Edição 218 | 07 Mai 2007

Perfil Popular - Eliane de Vargas

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

“Tudo o queríamos era ter uma vida boa e nós temos.” Eliane de Vargas é muito grata pela vida que tem. Lutando desde os 12 anos no mundo do trabalho, vive até hoje, aos 37 anos, da faxina. Casada, com dois filhos, vive na Cooperativa Bom Fim, em São Leopoldo. Lá aprendeu que a união traz muitos benefícios a todos. Com a casa própria há três anos, ela continua lutando para melhorar o loteamento. “Tenho aquela vontade, e eu vou fazer.” No Bom Fim, participa ativamente e ainda trabalha e cuida do filho de nove anos. Eliane acredita em um futuro promissor para a sua família e o Brasil. “Acho que temos um país abençoado.” Conheça um pouco mais de Eliane de Vargas na entrevista a seguir.

Começo
Oriunda de São Leopoldo, Eliane sempre trabalhou pelo que queria. Vinda de uma família de trabalhadores, desistiu dos estudos cedo para entrar no mundo adulto do trabalho. “A minha mãe quis dar estudo, mas eu nunca me interessei.” Com 12 anos, Eliane foi trabalhar como faxineira em uma casa de família no centro de São Leopoldo. “Eu queria trabalhar porque queria ter dinheiro e não gostava de estudar. Minha disse: ‘Pode ir. Se tu não quer estudar vai trabalhar.’”

Dificuldade
Eliane desistiu dos estudos na quinta série do Ensino Fundamental. Ela lembra que o irmão mais novo completou o Ensino Médio. “Às vezes penso em voltar, mas daí lembro das crianças. Se eu parar de trabalhar, não consigo dar o que os meus filhos precisam. Assim eu me viro e consigo.”

Trabalho
Eliane começou cuidando de duas crianças e limpando uma casa em São Leopoldo. “Eles eram pessoas muito boas. Me tratavam muito bem.”  Ela gostou do trabalho e passou três anos nessa casa. “Era uma convivência muito boa, com pessoas muito legais.”

Busca
Sempre em busca de algo melhor, Eliane saiu da casa onde trabalhava e rumou para outra casa, de uma professora, no bairro Jardim América, também em São Leopoldo. Com dificuldades financeiras, ela dedicou-se ao trabalho. “Comecei a trabalhar um dia em cada casa, assim eu ganhava mais. Eu fazia faxina. Em uma casa eu ganhava R$ 20,00, em outra mais um pouco. Se eu trabalhasse todo dia em uma casa seria só um salário.” Com o serviço bem feito, Eliane logo arrumou mais trabalhos. “Eu trabalhava em uma casa para alguém que me indicava para outra pessoa, que também me indicava para outros trabalhos.”

Família
Com 16 anos, Eliane foi morar com seu namorado. “Conheci meu marido, André, no CTG, aos quinze anos.” Os pais de Eliane opuseram-se à decisão do casal. “Eles nunca aceitaram. Depois eu comecei a pensar por que não tinha ouvido a minha mãe. Às vezes digo para minha filha: ‘Tudo o que mãe fala é verdade.’” Depois de três anos, o casal separou-se. A união resultou num fruto: Daiara.

Mudança
Mãe e filha voltaram para casa. Com a ajuda da mãe, Eliane conseguiu criar a menina sozinha. O pai de Daiara nunca ajudou a família, pois não trabalhava. “Se colocasse ele na justiça e ele não pagasse iria preso. Daí eu resolvi não me incomodar.” Eliane não ficou sozinha por muito tempo. “Quando minha filha tinha cinco anos eu casei de novo.” Há 12 anos o casal vive junto. Eles tiveram um filho, Pedro Henrique, há nove anos.

Cooperativa Bom Fim
Sem lugar para morar, a família vivia em uma casa improvisada nos fundos do terreno da mãe de Eliane. “A gente não tinha dinheiro para comprar um terreno.” A sorte bateu à porta da casa da família. A tia do marido de Eliane avisou que estavam abrindo um loteamento no Bom Fim, em São Leopoldo. “Ele me perguntou o que eu achava e concordamos em comprar um terreno. Demos uma entrada de R$ 150,00 e compramos o terreno. Isso faz sete anos.” Dois meses depois, mudaram-se para a cooperativa Bom Fim, onde construíram uma casa de madeira. “A cooperativa, na época, ainda não era bem estruturada. Não tinha rua, água nem luz. Fizemos uma casinha e fomos morar lá.” A família passou trabalho durante três anos, até a troca do presidente. “Quando o seu Adair Antônio assumiu a presidência da cooperativa, logo tínhamos água, luz, esgoto e ruas. Demos um pulo.”

Participação
Eliane é membro ativo da cooperativa. Participa de tudo, exceto da diretoria. “Participo de tudo que tem, como o curso de artesanato que a Unisinos auxilia, a padaria comunitária que ainda não funciona, mas já estamos fazendo pão e cuca em forno de pedra.” Eliane ressalta a importância de se ajudar em uma cooperativa. “Na cooperativa temos que ser unidos para as coisas andarem. Eu sempre estou junto. Vou a todas as reuniões.” Ela ainda destaca a admiração pelo trabalho do atual presidente. “Eu gosto muito do nosso presidente. Graças a ele, a Deus e a minha força de trabalhar, estamos bem.” Como uma pessoa que luta pelo que quer, ela destaca a importância do trabalho em sua família. “Nós nunca paramos de trabalhar. Meu marido faz calçamento de ruas em uma empresa privada que presta serviços às prefeituras do estado.”

Casa própria
Há três anos, a família adquiriu a casa própria no programa PSH . “É nossa primeira casa boa, de material e três quartos. Nunca tinha morado em uma casa assim. A minha casa era velha, cheia de buracos. Agora eu me sinto rica.” A casa, ainda inacabada, no interior, é o grande sonho de Eliane. “Aos poucos eu termino. Eles davam a casa acabada por fora, mas dentro ainda faltava a cerâmica, o reboco e o forro. Já consegui rebocar e colocar cerâmica.” Eliane dá mais brilho ao que tem relembrando o passado. “Eu não tinha nada, morava de favor com a minha mãe, num barracão. As crianças passavam trabalho e quando chovia tinha goteira. Agora temos quarto e banheiro. Tudo bonitinho. Graças a Deus, temos essa vida boa, com condições muito melhores.”

Dificuldade
Ao chegar à cooperativa, a família ainda teve que passar por algumas dificuldades. Sem água, a comunidade improvisava o encanamento. “Usávamos uma mangueira, era uma briga. Como não tinha cano, ligávamos uma mangueira na rede de água e puxávamos para as casas como se fossem canos.” Ela ri quando lembra das situações que aconteciam. “Se um vizinho queria água mais forte na casa dele, ele cortava a minha. Era só dobrar a mangueira. Quando tu cortava, três ou quatro vizinhos ficavam sem água. Uma vez aconteceu de ficarmos sem água porque uma máquina entrou lá e cortou os fios das mangueiras. Ficamos três dias sem água. Liguei para minha mãe do orelhão e pedi para ela trazer água para fazer comida e tomar banho.” A vila ainda improvisou a luz através de rabichos. Rabicho de luz era a mesma coisa. “Como a luz era dividida, não podíamos ligar o chuveiro, a geladeira, se não queimava. Era uma luz muito fraca e pagávamos caro, R$ 115,00. Eu podia gastar menos, mas outro gastava mais. Além de não termos uma luz boa, pagávamos um dinheirão.” Eliane ressalta a diferença com a situação atual. “Agora temos uma luz decente. No primeiro dia em que ligaram a luz e eu liguei a geladeira nem acreditei.” Ela ainda não acredita que pôde concretizar o seu sonho. “Agora temos tudo. A única coisa que falta ainda é o calçamento, mas sabemos que está vindo por causa do Orçamento Participativo. Já temos para o ano que vem garantido. Não temos muito mais o que pedir. Tudo o queríamos era ter uma vida boa e nós temos.”

Maior alegria
A casa é a alegria de Eliane. O sonho é poder terminar o acabamento. “Eu conseguir forrar a minha casa, terminar os meus banheiros e mais um puxado nos fundos. Eu tenho dois banheiros na minha casa hoje, e um é dentro do meu quarto. Eu tenho fé que vou conseguir.” Com muito trabalho e vontade, Eliane obteve o que queria em sua vida. “Tenho aquela vontade: eu vou fazer. Meu marido é muito trabalhador. Tudo que ele ganha ele coloca dentro de casa. Só que ele não tem tanta vontade de fazer as coisas. Eu é que tenho, a iniciativa parte de mim. Queria que ele também tivesse essa vontade, mas ele concorda sempre com o que eu quero. Eu sempre digo: eu trabalho também com a cabeça. Eu que sei o falta em casa.”

Sonho
Eliane se diz cansada do seu trabalho. “O meu joelho está muito ruim. Na quarta-feira eu limpo uma casa que tem quatorze peças. Eu venho limpando, levantando as coisas e minha patroa coloca as coisas no lugar, se não não dá para terminar. Quando chego em casa e sento, penso que não vou mais poder levantar, de tanta dor que sinto.” O sonho dela é trabalhar com menos dificuldade; talvez ganhar mais.

Política
Sempre envolvida em campanhas distribuindo panfletos e convencendo moradores da vila, Eliane ressalta um problema da política brasileira. “Trabalhamos tanto para eleger eles e quando chega a hora de um serviço melhor, eles não dão para a gente. Eles dão para quem nunca levantou bandeirinha, nunca distribuiu panfleto e até pessoas de outro partido.” O pai de Eliane é contra ela trabalhar em outra campanha. “Quando tu perguntas pra outro político se ele tem uma vaga eles dizem: ‘Vocês só trabalham para a pessoa errada’.”.

Brasil
“Acho que temos um país abençoado.” É assim, com esperança, que Eliane vê o Brasil. “Não penso no pior. Do jeito que está, tá bom, mas acho que dá pra melhorar um pouquinho. Mas temos calma, sabemos que não é rápido. Em São Leopoldo tivemos um prefeito por 25 anos que não conseguiu resolver tudo. Não vai ser o Lula em quatro que resolverá.”

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição