Edição 218 | 07 Mai 2007

Coração de cristal, de Werner Herzog

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IHU Online

O surgimento da ordem mercantil estará em debate neste sábado, 12-05-2007, sob a coordenação do Prof. Dr. José Luiz Bica de Melo, docente na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Para aprofundar o debate, primeiramente será exibido o filme Coração de cristal, do diretor alemão Werner Herzog. A atividade é parte integrante do evento Ciclo de Cinema e debate em Economia – O Capitalismo visto pelo Cinema.

Bica é graduado em Ciências Sociais Licenciatura Plena e Bacharelado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e especialista em Educação Popular pela mesma instituição. Cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com a tese Fronteiras abertas: o campo do poder no espaço fronteiriço Brasil-Uruguai no contexto da globalização. Com a Profª. Drª. Cecília Irene Osowski escreveu a obra O ensino social da Igreja e a globalização (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002). É autor de inúmeros artigos técnicos e capítulos de livros.

Sinopse: O capricho de um jovem aristocrata que deseja produzir o vidro-rubi, após a perda de sua fórmula secreta, chega a seduzir e assassinar uma criada, para utilizar seu sangue, inutilmente, nessa absurda indústria.  De todos os filmes de Herzog, esse é talvez, como pintura fílmica, o mais ambicioso estudo do imaginário romântico e também como mergulho na obsessão narcisista, com sua loucura e fatalidade. Trama encenada numa aldeia bávara do século XVIII, aprofunda a mescla entre o alto romantismo e os elementos cômico-satíricos estudados por Bakhtin em seu trabalho sobre a cultura popular na Idade Média.

Ficha Técnica
Título: Original: Herz aus glas
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento: 1976
Direção: Werner Herzog

IHU On-Line - Como o filme Coração de cristal retrata o surgimento da ordem mercantil?
José Luiz Bica de Melo -
O capitalismo mercantil, que em grandes linhas podemos situar entre os séculos XVI e XVIII, consistiu numa etapa de desenvolvimento e de transformações das forças produtivas situada entre a estrutura feudal e o capitalismo industrial. Com a intensificação do comércio, da consolidação da propriedade privada e da urbanização, houve uma aceleração das modificações das estruturas econômicas, sociais e de consumo fazendo com que houvesse a decadência dos senhores feudais ainda remanescentes e o surgimento do empresário capitalista e a transformação de muitos artesãos e aprendizes em trabalhadores assalariados. No interior do capitalismo mercantil, inicia-se o processo de consolidação do capital e do trabalho livre (livre no sentido de estabelecimento de contrato) como as molas propulsoras da nova ordem em construção: o capitalismo industrial que vai instalar-se de forma hegemônica no século XIX.

O meu ponto de vista é o de que Coração de cristal (Herz aus glas, de Werner Herzog, 1976, 97 min.) não retrata o surgimento da ordem mercantil, mas um “momento de tensão” da ordem mercantil. Coração de cristal é uma parábola de uma história que tem como lugar uma pequena cidade – quase uma aldeia – situada na Baviera do século XVIII. O filme retrata um tipo de economia e de relações sociais, até então baseada na produção do vidro-rubi (um tipo de artesanato valorizado), que tem no saber do mestre-artesão o elemento central de sua existência. Ora, com a morte do mestre vidraceiro que levara consigo a fórmula secreta, podemos dizer, a técnica, as relações econômicas e sociais da aldeia entram em crise terminal. O vidro-rubi era o sentido da vida (e da morte) da aldeia. A busca desesperada pela fórmula leva o dono da fábrica artesanal a buscar, desesperadamente, tal “segredo”. Ao invés de encontrá-lo – o que seria impossível -, o que se tem, nas profecias do vidente Hias – de forma alegórica – é a chegada da nova sociedade: a sociedade industrial, na qual não há mais lugar para mestres-vidraceiros e artesãos. A destruição da fábrica do vidro-rubi significa também o fim de ambas as classes: o dono da fábrica artesanal e dos artesãos.

IHU On-Line - Em que aspectos esse filme pode nos auxiliar a tecer uma compreensão sistêmica e crítica da realidade daquela época?
José Luiz Bica de Melo -
Coração de cristal não é um documentário; não tem a pretensão de documento histórico. Embora Werner Herzog seja um excelente documentarista, este é um filme de ficção. Mas é claro que toda ficção tem sua “âncora” na dimensão histórica. Podemos dizer que Coração de cristal – assim como outros filmes de Herzog – põe em questão a própria noção de realidade e de História. É claro que o filme nos possibilita uma crítica da sociedade do século XVIII, principalmente ao mostrar os elementos de violência e de prepotência, traços de servidão, estigmatização e também a loucura. Aliás, a loucura não é exclusiva daquela época, mas de todas as épocas. Penso que razão e loucura estão presentes em todo ser humano em todos os momentos da história. As lentes de Herzog capturam ficcionalmente esses elementos em um momento de crise social e histórica. É nesse sentido que a ficção auxilia o desvelamento da história – sempre repleta de brumas e sombras, em qualquer época que a tomemos.

IHU On-Line - Que metáforas essa produção estabelece e que podem ser entendidas como uma ponte em relação ao atual estágio capitalista?
José Luiz Bica de Melo -
Vivemos em uma época de hiperprodução e de hiperconsumo de bens materiais e simbólicos que transformam alguns em uma espécie de super-homem (poderíamos falar também de super-mulher?), com poderes de vida e de morte sobre outros homens e mulheres. Os poderes desmedidos, a produção desmedida, levando à ruína tanto a vida quanto a natureza da vida (me refiro à natureza como fonte da vida), têm estado presentes desde os primórdios do capitalismo. Um bom exemplo disso é a profecia do vidente Hias, de Coração de cristal, de que chegaria um tempo em que haveria uma nova guerra e um novo patrão muito mais cruel. A “ponte” por onde passariam segundo Hias, “um mentiroso e um ladrão”, e também sua luta de vida e morte com um urso invisível, são alegorias de um estágio do capitalismo difuso e globalizado em que em um tabuleiro de cartas embaralhadas sobra pouco espaço para a razão lúcida e crítica.

IHU On-Line - Você estabeleceria alguma proximidade entre a obsessão do jovem aristocrata para produzir o vidro-rubi e a obsessão capitalista que cerca as lavouras de cana, por exemplo, onde os trabalhadores cumprem tarefas à exaustão?
José Luiz Bica de Melo -
Uma proximidade possível seria quanto à exploração do trabalho. Tanto o jovem herdeiro dos fornos do vidro-rubi quanto um moderníssimo empresário do setor do açúcar e do álcool no Brasil sobrevivem graças ao trabalho do outro. Se o “jovem aristocrata” chega ao ponto de extrair o sangue de sua criada para tentar conseguir a “fórmula” do vidro-rubi, o moderno empresário rural lava as mãos pelas mortes nos canaviais, protegido em grande medida pelas leis trabalhistas. Em ambos os casos, e guardadas as distâncias entre realidade e ficção, tanto no vidro-rubi quanto no cristalino e doce açúcar ou no hoje venerado biocombustível, pingam gotas de sangue.

IHU On-Line - O fato de que os atores de Coração de cristal atuavam hipnotizados pode ser entendido como uma crítica do diretor em relação ao surgimento da ordem mercantil que faz as pessoas agir como autômatas? Por quê?
José Luiz Bica de Melo -
Todos os espaços de trabalho (material ou imaterial) fazem, em alguma medida, com que muitas pessoas realmente atuem como autômatos, incorporando rotinas brutais e desumanas. Não penso que isso seria próprio somente da ordem mercantil. Há, segundo meu entendimento, em todo trabalho degradante, uma espécie de “hipnose”. Bastante comentada e criticada esta técnica de Herzog empregada com todos os atores, à exceção do ator que interpreta o visionário Hias, o meu entendimento é o de que, fiel ao seu estilo de realçar – e ultrapassar – a idéia de limites, de alucinação e de loucura, rompendo com o princípio da realidade (o que podemos verificar em filmes como Nosferatu: o vampiro da noite, de 1978 e Fitzcarraldo, de 1981), o diretor emprega todas as possibilidades que a magia da imagem e da fantasia lhes faculta, pois para Herzog, como declarou certa vez “a verdadeira força do cinema reside em trabalhar com a realidade dos sonhos”.

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