Edição 218 | 07 Mai 2007

“Não é uma questão de desindustrialização, é que a estrutura industrial não evolui da forma como deveria”

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IHU Online

Em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone, o economista José Eduardo Cassiolato disse que o Brasil apresenta um baixo crescimento porque não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento dos outros países. Para mudar esse quadro de crise em que a indústria brasileira se encontra atualmente, ele afirma que serão necessárias, entre outras coisas, medidas estaduais “que estimulem as empresas” para que elas possam “inovar e investir mais”, podendo, assim, competir num nicho de mercado “que não é aquele em que os chineses vão ser nosso principal concorrente”.

José Eduardo Cassiolato é graduado em economia pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em economia pela Universidade de Sussex e pós-doutor pela Université Pierre Mendés France. Atualmente ele é professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor convidado da Université de Rennes I e membro do comitê Científico da Global Research Network on the Economics of Learning, Innovation and Compet.

IHU On-Line - Qual é o futuro da indústria brasileira: sofrer uma reestruturação industrial ou perdurar numa crise de desindustrialização?
José Eduardo Cassiolato –
Há um longo debate na academia: o Brasil passou ou não por uma desindustrialização?. O consensual é que, em primeiro lugar, o peso da indústria manufatureira caiu nos últimos 20 anos, o que quer dizer que hoje em dia ele está em menos de 20%, enquanto na China, por exemplo, a indústria é mais de 40% do PIB chinês. Então, houve, sem dúvida, um processo de mudança no perfil da estrutura produtiva brasileira, onde o peso relativo da indústria manufatureira tem sido menor. O segundo ponto importante é que, dentro da estrutura da indústria brasileira, o peso relativo dos setores (que são aqueles mais dinâmicos no quadro atual do capitalismo, e eu me refiro basicamente à indústria do complexo eletrônico, desde a indústria de computadores, software, telecomunicações, microeletrônica) é muito pequeno se compararmos com países mais avançados e mesmo com países em desenvolvimento, como a Coréia e a própria China. Isso quer dizer que o peso desse setor da indústria, no caso brasileiro, está entre 5% a 8% do PIB da indústria, enquanto nos países dinâmicos ele está acima de 20%. Então, no fundo, a questão que temos é esta: uma estrutura produtiva desbalanceada e com pouca participação dos setores mais dinâmicos. Não é uma questão de desindustrialização. É que a estrutura industrial não evolui da forma como deve evoluir, acompanhando as economias mais dinâmicas no quadro internacional. O futuro dependerá de políticas mais ou menos ativas para reverter essa tendência. Até recentemente eu era muito cético em relação a isso. Com base nos dados das manifestações mais recentes, eu comecei a ser mais esperançoso. Podemos passar por uma reestruturação benigna a partir de políticas voltadas a aumentar o peso relativo na estrutura produtiva brasileira.

IHU On-Line - Alguns especialistas criticam as últimas três décadas da economia política e a falência dos órgãos de inovação no parque produtivo. Podemos dizer que estamos vivendo hoje no País o reflexo dessas décadas de penúria?
José Eduardo Cassiolato –
A crítica que se faz é em relação às três décadas que a nossa economia foi caracterizada pelo uso de uma política econômica de corte neoliberal, que, de certa maneira, nos tem levado a ter um desempenho pífio. Ou seja, as taxas de crescimento são baixíssimas, e o País não foi capaz de incorporar essas novas tecnologias na estrutura produtiva brasileira. Então, essa crítica é pertinente. Não sei se isso se deve à falência dos órgãos de inovação no parque produtivo. Eu não concordo com essa segunda parte. A falência foi dos órgãos de formulação de política econômica, os quais levaram a quase três décadas perdidas do ponto de vista de adaptação ao quadro da globalização, de incorporação de mão-de-obra. No fundo, o nosso parque produtivo não tem sido capaz de inovar. Ele não inova, não porque seja incompetente, e sim porque a política econômica é maligna. De uma certa maneira, vivemos o reflexo das décadas de penúria por conta de uma política econômica absolutamente irresponsável.

IHU On-Line - Com o declínio do emprego industrial, atualmente, muitos jovens estão desempregados, migrando para o exterior em busca de novas alternativas de emprego. Com uma desindustrialização no País, qual será a perspectiva de trabalho para sociedade? É possível imaginar um futuro positivo?
José Eduardo Cassiolato –
De fato, o País tem poucas perspectivas de emprego mais qualificado. O desemprego aumentou bastante, e muitas pessoas saem do País em busca de empregos e melhor remuneração, desde o engenheiro de software, formado aqui, até o trabalhador braçal, que vai para os Estados Unidos atuar num trabalho ruim, mas melhor remunerado. Enquanto continuarmos com esse padrão de política econômica maligno, não haverá muito futuro. Precisamos reverter isso com políticas mais ativas e conseguir voltar a trilhar caminhos de crescimento e dar importância à produção nacional, sem entrar nessa globalização “de peito aberto”, ou seja, sem abrir tudo para os chineses virem aqui e desestruturarem nossa produção como aconteceu no Sul, no Vale dos Sinos, com o setor calçadista. Ou mudamos a política, ou a perspectiva será muito ruim. Mas ainda há alguma luz no fim do túnel, com algumas coisas mais recentes, que, em princípio, apontam para uma reversão desse quadro. Quer dizer, o PAC é positivo, mas espero que saia do papel e se transforme em realidade para poder gerar emprego. Então é possível imaginar um futuro positivo. Existe uma estrutura complexa, com várias áreas de competitividade. Somos um dos poucos países que produz avião a jato. Também possuímos competitividade na agroindústria, com excelente desempenho exportador, mas o resto precisa sofrer uma alteração muito grande.

IHU On-Line - Alguns especialistas afirmam que para o Brasil voltar a ter um crescimento acelerado de sua economia será necessária uma reindustrialização. Isso é possível ou será possível nos próximos anos? Como seria essa reindustrialização? Quais seriam os benefícios para a economia brasileira caso haja uma reindustrialização?
José Eduardo Cassiolato –
Entendo a reindustrialização como voltar a pensar a indústria produzindo dentro do País, o que seria uma atividade econômica importante. Passamos este tempo todo achando que poderíamos só importar e deixamos a indústria se virar. Aumentaria a geração de emprego e de renda dentro do País. Há alguns casos em que isso aconteceu e melhorou. Durante o governo Fernando Henrique, a produção da indústria naval no Brasil foi totalmente desestruturada. Os estaleiros brasileiros praticamente foram desativados, e começamos a importar. Agora isso está sendo produzido aqui dentro, o que gerou mais de 10 mil empregos diretos e outros indiretos, só na atividade da indústria naval. Se voltar a atividade produtiva interna, haverá geração de empregos de qualidade e conseguiremos gerar renda, que é do que tanto precisamos para sair desse atoleiro.

IHU On-Line - Se a produção industrial continuar a cair, o País terá condições de crescer e alavancar a economia, atuando em outros setores, como o de serviços, por exemplo?
José Eduardo Cassiolato –
O setor de serviços é muito importante. Dois terços dos empregos formais são da atividade de serviços. São muito importantes, especialmente os serviços voltados à produção, à consultoria, ao marketing, ao design e os serviços de maior valor agregado. Entretanto, a nossa sociedade não considera importantes outros serviços que não sejam os bens físicos, ou seja, não considera importante o setor de serviços. Se não nos preocuparmos com a produção manufatureira, industrial, só com serviços, não vamos conseguir muita coisa. Aliás, é o que temos tentado fazer nos últimos 15 anos: fazer crescer a indústria. Nós não vamos conseguir alavancar a economia só na base de serviços, e, eu adicionaria também, só na base de bens agrícolas. 

IHU On-Line - O processo de desindustrialização pode ocorrer apenas em alguns estados, sem afetar o restante das regiões? Se sim, os estados podem tomar iniciativas para não serem afetados?
José Eduardo Cassiolato –
Eu seria um pouco mais radical. O processo de desindustrialização sempre ocorre em um determinado local. Num país complexo como o Brasil, quando existe uma desindustrialização de calçados na área de exportação feminina, ela acontecerá no Vale dos Sinos, e não nos calçados masculinos em Franca, por exemplo. As políticas estaduais são importantes para isso. Acho que é necessária uma combinação de medidas nacionais com medidas locais. Em alguns locais, isso já tem acontecido. No caso do setor calçadista, que depende muito de taxa de câmbio e de tarifa para impedir que os chineses invadam o mercado brasileiro, esse tipo de medida de política de mexer no câmbio é federal. Mas existe uma série de medidas que podem ser objeto de uma ação estadual. Medidas que estimulem, por exemplo, as indústrias calçadistas, ao invés de ficar sempre concentradas em estratégias de concorrer com os chineses no plano internacional, de vender calçado sem marca, sem design a US$ 10 o par, pudessem inovar mais e investir em mais design, marcas e vender calçados com outro nicho de mercado, colocando o par a US$ 50, US$ 100. Assim, é possível gerar um produto de maior qualidade, que gera emprego melhor e que concorre num nível de mercado que não é aquele em que os chineses vão ser o nosso principal concorrente.

IHU On-Line – Qual é a importância do Brics para compreender questões importantes como inovação e inovatividade? Por que estudar essas economias?
José Eduardo Cassiolato –
Nós queremos de fato compreender melhor como a questão da inovação está sendo tratada e introduzida nessas economias. Infelizmente, nós somos um pouco colonizados e ficamos tentando olhar apenas o que acontece nos Estados Unidos e na Europa, mas temos que olhar para aqueles países que têm problemas idênticos aos nossos: problemas de emprego, de divisão de renda, de diversidade étnica, cultura, política. É bastante importante observar como eles estão se movendo do ponto de vista estratégico para internalizar a inovação. É essencial perceber por que os chineses estão sendo melhores do que nós em calçados. O espírito do projeto Brics é discutir se eles estão de fato sendo melhores do que nós. A escolha dos países é muito simples: são grandes países, todos eles de dimensão continental, com uma população enorme em desenvolvimento e que apresentam especificidades com relação à forma como se gera tecnologia e se introduz tecnologia na estrutura produtiva, que são muito peculiares e são muito diferentes dos países mais avançados. Então a idéia é justamente compreender isto: por que o Brics? Porque todos esses países são grandes e têm problemas regionais monstruosos, com diferenças de captação de renda espacial enorme. Todos têm elites com alto poder aquisitivo e outras camadas mais pobres com quase nenhuma renda. Além disso, eles têm problemas semelhantes e estão precisando dar conta dessas transformações imensas, principalmente aquelas ligadas às introduções das tecnologias eletrônicas.

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