de Deus e a Boa Nova da salvação num mundo que crê poder viver sem Deus?

IHU On-Line - Quais são os elementos que deve ter uma cristologia enriquecida pela teologia feminista?
Elisabeth Parmentier -
O acento feminista a considerar é o empenho por uma libertação: a salvação em Jesus Cristo liberta das escravidões e oferece uma figura de identificação para os pobres e os oprimidos. Jesus representa também a possibilidade de sair dos fechamentos dogmáticos da cristologia tradicional sobre as duas naturezas. Mas a insistência feminista sobre Jesus somente homem, e não Deus, não me satisfaz, pois neste caso Jesus foi somente um homem como os outros e não Deus vindo em auxílio e para o meio dos seus. Assim, pessoalmente me atenho muito à dupla natureza do Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, e, desta forma, ao acento posto em sua morte e ressurreição “para nós”, pois este é o clamor do próprio Deus contra as injustiças e contra a própria morte. Este é o alerta que Deus não é um grande pai impotente, mas o Deus do poder e da criação nova, que do nada oferece uma nova criação.

Somente as feministas latino-americanas valorizaram também a ressurreição: Ivone Gebara  não se satisfaz com a insistência na morte e no sofrimento de Jesus Cristo, sobretudo no contexto católico do Sul. Ela insiste no fato de que a antropologia feminista deve partir do corpo como lugar de salvação, e compreende o corpo não só individualmente, mas também como corpo social, comunitário, cultural: o corpo todo deve ser realçado. Ela sublinha a importância da “energia” que suscita o Cristo ressuscitado entre as mulheres (empowerment). A fé cristã deve, hoje em dia, soerguer e consolar os crentes e lhes permitir engajarem-se por um mundo mais amante, a partir do amor recebido de Deus em Jesus Cristo.

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