Edição 220 | 21 Mai 2007

“O pensamento franco é a emancipação da autonomia”

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IHU Online

De acordo com o filósofo Santiago Zabala, “o pensamento fraco é a emancipação da autonomia”, e esta “só poderia ter aparecido depois da desconstrução da metafísica e com a filosofia hermenêutica”. As declarações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Em sua opinião, não estamos num sistema democrático, como já apontaram Chomski e Lippman, mas numa poliarquia, “onde um pequeno setor da população controla as tomadas de decisões essenciais para o sistema econômico, político e cultural da nação ou região. Espera-se que o restante da população em nossa poliarquia seja passivo e aquiescente, deixando a ‘democracia’ por conta da elite. Em outras palavras, nossos chamados países democráticos civilizados não passam de ‘impérios do capital’ para os capitalistas, como os chamou o distinto filósofo político canadense Ellen Meiksins Wood”.

Zabala, discípulo intelectual do filósofo italiano Gianni Vattimo e seu colaborador, é o conferencista na noite de 22-05-2007, às 20h, sob o título Autonomia do indivíduo e pensamento fraco. Os desafios para uma ética sóciopolítica. Graduado em Filosofia pela Universidade de Turim, em 2002 obteve o título de mestrado com a orientação de Vattimo. Em 2006, cursou o PhD na Pontifical Lateran University of Rome. Recentemente, foi convidado para dar conferências nas Universidades de Montreal, Georgetown, Roma “La Sapienza” e Deusto em Bilbao. É membro da American Philosophical Association (APA) e da Canadian Philosophical Association (CPA), bem como da Society for Phenomenology and Existential Philosophy (SPEP).

Escreveu os seguintes livros: Filosofare con Ernst Tugendhat. Il carattere ermeneutico della filosofia analítica (Milan: Franco Angeli Editore, 2004); The Hermeneutic Nature of Analytic Philosophy. Introducing Ernst Tugendhat (New York: Columbia University Press, 2007); e The Remains of Being (New York: Columbia University Press, 2008 - no prelo). Com Vattimo, é co-autor de From Within. Deconstructing Capitalism through Globalization (New York: Columbia University Press in 2008 - no prelo) e Nichilismo e Religione (Rome: Valter Casini, 2005). Editou inúmeras obras, escreveu diversos capítulos de livros e artigos especializados. Para maiores informações, consulte o site www.santiagozabala.com.

IHU On-Line - Como o “pensamento fraco” de Vattimo pode nos auxiliar a compreender e explicar a autonomia no século XXI?
Santiago Zabala -
O “pensamento fraco” de Vattimo pode fazer mais do que nos ajudar a entender e explicar a autonomia do ser humano no século XXI: ele é o pensamento do século XXI. O “pensamento fraco” de modo algum constitui uma fraqueza do pensamento como tal. Ocorre que o pensamento, por não ser mais demonstrativo, e sim edificante, tornou-se mais fraco nesse sentido restrito. Em nossa teoria da fraqueza, o papel do filósofo não se derivaria do mundo “como ele é”, mas do mundo visto como produto de uma história de interpretação ao longo de toda a história das culturas humanas. Esse esforço filosófico enfocaria a interpretação como processo de enfraquecimento, um processo em que o peso das estruturas objetivas é reduzido. (Essa é também a razão pela qual dei a um de meus livros o título Weakening Philosophy: http://mqup.mcgill.ca/book.php?bookid=2028).) A filosofia não pode se considerar nem como conhecimento das estruturas externas, universais do Ser nem como conhecimento das estruturas externas, universais da episteme, pois ambos são desfeitos pelo processo filosófico do enfraquecimento. Isto é, depois da crítica da ideologia, depois da crítica nietzscheana da noção das “coisas como elas são” e depois de Freud, não podemos mais considerar o Ser uma espécie de evidência incontroversa que possa ser apreendida por nós. Para ser mais específico: com Marx, Nietzsche e Freud, somos levados a duvidar de tudo o que nos parece o mais óbvio. Se instituições como o papado, a CIA, os jornais, a mídia, definem verdades objetivas, a filosofia deve fazer exatamente o contrário. Ela precisa mostrar que a verdade é conversacional. É dentro de arcabouços conversacionais que as preferências (em contraposição às verdades objetivas) podem ser delineadas. É na conversação que as interpretações preferenciais podem ser propostas – e as interpretações são sempre observações sobre a história. Dentre todas as filosofias presentes no debate contemporâneo, o pensamento fraco é a única que corresponde à pluralidade de cosmovisões na qual vivemos, porque ela insiste no reconhecimento de sua pluralidade. Em minha conferência do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de Indivíduos? espero explicar como a autonomia só poderia ter aparecido depois da desconstrução da metafísica e com a filosofia hermenêutica.

IHU On-Line – Se, por um lado, a autonomia dá ao homem um leque de possibilidades, por outro, existe o perigo da apatia frente a essa situação. Como o senhor entende a vontade de poder em consonância com a autonomia?
Santiago Zabala -
Não penso que a possibilidade da autonomia implique um risco, porque sempre estamos situados num certo âmbito que determina nossa vida. O único risco é o de nem sequer reconhecer a possibilidade da autonomia. Acho que isso ocorre muito na política. Muitas pessoas crêem que a CNN, a Fox News e a BBC efetivamente nos informam e acabam acreditando em qualquer coisa que essas redes discutam em seus programas retóricos. Se a gente não se emancipa desses “fabricantes do consentimento”, como Chomsky  e Hermann os chamam, não há liberdade. Aqui na Itália, ainda estamos sob o chamado “regime Berlusconi ”, porque ele ainda tem controle sobre a maioria das redes de televisão e a maioria das pessoas sequer sabe que votou em seu próprio inimigo. O inimigo dos cidadãos é essa informação, porque ela também os direciona a votar de uma determinada forma ou, pior ainda, os persuade de que eles vivem sob um sistema democrático. Tomemos como exemplo a primeira viagem que Sarkozy  fez no dia seguinte à sua eleição para a presidência: ele não saiu realmente de férias num iate de 70 metros de comprimento. O que ele realmente fez foi participar de uma reunião com o proprietário desse iate, que, por coincidência, é o bilionário da mídia Vincent Bollore, porque eles provavelmente tinham muito para falar agora que o poder está em suas mãos. Dessa forma, o pensamento fraco é a emancipação da autonomia, porque nos ajuda a compreender ou, ao menos, duvidar de nossas próprias instituições. Mas, contrariamente a outras filosofias, ele faz isso sem violência.

IHU On-Line - Você concorda que a democracia é a tradução política da autonomia? Dado o comportamento apático dos eleitores, ou a obrigatoriedade em votar (como no Brasil), ainda se pode acreditar que essa aproximação expressa a realidade?
Santiago Zabala -
Penso que já respondi essa pergunta acima, mas permita-me acrescentar que nós não estamos num sistema democrático! Como explicou Chomsky – e, antes dele, Walter Lippman  –, vivemos numa poliarquia. Temos uma poliarquia onde um pequeno setor da população controla as tomadas de decisões essenciais para o sistema econômico, político e cultural da nação ou região. Espera-se que o restante da população em nossa poliarquia seja passivo e aquiescente, deixando a “democracia” por conta da elite. Em outras palavras, nossos chamados países democráticos civilizados não passam de “impérios do capital” para os capitalistas, como os chamou o distinto filósofo político canadense Ellen Meiksins Wood. Somos simplesmente controlados através da informação e só nos restam margens muito pequenas de protesto. Nossas democracias permitem que a mídia pública sirva a fins antidemocráticos. A única tradução da autonomia, por enquanto, é o reconhecimento dessas falsas informações (como, por exemplo, a justificativa para invadir o Iraque) ou falsos estados (como, por exemplo, o governo Bush, que patrocina terroristas no globo inteiro), o que pode ocorrer através da globalização das chamadas informações alternativas na internet ou do maravilhoso Fórum Social Mundial que tem lugar aqui no Brasil.

IHU On-Line - Tanto em Heidegger quanto em Nietzsche é refutado o conceito de fundamento (Grund) no qual se assenta tanto o ser, quanto o pensamento. Com a morte de Deus constatada por Nietzsche, o homem recebe poderes e responsabilidades incomensuráveis. Partindo desses pressupostos, que tipo de ética sociopolítica pode surgir?
Santiago Zabala -
Lembremos, primeiramente, que “Deus está morto!” é um anúncio, não uma reivindicação. Ele não significa que Deus não exista, mas que nossa experiência foi transformada de tal maneira que não concebemos mais verdades objetivas últimas, e agora só respondemos a apelos, histórias ou até anúncios. Quando Nietzsche exige múltiplos deuses, podemos entender isso como uma exigência de um politeísmo de valores. Portanto, a conclamação não é por uma sociedade sem valores, mas por uma sociedade sem valores supremos e exclusivos. É por isso que Vattimo considerou um escândalo que o presidente Chirac decidisse não permitir que alunas muçulmanas usassem véus em escolas alguns meses mais tarde, porque viu nesse ato “sinais ostentosos de proselitismo religioso” e “algo agressivo”. Em 4 de março de 2004, o jornal francês Libération publicou uma entrevista com Vattimo feita por Robert Maggiori, na qual Vattimo explicou claramente que “a secularidade significa libertar, não proibir” e que “um estado é secular na medida em que não adota uma filosofia que exclua as religiões e suas manifestações, mas, pelo contrário, possibilite e permita que muitos símbolos religiosos se manifestem sem limites”. De acordo com esse modelo, as culturas são conversações complexas entre concepções variantes do mundo. Tal diálogo pode, mas não deve, transformar-se num choque dogmático entre verdades em conflito. Quando os EUA e seus aliados exterminam 600 mil iraquianos, acho difícil acreditar que o tenham feito com base numa “opinião”. Suas ações estavam, pelo contrário, baseadas numa “verdade objetiva”, num “fato científico” (“armas de destruição em massa”, disseram eles) – e quando uma conversação começa a se deteriorar num choque entre dogmas objetivos, o “pensamento fraco” tem um papel peculiar a desempenhar.

IHU On-Line - Vattimo propõe o uso do pensamento de uma forma positiva e construtiva em relação ao debilitamento do ser. Em sua opinião, quais são os limites e possibilidades que o niilismo oferece ao sujeito pós-moderno?
Santiago Zabala -
Isso é algo que realmente vou expor em minha conferência na próxima semana. Agora vou dizer apenas que o niilismo não é a negação de valores, mas do valor.  Ele está todo centrado na idéia de abolir a hegemonia. Se interpretarmos os valores diante do pano de fundo do niilismo, como deveríamos, o importante será o que restar desses valores, e não os valores em si. Essa é também a tese que defendo em meu livro que será publicado ano que vem pela Columbia University Press sob o título The remains of being. Vattimo nos ensina basicamente a possibilidade positiva do niilismo: o que perdemos na dissolução da metafísica é a idéia de que há um certo e um errado na natureza. Isto é: dada a dissolução da metafísica, o único princípio supremo a ser proposto, tanto na ética quanto no direito, é a redução da violência. De acordo com Heidegger, a metafísica precisa ser rejeitada não só porque ela produz uma estrutura social totalitária e excessivamente racionalista, mas também porque a idéia do Grund, do fundamento último, é uma idéia autoritária. A noção da evidência primeva, de um eureca!, de um momento em que eu tenha atingido a base, de um fundamento em que não se podem fazer perguntas ou não há necessidade de fazê-las – esse estado em que há carência de perguntas - não é o produto final da violência, mas sua origem. Precisamos superar essa mentalidade hegemônica.

IHU On-Line - Em que aspectos o niilismo ativo se constitui numa possibilidade de construção de novos modos de política? Por outro lado, se o niilismo reativo vattimiano significa a construção de máscaras como a religião, a moral, a política e a estética para encobrir o nada, como pensar uma revitalização da política? A política ainda é relevante em nossa sociedade?
Santiago Zabala -
O niilismo ativo se refere às possibilidades que o fim da metafísica produz. Por exemplo, o fato de que alguns valores ascendem e outros perecem é, muitas vezes, considerado um declínio, quando, pelo contrário, é uma emacipação de nossa civilização. Nossa civilização não está se encaminhando para um futuro melhor, mas está tentando se distanciar de erros do passado. É claro que há alguns abusos na memória, ou seja, alguns acontecimentos recebem espaço demais e outros são completamente esquecidos. As origens do pensamento fraco (que descrevi em Weakening philosophy) consistiam em falar à nova esquerda democrática, e a preocupação de Vattimo era mostrar como os leninistas jovens, radicais e revolucionários de esquerda ainda tinham uma dívida de gratidão com pressupostos metafísicos fortes. A possibilidade da emancipação política só pode provir do reconhecimento da conexão existente entre a violência e a metafísica. Vattimo me conta, muitas vezes, que ele e seu mestre Luigi Pareyson, o mais importante filósofo desde Croce  na Itália, sempre diziam um ao outro que eles eram muito mais revolucionários do que a revolução estudantil de 1968, porque eles estavam lendo Heidegger, lendo, portanto, um filósofo que tentou superar a metafísica objetiva, que tantas vezes deu origem à violência. O pensamento fraco se tornou não apenas uma resposta à violência do terrorismo de 1968. É claro que atualmente a situação é muito diferente: estamos vivendo num mundo ditado pelos EUA, mas, ainda assim, o pensamento fraco é a melhor resposta que podemos dar à violência e discriminação. Quanto a todo o projeto de Hardt  e Negri, exposto em Império e Multidão , tenho em relação a ele a mesma objeção levantada por Noam Chomsky, a saber, por que eles precisavam dizer de uma maneira complicada o que se pode dizer de uma maneira mais fácil? Tenho a impressão de que eles não só não representam a chamada multidão, mas tampouco querem ser entendidos por ela e por isso tornam seu livro tão complicado. Esse é um velho jogo que os intelectuais adotam para ganhar prestígio e poder. Em contraposição a essa abordagem, Vattimo e eu estamos atualmente trabalhando num livro sobre política intitulado From within [A partir de dentro], em que esperamos mostrar como o socialismo é o que se apresenta quando se começa a criticar as desigualdades do capitalismo.

IHU On-Line - É possível estabelecer uma relação direta entre a “fragmentação” do sujeito, fato tipicamente pós-moderno, com a morte de Deus e o niilismo? Por quê?
Santiago Zabala -
A fragmentação do sujeito é a morte de Deus. O Deus que morreu é aquele que nós achávamos que poderia nos dar segurança em relação à nossa própria independência, contingência e até temor do diabo. A criação de um mundo tecnologicamente avançado, ao ponto de atingir a superpopulação (já que a ciência está nos salvando da morte), nos permitiu crer em nossas capacidades sem temor. As únicas pessoas que não acreditam na morte de Deus são as que se converteram, mas quando pensamos que Bush crê verdadeiramente, temos de imaginar que a conversão dele foi um infortúnio absoluto para o mundo, levando em consideração a maneira como ele usa a religião politicamente.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a relação ética pós-moderna x individualismo? Corremos o risco de tornar sinônimos a autonomia e o individualismo?
Santiago Zabala -
Eu realmente não creio no “individualismo”. Será que somos realmente capazes de ser um indivíduo hoje em dia? Há duas maneiras de ver essa questão. Por um lado, após a desconstrução da metafísica (ou, o que é a mesma coisa, a morte de Deus), somos indivíduos autônomos; por outro lado, essa mesma desconstrução produziu um mundo de pluralidades, de diferentes possibilidades que permitem a todos nós conhecer uns aos outros. Isso pode ser explicado se pensarmos na análise: todos nós procuramos Freud (para trabalhar em nossa autonomia), mas todos nós ainda o procuramos, isto é, nós todos vivemos juntos...

IHU On-Line - Sobre a questão da técnica, em específico, quais são os maiores problemas éticos que se colocam ao sujeito? A exacerbação da técnica e o hiperacionalismo podem destituir o caráter humanitário do agir?
Santiago Zabala -
A tecnologia é uma ferramenta útil que deveríamos usar para corrigir todos os erros que temos cometido em termos políticos e ecológicos. Não chega a ser uma surpresa o fato de os governos mais capitalistas do mundo serem também aqueles que se recusam a assinar o Protocolo de Kyoto. Nossa obrigação ética atual é reconhecer essas contradições porque nossas ações dependem de nossa individualidade autônoma: estamos conscientes de que somos independentes? Se somos, por que permitimos que os políticos arruínem nosso futuro? Mais importante do que a tecnologia, que é sempre uma ferramenta que pode ser tão prejudicial quanto útil, é o reconhecimento de que os partidos políticos acabaram e só os grupos independentes têm de assumir.

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