Edição 220 | 21 Mai 2007

Política: sai a ética, entra o espetáculo

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IHU Online

Política: sai a ética, entra o espetáculo é o tema que apresentará O Prof. MS. Sérgio Trein nos Encontros de Ética da segunda-feira, 28 de maio.

Sérgio é professor no curso de Publicidade e Propaganda na Unisinos e Mestre em Comunicação e Práticas Sociopolíticas pela PUCRS. Trabalhou como redator em agências como Duda Mendonça, Pública Comunicação, GlobalCom e MPM. Foi também coordenador estratégico de diversas campanhas políticas eleitorais vitoriosas em 2004, tendo atuado em agências especializadas de marketing político.

Encontros de Ética é uma atividade promovida pelo IHU, aberta a toda comunidade acadêmica, tem entrada franca e acontece das 17h30min às 19 horas, na sala 1G119 do IHU. Confira abaixo a entrevista concedida por e-mail IHU On-Line.

IHU On-Line - Como a referência à ética de princípio e à ética de responsabilidade se aplica ao Brasil?
Sérgio Trein -
É interessante o que se observa, hoje, no Brasil, a respeito da ética. Na verdade, ela virou uma espécie de dom, de qualidade de determinadas pessoas. No entanto, o princípio da ética deve estar presente em todas as pessoas. Isso não deveria ser discutido. O mesmo acontece quanto à questão da responsabilidade. Especificamente no campo político, na última eleição viu-se um quadro muito curioso. Em função das denúncias de corrupção, ocorridas em 2005, o discurso de todos os candidatos foi pautado pela ética. Todos ficaram afirmando que eram éticos, quando a ética deveria ser um princípio natural de um político – e de todos nós. O problema é que os constantes casos de denúncia estão criando um quadro novo e invertendo a lógica da ética. Por isso, eu digo que ela virou uma qualidade especial, como a de alguém que toca piano ou escreve poesia. Sem falar que ser ético virou, de certa forma, motivo de deboche. É característica de quem parece certinho demais.

IHU On-Line - A expressão ética na política está em destaque no Brasil desde o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Como o senhor entende a exigência de “ética na política” nos dias de hoje no Brasil?
Sérgio Trein -
É como eu referi na pergunta anterior. Exige-se ética na política, quando, na verdade, não deveríamos nos preocupar com isso. Especialmente no meu trabalho, procura-se desenvolver muito a questão da oratória, da postura, do carisma, da linguagem num candidato. Ou seja, a forma como ele deve se apresentar ao público. Entretanto, assim como qualquer um destes itens, a ética parece ter virado algo a ser conquistado. Agora, claro, existem muitos políticos sérios, éticos e honestos. Há, também, uma questão de espetacularização nisso tudo. A distância e a ausência das pessoas, em relação aos espaços públicos de discussão, como as Câmaras de Vereadores e Assembléia Legislativa, faz com que a grande maioria não conheça os trabalhos dos políticos. Elas ficam sabendo apenas o que é apresentado na mídia. E, quase sempre, o que é apresentado na mídia são os problemas, as denúncias, os maus comportamentos. Sendo assim, há uma generalização e a criação da imagem de que todo político não tem ética.

IHU On-Line - As instituições dão sinais evidentes de que existe uma crise ética no Brasil no campo da política tradicional. Se isso realmente está ocorrendo, que efeito pode provocar no futuro da política?
Sérgio Trein -
Todas as pesquisas atuais, sobre o grau de satisfação das pessoas, em relação às instituições, mostram que os políticos e os partidos ocupam os últimos lugares. Seguidamente, há candidatos eleitos por meio do chamado "voto de protesto". É inegável o distanciamento que as pessoas têm dos espaços públicos. Mas maior ainda é o distanciamento que os políticos têm da população. Eles deveriam estabelecer uma comunicação pública melhor, enfatizando os trabalhos, os projetos. Com isso, poderiam aproximar-se mais da vida das comunidades. Porque, hoje, a única coisa que chega à população são os problemas, as denúncias e os desvios de comportamento. Essa falta de aproximação leva à desconfiança, à insatisfação, à rejeição. E de nada adianta a população se virar contra a política. Esta é uma questão interessante, pois a política é que nos levou a esta situação. E é somente através dela que o país sairá desta crise ética.

IHU On-Line - O debate sobre ética na política não está hoje muito centrado apenas em corrupção? Não há um reducionismo? E, mais do que isso, não há uma banalização do próprio termo ética?
Sérgio Trein -
Com certeza. A ética, hoje, está bastante ligada à questão da corrupção. Entretanto, ela envolve tudo. Eu sempre gosto de dar o exemplo daquelas pessoas que vivem criticando o governo. Para elas, nenhuma administração presta, nenhuma agrada. No entanto, estas mesmas pessoas são aquelas que jogam cascas de frutas no chão, cometem pequenas infrações. E isso também é uma questão de ética. São conceitos todos muito próximos: ética, cultura, educação, sociabilidade. Especialmente no campo da política, precisamos considerar algo muito importante: os maus políticos não estão lá porque chegaram sozinhos. Alguém votou neles. Ou seja, a falta de ética não está na política, e sim, talvez, na própria sociedade.

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